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August 03, 2008

Os mais iguais

Os jornais revelam dias parmenídicos. Melhor ler algo atemporal, como "A Revolução dos Bichos", de George Orwell.

"Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas. em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa. Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS

MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS
IGUAIS DO QUE OS OUTROS
Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas."

Para ler o livro inteiro, aqui.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (7) |



July 17, 2008

Enquanto isso...

Lula e Protógenes, FHC e Dantas, Greenhalg e Gilberto Carvalho, PF e Abin, Gilmar e De Sanctis, MI-6 e Congresso, Reinaldo e LN... Tudo isso você acompanha querendo ou não. Mas o mundo não parou, melhor dar uma olhada.

Folha de S.Paulo:

"A operadora de telefonia Oi anunciou ontem que obteve empréstimo de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil para financiar a compra da Brasil Telecom. O negócio, anunciado em abril, ainda depende de mudanças na lei para ser efetivado.

... Desse total, R$ 5,8 bilhões serão pagos pelo controle da BrT. Outros R$ 3,5 bilhões farão parte da oferta pública obrigatória para aquisição de ações ordinárias dos minoritários -o chamado 'tag along'. Mais R$ 3 bilhões serão gastos na oferta voluntária para a compra de ações preferenciais da BrT.

... Em nota, a Oi afirmou que comprará a BrT com recursos próprios e que o empréstimo do Banco do Brasil 'constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos' que, em seguida, contará com 'emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú'.

... É o segundo financiamento de um banco público obtido pela Oi para a operação de compra da BrT, operação apoiada pelo governo federal sob o argumento de que o país precisaria de uma grande empresa no setor para concorrer com gigantes multinacionais como a espanhola Telefónica e a mexicana Claro. O BNDES já havia anunciado crédito de R$ 2,5 bilhões, com o objetivo específico de promover a reestruturação acionária da Oi -condição necessária para a compra da BrT." (Roberto Machado)

Na mesma Folha:

"Sergio Ramírez é um notável escritor nicaragüense, que se tornou revolucionário, lutou com a Frente Sandinista de Libertação Nacional contra a nefanda ditadura Somoza, elegeu-se vice-presidente e, afinal, rompeu com os companheiros, horrorizado com o nível de corrupção a que se dedicaram uma vez instalados no poder.

No auge do escândalo do mensalão, ele me disse uma frase que não me sai da cabeça: 'Se eu fosse presidente, antes da posse chamaria todos os parentes e amigos e lhes diria que, durante o meu governo, não poderiam fazer negócios. Nem negócios legais'." (Clóvis Rossi)

Seguido de:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei que cria o piso salarial dos professores da educação básica (ensino infantil a médio). A partir de 2010, os professores da rede pública terão que receber, no mínimo, R$ 950." (Angela Pinho)

Por fim:

"NEM TODO MUNDO tem senso de humor. É como inteligência natural. Nem todo mundo é esperto. De fato, algumas pessoas são naturalmente obtusas.

Não significa que elas sejam de alguma maneira inferiores ou menos charmosas, bonitas, fortes ou bem sucedidas. Mas o fato é que os seres humanos têm diferentes talentos e diferentes capacidades. Essa é uma descoberta da vida, especialmente para os professores. Eu sei que mães relutam em aceitar esse fato com relação aos seus filhos, mas ainda assim é verdade." (Kenneth Maxwell)

Postado por Janaína Leite às | Comentar (5) |



July 16, 2008

Nunca

Desculpem o sumiço. Ontem, minha filha chegou de viagem depois de duas semanas. Como toda huna, ela adora seriadinhos de TV, especialmente aqueles do tipo Law & Order, CSI etc. Confesso que também gosto (menos do CSI Miami, onde os cadáveres e os investigadores partilham das mesmas cores anos 80).

Tem uma coisa, porém que sempre me encafifa: por que as pessoas que morrem nunca deixam dicas mais óbvias para o pessoal que terá de procurar sua causa mortis?

Eu, por exemplo, teria uns dez itens de coisas escritas n’algum canto, tipo a lista do NUNCA. Mais ou menos assim:

1) Nunca me mataria. Tenho uma filha linda, que já deu sentido a ela. Portanto, estou por aqui fazendo hora. Mas jamais, nunca mesmo, faria sofrer as pessoas à minha volta.
2) Se me encontrassem asfixiada nunca seria por gostar de sexo com travesseiro na cara. Marcas de tortura de qualquer gênero deveriam ser encaradas como isso mesmo: tortura. Eu nunca apanharia por vontade própria.
3) Eu não uso drogas. Nunca morreria de overdose. Se acontecesse, teria sido induzida ou forçada.
4) Não ando em quebradas. Se encontrassem meu corpo muito distante do perímetro onde moro, pode saber: alguém fez aquilo.
5) Não tenho dinheiro, nem carro. Morrer num tiroteio no ponto de ônibus até que é provável, bem como ser atropelada etc. Mas é outro risco que não corro, pois minha disposição é mínima. No momento, nunca morreria disso também.
6) Adoro pedir comida pelo telefone. Mas estou na casa da minha mãe e ela não deixa. Veneno, então, nunca seria algo natural. E, como aos 35 o corpo ainda não precisa se preocupar com doenças crônicas do coração, o médico deveria pensar nessa hipótese se dissessem que foi um ataque cardíaco.
7) Afogamento é algo impossível de acontecer num apartamento com o banheiro tão apertado. Nunca seria plausível.
8) Brigas passionais também estão descartadas. Nunca. Moro com minha mãe e minha filha _ as duas pessoas mais importantes da minha vida. Posso ficar brava de vez em quando, ser linha dura e tal, mas nenhum mal seria feito por mim para elas e vice-versa.
9) Há a zarabatana de curare, mas meus vizinhos de Pinheiros nunca teriam o hábito de usá-las. Se bem que, depois de tanto CSI, me sinto pouco inclinada a abrir a janela.
10) Sobra o incêndio, esse sim, plausível. Afinal, quem brinca com o fogo sai queimado, não? Mas eu não começaria. Eu nunca começo.

E agora, leitor, você já sabe disso. Tomei muito do seu tempo, vou ali liberar os comentários e depois terminar meu frila. Ontem, a página estava dando problemas. Espero que hoje esteja tudo ok.

Beijos,
Jana

Postado por Janaína Leite às | Comentar (30) |



July 15, 2008

Virei melô do Claudinho e Buchecha

E lá vem o Nassif descendo a ladeira com a tamanca na mão. Justo. Eu reproduzi a coluna na qual Mainardi ouviu de Otavio Frias Filho que ele é achacador, hora do revide.

O que está no relatório da PF:

PF Janaina 01.jpg

Pois bem. Aí vem Nassif e diz que eu era "informante" de Daniel Dantas. Bom, deixa eu ver se entendi: a super espiã aqui falava para o Dantas sobre notícias publicadas na internet sobre... Daniel Dantas. Claro, é o raciocínio lógico mais perfeito que existe. Supor que eu pudesse ter lido a notícia do Ucho e ligado para perguntar o que era aquilo é inimaginável. Que coisa.

Outra da PF é o diálogo mantido entre Janaína (sim, é óbvio que sou eu) com Daniel Dantas. Olhe como Nassif publicou o diálogo:


PF Janaina 02.jpg


Olhe como é o diálogo na íntegra:

160_161_manus.jpg

Pois bem. Eu tinha uma tese sobre a BrOi, a de que o modelo da operação levaria alguns sócios a ficarem com uma participação pequena, mas controladora. Para financiar esse controle eles teriam de endividar a operadora, a exemplo do que ocorreu com a gestão de Tronchetti Provera na Itália. Isso é errado? Eu deveria escrever sem checar? Não sei os motivos pelos quais a PF sabia que aí eu era Janaína e nas outras conversas não, uma vez que ela identificou o telefone no nome da minha mãe (sim, meus amigos, minha mãe apareceu no relatório).

Continuo. Outro trecho do relatório, página 157 (numeração manuscrita). Lá aparece um diálogo datado de 18/02/2008 entre Daniel Dantas e MNI. Fiquei pensando no que que isso quer dizer? Mulher Não Identificada? Vou ficar com Moça Não Identificada, é mais bonitinho. Se bem que, a partir de agora, você saberá que a MNI sou eu.

O resumo do diálogo analisado pelo agente da PF está aqui e aqui eu o explico frase a frase. Mas primeiro contextualizo. Um dia antes, 17 de fevereiro, houve o primeiro ataque a mim por parte de Luís Nassif, na palhaçada do tal "Dossiê Veja". Eu dei minha resposta.

(Colocaria link para o Nassif, se ele não tivesse limpado seu histórico.)

No dia seguinte, DD me ligou. Estava preocupado comigo, pois sabia serem injustas as acusações de que eu tinha usado meu cargo de repórter na Folha de S.Paulo para favorecê-lo. Seu conselho, como alguém mais experiente e que entendia dessa história, era que eu ignorasse os ataques de Nassif, pois havia algo estranho na motivação daquele dossiê, algo que ele não sabia dizer o que era, mas que não parecia bom, uma vez que estavam mirando em alguém como eu. E ponderou que ele próprio, DD, considerava a hipótese de que o dossiê estivesse ligado a interesses comerciais e, portanto, era uma briga que não valia a pena. Outro argumento usado por ele era o de que Diogo Mainardi, da Veja, tinha apoio institucional para entrar numa batalha desse porte, poderia pagar advogados. Eu, que tinha pedido demissão da Folha, não. Dantas me alertou ainda que seus inimigos fariam qualquer coisa caso se sentissem acuados e que ele já tinha sofrido muito pois seus adversários tinham a simpatia do Estado, ao contrário dele. Disse ainda que a guerra tinha ficado tão terrível que mesmo alguns de seus inimigos, os quais não tinham limites, não sabiam exatamente contra o que brigavam. O assunto já estaria nas mãos dos procuradores (Mainardi havia informado na coluna que mandara os papéis).

Eu disse a DD o seguinte: que não tinha o menor interesse de ficar brigando com alguém mais conhecido que eu. Por mim tudo tinha acabado, apenas respondi os ataques injustos que recebi (num tom bem educado até, como você pode ver aqui). Mas deixei claro que eu não tinha o que temer, pois nunca vendi matéria nenhuma, nem inventei nada, e portanto iria responder quantas vezes viessem para cima de mim. E, se não me engano, falei algo na linha de que o assunto das teles estava pegando fogo (por conta da criação da BrOi), ao que ele respondeu que eu deveria parar de insistir com o assunto da Telecom Itália (alvo das críticas de Nassif), mas que isso não implicava parar de escrever, eu podia falar sobre os assuntos que quisesse, Telemar, o que fosse.

Ora, eu sabia disso. Tanto que já vinha escrevendo contra a operação e continuei a fazê-lo.

Fiquei me perguntando os motivos pelos quais a PF teria se interessado por essa conversa. Simples, leitor. Naquele mesmo dia, eu escrevi à noite que o tempo esclarecia mais que os esforços, como havia me dito alguém de quem gosto muito, e que eu acataria o conselho. Sacou?

Sinceramente, quantas pessoas me falaram que eu não deveria brigar com Luís Nassif? TODAS. TODAS. Inclusive minha mãe, que hoje eu vejo estampada num relatório policial. Perdão, querida. A culpa é minha. Eu deveria ter ouvido você. E Dantas também.

Continuando o melô do Claudinho e Buchecha da PF ("quero te encontrar!"), outra parte onde a mamãe, coitadinha, aparece no relatório:

janaina3.jpg

Olhe nos meus arquivos (é, para o bem ou para o mal eu não apaguei nenhum dos meus textos). No dia 10 de abril, depois de a mulher de Nassif ter lançado dúvidas sobre mim, eu havia escrito um post desafiando Nassif a abrir seus clientes, contas, tudo, com direito ao acompanhamento de auditores e jornalistas. Está aqui, basta você conferir.

Recebi e retornei vários telefonemas aquele dia. Pelo jeito um deles foi para Daniel Dantas, com quem tive o diálogo acima: tudo isso era uma palhaçada - quantas vezes vou ter de repetir? -, e que ele mais do que ninguém sabia disso. Pois bem.

