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August 26, 2008

Fortuna

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Uma pitada de surreal

O conto que segue, "A Cartomante", foi escrito por Murilo Mendes há 75 anos.

"Minhas pernas circulavam num céu de sabão, quando uma mulher que de tão morena parecia a estátua da Fatalidade plantou-se diante de mim. Imediatamente nasceram dois baralhos de suas mãos. Diversos senadores, choferes, estudantes, operários e o núncio apostólico suicidaram-se na frente dela. Eu também devo ter me suicidado, só que o poeta é o tipo do sobrevivente. Ela ainda agarrou pela aba do roupão o banhista José, mas o herói deslizou na primeira onda de som e caiu no mar. A mulher soltava mentiras a todo instante. Cada vez que ela soltava uma mentira, nascia uma roseira. Em breve a praça tornou-se coalhada de roseiras com seus cinemas, suas confeitarias, seus bordéis, seus anúncios luminosos, seus bancos, suas guilhotinas. Os peixes cintilavam no céu, e, movendo graciosamente as barbatanas, faziam vibrar a música das esferas. Diante do espetáculo da ordem da criação, meu espírito bárbaro levantou as camadas de sífilis e de pesadelo que me legaram os retratos de meus avós cretinos, e gritou diante do mar coalhado de paquetes:

'Mulher que pareces contemporânea do primeiro tempo do espírito, explique-me, ô anjo máquina de costura-caos, por que existe um limite para a desarmonia; por que os anjos não atropelam os geômetras na rua; por que os capitalistas nas suas casas; por que as diabas-antenas não atropelam os músicos nas suas cabeças; por que a minha namorada não me matou'.

Aposto um mamão contra a eternidade que a mulher ia responder; mas um aeroplano que passava atirou uma bomba de tinta Eureka na cabeça dela. O ar ficou tão lavado e transparente que eu pude distinguir com nitidez a linha que vai do equador ao pólo; em cima dela um japonês se equilibrava, jogando bilboquê com a cabeça de um chinês."

Mais do autor aqui.

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August 21, 2008

Constatação 2

Acabo de voltar do hospital pela segunda vez em dois dias. Crise alérgica com perda de capacidade respiratória. Lá na emergência, tomando corticóide na veia, de súbito veio a luz nas palavras de Lame Deer. "Ser um curandeiro significa estar exatamente no meio da confusão, e não defender-se dela". É isso aí.

Tive uma proposta de emprego. Vou aceitá-la. O Arrastão é incompatível com o que vou fazer daqui para diante. O blog torna-se, a partir de hoje, um espaço restrito a textos ficcionais, como os seguintes versos de Goethe:

"E enquanto não tiveres passado por
Isso: morrer e assim nascer,
És apenas hóspede perturbado
Na terra sombria."

Um beijo para você, leitor. E obrigada por tudo.

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August 19, 2008

A arte da memória

Se você gosta de história, filosofia, teologia ou ciência, dê um pulo no site da revista New Yorker e leia o artigo "The Forbidden World". O texto, em inglês, é sobre Giordano Bruno, padre italiano condenado à fogueira pela Inquisição no século XVI.

Entre outras coisas, Bruno dizia que habitamos um dos infinitos mundos e que as estrelas têm diferentes grandezas e não são fixas. Suas idéias, consideradas heréticas, influenciaram Galileu e Espinosa, por exemplo.

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A arte da memória

Se você gosta de história, filosofia, teologia ou ciência, dê um pulo no site da revista New Yorker e leia o artigo "The Forbidden World". O texto, em inglês, é sobre Giordano Bruno, padre italiano condenado à fogueira pela Inquisição no século XVI.

Entre outras coisas, Bruno dizia que habitamos um dos infinitos mundos e que as estrelas têm diferentes grandezas e não são fixas. Suas idéias, consideradas heréticas, influenciaram Galileu e Espinosa, por exemplo.

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Voto

Concordo com João Pereira Coutinho. Ele escreve hoje, na Folha de S.Paulo, sobre voto obrigatório:

"Só uma vida examinada vale a pena ser vivida? Os gregos, pela boca platônica (na "Apologia"), acreditavam que sim. Mas os gregos acreditavam em mais: acreditavam que a vida pública era marca suprema da excelência. Os homens podem ocupar-se dos seus assuntos pessoais e privados. Mas a recusa em votar, em discursar, em interessar-se pelos assuntos da cidade, revelava não apenas egoísmo ou ignorância. Essa recusa cobria o abstencionista com um manto de imoralidade e infâmia. Os gregos, aliás, tinham uma palavra bem expressiva para essas tribos: 'idiotai'. Não é difícil imaginar a evolução da palavra nos tempos futuros.

Foi o cristianismo que quebrou esse "absolutismo democrático" ao introduzir um espaço íntimo, pessoal, intransmissível, palco da minha consciência. A Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Ou, por outras palavras, um ser humano não se define, apenas, pela vontade em participar nos destinos da cidade terrestre. Existe uma relação fundamental, e talvez superior, com os mandamentos da cidade celeste. Involuntariamente, o cristianismo promovia a liberdade individual ao apresentar aos homens não apenas um caminho, mas dois: o caminho público e o caminho privado.

... Pessoalmente, creio que a verdadeira legitimidade de qualquer eleito só existe quando o voto foi uma opção pessoal do eleitor, não uma exigência do sistema. A autonomia valoriza o ato. Mas também valoriza, como Kant relembra, as conseqüências do ato.

Os gregos admiravam a vida pública sobre qualquer outra. E reservavam o rótulo de 'idiotas' para quem discordava. Não é grave, leitores, não é grave. Ontem, como hoje, melhor ser 'idiota' do que escravo."

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August 17, 2008

Pais

Folha de S. Paulo, reportagem de Laura Capriglione: "Publicitária que foi alvo de atentado quer rever o pai". A seguir, alguns trechos:

"Vítima de atentado contra sua vida -um tiro na bochecha, outro logo abaixo do nariz (a bala ficou alojada na coluna vertebral) e outro no pulso esquerdo-, cometido por um homem vestido de Papai Noel a cinco dias do Natal de 2001, a publicitária Renata Guimarães Archilla, 29, desde logo teve a certeza de que os mandantes do crime foram seu pai e avô. No dia 12, os dois, que alegam inocência, foram presos em São Paulo. A jovem sobrevivente, depois de se submeter a oito cirurgias reparadoras (chegou a ter a morte anunciada em virtude de complicações), ainda manifesta o desejo de se encontrar com o pai, Renato Garembeck Archilla, 49, para lhe perguntar: 'Por quê?'" "Por quê? Eu sei que ninguém pode ser obrigado a amar ninguém. Mas eu nunca fiz nada de mal para você. Eu nunca fui à sua casa para ofender. Por que você fez isso comigo?"

"...Eles se conheceram no Guarujá -mamãe tinha 17 anos, ele, 19. Meu pai sempre mandava flores. Ele a chamava de 'Prin', de princesa, escrevia cartas de amor derramado. Tinha acabado de entrar na Fundação Getúlio Vargas e ela estava fazendo cursinho... Para driblar a oposição paterna, ele teve a idéia: como meu avô tinha muita vontade de ter um neto, seria uma boa minha mãe engravidar. Uma vez confirmada a gestação, eles chegariam com a 'feliz notícia' e tudo se resolveria. No dia 31 de dezembro de 1978, meu pai levou minha mãe a um hotel para a primeira noite deles."

"... Já com a gestação avançada, uma vez a minha mãe viu meu pai dentro de um [carro] BMW, parado em um semáforo da rua Augusta. Correu para falar com ele, que fechou o vidro. O farol abriu. Ele arrancou. Mamãe ficou plantada na rua."

"Quando nasci, no dia 15 de agosto de 1979, às 22h35, no Hospital São Luiz, minha mãe estava cercada pela sua família e amigos. Meu pai não apareceu."

"... Então, minha mãe telefonou para o meu pai. Perguntou-lhe se já sabia da novidade. 'Não'. Pedi para falar com ele. 'Eu não tenho filha.'"