Mas agora eu entendi o segundo recado do que está aí: insinuam que minha mãe é minha laranja. Pois bem. Então aí vai o segundo desafio: VAMOS ABRIR A CONTA DA MINHA MÃE TAMBÉM? Inclusive os investimentos? Podem procurar bens em nome de toda a minha família e detodos os meus amigos. Nada encontrarão. Eu não tenho nada, nem eles, coitados.

Só tem uma coisa, PF. Eu quero ver a da família do Nassif. Ah, e pedir um favorzinho também. Será que vocês poderiam vazar a ligação em que Rodrigo Andrade me conta que avisou Nassif que não tinha dito coisíssima nenhuma para o juiz que eu era informante dele e que Nassif não tinha publicado? Nessa ligação, eu peço para Andrade me mandar o print screen. Veja você mesmo, clique aqui.

Afinal, a PF é para todo mundo. Não é?

Postado por Janaína Leite às | Comentar (27) |



Relatório da PF - Operação Satiagraha

Eis não ter sido preciso muito. A íntegra do relatório da Polícia Federal, escrita no âmbito da Operação Satiagraha, foi divulgada no site Consultor Jurídico por Claudio Tognolli, clique aqui.

A parte que fala sobre a mídia está aqui.

Vou ler tudo o que está ali e converso com você depois. A princípio, numa leitura rápida, vi que há pelo menos um diálogo meu ali reproduzido. Quem achar outras citações, por favor, avise-me.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (10) |



July 14, 2008

A letra escarlate

Desde que estourou o escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, na semana passada, recebi alguns comentários escritos por pessoas dignas de uma educação da realeza. Coisas bonitas, na linha de “sua carreira acabou” e “encontro você no inferno”.

Isso mexe comigo, claro. E muito. Esta noite, por exemplo, sonhei que estava na Inglaterra de 1637 e havia sido condenada ao pelourinho por falar contra o governo e publicar, sem permissão, material dissidente. De repente, no meio do sonho, a acusação mudava: por conta de fazer mapa astral e de ler o tarô, vinham com dedo em riste acusando-me de posar de oráculo e de fazer previsões em benefício próprio. A expiação passava pela fogueira. A acusação era que, travestida de parteira, apelava para artes da bruxaria e sedução para dominar as pessoas. Por fim, o cenário mudava e eu era do serviço secreto. Como falava com certa facilidade com pessoas importantes, em qualquer horário e sobre qualquer assunto, até aconselhando se fosse o caso, minha sentença era a cadeira elétrica.

O problema é que, quando acordei, vi que não era sonho. Realmente fui colocada em um pelourinho eletrônico depois de escrever reportagens que feriram os interesses do governo. Eu realmente faço o mapa astral de todo mundo que me dá na telha, até de atores de Hollywood. A quantidade de gente, inclusive fontes, que fiz perguntar o horário de nascimento para a mãe é incomensurável. E eu realmente nunca fui uma pessoa formal _ brinco, aconselho, fofoco e dano a filosofar com qualquer um que tenha a bondade de falar comigo e de me tratar com atenção.

Esse jeito despachado já garantiu (e certamente continuará garantindo) umas boas vergonhas, mas também garante que eu tenha a capacidade de me colocar no lugar do outro e atue de forma desarmada. Também trouxe amigos maravilhosos, a quem eu decepciono com mais freqüência do que gostaria, embora se divirtam com meu jeito tresloucado, e boas propostas de emprego, algumas das quais recusei por achar que eram incompatíveis com a minha liberdade. Outras eu aceitei, como aquela da consultoria, feita por um estrangeiro com quem acabei namorando e de quem hoje sou amiga.

Certamente há quem critique o meu jeito, especialmente aqueles que têm a pretensão de ser a palmatória do mundo. Mas uma coisa eles devem admitir: não sou venal e minha paciência com joguinhos às escuras é mínima. (O céu explica, meu ascendente é Áries.)

Sendo assim, leitor, aqui vai o que você realmente precisa saber: a aparição dos jornalistas nessa história de Daniel Dantas não é gratuita. O fato de alguns nomes de jornalistas antes acusados, como o meu, terem sumido subitamente da listagem também não. Há um jogo pesado de recados nos bastidores (não só entre as partes aparentes, governo e Opportunity) e você, desavisado, acha que isso é notícia.

Minha dúvida é se a polícia está envolvida propositalmente no leva-e-traz ou se está sendo usada. Se grampos vazarem de forma descontextualizada e truncada por aí, saberemos.

No mais, chegou a hora de eu dizer o que acho da história toda ocorrida na semana passada. Daniel Dantas não deveria ter sido libertado pela segunda vez por Gilmar Mendes, pois a atitude do ministro realmente foi uma afronta ao Judiciário. O fato de a Globo cobrir a prisão do banqueiro não foi “espetaculosidade” coisíssima nenhuma, foi um furaço. E, principalmente, Dantas não tinha nada que dar sinal verde para seus emissários conversarem com delegados fora da delegacia, nem se valer de gente como Luiz Eduardo Greenhalg e Roberto Teixeira, credo.

(Dizem que Dantas é o maior corruptor do Brasil. Acho que é o pior, isso sim, porque sempre descobrem o que ele faz. Os maiores, e melhores, estão agindo com foto em coluna social.)

Por outro lado, que mal tem o advogado perguntar para a repórter que noticiou a história onde está o processo? Eu teria tido essa mesma idéia, é mais inteligente do que mandar um batalhão de pessoas para vagar nos tribunais do país inteiro. E que mal tem a repórter, questionada sobre seu trabalho, informar o número do processo? Por acaso vivemos em uma ditadura, onde as pessoas não podem constituir advogados para defender seus interesses?

Por fim, essa história de israelense espião e do Opportunity Fund rola há anos, desde que explodiu o caso Kroll. Por que, raios, representantes do fundo não chamam uma coletiva para explicar isso direito? Contem a história tintim por tintim. Mas não. Ficam aí tentando essas técnicas subreptícias, como levar delegado pra comer picanha. Dá no que dá. Jogam nas sombras igualzinho aos adversários.

A BrOi é um escândalo e todo mundo sabe disso. Mas ela significa apascentar o cumprimento da promessa de campanha e, na minha opinião, o primeiro passo para que a Portugal Telecom aumente sua relevância como player. Quem ganha com ela? E quem perde com ela? E com toda a história da prisão de Dantas, quem ganha e quem perde?

O que há no processo de Nova York contra o governo? E quem mais aparece nos autos? O que há no processo da Itália contra o governo? E quem mais está nos papéis de Milão? O acordo da BrOi está sendo fechado às pressas para impedir que esses documentos, os americanos e os de Milão, vazem por aqui?

O que há no relatório da Polícia Federal, fato específico e não genérico, no uso de empresas de prateleira apontadas no relatório? Quanto foi que o Opportunity perdeu com essa história e para onde foi o dinheiro? Há gente ligando para os investidores do banco e provocando fuga de recursos?

E, principalmente, o bilhete encontrado na casa de Dantas com o timbre do Waldorf Astoria era um lembrete de que há documentos em Nova York relativos a um encontro do presidente da República com representantes do Citigroup naquele hotel, em 23 de junho de 2004, fato noticiado por mim e Leila Suwwan na Folha de S.Paulo em 12 de maio de 2005, numa reportagem que jornalistas submissos ao governo tentam de todo o modo desacreditar?

Enfim, há pano para a manga. Polícia Federal, Ministério Público e Justiça deveriam olhar para esse tipo de coisa e não ficarem servindo de fontes para garotos de recado de chantagistas.

Pronto, amigos. Podem me mandar para o pelourinho, para a fogueira, para a cadeira elétrica. Revelem minhas conversas, distorçam o contexto, plantem provas, costurem a letra escarlate no meu peito. A minha carreira, como vocês bem observaram, acabou. Vocês só não contavam que meus valores são diferentes dos seus. A gente se encontra no inferno.

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July 12, 2008

MAINARDI: Tenho como provar o que falei sobre Nassif

Eis que informações sobre o tal relatório da Polícia Federal que cita jornalistas começou a rolar na internet. Luis Nassif publicou que Diogo Mainardi, colunista da Veja, está entre eles.

Nesta manhã, a Veja que chegou às bancas trouxe a informação, assinada por Mainardi, de que Nassif teria sido desligado da Folha de S.Paulo após suspeitas de ter usado seu espaço naquele jornal para obter patrocínios de eventos organizados por sua empresa _ aquela mesma cuja dívida obteve perdão parcial do BNDES, mesmo sem garantias firmes.

Ora, eu não confio em Nassif e não gosto nem um pouco dele. Há alguns meses, o jornalista de serviços saiu por ai lançando dúvidas sobre minha lisura profissional. Tomou minhas medidas pelo seu metro, o que, claro, só poderia resultar nas baboseiras que falou.

Às claras o que está acima, informo que mandei um e-mail para Diogo Mainardi com duas perguntas. Eis as respostas:

JANAÍNA: Você pode provar o que disse sobre Luís Nassif? Como?
DIOGO: Como eu disse na coluna, Otavio Frias Filho, nesta semana, confirmou a história. E, claro, me autorizou a publicá-la.
JANAÍNA: O que tem a dizer sobre o relatório da PF, onde seu nome aparece?
DIOGO: Uma patetice. Uma fanfarronice. E um tiro no pé. O delegado listou um monte de jornalistas, gente de primeiro time, acima de qualquer suspeita. Nos últimos anos, amolei um bocado os inspiradores desse inquérito: Gushiken, Demarco, Lacerda e seus blogueiros achacadores. Vários deles me processaram e se deram mal. Agora estão tentando me condenar de outra maneira, mas vão quebrar a cara mais uma vez. O juiz De Sanctis nem levou em consideração essa palhaçada.

Eu não vi o relatório, só rumores. Se os nomes que ouvi forem confirmados, lamentarei pela polícia, pois são profissionais da imprensa de primeira, que nada têm a ver com o pato.

Se você quer ler uma análise realmente interessante sobre o embate entre Luís Nassif e Diogo Mainardi, vá ao site de quem entende do riscado: Gravataí Merengue , meu amigo querido, por quem sinto enorme respeito e gratidão, deu show no Imprensa Marrom.

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MAINARDI: Suspeita de achaque levou Nassif a sair da Folha

Eis a coluna que Diogo Mainardi, da Veja, escreveu para a última edição da revista:

"Eu sou lobista de Daniel Dantas. É o que diz o blogueiro Luis Nassif. Como foi que eu ajudei Daniel Dantas? Acusando-o de ter financiado Lula. E também acusando Naji Nahas de ter financiado Lula. O fato de eu ter publicado uma série de documentos judiciais sobre Naji Nahas e a Telecom Italia me incrimina, segundo Luis Nassif. Entende-se: em meu lugar, ele teria picotado e obedientemente engolido esses documentos, que denunciam as ilegalidades cometidas pela empresa e pelo governo. Quem patrocina o site de Luis Nassif? A Telecom Italia. Quem impediu que ele falisse e perdesse até as cuecas? O BNDES.

Eu já ridicularizei Luis Nassif três anos atrás, demonstrando que ele reproduziu integralmente em sua coluna a nota de um lobista ligado a Luiz Gushiken. Ele foi demitido da Folha de S.Paulo pouco tempo depois, por causa de um fato ainda mais nauseabundo: a suspeita de ter usado seus artigos no jornal para achacar o governo de Geraldo Alckmin. Em 2004, Luis Nassif convidou o secretário Saulo de Castro para um fórum de debates organizado por sua empresa, Dinheiro Vivo. O detalhe sórdido era o seguinte: para o secretário poder participar do evento, o governo paulista teria de desembolsar 50.000 reais. Saulo de Castro negou o pedido.