"... Meu pai sentou-se à minha esquerda e minha mãe, à direita. Foi a única vez em que tive os dois ao meu lado.
Tiramos o sangue. O médico pediu que eu escrevesse meu nome no meu tubinho de sangue, que minha mãe escrevesse o nome do meu pai no tubo dele, e que ele escrevesse o nome da minha mãe no tubo dela. Era para que ninguém suspeitasse da troca dos tubos de sangue. Então, ele se virou para minha mãe e perguntou: 'Como é mesmo o seu nome?' Iara Lucia Chinaglia Guimarães, respondeu minha mãe, que logo emendou: 'E o seu, como é?'. Ela não ia ficar por baixo. Foi por muito pouco que eu não perguntei: 'E o meu mesmo, como é?' Quando saí da Pro-Matre, chorei, chorei."

"... Eu tentava tranqüilizá-lo: ele não precisava me amar do dia para a noite. Eu só queria conhecê-lo. Ele me perguntava, por exemplo, se eu já havia visto o nascimento de um potro. 'Não? É a coisa mais linda e mais emocionante que já vi na vida. Um dia levo você na fazenda, para ver como é lindo.'"

Renato Archilla é mesmo o culpado? Não sei. Espero que não. Mas eu gostaria de dizer para Renata que alguns pais matam pela ausência. Outros fazem o mesmo ao ficarem por perto.

Desejo a ela um futuro muito, muito feliz.

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August 14, 2008

Constatação

Machado de Assis, em "O Velho Senado":

"Não se admire, portanto, o leitor se não lhe dou notícias políticas. Política, como eu e meu leitor entendemos, não há. E devia agora exigir-se de um meiro o alcance do olhar da águia e o rasgado do seu vôo? Além de ilógico fora a crueldade. Estamos muito bem assim; demais, não precisa o Império de capricórnio."

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O Cavaleiro Inexistente

batmanbegins1.jpg

Sei que demorei a escrever, perdoe-me. As horas andam líquidas além do normal, escorrem sem que eu perceba. Aliás, nunca fui boa com medidas _ sofro de incapacidade crônica quando o assunto é calcular passagem do tempo, distância ou conseqüências.

Continuo a evitar análises cotidianas. Pesaria a mão se o fizesse agora. A guerra continua solta e, depois da bagulhada, a imparcialidade de todos foi para as cucuias. Inclusive, claro, a minha.

"Não há veneno pior que o das serpentes; não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão, que morar com uma mulher maldosa."

Eclesiastes, mas pode ficar com Nietzsche, se preferir. Dá na mesma.

Que bichos estranhos, os homens. Aos bandos são insuportáveis, totalmente sem condição de pensar por si mesmos. Sozinhos, escolhem uma persona, mascaram-na de conduta, e dela não se desgarram. A certeza é a substituta do peito da mãe, vai alimentá-los e acalmá-los pelo resto da vida.

O Batman dos cinemas, por exemplo, poderia ser alvo de horas de digressão. Prefiro, no entanto, falar do comissário Gordon, a figura mais interessante do filme.

("Ah, não, é o Coringa!" OK. Heath Ledger era um dos homens mais bonitos e talentosos do cinema, e o mal, sabemos ambos, tem apelo. Acontece que todo mundo falou sobre o quanto ele está sensacional no filme. Eu concordo. Logo, para que repetir?)

Gary Oldman, o Gordon, também aparece magistral no raquitismo, nos óculos de míope, na voz arrastada, no bigode stalinista. É ele quem valida a raison d'etat, a lógica de que as ações do Estado não estão sujeitas às mesmas regras que os atos dos cidadãos e que, portanto, o vale-tudo é o único meio de se fazer justiça em Sodoma, digo, Gotham.

O comissário é a antítese do sertanejo _ antes de tudo, um fraco. Um coadjuvante de si mesmo. Sem ajuda não prende ninguém, não interroga ninguém, não salva ninguém. Mesmo assim, ganha palmas e promoções. Harvey Dent, o Cavaleiro Branco, consegue a condenação. Bruce Wayne, o bilionário, planeja e banca os meios para o plano ser levado adiante. Batman, o Cavaleiro Negro, realiza. Todos lindos, bem vestidos, admirados, desejados e imitados de algum modo.

Gordon... Bom, Gordon é feinho, pobreta, diletante e incapaz de identificar sequer os corruptos de seu departamento que andam de braços com a máfia. Ele se contenta com o papel de abre-alas para Dent e Batman. Só o filho, Jr., vê alguma graça no velho comissário.

"Did Batman save you, daddy?"

"Actually, this time I saved him."

Rá. Mentira, mas ele acredita. Diga lá: se não fosse monitorarem todo mundo, o que seria de Gordon?

Enquanto o diálogo entre os homens da família Gordon acontece, a filha e a mulher do chefe de polícia estão amarradas e tremendo de medo, logo após terem sido ameaçadas por um maníaco desfigurado. Gordon pouco se importa: ele e o Jr. precisam ficar de olho é no Morcegão, a síntese de tudo aquilo que ele gostaria de ser e não é. Não é só o Coringa que precisa do Batman.

Ora, fácil perceber que o policial acomodou uma massa de bílis amarela e negra, encapada com fleuma, onde deveria colocar a pedra angular de sua personalidade. Raiva, ressentimento, impotência e inveja, tudo ali, guardado e escondido sob a aparente humildade. E é isso que ele está ensinando para o Jr.

"Y'see, madness, as you know, is like gravity. All it takes is a little...push."

Não é difícil imaginar que o Coringa tenha, um dia, sido Gordon, o Cavalariço.

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August 12, 2008

Páreo duro

charge_Mangabeira_c.jpg

A charge é do Mangabeira, sempre ótimo.

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Vampiro

Poderiam ser o tambores em torno da Petrobras, ou as polêmicas do boqueirão virtual, mas a verdade é que Monteiro Lobato riscou na memória por conta de uma reclamação.

"O diabo queira escrever forçado! É o mesmo que andar arcado. Nada emperra mais a pena, e tolhe tanto o correntio da frase, como sentirmos sobre os ombros alguém a espiar-nos."

Verdade. Há um monte de coisas acontecendo por aí e algumas, poucas, valeriam comentário. O problema é que não tenho vontade de escrever sobre. Só consigo pensar em outra coisa: o morcego que invadiu a casinha de barro há algumas noites, enquanto eu, deitada, sozinha e à luz da vela, lia histórias da Companhia de Jesus.

Naquele momento, inesquecível, enfiei a cabeça sob o cobertor e torci, com a imaginação virada em Blake, para que o bicho parasse de dar rasantes perto de mim.

O diabrete, educadíssimo, atendeu. Pendurou-se de ponta-cabeça no gancho do teto, exatamente em cima da minha cabeça, trinta centímetros de envergadura recolhidos até o próximo vôo.

De modo que não tinha jeito, era preciso levantar. O andaraí enlouqueceu ainda mais. Passou a voar, aos guinchos, pertinho do meu ombro e dos meus cabelos. Nem sei de onde tirei calma suficiente para procurar os tênis, a corrente do portão, o cadeado e a blusa, necessários para sair em trilha noturna na busca de ajuda.

Meio do caminho, Fortuna descuidou-se e a lanterna pifou. Céu sem estrelas. O chão, lama pura. Breu, no meio da mata Atlântica. Barulhos de todos os bichos. Seguir ou voltar?

"Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre."

"Confúcio, meu filho, está certíssimo." Voltei. Como tinha percorrido o caminho há dois minutos, aclives e declives estavam frescos na memória, bem como as histórias do padre Abarébebê, que me precedeu na difícil arte das viagens e do autocontrole.

Entrei de novo na casa atrás de velas e fósforos para iluminar meus nervos. O pequeno Mefistófoles, persistente, continuava por lá. Voltou a se debater em torno de mim.

Confesso que aí minha porção Lilith já estava gostando da brincadeira e pensava que aquela coisinha nojenta bem que poderia se transformar num vampiro bonitão disposto a partilhar uma taça de vinho e boa conversa antes de se atracar com meu pescoço.

Os pensamentos ímpios me salvaram. Foi assim que, obsessa e digna, cheguei na casa da professora. Moradora há 15 anos do local, a moça contou sorrindo: o morcego é velho conhecido de todos eles. Eu é que tinha invadido a casa do Vlad, veja você.

Tudo, meu caro, é questão de perspectiva.


PS: O único perigo, esclareceu a professora, é que eu tenha sido mordida, pois o danado é transmissor da raiva e seu roçar de dentes é tão leve que, muitas vezes, o atacado nada sente (ou não demonstra que sente). Tenho algumas marcas na carótida (adoro tal palavra) e no pé. De lá para agora, porém, estou louca de calma. Se, contudo, ficar agressiva nos próximos dias, o motivo consta explicado.

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August 06, 2008

Breve despedida

Leio o jornal, última atividade citadina antes de voltar para o mato, meus botões conversados com os do Rosa:

"Tivesse medo? O medo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha."

É mesmo, seu moço. Cuide. Quem muito quer saber, esconde. Afinal, o senhor sabe: "viver é etcétera".

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August 03, 2008

Secos Mutantes Molhados





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Os mais iguais

Os jornais revelam dias parmenídicos. Melhor ler algo atemporal, como "A Revolução dos Bichos", de George Orwell.

"Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas. em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa. Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS

MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS
IGUAIS DO QUE OS OUTROS
Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas."

Para ler o livro inteiro, aqui.

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Os mais iguais

Os jornais revelam dias parmenídicos. Melhor ler algo atemporal, como "A Revolução dos Bichos", de George Orwell.

"Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas. em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa. Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS

MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS
IGUAIS DO QUE OS OUTROS
Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas."

Para ler o livro inteiro, aqui.

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August 02, 2008

La Quebrada

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Os hunos 5 - As férias

MANU: "Minha ligação com a mata é tão forte que preciso de um filtro para não me perder em suas pequenas maravilhas."
JANA: "Que lindo isso, minha filha. E que filtro é esse?"
MANU: "Raid e repelente."

- * -

MANU: "Mamãe, tem um bicho ENORME aqui dentro."
JANA: "É um grilo, Manu. Só espantar."
MANU: "Eu me recuso. Ele é muito feio."
JANA: "Sinto informar, então, que ele e a feiúra continuarão aí."
MANU (resmungando para o grilo enquanto tenta conduzi-lo para fora da casa): "E ainda brigaram com o Pinóquio quando ele não te deu bola..."

- * -

JANA: "Você deixou a mochila arrumada para a trilha de amanhã, neném?"
MANU: "Sim, sim."
JANA (uma sobrancelha erguida): "Estou falando da mochila, espertinha. Frasqueira cor-de-rosa, a história da Gucci e batom não são coisas necessárias para andar no meio do mato."
MANU: "Claro que são! É uma questão de natureza."
JANA: "Não diga! De natureza, é?"
MANU: "É, mamãe. Da minha."

- * -

MANU: "Mamãe, a senhora não está medo de dormir aqui, nesse breu?"
JANA: "Não."
MANU: "Pode me explicar como isso é possível?"
JANA: "Penso no Oliver Sacks."
MANU: "E quem é esse?"
JANA: "Um neurologista famoso, ótimo escritor, que relata casos incríveis relacionados ao funcionamento do cérebro. Lembro de o Sacks ter explicado, certa vez, que os homens são seres emocionais, cuja visão depende, entre outros fatores, da predisposição. Em outras palavras, numa situação como a nossa a pessoa pode se condicionar para ver certas coisas, caso fique pensando muito nelas. Entendeu?"
MANU: "Entendi. Vou concentrar todo o meu emocional no Brad Pitt."

- * -

Depois de ler os diálogos acima, creio que é fácil entender por que bastou ela pedir uma vez para eu voltar correndo. Fico por aqui nos próximos dias.

Beijo para você.

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July 28, 2008

A aranha e a teia

Escrevo rápido, sem revisar o texto, que sai meio como estou agora, afogueada e com cheiro de sal e pimenta, depois de caminhar sobre pedras por mais de hora. Tudo para escrever uma única frase: você me faz falta.

Onde estou não tem internet, nem telefone. Apenas aranhas, das mais variadas formas, falam comigo. Muitas teias foram tecidas com essas conversas nos últimos dias, mandalas finíssimas, etéreas, por entre plantas e velas. Não há luz elétrica, só água fresquinha. Durmo ao som de pequenas cachoeiras e o mar está à distância de uma sombra.

Além das aranhas há duas gatas, uma preta e uma malhada, e um cachorro magrelo, de olhos caídos, que me segue por todos os cantos. As gatas, não. Só ficam por perto quando acham que não as vi. Parecem as crianças da região nos primeiros dias; olhavam para a casinha como se feita de doces. Agora, qual!, desavergonharam. Surgem do mato todos os dias para trançar meus cabelos enquanto leio.

“Vai escrever sobre mim, tia?”
“Vou. Vai lembrar de mim quando for grande?”
“Vou.”

Talvez as crianças sejam mesmo gatos. A que saiu de mim é. No fim, vivemos todos de promessas.

Estranho o mundo. Assim, na tela, parece tudo idílico, urobórico, vida plena como se fosse uma linda trilha sonora, como a de "Amélie Poulain", que toco sem parar dentro da minha cabeça.


Bobagem. A ausência é a parte mais la(c)tente de mim, uma teia pegajosa de passado e futuro a atrapalhar o presente. O café quentinho na caneca esmaltada queima as pontas dos dedos.

O problema é platônico: a verdade é inexprimível.

Diga, pois, se não é ridículo tantos se arvorarem Senhores dela. Verdade, amor, ódio, desejo, medo, humilhação _ cada um desses conceitos-sentimentos-sensações não passa de uma porta para o inconsciente. Do indivíduo e do coletivo.

Pensei tanto sobre o jornalismo nos últimos dias. Muitas coisas. Outra hora detalho. Neste momento, basta dizer que me convenci da inutilidade da notícia (e, por conseguinte, da minha própria). A compreensão que o leitor terá de determinado fato é um decalque da subjetividade dele, não da minha. Ele não tem instrumentos para “ler” do mesmo modo que eu.

Estou sendo hermética? Perdoe-me. Talvez seja melhor exemplificar. Quando leio uma notícia n’O Globo, por exemplo, lembro que seus donos são sócios de Carlos Slim, o dono da Embratel. Também lembro que as Organizações fizeram negócios com a Telecom Itália e muito dinheiro sumiu nessa lambança, um dos assuntos que estava sendo visto pela Procuradoria de Milão naquele inquérito que corre lá na Itália. Aí eu recordo que o pessoal do Globo quer comprar O Estadão, que ninguém sabe quem quer vender, e é sócio da Folha de S.Paulo no “Valor Econômico”, jornal que sempre teve ótimas relações com a Telecom Itália. A Folha também é sócia da Portugal Telecom no UOL. A Portugal Telecom, por sua vez, tem como acionistas importantes a espanhola Telefônica, a mesma que manda na telefonia de São Paulo, que é dona do Terra, e que recentemente fez negócio com a Abril, editora que recebeu um aporte grande de um fundo estrangeiro. Esse negócio foi intermediado pelo Citigroup, acionista da Oi (ex-Telemar) e da Brasil Telecom, controladora do iG. Impossível esquecer que das duas empresas participam os fundos de pensão, os mesmos que teriam os caixas sangrados em R$ 730 milhões para favorecer partidos políticos, vide CPI dos Correios, e que teriam sido usados pelo governo para pressionar o Citi, segundo e-mails trocados entre gente graúda do banco, contidos num processo que era movido em Nova York e que, hoje, não tenho a menor idéia de que fim deu. Óbvio que não é só o Citi, todos os bancos têm relações próximas com os veículos de comunicação, bem como com os sindicatos e movimentos sociais _ Bradesco, Unibanco, Itaú... os banqueiros têm seus preferidos. E o Banco do Brasil, claro, esse um capítulo per si. Ah, e as agências de propaganda, e o pedágio dos grandes negócios, as empreiteiras, os financiadores de campanha, as brigas e vaidades nos bastidores dos negócios e do jornalismo.

Tudo isso eu levo em consideração quando leio as notícias. “Isso” sou eu. De que adianta ficar me debatendo para que todos as compreendam do mesmo jeito? Ridículo. Equivale a dizer: “nos tempos do Império, ‘tigres’ cruzavam as ruas do Rio de Janeiro”. Só quem conhece um pouco da história daquela cidade, ou quem está interessado em aprender um pouco acerca dela, saberá que me refiro aos escravos que carregavam baldes de excremento na cabeça, das casas ricas até as fossas. Conforme andavam, a urina escorria em seu corpo como listras, daí a infâmia da alcunha.