Em 2005, Luis Nassif voltou à carga, cobrando uma tarifa ligeiramente mais modesta, de 35.000 reais. A assessora de Saulo de Castro mandou um e-mail para o chefe com este comentário: "Não é à toa que a empresa se chama Dinheiro Vivo". Saulo de Castro negou o pedido mais uma vez. Luis Nassif decidiu retaliar. Em sua coluna, passou a atacar sistematicamente o governo Alckmin, em particular o secretário Saulo de Castro. Quando o diretor da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, foi informado das suspeitas em torno de Luis Nassif, demitiu-o imediatamente. Nesta semana, falei sobre o episódio com Otavio Frias Filho. Ele confirmou.

Com a carreira no jornalismo arruinada, Luis Nassif refugiou-se na internet, onde seu passado era desconhecido, como o de Mengele em Bertioga. O bando de Luiz Gushiken arranjou-lhe uma sinecura no iG. Enquanto fazia um blog para meia dúzia de leitores, ele era obrigado a escapar de seus credores no BNDES, que queriam penhorar seus carros e apartamentos para tentar recuperar uma parte do rombo de 4 milhões de reais da Dinheiro Vivo. No fim de 2007, depois de um misterioso encontro com a diretoria do BNDES, ele conseguiu fechar um acordo judicial altamente lesivo para o banco, que lhe garantiu os seguintes mimos: o abatimento de 1 milhão de reais de sua dívida, o prazo de dez anos para saldá-la, a retirada de todas as garantias para o pagamento do empréstimo e a dispensa de uma multa de 300.000 reais. Algumas semanas depois, ele retribuiu a generosidade estatal usando o único método que conhece: uma campanha de mentiras descaradas contra mim e contra VEJA, tidos como inimigos do governo.

Luis Nassif é um banana. Ninguém dá bola para ele. Por isso mesmo, minha idéia era persegui-lo apenas judicialmente. De fato, estou processando o iG. Tenho uma tonelada de mensagens, documentos e testemunhas que desmoralizam toda a imundície publicada em seu blog. Mas suas calúnias ganharam outro peso depois que Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos. Claramente, o pessoal que o emprega está preocupado com o rumo que esse inquérito pode tomar. Há um empenho para impedir que os dois sejam associados a Lula, como eu sempre fiz. Quando Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos, eu comemorei. Luis Nassif deve ter pensado em todos os documentos que terá de picotar e engolir. E em todos os patrocinadores que poderá ganhar."

Só não concordo com a parte que diz "ninguém dá bola para ele". Infelizmente, há pessoas que ficam cegas pela ideologia ou aquelas que não imaginam o que se passa realmente nos bastidores da notícia. É por respeito aos últimos que reproduzo a coluna, pois Mainardi não precisa ser incensado. Tem méritos próprios e no episódio lamentável do "dossiê Veja", que envolveu meu nome e criou uma série de constrangimentos para minha vida profissional, Mainardi tem a verdade a seu lado.

Por isso mesmo, a retaliação em forma de fatos distorcidos e ataques aleatórios chegará logo. Mais uma vez, será desmentida. É guerra, leitor. Você vai se divertir. Eu, nem tanto. Preferia continuar dedicando atenção a "Kafka à Beira-Mar". Pensando bem, todavia, eu o farei _ de um jeito ou de outro.

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July 11, 2008

Um breve diálogo

- Qualquer pessoa de bem quer ver Daniel Dantas preso, pois é o maior corruptor brasileiro.
- Qualquer pessoa de bem vê que o Estado é policialesco, que há interesse comercial e perseguição política na prisão de Daniel Dantas .

- Qualquer pessoa de bem está do lado da PF.
- Qualquer pessoa de bem está do lado do STF.

- Qualquer pessoa de bem vê que há jornalistas agindo para favorecer Dantas.
- Qualquer pessoa de bem vê que há jornalistas atuando para favorecer o governo.

- Qualquer pessoa de bem percebe que Lula frita Dantas.
- Qualquer pessoa de bem observa que Dantas frita Lula.

- Qualquer pessoa de bem apóia os grampos.
- Qualquer pessoa de bem condena os grampos.

- Qualquer pessoa de bem considera que é tudo a mesma coisa.
- Qualquer pessoa de bem considera que é tudo muito singular.

- Qualquer pessoa de bem aposta que dançará todo mundo.
- Qualquer pessoa de bem crê que tudo continuará como dantes.

- EI, PSIU! Alguém aí viu os autos?

- ...
- ...

- Ok, então eu vou ouvir música.

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July 10, 2008

Os jornalistas e os leões

Cesar Tralli no JN:

"Em outra folha manuscrita apreendida na residência de Daniel Valente Dantas, com timbre do Hotel The Waldorf Astoria, pode-se ler a anotação: 'Usar o assunto da polícia p/produzir notícia e influenciar na Justiça (fls. 05/06), concluindo a autoridade policial seu raciocínio no sentido de que estaria confirmada "a produção de factóides pela quadrilha com vistas a manipular a imprensa, a fim de gerar notícias favoráveis à organização criminosa, tudo para abastecer com argumentos as inumeráveis manobras jurídicas de seus advogados', mormente porque no curso da investigação havia sido comprovado que o investigado manteve pessoalmente e por meio de outras pessoas de sua organização contatos com vários jornalistas, ocasiões nas quais são discutidos o teor das matérias a serem publicadas na imprensa' (fl. 06)."

Reinaldo Azevedo confirmou que há inquéritos contra jornalistas. Muito bem. Se os policiais acharam indícios de venda de reportagens mentirosas, feitas de má fé e com o único objetivo de atrapalhar a Justiça, devem mesmo entender melhor o assunto, principalmente como é que o veículo concorda em publicar a reportagem enviesada. É dever deles investigar, chamar para testemunhar, esclarecer, recomendar o processo se for o caso. O jornalista que for chamado vai e explica o que lhe for perguntado. É chato? É. Mas é o preço de viver em sociedade.

Se a investigação for séria, os policiais terão cuidado para não macular o nome de ninguém e de separar o trigo do joio _ se o joio existir.

Isso, claro, é muito diferente de execrar publicamente jornalistas que tenham divulgado documentos verdadeiros que prejudiquem os interesses dos inimigos do banqueiro e/ou do governo, ou aqueles que mantinham contato regular com assessores e o próprio Dantas.

Duvido, porém, que o time que está no comando das investigações ou a Justiça tenham interesse nisso. Por que o fariam? Para beneficiar os inimigos do banqueiro? Para ganhar holofotes que permitissem seu fortalecimento na briga interna da PF? Para abafar o inquérito da Itália? Até aqui não vi indício de que é essa a força que move esse pessoal. Espero estar certa.

Claro que há uma torcida organizada (alguns por ideologia, outros por interesse, outros ainda por gostar de ver o circo pegar fogo) para que a policia vaze grampos, imagens etc. Ela fará isso? A conferir.

Por fim, acho estranho que Daniel Dantas, apontado como o cérebro de uma organização criminosa tão potente que consegue os juros do FED com antecedência, tenha guardado um bilhete limítrofe desses, bem como uma planilha de contribuição de campanhas em sua própria casa. Ainda mais sabendo que seria preso a qualquer momento, como acusa a própria polícia! Mas essa é outra história e, a exemplo do que ocorre no caso dos jornalistas, teremos de esperar.

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Daniel e os leões

A discussão em torno do comportamento da Polícia Federal no caso da prisão de Daniel Dantas ofusca outra, muito mais importante: quais são, no detalhe, os crimes detectados pela PF e pelo Ministério Público Federal? “Lavagem de dinheiro, formação de quadrilha etc.”, responde você. “US$ 2 bilhões entre 1992 e 2004 foram movimentados de forma ilegal.”

OK, leitor, mas quais são as empresas envolvidas? Qual o caminho do dinheiro? Quando ocorreu a lavagem? É o mesmo tipo de operação detectado no âmbito do mensalão? Nesse caso, o dinheiro foi recebido por quem? Repassado para qual conta? Voltou ao Brasil por qual caminho? E Dantas pagou para receber qual benefício?

Por que os advogados dos acusados não podiam sequer saber o motivo pelo qual estavam sendo investigados? Isso é normal? Cerceia o direito de defesa? Onde os supostos crimes praticados por Dantas convergiam com os de Nahas? Quem são os supostos brasileiros arrolados no Opportunity Fund? Como houve o acesso ao disco rígido do banco? Quem permitiu?

Ninguém informa. Leio que Daniel Dantas foi libertado, que Daniel Dantas foi preso, que a Polícia Federal não gosta dos jornalistas da Folha, que a Polícia Federal gosta dos jornalistas da Globo, que o presidente do STF critica as algemas, que o ministro da Justiça elogia as algemas, que o delegado é um demônio, que o delegado é um anjo.

BULLSHIT. Isso é firula.

Na Folha, li que a PF apura privilégio a Dantas na venda da BrT à Oi. Por quê? A princípio, a operação não me parece escandalosa por conta do que Dantas pediu para vender suas ações, nem por Carlos Jereissati e Sérgio Andrade terem concordado em pagar tal valor. O absurdo dos absurdos é que o dinheiro SAIA DO BNDES. Se Jereissati e Andrade querem pagar caro pelas ações de Dantas e do Citi, azar o deles. O que não pode é o Planalto apoiar essa vergonha.

Dizer que Dantas sai da BrT “beneficiado” é estranho. Não é ele que vai ficar com a companhia, aliás, acredito que ele nem quisesse sair de lá. Esse sim era o plano de Dantas: unir BrT e Telemar, ficando no controle de ambas. Os beneficiados, no caso, são os novos compradores _ grandes financiadores da campanha presidencial.

Posso estar falando besteira? Posso. Não vi os autos. Vai que ali tem coisa que salta aos olhos e eu não sei? As referências que ouvi do Ministério Público Federal e do juiz são excelentes. O currículo do delegado também é de peso _ qualquer pessoa que tenha brigado para esclarecer o caso Banestado e as supostas falcatruas de Paulo Maluf tem, a princípio, minha simpatia. Mas até aqui ainda não deu para entender as informações que estão saindo por aí, parece tudo uma grande massaroca.

Outro exemplo, também da Folha, é o caso da mulher de Daniel Dantas, Maria Alice, que teria movimentado US$ 21 milhões em menos de um ano. “Ela não teria fonte de renda para tanto”, teria constatado o Coaf. Pelo amor de Deus! Maria Alice é casada com um dos homens mais ricos do país e não tem fonte de renda? Acudam! O mesmo acontece com os filhos de Verônica Dantas _ é proibido filho pedir dinheiro para os pais? Os investigadores afirmam que sim e talvez tenham razão, mas até aqui não está claro o motivo. Até que me convençam, considero muito mais escandaloso o caso Gamecorp.

Claro, há a história da corrupção. É séria, muito séria, e lamentável. Foi uma péssima escolha tentar jogar de maneira suja quando se está cercado de inimigos. Se todo o divulgado for comprovado, a tentativa deve ser punida como manda a lei.

Quer saber? Bom mesmo era se Daniel Dantas falasse tudo. Eu, no lugar, não teria dúvidas. Tudo que parece horrível hoje pode ser apenas uma chance que o Universo está dando a ele de virar completamente o jogo amanhã.

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PS: Rusgas entre a Folha e a Globo não devem fazer com que o pessoal das redações perca de vista o mais importante _ o direito ao segredo da fonte e o de informar da melhor forma possível.

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July 09, 2008

Espetáculo

Muitas foram as discussões ao longo do dia sobre o trabalho da Polícia Federal na Operação Satiagraha. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, achou que houve epetáculo na hora das prisões. Minha opinião é que não tinha como ser de outro jeito, levando-se em conta os envolvidos: Daniel Dantas é o banqueiro mais polêmico do país, Naji Nahas quebrou a bolsa do Rio; Celso Pitta administrou São Paulo apadrinhado por Paulo Maluf. Óbvio que alguém faria imagens e que elas vazariam rapidamente.

Em contrapartida, classifico as declarações de Tarso Genro sobre a forma da prisão ridículas a não mais poder. É um absurdo que tenham saído da boca de um ministro que comanda justamente a pasta da Justiça. Ao dizer que "se fizerem uma lei no país dizendo que pessoas de baixa renda podem ser algemadas e pessoas de alta renda não podem, então a Polícia Federal vai cumprir", Genro valeu-se de uma politicagem de galinheiro. Inadmissível.