“Simples, Janaína, explique o caso dos ‘leões’ como explicou o dos ‘tigres’ e todos poderão compartilhar do seu modo de ver as coisas”, dirá você.

Errado.

Ninguém grampeia meu telefone, nem estampa o nome da minha mãe num relatório de polícia, nem liga para minha casa ofendendo minha filha se eu falar dos 'tigres'. Eles são o passado. Inexiste jogo de quem lucra, de quanto lucra e de como lucra com o que mora nos arquivos de biblioteca. É até de bom tom que alguém jogue luzes sobre o que passou. Lidar com os leões é diferente. Eu não posso sequer dar feliz aniversário para alguém que merece ouvir, o Grande Irmão está ali observando meus passos. Palavras a mais podem significar milhões, bilhões a menos para alguém. Fique calada, Janaína.

De quem é a culpa? Deles?

Não creio. O Estado somos nós e se nós somos uns avacalhados _ e o somos, queiramos admitir ou não _ como ele seria correto e justo? Impossível. De tanto virarmos as costas para o Estado, ele vai nos consumir, impor sua presença, gargalhar diante da nossa nudez. E fará isso por meio de delegado, juiz, procurador, jornalista. Dos peões. Cortininhas ambulantes de fumaça, feira livre, tudo baratinho e fresquinho, meu senhor. Rá.

De quem é a culpa? Deles?

De novo, não creio. Acham que fazem o melhor. Um dia também pensei assim. Fui um deles. Sou um deles. Eles nunca me deixarão por inteiro. Acho que foi Dostoiévski que disse que cada um de nós é responsável por tudo para todos os demais.

A despeito disso, hoje advogo: tais profissões precisam de uma dose de ignorância atroz, pois o jogo se dá em outras esferas, é “atopos”, inclassificável. E ponto final.

Demorei mais do que devia falando nisso. Daqui a pouco vence meu tempo e há outra pernada considerável até a casinha de barro.

Já disse que o barro em questão é feito pelas saúvas? Elas mascam a terra e o resultado é uma argila vermelha, resistente, da qual é feita a maioria das taperinhas daqui. Boa metáfora para o que querem alguns leitores: que alguém masque os fatos para ele e ofereça uma massa uniforme que servirá à construção de sua casinha de conhecimentos. Bah! Como farei tal coisa se não nasci formiga, mas cigarra? Uma cigarra que lê no meio do mato, tantos livros, tantos livros.

Lá fui eu falar das mesmas coisas de novo, força do hábito. Será vencida, creia-me. Que idiotice é essa de ficar agüentando gente imbecil, que nem me conhece, a torturar quem amo? Não são, a rigor, ninguém. EU confiro importância às vozes que parecem grasnados digitados com seus erros de ortografia, de sentido e de julgamento. “Instinto de morte”, disse-me alguém versado nas coisas de Freud. É mesmo, tantos livros, tanto melhor, tantos livros.

Instinto de vida é beijo _ será que Freud disse isso também? E ficar sozinha dá uma vontade danada de ganhar um beijo. Mas não um qualquer, descuidado, sem pretensão. Falo daqueles beijos que começam muito antes de acontecerem, daqueles em que há o frio na barriga, daqueles em que os primeiros a se roçarem são os olhares, e o fazem com delicadeza, como as mãos do acordeonista que toca a música de Amélie, como as mãos de Hikmet quando escrevia seus poemas.

Que coisa boba escrever isso para você. Mas eu sou tão boba. Queria me tornar sabida a ponto de entender a Teoria dos Sistemas, aquela que explica como há infinitas variáveis e, logo, causa e efeito não podem ser separados. O Uno, a Mônada. O instante em que escrevo e beijo e penso e me despeço e solidão e esperança confirmam-se como únicos companheiros inseparáveis que conheci até hoje, 28 de julho de 2008, dia em que te contei: você me faz falta.

Mas eu vou demorar a voltar, pois também sinto muita saudade de mim mesma.

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July 17, 2008

Il Matto

il matto.jpg


“Ela não dá mais o ar da graça tão facilmente nos dias que correm, mas dizem que a Virgem, na Idade Média, surgia para conversar de quando em quando com alguém de coração puro: crianças ou loucos.

Minha ignorância não permite que eu forneça certeza sobre os motivos da escolha. Uns diziam que aqueles interlocutores eram os únicos capazes de amar sem esperar grande troca, assim como o Senhor recomendara no Sinai e ratificara na boca do Cristo. Outros, menos etéreos, atribuíam a escolha ao fato de que infantes e malucos, pela ingenuidade e pela inconseqüência, eram os únicos que se animavam a relatar a Verdade tal qual ela havia sido revelada. Creio que todos estão certos n’alguma medida.

Foi, pois, no tempo das Trevas que aquele dia transcorreu, repleto de cultos e orações dentro da Catedral, e de ofensas e pregões fora dela. No lusco-fusco, peregrinos se recolhiam e religiosos apagavam as fileiras de velas, quando de súbito um barulho foi ouvido perto da imagem de Nossa Senhora. O monge mais diligente agarrou-se ao castiçal e rumou para castigar o perturbador. Pelas sombras, o cretino gesticulava e dançava.

Ah, o sentimento ruim que se apoderou do monge ao ver o louco, deformado, pagão e maltrapilho, com suas bolas coloridas, a fazer malabarismos diante de olhos tão puros! Agarrou-o como a um selvagem e o levou ao prior. Este, porém, limitou-se a perguntar:

- Que era do teu comportamento, filho meu?

O Bobo, sem malícia, assim respondeu:

- Não tenho inteligência, nem riquezas, a única coisa que pude oferecer foram meus poucos talentos. Não me arrependo, senhor. Por um instante, Ela sorriu para mim.

Este é o último post que escrevo antes de viajar com minha filha por alguns dias. É a primeira vez em muitos anos que minhas “férias” coincidem com as dela. Assim, o cãozinho da prudência mordeu meu calcanhar _ primeiro as coisas primeiras. Espero que, como dizem os italianos, sejamos como “Il Matto in Tarocchi”.

Que você fique bem, alinhado ao seu “puer aeternus”, seja ele Parsifal, Mishkin, Puk, Peter, Edgar, Arlecchino. Que, como ele, mantenha seu coração como uma bolsa cheia de vento, pois o vento sopra e renova tudo, mas o que é bom, no fim das contas, resume-se ao que Darwin ouviu de uma menininha ao perguntar o que era felicidade:

- É rir, falar e beijar.

Amém.

PS: Aqui vai algo para entreter você na minha ausência, o livro "Mídia, Máfia e Rock'n'Roll", do jornalista Claudio Tognolli. Você pode baixar gratuitamente um exemplar aqui. Quem prefere cinema, poderá ver o lado destrutivo do arquétipo d'O Louco em Batman. "O Cavaleiro das Trevas" estréia na sexta. E se alguém quer apenas relembrar o encontro entre o proscrito e a Virgem, Esmeralda canta em Notre Dame.

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Enquanto isso...

Lula e Protógenes, FHC e Dantas, Greenhalg e Gilberto Carvalho, PF e Abin, Gilmar e De Sanctis, MI-6 e Congresso, Reinaldo e LN... Tudo isso você acompanha querendo ou não. Mas o mundo não parou, melhor dar uma olhada.

Folha de S.Paulo:

"A operadora de telefonia Oi anunciou ontem que obteve empréstimo de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil para financiar a compra da Brasil Telecom. O negócio, anunciado em abril, ainda depende de mudanças na lei para ser efetivado.

... Desse total, R$ 5,8 bilhões serão pagos pelo controle da BrT. Outros R$ 3,5 bilhões farão parte da oferta pública obrigatória para aquisição de ações ordinárias dos minoritários -o chamado 'tag along'. Mais R$ 3 bilhões serão gastos na oferta voluntária para a compra de ações preferenciais da BrT.

... Em nota, a Oi afirmou que comprará a BrT com recursos próprios e que o empréstimo do Banco do Brasil 'constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos' que, em seguida, contará com 'emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú'.