Continuo não entendendo os motivos pelos quais os presos não tiveram acesso aos autos, ou por que os diretores do Opportunity estão presos. Mas é visível que a situação de Dantas está complicada por conta da história da tentativa de suborno do delegado, reconhecida pelo advogado de um dos homens acusados de serem emissários do banqueiro. Certamente o delegado estava gravando a conversa. Por que será que as imagens foram vazadas sem áudio?

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July 08, 2008

Satiagraha

O banqueiro Daniel Dantas está em maus lençóis, a se julgar pela reportagem veiculada há pouco pelo Jornal Nacional (clique aqui para assistir). O grande problema, na minha opinião, não são as acusações do Ministério Público sobre as supostas atividades ilegais do Opportunity Fund, motivo principal da Operação Satiagraha, mas a informação de que colaboradores próximos de Dantas tentaram subornar delegados da Polícia Federal.

Por que digo isso? Porque as operações ainda estão sendo investigadas. O trabalho do Ministério Público e da Polícia é esse mesmo. Mas vai ser difícil contradizer as imagens que mostram os encontros dos colaboradores de Dantas com os delegados, bem como explicar por qual razão um desses sujeitos, que, de acordo com os delegados, oferecia a propina, tinha mais de um milhão de reais em dinheiro vivo dentro de casa.

Se a história da tentativa de suborno for comprovada, Dantas escolheu o caminho errado e pagará caro pelo erro de ter achado que dinheiro resolve tudo. Não resolve. Às vezes, como agora, complica.

Um dos pontos pelo qual não escrevi antes sobre o assunto foi entender a gênese da ação que resultou na prisão de Dantas e várias pessoas ligadas a ele hoje pela manhã, no Rio de Janeiro. Também queria saber quem eram os encarregados pelas prisões. Pois bem, a permissão veio do juiz Fausto de Santis, da 6ª Vara Federal de São Paulo, entende do riscado. Foi ele o responsável pela prisão de outro banqueiro, Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, aquele dono da casa onde os banheiros tinham torneiras de ouro. É sério e pouco dado a espetáculos. Esse é um ponto importante.

Outro ponto que me parecia importante ver esclarecido é se a Operação Satiagraha tinha algo com a Operação Chacal, aquela do caso Kroll, deflagrada em 2004. Isso porque o disco rígido do Banco Opportunity foi apreendido naquela operação, cujo fato gerador da ação é questionado em juízo. O Ministério Público Federal de São Paulo esclareceu que não é. Mesmo assim, eu gostaria de entender um pouco melhor como eles tiveram acesso ao disco rígido do banco (quem cuidava do outro processo, o primeiro, relativo aos acontecimentos de 2004, permitiu? Se não, como isso aconteceu, uma vez que o primeiro processo estava na segunda instância? Leitores advogados, ajudem-me).

Ah, outra coisa: qual é a participação de Luiz Eduardo Greenhalg nessa história? Por que o Ministério Público pediu sua prisão? E por que o juiz a rejeitou? Falo de fatos específicos, não esse blablabá genérico que vi até agora.

Por fim, chamou minha atenção o fato de que uma das testemunhas de acusação arrolada pela Procuradoria-Geral da República no processo do Supremo Tribunal Federal, Lúcio Bolonha Funaro, teve ordem de prisão no âmbito da Satiagraha. Você lembra-se dele? Lúcio era dono de uma empresa chamada Garanhuns e estaria, segundo desconfiava a CPI dos Correios, por trás das operações da corretora Bônus Banval, também investigada naquela época sob a suspeita de ter esquentado recursos do mensalão. Afinal, Funaro foi preso ou é um dos foragidos?

E Naji Nahas? Pelo jeito abastecia Celso Pitta, que caiu de pára-quedas na história. Eu gostaria de saber quais são as empresas onde ele e Dantas são sócios. Essa história também é novidade pra mim. Até onde eu sabia, Nahas trabalhava para a Telecom Italia, que era aliada dos fundos de pensão até o começo de 2005. Ora, se as investigações começaram em 2004, tem gente dos fundos envolvida?

Vamos esperar. Os jornais prometem vir recheados amanhã.

PS: O release oficial do Ministério Público está aqui.

PS2: Querem tanto vincular o Diogo Mainardi ao Daniel Dantas que se esquecem de um pequeno detalhe, a realidade. Ouça ou leia o podcast do moço e conclua você mesmo.


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Serraglio: "Muito ainda vai acontecer"

Vale ouvir a entrevista de Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios, até o fim.

"Existe ainda uma outra vertente (do mensalão) que sequer foi iniciada e é muito grave: a dos fundos de pensão... Tem muita coisa ainda que vai acontecer, tenho convicção que vai."

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A prisão de Dantas e os proxenetas

Os proxenetas do dinheiro público estão assanhadíssimos com a prisão de Daniel Dantas e dos diretores do Opportunity. Haja paciência.

Luís Nassif, que havia calado a boca por meses depois que veio a público o perdão* de R$ 2 milhões de sua dívida com o BNDES, resolveu investir de novo no infame dossiê Veja, um amontoado de baboseiras que serve de desculpas para o ataque a Diogo Mainardi e ao próprio Dantas.

A exemplo do que havia feito em outras ocasiões, o introdutor do jornalismo de serviços no Brasil _ seja lá que raios isso quer dizer _ aproveitou para colocar meu nome no meio da balbúrdia outra vez. Claro que, depois de ter sido criticado pelas inconsistências de suas acusações, teve o cuidado de fazer com que a menção do meu nome fique na boca de outros. Nassif sabe que, juridicamente, está no sal comigo. Mesmo assim, insiste. O que será que ele ganha com isso?

A claque ligada aos inimigos de Dantas também saiu a campo para encher o saco daqueles que criticam o governo. Há pouco recebi o seguinte comentário do leitor que assina Marcelo:

"E ai jornalistinha de aluguel, seu patrão ( Daniel Dantas ) foi preso. Está com medo do que vai acontecer com você ?? bjs"

Não estou, Marcelinho. Nunca tive medo e continuo não tendo. Nunca vendi matéria, nunca fechei acordo dilapidando patrimônio de banco público, nunca achaquei ninguém que não queria patrocinar minhas empresas, nunca apoiei falcatrua de nenhum tipo.

E quer saber mais? DANIEL DANTAS, AÍ ESTÁ UM CONVITE PÚBLICO DO ARRASTÃO: SE VOCÊ QUISER DAR ENTREVISTA PARA O BLOG, AVISE-ME.

E quer saber ainda mais, ô, Marcelinho? VOU CONTINUAR FALANDO MAL DO GOVERNO O QUANTO EU QUISER.

Não tenho motivo para temer falar com quem quer que seja. Talvez outros tenham: até o fim do mês passado, a informação da Justiça italiana era que o inquérito tocado pela Procuradoria de Milão (que mostra pagamentos irregulares da Telecom Itália para políticos, lobistas, funcionários públicos e jornalistas) será encerrado entre o fim deste mês e o início de setembro. A partir de então, os papéis se tornarão públicos.

Aí eu quero ver.

( * ) - Ao contrário do que Nassif diz para seus leitores, houve uma renegociação de dívida _ que ele não pagou. A RENEGOCIAÇÃO NÃO FOI HONRADA. O BNDES, portanto, entrou com uma execução cobrando um valor X. O "subcrédito A" (parte que, paga, desobriga das demais) do ACORDO realizado é absurdamente inferior ao próprio valor X inicial da execução.

Além disso, ao contrário do que se faz em qualquer acordo judicial, não foi oferecida garantia alguma. A única garantia que o BNDES tem do pagamento do acordo - que foi esticado em dez anos! - é o próprio jornalista. Isso mesmo. Embora vários bens tenham sido apontados ao longo do processo de execução, no acordo não pediram nenhum bem como garantia.

O "dossiê Veja", essa patacoada onde Nassif fala mal de mim e de Mainardi, começou poucas semanas depois de celebrado o acordo. Ah, e depois de Mainardi ter escrito uma coluna com críticas negativas ao BNDES.

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July 07, 2008

Estratégico para quem mesmo?

Da Folha Online:

"Fazendeiros e investidores estrangeiros têm comprado 12 km² de terras por dia no Brasil, o equivalente a seis vezes a área de Mônaco ou sete parques Ibirapuera, informa reportagem de Eduardo Scolese publicada na Folha.
... O levantamento não leva em conta a compra de empresas nacionais de capital estrangeiro e os que se utilizam de "laranjas" brasileiros para passar despercebidos pelos cartórios."

O governo defendeu a união da Brasil Telecom com a Oi (ex-Telemar), à revelia da lei e com financiamento público, usando o argumento de que o setor de telecomunicações é estratégico.

O mesmo grupo de comando é favorável ao monopólio petrolífero e torce o nariz para capital estrangeiro controlador nas empresas de mídia, nos portos e na aviação. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, então, nem pensar.

Ao mesmo tempo, o governo nem dá pelota para o enxame de estrangeiros na compra de terras.

Logo, fácil concluir: estratégico é algo que tem conselho de administração para servir de cabide de empregos, bem como uma empresa onde seja possível nomear os fornecedores.

Ai, ai. É triste.


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July 06, 2008

A dieta dos dementes

Então o TSE decidiu restringir o uso da internet como instrumento de propaganda política. Lilian Christofoletti escreveu hoje para a Folha de S.Paulo:

"... significa que as inúmeras ferramentas da internet -como blog, e-mail, web TV, web rádio e páginas de notícias, de bate-papo, de vídeos ou comunidades virtuais- não poderão ser usadas para divulgar imagens ou opiniões que configurem apoio ou crítica a candidatos.

A vedação cria situações inusitadas. Um texto desfavorável a uma candidatura, por exemplo, pode ser publicado num jornal impresso, mas não pode ser reproduzido em um blog.

Até mesmo o internauta poderá ser multado se criar sites, blogs ou comunidades pró ou contra candidatos. O tribunal entende que quem não pode praticar um ato por meio próprio também não pode praticar por meio de terceiros."

SOCOOOOORRO! O que dizer? Eu queria mandar bem como fez o Reinaldo Azevedo (clique aqui para ver o texto dele sobre o assunto), mas não. Acabaria mais debochada que o recomendável.

Assim, achei por bem procurar notícias menos imbecis. Que tal ciências? Ótimo. Da BBC Brasil:

"Comer grandes quantidades de alguns produtos à base de soja – entre eles o tofu- pode aumentar o risco de demência, sugere um estudo realizado na Grã-Bretanha.

... De acordo com o professor David Smith, da Universidade de Oxford, o tofu é um alimento complexo com muitos ingredientes que podem causar impacto nas células."

É sinal do Universo. Não posso me calar, sob risco de omissão. Devem estar servindo esse negócio no cafezinho do TSE.

MINISTROS, PAREM IMEDIATAMENTE COM O CHÁ DE TOFU! TODO MUNDO PRA "REHAB"! VAMOS!

Se é que ainda dá tempo.

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Não pode parar por aí

Vinculação de recursos para a Educação é bom ou ruim? Editorial d'O Estadão, reproduzido em alguns trechos.

"A PEC recém-aprovada no Senado é uma tentativa de conciliar os interesses da educação, tais como entendidos pelos senadores, e as limitações financeiras do governo. Por isso, foi previsto um restabelecimento gradual dos gastos obrigatórios. A desvinculação cairá de 20% para 10% em 2009 e para 5% em 2010.

... Os defensores da proposta podem ter as melhores intenções, mas o debate em torno da DRU e da aplicação obrigatória de verbas em certas áreas, como educação e saúde, é desvirtuado por um equívoco. Vinculação de tributos é uma irracionalidade, uma resposta equivocada ao problema das prioridades econômicas e sociais. Vincular impostos e contribuições a certas finalidades engessa o orçamento, dificulta a gestão pública e não assegura a boa aplicação de recursos. Não é uma garantia contra o desperdício nem contra a corrupção, e isso é comprovado todos os dias no Brasil.

... Que a educação deva estar no topo da agenda, especialmente num país em desenvolvimento, como o Brasil, é algo aceito por todos - pelo menos em aparência. Ninguém se dispõe a contestar, publicamente, a atribuição de prioridade a rubricas como educação e saúde. Rubricas orçamentárias, no entanto, são meras palavras. Programas, projetos e qualidade administrativa são outra história. Quando terá ocorrido, no Congresso Nacional, a última discussão séria a respeito de prioridades educacionais?

Além do mais, para que vincular verbas, se todos parecem de acordo quanto à importância da educação e, naturalmente, da saúde? A PEC recém-votada no Senado foi aprovada por 58 votos no primeiro turno e 52 no segundo, sem abstenção e sem manifestação contrária em nenhum dos dois. Mais que isso: os dois turnos foram realizados no mesmo dia, sem o prazo regimental, por acordo de lideranças. Se todos concordam quanto à relevância da educação, por que não se dispõem a tratar do assunto cuidadosamente, ano a ano, em cada tramitação da proposta de orçamento? Ao defender a vinculação, os parlamentares desqualificam-se a si mesmos e declaram-se indignos de confiança quando deliberam sobre o uso de recursos públicos. O mesmo selo de baixa qualidade é colado no Executivo, declarado incapaz de eleger prioridades para as políticas públicas.

Estabelecer vinculações, dirão alguns, é uma questão de realismo. Esse procedimento pelo menos garante a destinação de recursos a setores considerados prioritários e limita as possibilidades de erro e até de desmandos na administração pública. O argumento parece ponderável e é sedutor, mas não deixa de ser falso. Verbas públicas serão sempre limitadas e nada pode substituir o esforço permanente de pesar e comparar objetivos, fixar prioridades, planejar políticas e executá-las com os meios disponíveis. Vinculação de verbas cria uma perigosa impressão de responsabilidade cumprida. É uma auto-ilusão política e um logro para o cidadão."

Minha opinião é a do realismo. Se não houver vinculação, os recursos se perdem em meio à balbúrdia. Concordo, porém, quando O Estadão defende que é preciso delinear em que tipo de Educação o dinheiro será aplicado, bem como aperfeiçoar os programas de fiscalização, além de definir metas claras e factíveis.

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Xadrez

Valdo Cruz, na Folha, toca em uma ferida que sangrará daqui a pouco, a briga pelos canais de TV paga. Alguns trechos:

"... De um lado, a Globo trabalha para derrubar o sistema de cotas de canais e de conteúdo nacional na TV paga tal como está proposto, sob o argumento de que ele vai tornar o serviço mais caro e afetar a qualidade da programação.

Do outro, grupos como Abril, Band e Record, apoiados pelos produtores independentes, defendem as cotas criadas pelo relator do projeto na Câmara, deputado Jorge Bittar (PT-RJ), pronto para ser votado na Comissão de Ciência, Tecnologia e Comunicação.

Esses grupos alegam que as cotas de canais e conteúdo nacional vão estimular a concorrência na TV paga brasileira, ao criar um mercado mínimo para produtoras que hoje têm dificuldades para conseguir espaço nesse setor.

Traduzindo: está em disputa o negócio de fornecimento de conteúdo nacional para a TV por assinatura, hoje dominado pela Globosat com seus canais esportivos e de notícias.

Concentração que se repete na distribuição do serviço no país: dois grupos controlam quase 80% desse mercado -Net (associação entre a Globo e o mexicano Carlos Slim) e Sky (controlada pelo grupo americano Liberty Media, com participação da Globo).

Com a entrada em peso das teles fixa no setor, a partir das mudanças na legislação atual, a estimativa é que o número de assinantes salte dos pouco mais de 5,3 milhões de hoje para 18 milhões em 2018.

Um mercado que, crescente, tende a atrair parte do bolo publicitário do setor de mídia, estimado hoje em R$ 8 bilhões anuais -90% vão para a TV aberta, concentrado na Globo."

Que as teles entraram na briga é claro. E os outros grupos de mídia? Vejamos.

1) A Folha é sócia das Organizações Globo no jornal Valor Econômico e da Portugal Telecom no UOL.

2) A Abril vendeu a TVA para a Telefónica (numa operação que elevou a concentração de mercado no estado de São Paulo a níveis ridículos).

3) Dos grandes da imprensa sobra O Estadão, aquele sobre o qual pesam especulações de venda. Para quem mesmo? A princípio, para a Globo ou para a Abril.

Se a escolhida for a Globo, como fica a parceria no Valor? E a Agência Estado vai se fundir ao portal de notícias da Globo, o G1? E a Folha vai ficar quieta com o avanço da Globo sobre o mercado paulista? Pelo tom da reportagem do Valdo, que foi diretor da sucursal de Brasília e hoje é repórter especial, não parece.

Por fim, bom observar que alguns nomes passaram ao largo dessa primeira análise: SBT (eternamente à venda na boataria, mas eternamente feudo de Silvio Santos na prática), Brasil Telecom, Oi (ex-Telemar) e Telecom Itália, a dona da TIM.

O jogo está ficando interessantíssimo. Acho que vou começar a acompanhá-lo.

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BNDES, a boquinha e o Eremildo

Élio Gaspari, na Folha de hoje, avisa: começou a boca livre com a inflação. Onde? No BNDES, aquele amigo-irmão, ora bolas. Olhe só:

"O Conselho Monetário Nacional manteve a Taxa de Juros de Longo Prazo do BNDES em 6,25% ao ano. Metade do que a patuléia terá que pagar pela Selic do Banco Central. Com essa medida, os sábios da ekipekonômica reinjetaram um vírus na patologia da incipiente inflação do real. Criaram o sujeito que ganha com ela. A 6,25%, o BNDES cobra juros inferiores à taxa de inflação prevista para o ano, 6,3%.

A inflação prejudica as famílias porque as mercadorias ficam mais caras e os investimentos perdem para a desvalorização da moeda. Dói, mas é o jogo jogado.

Esse mesmo jogo fica trapaceado quando alguém entra nele sem chance de perder. Na hora em que o CMN mantém em 6,25% seus juros camaradas, os clientes da TJLP passam a ganhar para dever.

Por enquanto a trapaça é pontual e o benefício é pequeno, mas ninguém deve subestimar a audácia do governo, do BNDES e do empresariado que freqüenta esse circuito. Já houve época em que, em nome de um grande projeto industrial, o banco emprestava a uma taxa prefixada de 20%, com uma inflação de 35%. Muita gente boa botou o dinheiro no papelório e o progresso ficou para depois."

Se ninguém reclamar, daqui a pouco a diferença para beneficiar os financiados do BNDES corresponderá a um percentual bem maior. Pode apostar.

E Gaspari vai em cima também em outro assunto importante. Nelson Jobim, que é um dos ministros mais sassaricas de Lula, saiu-se com a seguinte pérola, que o Eremildo não perdoou.

"Eremildo é um idiota e soube que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, trabalha com a possibilidade de dar uma pensão de um salário mínimo às famílias dos três jovens chacinados depois que uma tropa do Exército os entregou a bandidos do morro da Mineira.

Tudo bem. O cretino não entende porque a vida de um cidadão vale R$ 480 mensais e a Bolsa Ditadura de Lula custa algo em torno de R$ 4.800.

O idiota concluiu que morrer na democracia vale dez vezes menos do que gramar 31 dias de cadeia na ditadura.
Eremildo vai a Brasília para mostrar a Jobim uma tabelinha de Bolsas Ditadura distribuídas pelo governo nos últimos anos. O cretino tem certeza de que o ministro será capaz de demonstrar que Vinicius de Moraes havia bebido quando cantou que 'o morro não tem vez'."

Pois é, Jobim. Levantou tão bem a bola que a cortada foi inevitável. "Medalha!"

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July 05, 2008

Demônio

Os heróis da política não estão nos gabinetes dos palácios presidenciais, ao contrário do que querem nos fazer acreditar. Eles são um pequeno exército formado por motoristas, secretárias e escriturários, gente que tem a coragem de denunciar os desvios do sistema. O agente penitenciário Shepherd Yuda, do Zimbábue, é um desses heróis.

Yuda foi apresentado ao mundo hoje por um dos jornais mais respeitados da Europa, o Guardian. Com uma câmera escondida, ele registrou exemplos de fraudes eleitorais na eleição presidencial de seu país, a mesma que permitiu a reeleição de Robert Mugabe.

Aos 84 anos, Mugabe está no poder desde 1980. Seus seguidores, o Zanu-PF, atuam em forma de milícias. Torturam, estupram e matam. Fácil compreender os motivos pelos quais, em uma pesquisa recente, a população do Zimbábue foi considerada a mais triste do mundo.

As imagens capturadas por Yuda estão logo abaixo. A versão legendada em português pode ser vista no site da BBC Brasil, basta clicar aqui.

O vídeo acima mostra que os eleitores têm de se fingir analfabetos para que partidários de Mugabe votem em seu lugar. O voto secreto também não foi respeitado: os colegas de Shepherd Yuda foram obrigados a escolher a renovação do mandato do atual presidente sob o olhar atento dos milicianos. Há ainda uma eleitora que pintava o dedo para fingir ter votado _ o Zanu-PF ameaçava matar quem se abstivesse de apoiar Mugabe.

A coragem de Yuda teve um preço. Aos 36 anos, ele foi obrigado a deixar o país depois de ter feito as gravações escondidas. Viverá como exilado.

"Não lamento o que fiz, apesar de ter tomado uma decisão difícil. Podemos viver sem as lembranças de ver corpos mortos na prisão, mortos nas ruas, mortos em minha família."

É inacreditável que tais coisas ainda ocorram em pleno século XXI. Pior ainda é a vista grossa feita ao longo de anos por todos os países desenvolvidos. O Zimbábue tem altíssimas taxas de incidência de AIDS, amarga há anos uma inflação absurda, tem praticamente 80% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. A expectativa de vida não chega aos cinqüenta anos e a mortalidade infantil supera a da Somália. Inexiste imprensa livre e os adversários de Mugabe são objetos de ridículos processos de traição.Isso sem contar a Distopia, doença que combina depressão e ansiedade, e atinge quase metade da população de algumas cidades.

Qual é a força que mantém Mugabe há 28 anos no poder mesmo diante de todas essas barbaridades? A resposta, na minha opinião, está nos chamados "diamantes de sangue". Ao lado de Serra Leoa, Libéria, Congo e Angola, o Zimbábue também possui as famigeradas minas. Milhões de pessoas perderam a vida por conta delas. O documentário abaixo, feito pelo History Channel, conta um pouco mais sobre o assunto.

(Para ver o restante do documentário, clique aqui.)

As parcerias internacionais de gente beneficiada pelas riquezas do Zimbábue garantiram a Mugabe uma confiança assustadora. Cinco dias antes das eleições de junho, ele decretou:

“Somente Deus, que me elegeu, pode me remover – não o MDC, nem os britânicos.”

A União Européia quer anular as eleições. Os Estados Unidos também estão contra Mugabe. Até o Brasil, que vinha flertando com a besta sanguinária, tomou vergonha na cara e suspendeu a missão observadora que havia programado para o mês passado.

Deus, ao que parece, decidiu que é hora de Mugabe ter uma vida menos cor-de-rosa. Já não era sem tempo.

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July 04, 2008

Investimentos

Do Estado de S.Paulo:

"Os investimentos da União chegaram a R$ 9,4 bilhões no primeiro semestre de 2008, valor recorde se comparado ao mesmo período dos últimos sete anos, segundo levantamento da ONG Contas Abertas. Grande parte dos investimentos deve-se ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O Orçamento autorizado para este ano em investimentos também é um dos maiores desde 2001, ficando atrás apenas da dotação do ano passado, fixada em R$ 46,4 bilhões. Para 2008, cerca de R$ 40,2 bilhões estão previstos para a realização de obras e compra de equipamentos."

A notícia é muito boa. O governo fez um ótimo trabalho na área econômica e deve mesmo aproveitar o período para investir.