... É o segundo financiamento de um banco público obtido pela Oi para a operação de compra da BrT, operação apoiada pelo governo federal sob o argumento de que o país precisaria de uma grande empresa no setor para concorrer com gigantes multinacionais como a espanhola Telefónica e a mexicana Claro. O BNDES já havia anunciado crédito de R$ 2,5 bilhões, com o objetivo específico de promover a reestruturação acionária da Oi -condição necessária para a compra da BrT." (Roberto Machado)

Na mesma Folha:

"Sergio Ramírez é um notável escritor nicaragüense, que se tornou revolucionário, lutou com a Frente Sandinista de Libertação Nacional contra a nefanda ditadura Somoza, elegeu-se vice-presidente e, afinal, rompeu com os companheiros, horrorizado com o nível de corrupção a que se dedicaram uma vez instalados no poder.

No auge do escândalo do mensalão, ele me disse uma frase que não me sai da cabeça: 'Se eu fosse presidente, antes da posse chamaria todos os parentes e amigos e lhes diria que, durante o meu governo, não poderiam fazer negócios. Nem negócios legais'." (Clóvis Rossi)

Seguido de:

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei que cria o piso salarial dos professores da educação básica (ensino infantil a médio). A partir de 2010, os professores da rede pública terão que receber, no mínimo, R$ 950." (Angela Pinho)

Por fim:

"NEM TODO MUNDO tem senso de humor. É como inteligência natural. Nem todo mundo é esperto. De fato, algumas pessoas são naturalmente obtusas.

Não significa que elas sejam de alguma maneira inferiores ou menos charmosas, bonitas, fortes ou bem sucedidas. Mas o fato é que os seres humanos têm diferentes talentos e diferentes capacidades. Essa é uma descoberta da vida, especialmente para os professores. Eu sei que mães relutam em aceitar esse fato com relação aos seus filhos, mas ainda assim é verdade." (Kenneth Maxwell)

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Coisas pequenas

Querido leitor,

claro que as coisas andam agitadas. Há vida além da internet, juro!, e minha pequena voltou para casa. Como ontem não passei por aqui, há muitos comentários para liberar. Não responderei num primeiro momento, mas é apenas para adiantarmos as coisas. Agradeço aqui a todos os que escreveram e reitero que são sempre bem-vindos no Arrastão.

Deixo vocês com Madredeus.

Um beijo,
Jana




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July 16, 2008

Nunca

Desculpem o sumiço. Ontem, minha filha chegou de viagem depois de duas semanas. Como toda huna, ela adora seriadinhos de TV, especialmente aqueles do tipo Law & Order, CSI etc. Confesso que também gosto (menos do CSI Miami, onde os cadáveres e os investigadores partilham das mesmas cores anos 80).

Tem uma coisa, porém que sempre me encafifa: por que as pessoas que morrem nunca deixam dicas mais óbvias para o pessoal que terá de procurar sua causa mortis?

Eu, por exemplo, teria uns dez itens de coisas escritas n’algum canto, tipo a lista do NUNCA. Mais ou menos assim:

1) Nunca me mataria. Tenho uma filha linda, que já deu sentido a ela. Portanto, estou por aqui fazendo hora. Mas jamais, nunca mesmo, faria sofrer as pessoas à minha volta.
2) Se me encontrassem asfixiada nunca seria por gostar de sexo com travesseiro na cara. Marcas de tortura de qualquer gênero deveriam ser encaradas como isso mesmo: tortura. Eu nunca apanharia por vontade própria.
3) Eu não uso drogas. Nunca morreria de overdose. Se acontecesse, teria sido induzida ou forçada.
4) Não ando em quebradas. Se encontrassem meu corpo muito distante do perímetro onde moro, pode saber: alguém fez aquilo.
5) Não tenho dinheiro, nem carro. Morrer num tiroteio no ponto de ônibus até que é provável, bem como ser atropelada etc. Mas é outro risco que não corro, pois minha disposição é mínima. No momento, nunca morreria disso também.
6) Adoro pedir comida pelo telefone. Mas estou na casa da minha mãe e ela não deixa. Veneno, então, nunca seria algo natural. E, como aos 35 o corpo ainda não precisa se preocupar com doenças crônicas do coração, o médico deveria pensar nessa hipótese se dissessem que foi um ataque cardíaco.
7) Afogamento é algo impossível de acontecer num apartamento com o banheiro tão apertado. Nunca seria plausível.
8) Brigas passionais também estão descartadas. Nunca. Moro com minha mãe e minha filha _ as duas pessoas mais importantes da minha vida. Posso ficar brava de vez em quando, ser linha dura e tal, mas nenhum mal seria feito por mim para elas e vice-versa.
9) Há a zarabatana de curare, mas meus vizinhos de Pinheiros nunca teriam o hábito de usá-las. Se bem que, depois de tanto CSI, me sinto pouco inclinada a abrir a janela.
10) Sobra o incêndio, esse sim, plausível. Afinal, quem brinca com o fogo sai queimado, não? Mas eu não começaria. Eu nunca começo.

E agora, leitor, você já sabe disso. Tomei muito do seu tempo, vou ali liberar os comentários e depois terminar meu frila. Ontem, a página estava dando problemas. Espero que hoje esteja tudo ok.

Beijos,
Jana

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July 15, 2008

Virei melô do Claudinho e Buchecha

E lá vem o Nassif descendo a ladeira com a tamanca na mão. Justo. Eu reproduzi a coluna na qual Mainardi ouviu de Otavio Frias Filho que ele é achacador, hora do revide.

O que está no relatório da PF:

PF Janaina 01.jpg

Pois bem. Aí vem Nassif e diz que eu era "informante" de Daniel Dantas. Bom, deixa eu ver se entendi: a super espiã aqui falava para o Dantas sobre notícias publicadas na internet sobre... Daniel Dantas. Claro, é o raciocínio lógico mais perfeito que existe. Supor que eu pudesse ter lido a notícia do Ucho e ligado para perguntar o que era aquilo é inimaginável. Que coisa.

Outra da PF é o diálogo mantido entre Janaína (sim, é óbvio que sou eu) com Daniel Dantas. Olhe como Nassif publicou o diálogo:


PF Janaina 02.jpg


Olhe como é o diálogo na íntegra:

160_161_manus.jpg

Pois bem. Eu tinha uma tese sobre a BrOi, a de que o modelo da operação levaria alguns sócios a ficarem com uma participação pequena, mas controladora. Para financiar esse controle eles teriam de endividar a operadora, a exemplo do que ocorreu com a gestão de Tronchetti Provera na Itália. Isso é errado? Eu deveria escrever sem checar? Não sei os motivos pelos quais a PF sabia que aí eu era Janaína e nas outras conversas não, uma vez que ela identificou o telefone no nome da minha mãe (sim, meus amigos, minha mãe apareceu no relatório).

Continuo. Outro trecho do relatório, página 157 (numeração manuscrita). Lá aparece um diálogo datado de 18/02/2008 entre Daniel Dantas e MNI. Fiquei pensando no que que isso quer dizer? Mulher Não Identificada? Vou ficar com Moça Não Identificada, é mais bonitinho. Se bem que, a partir de agora, você saberá que a MNI sou eu.

O resumo do diálogo analisado pelo agente da PF está aqui e aqui eu o explico frase a frase. Mas primeiro contextualizo. Um dia antes, 17 de fevereiro, houve o primeiro ataque a mim por parte de Luís Nassif, na palhaçada do tal "Dossiê Veja". Eu dei minha resposta.

(Colocaria link para o Nassif, se ele não tivesse limpado seu histórico.)

No dia seguinte, DD me ligou. Estava preocupado comigo, pois sabia serem injustas as acusações de que eu tinha usado meu cargo de repórter na Folha de S.Paulo para favorecê-lo. Seu conselho, como alguém mais experiente e que entendia dessa história, era que eu ignorasse os ataques de Nassif, pois havia algo estranho na motivação daquele dossiê, algo que ele não sabia dizer o que era, mas que não parecia bom, uma vez que estavam mirando em alguém como eu. E ponderou que ele próprio, DD, considerava a hipótese de que o dossiê estivesse ligado a interesses comerciais e, portanto, era uma briga que não valia a pena. Outro argumento usado por ele era o de que Diogo Mainardi, da Veja, tinha apoio institucional para entrar numa batalha desse porte, poderia pagar advogados. Eu, que tinha pedido demissão da Folha, não. Dantas me alertou ainda que seus inimigos fariam qualquer coisa caso se sentissem acuados e que ele já tinha sofrido muito pois seus adversários tinham a simpatia do Estado, ao contrário dele. Disse ainda que a guerra tinha ficado tão terrível que mesmo alguns de seus inimigos, os quais não tinham limites, não sabiam exatamente contra o que brigavam. O assunto já estaria nas mãos dos procuradores (Mainardi havia informado na coluna que mandara os papéis).