Mas é preciso colocar os investimentos em perspectiva, exatamente para o que é bom não se perca. Faltam processos para acompanhar o caminho do dinheiro. Além disso, há a questão das prioridades. Também n'O Estadão:

"O Senado aprovou na noite da última quarta-feira, 3, em votação simbólica, o projeto que estabelece o piso de R$ 950 para professores da educação básica da rede pública de ensino. A proposta, agora, vai à sanção presidencial. Segundo o projeto do senador Cristovam Buarque (PDT-DF), o piso salarial nacional será implantado em todo o País, de forma gradual, até 2010. O piso de R$ 950 é uma antiga reivindicação da categoria. O valor deverá ser pago para professores com carga horária de 40 horas semanais. De acordo com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), existem mais de 5 mil pisos salariais diferentes para a categoria, variando entre R$ 315 e R$ 1.400. Está prevista no projeto a complementação da União para os entes federados que não atingirem o valor de piso nacional."

Novecentos e cinqüenta reais é pouco, pouquíssimo, uma vergonha. O que dizer de R$ 315? Por isso vejo com bons olhos a informação que vem a seguir:

"O Senado também aprovou na última quarta proposta de emenda constitucional (PEC) que obriga a União a destinar integralmente à Educação 18% da receita, acabando, portanto, com a chamada Desvinculação de Recursos da União (DRU) para o setor. Atualmente, com a DRU, o governo usa 20% desses 18% para o superávit primário, reduzindo os investimentos na Educação."

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Polêmica

A Folha mandou Marcos Strecker para cobrir a Flip. Ele mandou uma boa e apimentada matéria, olhe só:

"'É escandaloso o espaço que estão dando para a libertação de Ingrid Betancourt'. A opinião é do polêmico escritor colombiano Fernando Vallejo, 66, um dos convidados da 6ª Festa Literária Internacional de Paraty, que acontece na cidade fluminense até o próximo domingo. Para o autor, a ex-refém 'é uma manipuladora, velhaca, horrível, oportunista'.

Na opinião de Vallejo, a ex-candidata à Presidência não é uma vítima das Farc, mas uma política ambiciosa que provocou a ação da guerrilha como forma de promoção política.

Segundo ele, 'ela e sua assessora e companheira de aventuras Clara Rojas [libertada em janeiro deste ano] são os únicos políticos que agiram para serem seqüestrados'. 'Na época da captura, ela tinha ido com a assessora intencionalmente para um local em que havia esse risco', afirmou Vallejo. Ingrid foi seqüestrada com Rojas em fevereiro de 2002, quando viajavam em campanha para San Vicente del Caguán, em uma região no sul da Colômbia tida então como bastião das Farc.

Reféns esquecidos

O autor se mostra indignado com a comoção que a política colombiana desperta. 'Milhares já foram seqüestrados ao longo dos anos, agora várias centenas estão sofrendo em poder da Farc, mas só se fala dela.' As Farc mantêm centenas de reféns não-político pelos quais pede resgate em dinheiro.

Para Vallejo não será surpresa se Betancourt concorrer novamente à Presidência, em 2010 -ela já abriu a possibilidade anteontem. Caso isso aconteça, o escritor acha que a ex-refém tem chances de ganhar as eleições. 'O povo colombiano é tão ignorante que pode até elegê-la. Mas ela é francesa, tem dupla cidadania. Por que escolheu fazer política e concorrer a presidente da Colômbia? Por que ela não concorre na França, com [Nicolas] Sarkozy?', questiona.

O escritor e cineasta é conhecido pelo romance 'A Virgem dos Sicários' (Companhia das Letras) e vive hoje no México. Em sua obra, inclusive no recém-lançado 'Despenhadeiro', usa sua cidade natal, Medellín, a mesma do presidente Álvaro Uribe, como fonte para uma prosa realista e autobiográfica. Costuma fazer um retrato ácido da sociedade colombiana e de Medellín, fortemente impregnadas de religiosidade e afetadas pelo narcotráfico, pelo crime e pela corrupção.

Para o autor, as Farc estão derrotadas. 'A Colômbia não gosta da organização, são um bando de assassinos, seqüestradores e narcotraficantes', afirmou -antes dissera em coletiva que o grupo, 'depois da Igreja Católica e de Uribe, é a maior praga da Colômbia'.

Grande crítico do atual presidente, Vallejo acha que se ele se reeleger depois de conseguir uma mudança constitucional, nada vai mudar. 'Toda a classe política na América Latina só pensa em seus próprios interesses, quando não está claramente envolvida com o crime e com a corrupção.'"

Como se vê, a libertação de Betancourt dará pano para a manga. Particularmente, acho que o escritor só tem razão no último parágrafo. Mas é bom, sempre bom, o contraditório em meio a uma cobertura tão intensa quanto a da libertação da colombiana.

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Tudo a mesma coisa

Vi a melhor do dia na Folha de S.Paulo:

"Ninguém quer que a Nasa seja internacionalizada, diz Lula sobre a Amazônia"

Acabarão criando um nome para a lógica "sui generis" do presidente, pode escrever.

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July 03, 2008

E por falar em amigo...

Também do Claudio Humberto:

"Em depoimento à Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, nesta manhã, o empresário Marco Antonio Audi garantiu aos senadores que ignorava as ligações do advogado Roberto Teixeira com o presidente Lula quando o contratou pno início de 2006 para acompanhar a formalização da compra da VarigLog."

RÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁ...

Avoadinho o menino, não? No mesmo site:

"O empresário Marco Antônio Audi, que se encontra em Brasília para depor às 10h nesta quinta-feira na Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, disse ontem que o advogado Roberto Teixeira, compadre de Lula, é um autêntico 'amigo da onça' que fez de Lula refém de sua suposta amizade."

RÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁRÁ...

Audi, Audi, Audi. Você achou que arrancaria bem, mas depois descobriu que motorzinho era 1.0, não é, filho?

O melhor do Brasil é o brasileiro. Aqui é Carnaval 365 dias por ano. Vamos lá, junto comigo, no ritmo, hein? "Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí... Ei, ei, ei..."

Só tem de mudar o finzinho da música. No lugar de beber, a gente chora. Até cair.

Mixwit

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Não tem jeito

É de uma falta de vergonha na cara tão grande que estarrece qualquer criatura. Do Claudio Humberto:

"Custam pouco mais de cem dólares nos Estados Unidos os bafômetros pelos quais a Polícia Rodoviária Federal pagou R$ 6.798,53 cada. Conhecido por etilômetro, o modelo Alco-sensor IV (foto), igual ao da PRF, pode ser adquirido no site de compras norte-americano Ebay, acompanhado de maleta, impressora e bafômetro, por míseros U$ 152 (cotação à 00h15 desta quinta-feira). Exatamente igual ao modelo adquirido pela PRF. Há outros modelos ainda mais baratos.

Pedro Paulo Bahia, da PRF, tentou explicar o bafômetro 4.400% mais caro: “O processo de importação é negócio e não filantropia”. Ah, bom.

O assessor da PRF disse mais: “Se em um fim de semana uma máquina [etilômetro] emitir dez multas, ela já se paga”. É a lógica Óleo de Peroba.

O bafômetro usado pela PRF custou quase R$ 7 mil (ou US$ 4,4 mil) “em razão dos impostos de importação”, diz o assessor da Polícia Rodoviária."

Apague a luz, por favor.

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July 01, 2008

Oficina do Geppetto

Com a Lei Seca e a cara-de-pau da politicalha, está na hora de mudar a musiquinha para "eu minto, sim, e vou vivendo". Da Folha:

"Aprovado por unanimidade pela convenção que oficializou anteontem a candidatura de Marta Suplicy, o programa de governo do PT omite dados, "subtrai" quase 1.500 casos de dengue ocorridos na gestão da petista e se apropria de projeto bilionário em estudo pelo governo federal para prometer mais que dobrar as linhas de metrô e os corredores exclusivos de ônibus da cidade.

... O problema é que, na verdade, o investimento está em fase de análise pelo Palácio do Planalto e, se implantado, envolveria majoritariamente recursos federais, não da prefeitura. O estudo foi apresentado por Marta, quando ainda era ministra do Turismo, e envolve outros ministérios, além de investimentos para outras capitais. O objetivo é preparar o país para a Copa do Mundo de 2014.

Além de fazer promessa com o "bolso alheio", o texto diz que "Marta tomou as medidas essenciais para o combate à dengue, tendo sido registrado apenas dez ocorrências da doença na cidade durante sua gestão". Na verdade, foram 1.507 entre 2001 e 2004. Os dez casos ocorreram, na verdade, em 2004, último ano da gestão Marta.
O PT de São Paulo afirmou ter havido "erros de redação" no texto e que o programa está 'em construção'."

Erro de redação, veja você. Será que a Veja São Paulo, que veio com a entrevista de Paulo Maluf no fim de semana passado, também errou? Não creio. Acho mais provável que tenha baixado Amenófis III no ex-prefeito.

Para quem não leu, Maluf quer construir uma laje sobre o rio Tietê para "aumentar cinco ou seis faixas de cada lado, invadindo o rio". De acordo com ele, o trânsito é o "único, ú-ni-co!" problema da capital paulista e "não seria mau abafar aquele cheiro desgraçado".

As melhores partes da entrevista, porém, são outras. De acordo com Maluf, as obras da av. Águas Espraiadas, que custou dez vezes mais do que a construção da Rodovia dos Bandeirantes, saíram por um precinho mais salgado por motivo simples: não dá para comparar o custo do asfalto colocado na estrada, por alqueire, com o estendido na cidade, onde se leva em conta valores díspares do metro quadrado. Não é uma graça?

Fenômenos como o das Águas Espraiadas nada devem ter com práticas heterodoxas das empreiteiras, das empresas que disputam licitações e dos políticos. Como a Alstom, por exemplo, cuja CPI foi devidamente enterrada pelos tucanos. O governador José Serra prometeu apoio a Geraldo Alckmin, outro candidato à prefeitura de São Paulo, e está cumprindo. Como ficaria o ex-governador se as investigações sobre a Alstom/Cegelec/Alcatel mostrassem que houve dinheiro sujo rondando o PSDB paulista?

Gilberto Kassab, ou "Geraldo" Kassab, como é conhecido no ninho, acha que tem Serra para todo mundo e não parece enciumado. ""Estamos trabalhando, gastando juntos", disse Gilberto Geraldo. Ninguém duvida. Eu, pelo menos, não. E você?

O pior é que para beber não vai nada.

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PS: Circula na internet piadinha dando conta que Maluf vai processar a Marta. Isso porque ele não saiu na capa da última Vejinha, mas ela ganhou espaço na capa da Veja nacional.

PS2: Claro que o leitor percebeu o furo. Maluf não pode processar Marta, uma vez que só concorre para tirar votos de Kassab e Alckmin, de maneira a beneficiar a mãe do Supla. ;-)


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O Planalto e o dragão

O presidente da República, dono de 58% de aprovação, segundo a pesquisa CNI/Ibope, chamou de "insensível" quem classificou como eleitoreiro o reajuste de 8% nos beneficios do Bolsa Família. "Estamos dando o reajuste porque temos condições de dar, porque tem no Orçamento dinheiro para dar esse reajuste", afirmou.

Será? O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), usado para medir a inflação, teve a alta de 6,8% no semestre. Superou a rentabilidade de todos os investimentos no País. A taxa inflacionária, aliás, é a principal preocupação dos brasileiros _ 65% dos entrevistados temem a remarcação de preços.

O medo não é apenas local. O Banco de Compensações Internacionais, também conhecido como banco central dos bancos centrais, acredita que "o mundo vive hoje a maior turbulência financeira desde a Segunda Guerra e que a união de desaceleração econômica e inflação está empurrando para um 'ponto crítico' a economia global".

Ou seja, mais do que temer a própria inflação, há que se temer a expectativa que está se espalhando como gripe espanhola por todo o mundo.

O governo do Brasil, pelo que disse o presidente, parece estar imune ao pessimismo ganha espaço a cada dia e torna a crise uma profecia auto-realizável. Até aí tudo bem. O problema é a área política achar que nossa situação é boa o suficiente para criar gatilhos no pagamento de salários e benefícios.

Eles poderão significar um belo empurrão para o governo consolidar uma base de prefeitos robusta após as eleições, mas certamente haverá um efeito colateral perigosíssimo: o rombo nas contas do Estado.

O BIS, aliás, avisou aos emergentes para não ir com tanta sede ao pote e cuidar da inflação. Tendo em vista que o próprio presidente da República reconhece os feitos na área econômica como os mais bem sucedidos, não custaria um pouquinho de coerência. O Real foi uma conquista árdua e que precisa de todo o cuidado.

Para mim, o reajuste do bolsa-família é uma medida eleitoreira e perigosa. Infelizmente.

Com a palavra os economistas.

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June 29, 2008

Cortesia paga

Diogo Mainardi na Veja. Vale a íntegra.

"Dá para encaixar um encontro com Roberto Teixeira? Dá. Sempre dá. Roberto Teixeira foi recebido por Lula. Segundo ele, tratou-se de uma mera visita de cortesia. Nada a ver com seu trabalho para a Varig. Nesse caso, porém, por que é que a Varig teria pago as suas despesas da viagem a Brasília? Foi o que eu perguntei a Roberto Teixeira, por meio de sua assessoria de imprensa. Ele respondeu candidamente que "aproveitava as idas aos tribunais e passava no Planalto". Isto mesmo: a Varig pode ter bancado seu encontro com Lula, mas o propósito da viagem era outro.

Denise Abreu, no dia de seu depoimento, entregou ao Senado Federal uma mala abarrotada de documentos. Estou com cópias de alguns deles na minha frente. Referem-se às duas semanas que antecederam o encontro de Roberto Teixeira com Lula, no Palácio do Planalto. Em 10 de agosto, a Anac decidiu cancelar os "hotrans" e os "slots" da Varig. No dia seguinte, esse cancelamento foi comunicado oficialmente a Cristiano Martins, genro de Roberto Teixeira.

Os "hotrans" e os "slots" da Varig em Congonhas eram o que a companhia aérea tinha de mais valioso. Em torno deles, desencadeou-se uma batalha. De um lado, a Anac. Do outro, Roberto Teixeira e o Palácio do Planalto. "Hotrans" e "slots" correspondem às vagas nos aeroportos. Roberto Teixeira brigou pela posse dessas vagas, como um flanelinha dos ares. Em 16 de agosto, Cristiano Martins remeteu à Anac o plano de negócios da empresa, que incluía "hotrans" e "slots". Em 17 de agosto, Valeska Teixeira protocolou na Anac um pedido de registro da companhia.

Nesse período, ocorreu aquilo que, na diretoria da Anac, se tornou conhecido como Dia do Bife: um encontro de mais de oito horas, no Palácio do Planalto, coordenado pela secretária executiva de Dilma Rousseff, Erenice Guerra. Ela pressionou para que a Anac concedesse imediatamente um certificado homologando a Varig. O coronel Jorge Velozo usou a imagem do cozimento de um bife para ilustrar a impossibilidade de queimar etapas a fim de acelerar o processo. Longe do microfone, o coronel Jorge Velozo confirma os detalhes intimidatórios do Dia do Bife. Eu testemunhei isso. Perto do microfone, ele é muito mais acanhado.

Em 22 de agosto, a Anac se reuniu para determinar a abertura do processo licitatório dos "hotrans" e dos "slots" da Varig. No mesmo dia, Roberto Teixeira deu um pulinho no Palácio do Planalto, para se encontrar com Lula. O que aconteceu depois disso? O juiz Luiz Roberto Ayoub acolheu um recurso apresentado pelo compadre do presidente e desautorizou a Anac, alegando a necessidade de dar um "tratamento excepcional" à Varig. Em 24 de agosto, ele mandou intimar toda a diretoria da Anac. O flanelinha dos ares garantiu suas vagas em Congonhas. Honorários: 5 milhões de dólares."

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June 26, 2008

Van Gogh

"Etten, 12 de novembro de 1881.
Mas precisamente porque o amor é tão forte, nós geralmente não somos fortes durante a nossa juventude (quero dizer 17, 18, 20 anos) para conseguir segurar firme nosso leme.

Veja, as paixões são as velas dos barquinhos.

E alguém com 20 anos abandona-se inteiramente a seus sentimentos, apanha vento demais nas águas e seu barco faz água -- e naufraga -- a não ser que ele se recupere.

Alguém que em compensação iça em seu mastro a vela Ambição e singra direto pela vida, sem acidentes, sem sobressaltos, até que -- até que enfim, enfim aparecem circunstâncias que o fazem observar: não tenho velas o bastante, e diz então: daria tudo o que tenho por um metro quadrado de vela a mais e não tenho. Ele se desespera.

Ah! mas então ele reconsidera e imagina poder utilizar uma outra força; ele pensa na vela até então guardada no porão. E é esta vela que o salva.

A vela 'Amor' deve salvá-lo, e se ele não a içar, ele não chegará nunca."

Vincent Van Gogh, em "Cartas a Théo".

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June 25, 2008

Mensalão - As testemunhas

Claudio Humberto divulgou há algumas horas a lista de testemunhas de acusação no processo do mensalão. Segue a íntegra da nota:

"O ministro-relator no Supremo Tribunal Federal da ação penal 470, que investiga o escândalo do mensalão no governo Lula consideoru concluída a fase de interrogatório dos réus. O ministro Joaquim Barbosa, determinou o início da fase de depoimento das testemunhas de acusação pelos mesmos juízes que atuaram nos interrogatórios, ou por outros juízes federais escolhidos por livre distribuição. O ministro acredita que o processo ainda deve levar pelo menos dois anos para chegar a julgamento final pelo Plenário da Corte. Ele também estima que, “com muito otimismo”, será necessário mais um ano de instrução, no mínimo e de outro ano para ler todo o material recolhido e só então concluir seu voto. Entre os personagens listados está a cafetina Jeany Mary Corner. Veja a lista completa das testemunhas de acusação:
1. FERNANDA KARINA RAMOS SOMMAGGIO; 2. JOSÉ FRANCISCO DE ALMEIDA REGO; 3. LUCAS DA SILVA ROQUE; 4. GERALDO MAGELA FERNANDES SILVEIRA; 5. RAIMUNDO CARDOSO DE SOUZA SILVA; 6. ELIANE ALVES LOPES; 7. PAULO LEITE NUNES; 8. BENONI NASCIMENTO DE MOURA; 9. RAIMUNDO FERREIRA DA SILVA JÚNIOR; 10. RICARDO PENNA MACHADO; 11. SOLANGE PEREIRA DE OLIVEIRA; 12. LUIZ EDUARDO FERREIRA DA SILVA; 13. CÉLIO MARCOS SIQUEIRA; 14. JOSÉ HERTZ CARDOSO; 15. PEDRO RAPHAEL CAMOS FONSECA; 16. CARLOS EDUARDO GUANABARA; 17. ROBSON FERREIRA REGO; 18. MÁRCIO HIRAM GUIMARÃES NOVAES; 19. FRANCISCO MARCOS CASTILHO SANTOS; 20. PAULINO ALVES RIBEIRO JÚNIOR; 21. DAVID RODRIGUES ALVES; 22. ALESSANDRO FERREIRA DOS SANTOS; 23. VALMIR CAMPOS CREPALDI; 24. JEANY MARY CORNER; 25. IVAN GONÇALVES GUIMARÃES; 6. LÚCIO BOLONHA FUNARO; 27. JOSÉ CARLOS BATISTA; 28. AUREO MARCATO; 29. ADEMIR LUCAS GOMES; 30. GISELE MEROLLI MIRANDA; 31. APARÍCIO DE JESUS; 32. FREDERICO CLIMACO SCHAEFER; 33. MARIANA CLIMACO SCHAEFER; 34. EMERSON RODRIGO BRATI; 35. DANIELLY CINTRA CARLOS; 36. VALTER COLONELLO; 37. LAURITO DEFAIX MACHADO; 38. JOSÉ RENE DE LACERDA; 39. MAFALDA LANGELA SIBINELLI; 40. CHARLES ANTÔNIO RIBEIRO; 41. PAULO VIEIRA ALBRIGO."

Os grifos são meus e referem-se aos personagens que ficaram mais conhecidos no tempo da CPI dos Correios. Vou pesquisar os outros nomes e volto depois.

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Do cinismo e outras considerações - 2

Mais verdade em dose homeopática em relação ao caso Varig. Folha de S.Paulo desta quarta-feira:

"A ministra Dilma Rousseff admitiu ontem que o advogado Roberto Teixeira, compadre do presidente Lula, foi recebido pelo menos duas vezes na Casa Civil em encontros omitidos de sua agenda pública e anteriormente negados por sua assessoria. Teixeira é acusado de influir na venda da VarigLog para o fundo Matlin Patterson, para quem advoga.

A omissão desses encontros fere o decreto 4.334, de agosto de 2002, que determina que audiências de autoridades públicas com representantes de interesse privado devem ser registradas e acompanhadas por outro servidor.

Em entrevista no Planalto, Dilma admitiu que em um dos encontros estava presente uma das filhas de Teixeira, Valeska, que é afilhada de Lula e também advoga para a VarigLog. As reuniões, segundo ela, trataram de "questões relativas aos leilões da Varig", comprada pela VarigLog.

Questionada se advogados de outras companhias interessadas no negócio receberam atenção semelhante, Dilma reconheceu que não. Segundo ela, os presidentes da Gol e da TAM foram recebidos, mas não advogados das empresas."

Também na Folha:

"A ex-diretora da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) Denise Abreu relatou ontem ter se reunido "inúmeras vezes" ao longo de 2006 com a ministra Dilma Rousseff em encontros de que a Casa Civil alega "não ter registro". Abreu acusa Rousseff de interferência no processo de venda da Varig para a VarigLog.

... De acordo com Abreu, num desses encontros Rousseff a teria pressionado a não mais exigir documentos que pudessem atestar a origem do capital e a capacidade financeira dos compradores da VarigLog, o que poderia atrapalhar o negócio. A ministra nega."

Você acredita em quem, na ministra Dilma ou em Denise Abreu? Eu fico com a segunda. Ao que consta, a ex-diretora da Anac não teve nenhum lapso de memória (leia aqui o que ela disse). Já a chefe da Casa Civil... Deve ser por isso que Dilma reclama da "escandalização do nada".

O curioso é que "o nada" pode ser medido em cifras: US$ 5 milhões para Roberto Teixeira, R$ 204 milhões em dívidas da VarigLog, R$ 7 bilhões (isso, bilhões) em dívidas da Varig. E O Estado de S.Paulo de hoje acrescenta mais uma, relativa aos compradores finais da Varig _ os mesmos para quem trabalha o compadre do presidente da República, Roberto Teixeira:

"A família Constantino, dona da Gol e da Varig, possui uma dívida tributária de ao menos R$ 377 milhões com a União, a maior parte acumulada no INSS por conta do não recolhimento de contribuições previdenciárias de dez empresas de ônibus do grupo. Em junho de 2006, antes da compra da Varig, ocorrida em março de 2007, a Justiça Federal em São Paulo reconheceu a existência do grupo econômico e penhorou ações da Gol para pagar as dívidas das empresas de ônibus.

Os negócios envolvendo essa última companhia vêm sendo questionados por ex-diretores da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) - segundo eles, houve interferência do Palácio do Planalto.

"A família Constantino, dona da Gol e da Varig, possui uma dívida tributária de ao menos R$ 377 milhões com a União, a maior parte acumulada no INSS por conta do não recolhimento de contribuições previdenciárias de dez empresas de ônibus do grupo. Em junho de 2006, antes da compra da Varig, ocorrida em março de 2007, a Justiça Federal em São Paulo reconheceu a existência do grupo econômico e penhorou ações da Gol para pagar as dívidas das empresas de ônibus.

... Alguns processos que tramitam na Justiça revelam, segundo a Procuradoria Geral da Fazenda Nacional (PGFN), indícios de que a família compra e vende empresas de transporte em um esquema que envolve 'laranjas'."

Vamos deixar claro mais uma vez o que está acontecendo.

1) Pessoas que trabalharam NOMEADAS PELO ATUAL GOVERNO acusam o Planalto de pressionar ÓRGÃOS PÚBLICOS a aceitar determinadas condições de venda de uma empresa QUE DEVE BILHÕES, inclusive a VELHINHOS, DOENTES e ao próprio TESOURO.