Eu disse a DD o seguinte: que não tinha o menor interesse de ficar brigando com alguém mais conhecido que eu. Por mim tudo tinha acabado, apenas respondi os ataques injustos que recebi (num tom bem educado até, como você pode ver aqui). Mas deixei claro que eu não tinha o que temer, pois nunca vendi matéria nenhuma, nem inventei nada, e portanto iria responder quantas vezes viessem para cima de mim. E, se não me engano, falei algo na linha de que o assunto das teles estava pegando fogo (por conta da criação da BrOi), ao que ele respondeu que eu deveria parar de insistir com o assunto da Telecom Itália (alvo das críticas de Nassif), mas que isso não implicava parar de escrever, eu podia falar sobre os assuntos que quisesse, Telemar, o que fosse.

Ora, eu sabia disso. Tanto que já vinha escrevendo contra a operação e continuei a fazê-lo.

Fiquei me perguntando os motivos pelos quais a PF teria se interessado por essa conversa. Simples, leitor. Naquele mesmo dia, eu escrevi à noite que o tempo esclarecia mais que os esforços, como havia me dito alguém de quem gosto muito, e que eu acataria o conselho. Sacou?

Sinceramente, quantas pessoas me falaram que eu não deveria brigar com Luís Nassif? TODAS. TODAS. Inclusive minha mãe, que hoje eu vejo estampada num relatório policial. Perdão, querida. A culpa é minha. Eu deveria ter ouvido você. E Dantas também.

Continuando o melô do Claudinho e Buchecha da PF ("quero te encontrar!"), outra parte onde a mamãe, coitadinha, aparece no relatório:

janaina3.jpg

Olhe nos meus arquivos (é, para o bem ou para o mal eu não apaguei nenhum dos meus textos). No dia 10 de abril, depois de a mulher de Nassif ter lançado dúvidas sobre mim, eu havia escrito um post desafiando Nassif a abrir seus clientes, contas, tudo, com direito ao acompanhamento de auditores e jornalistas. Está aqui, basta você conferir.

Recebi e retornei vários telefonemas aquele dia. Pelo jeito um deles foi para Daniel Dantas, com quem tive o diálogo acima: tudo isso era uma palhaçada - quantas vezes vou ter de repetir? -, e que ele mais do que ninguém sabia disso. Pois bem.

Mas agora eu entendi o segundo recado do que está aí: insinuam que minha mãe é minha laranja. Pois bem. Então aí vai o segundo desafio: VAMOS ABRIR A CONTA DA MINHA MÃE TAMBÉM? Inclusive os investimentos? Podem procurar bens em nome de toda a minha família e detodos os meus amigos. Nada encontrarão. Eu não tenho nada, nem eles, coitados.

Só tem uma coisa, PF. Eu quero ver a da família do Nassif. Ah, e pedir um favorzinho também. Será que vocês poderiam vazar a ligação em que Rodrigo Andrade me conta que avisou Nassif que não tinha dito coisíssima nenhuma para o juiz que eu era informante dele e que Nassif não tinha publicado? Nessa ligação, eu peço para Andrade me mandar o print screen. Veja você mesmo, clique aqui.

Afinal, a PF é para todo mundo. Não é?

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Relatório da PF - Operação Satiagraha

Eis não ter sido preciso muito. A íntegra do relatório da Polícia Federal, escrita no âmbito da Operação Satiagraha, foi divulgada no site Consultor Jurídico por Claudio Tognolli, clique aqui.

A parte que fala sobre a mídia está aqui.

Vou ler tudo o que está ali e converso com você depois. A princípio, numa leitura rápida, vi que há pelo menos um diálogo meu ali reproduzido. Quem achar outras citações, por favor, avise-me.

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July 14, 2008

McMáfia

Muito bom o Milênio, exibido pela Globonews na semana passada. O entrevistado é o jornalista britânico Misha Glenny, autor de "McMáfia - Crime sem fronteiras". Ele relata atividades criminosas em vários paises, inclusive no Brasil, que aparece na parte final do programa. Glenny destaca o aumento dos crimes cibernéticos entre os brasileiros e dá sua opinião sobre a polícia daqui:

"O sistema policial brasileiro é um desastre ambulante. Há uma proliferação entre as forças policiais, uma competição entre essas diferentes forças e, claro, há o problema da corrupção."


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A letra escarlate

Desde que estourou o escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, na semana passada, recebi alguns comentários escritos por pessoas dignas de uma educação da realeza. Coisas bonitas, na linha de “sua carreira acabou” e “encontro você no inferno”.

Isso mexe comigo, claro. E muito. Esta noite, por exemplo, sonhei que estava na Inglaterra de 1637 e havia sido condenada ao pelourinho por falar contra o governo e publicar, sem permissão, material dissidente. De repente, no meio do sonho, a acusação mudava: por conta de fazer mapa astral e de ler o tarô, vinham com dedo em riste acusando-me de posar de oráculo e de fazer previsões em benefício próprio. A expiação passava pela fogueira. A acusação era que, travestida de parteira, apelava para artes da bruxaria e sedução para dominar as pessoas. Por fim, o cenário mudava e eu era do serviço secreto. Como falava com certa facilidade com pessoas importantes, em qualquer horário e sobre qualquer assunto, até aconselhando se fosse o caso, minha sentença era a cadeira elétrica.

O problema é que, quando acordei, vi que não era sonho. Realmente fui colocada em um pelourinho eletrônico depois de escrever reportagens que feriram os interesses do governo. Eu realmente faço o mapa astral de todo mundo que me dá na telha, até de atores de Hollywood. A quantidade de gente, inclusive fontes, que fiz perguntar o horário de nascimento para a mãe é incomensurável. E eu realmente nunca fui uma pessoa formal _ brinco, aconselho, fofoco e dano a filosofar com qualquer um que tenha a bondade de falar comigo e de me tratar com atenção.

Esse jeito despachado já garantiu (e certamente continuará garantindo) umas boas vergonhas, mas também garante que eu tenha a capacidade de me colocar no lugar do outro e atue de forma desarmada. Também trouxe amigos maravilhosos, a quem eu decepciono com mais freqüência do que gostaria, embora se divirtam com meu jeito tresloucado, e boas propostas de emprego, algumas das quais recusei por achar que eram incompatíveis com a minha liberdade. Outras eu aceitei, como aquela da consultoria, feita por um estrangeiro com quem acabei namorando e de quem hoje sou amiga.

Certamente há quem critique o meu jeito, especialmente aqueles que têm a pretensão de ser a palmatória do mundo. Mas uma coisa eles devem admitir: não sou venal e minha paciência com joguinhos às escuras é mínima. (O céu explica, meu ascendente é Áries.)

Sendo assim, leitor, aqui vai o que você realmente precisa saber: a aparição dos jornalistas nessa história de Daniel Dantas não é gratuita. O fato de alguns nomes de jornalistas antes acusados, como o meu, terem sumido subitamente da listagem também não. Há um jogo pesado de recados nos bastidores (não só entre as partes aparentes, governo e Opportunity) e você, desavisado, acha que isso é notícia.

Minha dúvida é se a polícia está envolvida propositalmente no leva-e-traz ou se está sendo usada. Se grampos vazarem de forma descontextualizada e truncada por aí, saberemos.

No mais, chegou a hora de eu dizer o que acho da história toda ocorrida na semana passada. Daniel Dantas não deveria ter sido libertado pela segunda vez por Gilmar Mendes, pois a atitude do ministro realmente foi uma afronta ao Judiciário. O fato de a Globo cobrir a prisão do banqueiro não foi “espetaculosidade” coisíssima nenhuma, foi um furaço. E, principalmente, Dantas não tinha nada que dar sinal verde para seus emissários conversarem com delegados fora da delegacia, nem se valer de gente como Luiz Eduardo Greenhalg e Roberto Teixeira, credo.

(Dizem que Dantas é o maior corruptor do Brasil. Acho que é o pior, isso sim, porque sempre descobrem o que ele faz. Os maiores, e melhores, estão agindo com foto em coluna social.)

Por outro lado, que mal tem o advogado perguntar para a repórter que noticiou a história onde está o processo? Eu teria tido essa mesma idéia, é mais inteligente do que mandar um batalhão de pessoas para vagar nos tribunais do país inteiro. E que mal tem a repórter, questionada sobre seu trabalho, informar o número do processo? Por acaso vivemos em uma ditadura, onde as pessoas não podem constituir advogados para defender seus interesses?

Por fim, essa história de israelense espião e do Opportunity Fund rola há anos, desde que explodiu o caso Kroll. Por que, raios, representantes do fundo não chamam uma coletiva para explicar isso direito? Contem a história tintim por tintim. Mas não. Ficam aí tentando essas técnicas subreptícias, como levar delegado pra comer picanha. Dá no que dá. Jogam nas sombras igualzinho aos adversários.

A BrOi é um escândalo e todo mundo sabe disso. Mas ela significa apascentar o cumprimento da promessa de campanha e, na minha opinião, o primeiro passo para que a Portugal Telecom aumente sua relevância como player. Quem ganha com ela? E quem perde com ela? E com toda a história da prisão de Dantas, quem ganha e quem perde?

O que há no processo de Nova York contra o governo? E quem mais aparece nos autos? O que há no processo da Itália contra o governo? E quem mais está nos papéis de Milão? O acordo da BrOi está sendo fechado às pressas para impedir que esses documentos, os americanos e os de Milão, vazem por aqui?

O que há no relatório da Polícia Federal, fato específico e não genérico, no uso de empresas de prateleira apontadas no relatório? Quanto foi que o Opportunity perdeu com essa história e para onde foi o dinheiro? Há gente ligando para os investidores do banco e provocando fuga de recursos?

E, principalmente, o bilhete encontrado na casa de Dantas com o timbre do Waldorf Astoria era um lembrete de que há documentos em Nova York relativos a um encontro do presidente da República com representantes do Citigroup naquele hotel, em 23 de junho de 2004, fato noticiado por mim e Leila Suwwan na Folha de S.Paulo em 12 de maio de 2005, numa reportagem que jornalistas submissos ao governo tentam de todo o modo desacreditar?

Enfim, há pano para a manga. Polícia Federal, Ministério Público e Justiça deveriam olhar para esse tipo de coisa e não ficarem servindo de fontes para garotos de recado de chantagistas.

Pronto, amigos. Podem me mandar para o pelourinho, para a fogueira, para a cadeira elétrica. Revelem minhas conversas, distorçam o contexto, plantem provas, costurem a letra escarlate no meu peito. A minha carreira, como vocês bem observaram, acabou. Vocês só não contavam que meus valores são diferentes dos seus. A gente se encontra no inferno.

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July 13, 2008

Iron & Wine

Mixwit

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Resumo

dali-as-faces-da-guerra.jpg


Li os jornais, os blogs e as revistas. A imagem que melhor resume o que vi está aí em cima. Chama-se "A Face da Guerra", quadro pintado em 1940 por Salvador Dalí.

Surreal.

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July 12, 2008

Essência

Nelson Rodrigues, em "Muerte na passeata", crônica publicada n'O Globo (11/04/1968):

"Um tigre é sempre um tigre. Pode vir o mundo abaixo. Ele tem um elenco de instintos e daí não sai. Há de ser tigre do berço ao túmulo. Do mesmo modo, a cabra é uma cabra para sempre. E assim o bode de charrete, com sua barbicha flamenga e os chifres em caracóis. Só o homem pode deixar de ser homem, e repito: só o homem pode se desumanizar.

Coincide que nós vivemos uma época crudelíssima. Para preservar a sua humanidade, o sujeito tem de lutar, ferozmente, contra tudo e contra todos. E das duas uma: - ou cada um de nós constrói a sua solidão ou os outros os matam. (Alguém disse que os "outros" são nossos assassinos.) Vêm de toda parte as pressões que nos desumanizam. Há a manchete, o rádio, a televisão, o anúncio e, em suma, toda uma gigantesca estrutura que exige a nossa falsificação."

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Condomínio

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Ohio Improptu

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MAINARDI: Tenho como provar o que falei sobre Nassif

Eis que informações sobre o tal relatório da Polícia Federal que cita jornalistas começou a rolar na internet. Luis Nassif publicou que Diogo Mainardi, colunista da Veja, está entre eles.

Nesta manhã, a Veja que chegou às bancas trouxe a informação, assinada por Mainardi, de que Nassif teria sido desligado da Folha de S.Paulo após suspeitas de ter usado seu espaço naquele jornal para obter patrocínios de eventos organizados por sua empresa _ aquela mesma cuja dívida obteve perdão parcial do BNDES, mesmo sem garantias firmes.

Ora, eu não confio em Nassif e não gosto nem um pouco dele. Há alguns meses, o jornalista de serviços saiu por ai lançando dúvidas sobre minha lisura profissional. Tomou minhas medidas pelo seu metro, o que, claro, só poderia resultar nas baboseiras que falou.

Às claras o que está acima, informo que mandei um e-mail para Diogo Mainardi com duas perguntas. Eis as respostas:

JANAÍNA: Você pode provar o que disse sobre Luís Nassif? Como?
DIOGO: Como eu disse na coluna, Otavio Frias Filho, nesta semana, confirmou a história. E, claro, me autorizou a publicá-la.
JANAÍNA: O que tem a dizer sobre o relatório da PF, onde seu nome aparece?
DIOGO: Uma patetice. Uma fanfarronice. E um tiro no pé. O delegado listou um monte de jornalistas, gente de primeiro time, acima de qualquer suspeita. Nos últimos anos, amolei um bocado os inspiradores desse inquérito: Gushiken, Demarco, Lacerda e seus blogueiros achacadores. Vários deles me processaram e se deram mal. Agora estão tentando me condenar de outra maneira, mas vão quebrar a cara mais uma vez. O juiz De Sanctis nem levou em consideração essa palhaçada.

Eu não vi o relatório, só rumores. Se os nomes que ouvi forem confirmados, lamentarei pela polícia, pois são profissionais da imprensa de primeira, que nada têm a ver com o pato.

Se você quer ler uma análise realmente interessante sobre o embate entre Luís Nassif e Diogo Mainardi, vá ao site de quem entende do riscado: Gravataí Merengue , meu amigo querido, por quem sinto enorme respeito e gratidão, deu show no Imprensa Marrom.

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Enquanto isso...

Pedro Soares informa sobre Angra 3 na Folha de S.Paulo. Reproduzo aqui alguns trechos.

"Para conceder o licenciamento ambiental prévio da usina de Angra 3, o Ministério do Meio Ambiente fará exigências adicionais, como a fixação de um prazo para a construção de um depósito definitivo de resíduos nucleares.

Segundo o ministro Carlos Minc (Meio Ambiente), essa foi uma das 'condições' introduzidas por sua gestão ao processo de licenciamento da usina, que está 'praticamente pronto'.

'Vamos estabelecer um prazo até a licença de operação [última fase do processo de licenciamento] para a construção de um depósito para destinação final do rejeito atômico, algo que até hoje não se resolveu.'

O país conta apenas com depósito provisório para os resíduos de Angra 1 e 2, situado no mesmo terreno em que estão as usinas e no qual será construída Angra 3. Ali, são colocados rejeitos de baixa e média intensidade -como roupas e equipamentos que entraram em contato com material radioativo.

O combustível radioativo, de alta intensidade, é guardado nas próprias usinas, em piscinas usadas também para resfriar o material."

Assunto que vale acompanhar (clique aqui para ler o que escrevi sobre ele).

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MAINARDI: Suspeita de achaque levou Nassif a sair da Folha

Eis a coluna que Diogo Mainardi, da Veja, escreveu para a última edição da revista:

"Eu sou lobista de Daniel Dantas. É o que diz o blogueiro Luis Nassif. Como foi que eu ajudei Daniel Dantas? Acusando-o de ter financiado Lula. E também acusando Naji Nahas de ter financiado Lula. O fato de eu ter publicado uma série de documentos judiciais sobre Naji Nahas e a Telecom Italia me incrimina, segundo Luis Nassif. Entende-se: em meu lugar, ele teria picotado e obedientemente engolido esses documentos, que denunciam as ilegalidades cometidas pela empresa e pelo governo. Quem patrocina o site de Luis Nassif? A Telecom Italia. Quem impediu que ele falisse e perdesse até as cuecas? O BNDES.