2) Tais condições beneficiaram diretamente o ADVOGADO que costurou a venda, sendo esse advogado COMPADRE DO PRESIDENTE.

3) Os COMPRADORES da companhia endividada, que foi entregue a eles LIMPINHA, sem débitos, TAMBÉM DEVEM MILHÕES ao governo.

4) O compadre do presidente, para quem não se lembra, costuma CEDER imóveis para Lula e seus filhos.

5) O mesmo compadre, aliás, que foi recebido seis vezes pelo presidente da República e, sabemos agora, também pela ministra Dilma Rousseff em encontros FORA DE AGENDA, o que é irregular, para discutir... a venda da companhia endividada. Antes de os jornais descobrirem, o motivo alegado era "cortesia".

Sobre as visitas a Folha revela:

"Três das quatro visitas que o advogado Roberto Teixeira descreveu como "cordiais" ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu compadre, no Palácio do Planalto, aconteceram no período em que as empresas aéreas questionavam a venda da VarigLog para o fundo norte-americano Matlin Patterson e três sócios brasileiros. Acusado de influir no negócio, Teixeira advogava para a companhia de carga."

Não é lindo? A ministra explicou para a Folha:

"Respondendo à acusação de que teria interferido em favor do grupo formado pelo fundo americano e os sócios brasileiros, a ministra da Casa Civil afirmou ter participado pouco do processo da Varig, que, de acordo com ela, concentrou-se na Justiça. Mas reconheceu que "o governo não queria que a falência da Varig fosse um ato de inação do governo".

O governo, bem com os juízes que cuidaram da falência, acreditam que era preciso "salvar" a Varig a qualquer custo. Por conta do calote nos aposentados que passaram a vida pagando um plano de previdência que foi transformado em pó nas fuças de administradores nomeados pelo Ministério da Previdência? Não, pois o plano de venda aprovado a toque de caixa não previa o pagamento de ninguém. Por conta dos credores, nos quais estão o INSS e a Receita? Não, pois pois o plano de venda aprovado a toque de caixa não previa o pagamento de ninguém. Por conta do mercado? Pode ser.

Minha pergunta, bem simples, é a seguinte: o mercado é quem mesmo, hein, compadre?

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Do cinismo e outras considerações

Muito bom o artigo de José Nêumanne sobre o caso dos militares que entregaram três rapazes a traficantes no Rio de Janeiro, publicado pelo Estadão hoje. Alguns trechos:

"Incapazes de enfrentar o problema da violência, anabolizada pelo crime organizado, que vende entorpecentes e contrabandeia armas, e de combater o mal endêmico da corrupção policial, governadores fluminenses sempre apelaram à União por uma intervenção militar nos territórios sem lei das favelas do Rio. Da mesma forma como não resistiu à tentação de mandar tropas cumprir a tarefa de Sísifo de impor a lei no Haiti, o governo federal, chefiado pelo petista Lula da Silva, cometeu a insensatez de atender ao pedido, contrariando a maioria dos oficiais das Forças Armadas e a unanimidade dos especialistas em segurança pública. Com a mesma fé que devota à própria infalibilidade e à capacidade de transferi-la à "companheirada" antiga ou moderna, o papa Lula Único se investiu da convicção inabalável de que a farda do Exército seria impermeável aos esgotos morais que infestam a periferia carioca. Mas não ficou nisso e foi além: em nome do "social", que tudo justifica, ele ungiu projeto do senador Marcelo Crivella, maioral da Igreja Universal do Reino de Deus, senador da República e um dos candidatos oficiais à Prefeitura da ex-Cidade Maravilhosa, permitindo que o Ministério das Cidades o bancasse e o da Defesa o protegesse.

... Dado o primeiro passo para a insensatez, os seguintes se tornaram inexoráveis: quem joga uma maçã no esgoto não pode esperar que ela seja retirada limpa e pronta para ser comida.

... A 11 dias da tragédia, o mandante das torturas e das mortes e seus executantes estão livres e comandam o tráfico na favela. A polícia fluminense, tão diligente em acusar os militares que entregaram as vítimas aos algozes, não prendeu nem processou o chefão do tráfico e seus esbirros. O ministro da Defesa subiu o morro para pedir desculpas, expediente grato ao atual governo e ao qual também apelaram os protagonistas militares, com idêntico oportunismo. O ministro da Justiça não perdeu a ocasião de bajular o chefe, dizendo que Lula se opunha a usar o Exército no combate ao tráfico. E este agiu como se fosse um ombudsman ao classificar de 'injustificável' a presença das tropas sob seu comando no morro, além de ter prometido indenizar as famílias das vítimas, como se o vil metal bastasse para limpar a sujeira e a sangria desta tragédia impune e anunciadíssima."

Para ler a íntegra, clique aqui.

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June 24, 2008

Chica chica boom

Vamos mesmo de vento em popa. Olhe só o que informa a Veja Online:

"A América Latina é a terceira região do mundo onde houve o maior avanço no número de milionários em 2007, com o Brasil na liderança. É o que aponta o estudo World Wealth Report (Relatório de Riqueza Mundial), uma parceria entre o banco americano Merrill Lynch e a consultoria de informática Capgemini, divulgado nesta terça-feira. De acordo com o estudo, o mundo tem mais de 10,1 milhões de milionários, o que representa um aumento de 6% em relação a 2006."

Óbvio que os números estão subestimados. Imagine se o pessoal declarasse o que realmente ganha e o que tem escondidinho lá fora. China e Índia ficariam comendo poeira. Brasil, êêêêooooo!!!

O engraçado é ver que a América Latina é a mesma região que abriga, no Paraguai, um presidente com o lindo nome de Nicanor Frutos que não consegue sequer renunciar. Também estão por aqui o casal Kirchner, da Argentina, cujo mérito é fazer lambança em parceria.

Há o Evo Morales, da Bolívia, nacionalizando até sua santa mãe, além do venezuelano Hugo Chávez e do equatoriano Rafael Corrêa, dois que só deixaram de gostar dos narcotraficantes quando viram que a coisa ficaria feia para eles próprios. O nicaraguense Daniel Ortega, pelo jeito, continua ligadão nos amigos bons de coca. Álvaro Uribe, da Colômbia, tem de brigar com todos esses fanfarrões e, quando sobra tempo, olha para um país dividido entre as Farc e outros traficantes.

Existe ainda Fidel e Raúl Castro, com a valorosa versão caribenha da Albânia. Os índices educacionais e de mortalidade de Cuba são excelentes, mas duvido que alguém lá confesse ser milionário. O uruguaio Tabaré Vasquéz, que esteve com os irmãos castristas há poucos dias, preocupa-se com o fato de sete em cada dez alunos do ensino fundamental terem ingerido alguma bebida alcóolica e com o ingresso do México, de Felipe Calderón, no Mercosul. Calderón, pelo jeito, entrou no clima dos sulistas _ anda defendendo mais intervenção do Estado na economia.

Alan Garcia, do Peru, gasta tutano com os compatriotas que estão na Europa e saliva para provar que os tais índios isolados eram armação. Em Honduras, Manuel Zelaya ainda retira corpos do último furacão.

Sobra a presidente do Chile, Michelle Bachelet, que enfrenta milhares de pessoas que protestam contra as mudanças na área educacional.

E tem o Lula.

Sobre o presidente brasileiro, todavia, estou cansada de falar. Recorro à Agência Brasil:

"Um relatório sobre governabilidade, divulgado hoje (24) pelo Banco Mundial (Bird), mostra que diversos países em desenvolvimento conseguiram ganhos importantes no controle da corrupção. Alguns, inclusive, conseguiram alcançar níveis de países desenvolvidos na performance geral dos indicadores de governabilidade.

... O estudo mostra que alguns países em desenvolvimento, como Chile, Uruguai, República Tcheca e Hungria, alcançaram índices melhores do que países industrializados, como Grécia e Itália.

... O Brasil não apresentou mudanças significativas nos indicadores, registrando pequena piora em quatro aspectos, em relação a 2006: grau de participação dos cidadãos, regime de direito, estabilidade política e controle da corrupção. Nestas duas últimas categorias, o país registrou os seus piores resultados."

Shakespeare tinha razão. Há mais coisas entre o céu e a terra do que eu e você podemos supor.

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Joga a lona e cobre. É circo.

Comprou um nariz de palhaço? Não? Vá buscar o seu. A menos, claro, que você seja integrante da República de São Bernardo.

Manchete da Folha de S.Paulo:

"A Presidência reconheceu que o advogado Roberto Teixeira esteve pelo menos seis vezes no Palácio do Planalto com Luiz Inácio Lula da Silva, seu compadre, desde 2006, em encontros não registrados na agenda pública do presidente.

Teixeira é acusado de usar sua influência junto ao governo para aprovar a venda da VarigLog para o fundo americano Matlin Patterson e três sócios brasileiros, que o contrataram.

Ao menos dois desses encontros estão relacionados diretamente com o negócio, aprovado pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) em junho de 2006. No mês seguinte, a VarigLog adquiriu a Varig. A assessoria de Teixeira diz que as demais visitas foram apenas de cortesia ao amigo Lula.

... O Planalto argumenta que nem todos os compromissos do presidente são divulgados."

Também na Folha:

"Em entrevista à Folha na semana passada, Teixeira havia dito que os contatos com Lula foram poucos: 'Nos últimos cinco anos e meio, os momentos que tive com o presidente foram raros. Os meus raríssimos encontros com ele são mais pessoais'."

Certamente que não. Só ficamos sabendo os resultados dos encontros quando os negócios são fechados. A cortesia oferecida ao presidente, aliás, também é desconhecida do grande público. Nem adianta perguntar para o "Papai" qual seria, uma vez que ele parece, hum, digamos, pouco amigo da verdade.

Uma das cortesias, aliás, a Folha pode ter revelado:

"O psicólogo e empresário Marcos Claudio Lula da Silva e o publicitário Sandro Luis Lula da Silva, filhos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, abriram uma empresa de tecnologia da informação cuja sede é um imóvel que pertence à empreiteira Mito Empreendimentos, fundada pelo advogado Roberto Teixeira e hoje registrada em nome da mulher e da filha do advogado, a advogada Valeska Teixeira Zanin Martins.

O advogado e o Palácio do Planalto, procurados, não comentaram o assunto."

Enquanto Roberto Teixeira ganha seus US$ 5 milhões (como admitiu depois de dizer que tinha recebido só R$ 350 mil), a Folha informa:

"Apesar dos altos gastos da VarigLog no pagamento de honorários de advogados e despesas processuais, a empresa enfrenta dificuldades financeiras e acumula cerca de R$ 204 milhões em dívidas.

... Segundo o relatório, o principal passivo da companhia é com fornecedores brasileiros, de R$ 73 milhões. As dívidas tributárias vêm em segundo lugar, com um total de R$ 65,8 milhões entre débitos de FGTS, Pis/Cofins, INSS e ICMS."

Você sabe quem cobre o buraco nas contas da previdência, não é? E isso é só a VarigLog. Olhe a Varig:

"O STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que irá julgar o imbróglio sobre as dívidas trabalhistas da velha Varig, a parcela da empresa que permanece em recuperação judicial, com dívidas de mais de R$ 7 bilhões."

Uma beleza. De quem será o prejuízo? Certamente de ninguém que tenha Roberto Teixeira, o ás, como advogado.

Fiquei rouca de falar sobre o absurdo do caso BrOi, a Telezona, criada mesmo sem a lei permitir, em vários posts. Também escrevi um bocado sobre a Varig e o Aerus, como você pode ver aqui, por exemplo.

Qual será a próxima negociata fechada a partir do jeitinho? Varig e BrOi, infelizmente, ninguém mais lê. Hoje haverá uma grita, que passa em cerca de horas. O governo aposta na espiral do silêncio. Tem tudo para ganhar.

E o nariz, está com você? Então, vamos lá. "Hoje tem marmelada? Tem, sim, senhor!"

Postado por Janaína Leite às |