Eu já ridicularizei Luis Nassif três anos atrás, demonstrando que ele reproduziu integralmente em sua coluna a nota de um lobista ligado a Luiz Gushiken. Ele foi demitido da Folha de S.Paulo pouco tempo depois, por causa de um fato ainda mais nauseabundo: a suspeita de ter usado seus artigos no jornal para achacar o governo de Geraldo Alckmin. Em 2004, Luis Nassif convidou o secretário Saulo de Castro para um fórum de debates organizado por sua empresa, Dinheiro Vivo. O detalhe sórdido era o seguinte: para o secretário poder participar do evento, o governo paulista teria de desembolsar 50.000 reais. Saulo de Castro negou o pedido.

Em 2005, Luis Nassif voltou à carga, cobrando uma tarifa ligeiramente mais modesta, de 35.000 reais. A assessora de Saulo de Castro mandou um e-mail para o chefe com este comentário: "Não é à toa que a empresa se chama Dinheiro Vivo". Saulo de Castro negou o pedido mais uma vez. Luis Nassif decidiu retaliar. Em sua coluna, passou a atacar sistematicamente o governo Alckmin, em particular o secretário Saulo de Castro. Quando o diretor da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, foi informado das suspeitas em torno de Luis Nassif, demitiu-o imediatamente. Nesta semana, falei sobre o episódio com Otavio Frias Filho. Ele confirmou.

Com a carreira no jornalismo arruinada, Luis Nassif refugiou-se na internet, onde seu passado era desconhecido, como o de Mengele em Bertioga. O bando de Luiz Gushiken arranjou-lhe uma sinecura no iG. Enquanto fazia um blog para meia dúzia de leitores, ele era obrigado a escapar de seus credores no BNDES, que queriam penhorar seus carros e apartamentos para tentar recuperar uma parte do rombo de 4 milhões de reais da Dinheiro Vivo. No fim de 2007, depois de um misterioso encontro com a diretoria do BNDES, ele conseguiu fechar um acordo judicial altamente lesivo para o banco, que lhe garantiu os seguintes mimos: o abatimento de 1 milhão de reais de sua dívida, o prazo de dez anos para saldá-la, a retirada de todas as garantias para o pagamento do empréstimo e a dispensa de uma multa de 300.000 reais. Algumas semanas depois, ele retribuiu a generosidade estatal usando o único método que conhece: uma campanha de mentiras descaradas contra mim e contra VEJA, tidos como inimigos do governo.

Luis Nassif é um banana. Ninguém dá bola para ele. Por isso mesmo, minha idéia era persegui-lo apenas judicialmente. De fato, estou processando o iG. Tenho uma tonelada de mensagens, documentos e testemunhas que desmoralizam toda a imundície publicada em seu blog. Mas suas calúnias ganharam outro peso depois que Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos. Claramente, o pessoal que o emprega está preocupado com o rumo que esse inquérito pode tomar. Há um empenho para impedir que os dois sejam associados a Lula, como eu sempre fiz. Quando Daniel Dantas e Naji Nahas foram presos, eu comemorei. Luis Nassif deve ter pensado em todos os documentos que terá de picotar e engolir. E em todos os patrocinadores que poderá ganhar."

Só não concordo com a parte que diz "ninguém dá bola para ele". Infelizmente, há pessoas que ficam cegas pela ideologia ou aquelas que não imaginam o que se passa realmente nos bastidores da notícia. É por respeito aos últimos que reproduzo a coluna, pois Mainardi não precisa ser incensado. Tem méritos próprios e no episódio lamentável do "dossiê Veja", que envolveu meu nome e criou uma série de constrangimentos para minha vida profissional, Mainardi tem a verdade a seu lado.

Por isso mesmo, a retaliação em forma de fatos distorcidos e ataques aleatórios chegará logo. Mais uma vez, será desmentida. É guerra, leitor. Você vai se divertir. Eu, nem tanto. Preferia continuar dedicando atenção a "Kafka à Beira-Mar". Pensando bem, todavia, eu o farei _ de um jeito ou de outro.

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July 11, 2008

Aretha


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Um breve diálogo

- Qualquer pessoa de bem quer ver Daniel Dantas preso, pois é o maior corruptor brasileiro.
- Qualquer pessoa de bem vê que o Estado é policialesco, que há interesse comercial e perseguição política na prisão de Daniel Dantas .

- Qualquer pessoa de bem está do lado da PF.
- Qualquer pessoa de bem está do lado do STF.

- Qualquer pessoa de bem vê que há jornalistas agindo para favorecer Dantas.
- Qualquer pessoa de bem vê que há jornalistas atuando para favorecer o governo.

- Qualquer pessoa de bem percebe que Lula frita Dantas.
- Qualquer pessoa de bem observa que Dantas frita Lula.

- Qualquer pessoa de bem apóia os grampos.
- Qualquer pessoa de bem condena os grampos.

- Qualquer pessoa de bem considera que é tudo a mesma coisa.
- Qualquer pessoa de bem considera que é tudo muito singular.

- Qualquer pessoa de bem aposta que dançará todo mundo.
- Qualquer pessoa de bem crê que tudo continuará como dantes.

- EI, PSIU! Alguém aí viu os autos?

- ...
- ...

- Ok, então eu vou ouvir música.

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Alvo

novaesjb.jpg

Novaes, para o JB.

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July 10, 2008

Os jornalistas e os leões

Cesar Tralli no JN:

"Em outra folha manuscrita apreendida na residência de Daniel Valente Dantas, com timbre do Hotel The Waldorf Astoria, pode-se ler a anotação: 'Usar o assunto da polícia p/produzir notícia e influenciar na Justiça (fls. 05/06), concluindo a autoridade policial seu raciocínio no sentido de que estaria confirmada "a produção de factóides pela quadrilha com vistas a manipular a imprensa, a fim de gerar notícias favoráveis à organização criminosa, tudo para abastecer com argumentos as inumeráveis manobras jurídicas de seus advogados', mormente porque no curso da investigação havia sido comprovado que o investigado manteve pessoalmente e por meio de outras pessoas de sua organização contatos com vários jornalistas, ocasiões nas quais são discutidos o teor das matérias a serem publicadas na imprensa' (fl. 06)."

Reinaldo Azevedo confirmou que há inquéritos contra jornalistas. Muito bem. Se os policiais acharam indícios de venda de reportagens mentirosas, feitas de má fé e com o único objetivo de atrapalhar a Justiça, devem mesmo entender melhor o assunto, principalmente como é que o veículo concorda em publicar a reportagem enviesada. É dever deles investigar, chamar para testemunhar, esclarecer, recomendar o processo se for o caso. O jornalista que for chamado vai e explica o que lhe for perguntado. É chato? É. Mas é o preço de viver em sociedade.

Se a investigação for séria, os policiais terão cuidado para não macular o nome de ninguém e de separar o trigo do joio _ se o joio existir.

Isso, claro, é muito diferente de execrar publicamente jornalistas que tenham divulgado documentos verdadeiros que prejudiquem os interesses dos inimigos do banqueiro e/ou do governo, ou aqueles que mantinham contato regular com assessores e o próprio Dantas.

Duvido, porém, que o time que está no comando das investigações ou a Justiça tenham interesse nisso. Por que o fariam? Para beneficiar os inimigos do banqueiro? Para ganhar holofotes que permitissem seu fortalecimento na briga interna da PF? Para abafar o inquérito da Itália? Até aqui não vi indício de que é essa a força que move esse pessoal. Espero estar certa.

Claro que há uma torcida organizada (alguns por ideologia, outros por interesse, outros ainda por gostar de ver o circo pegar fogo) para que a policia vaze grampos, imagens etc. Ela fará isso? A conferir.

Por fim, acho estranho que Daniel Dantas, apontado como o cérebro de uma organização criminosa tão potente que consegue os juros do FED com antecedência, tenha guardado um bilhete limítrofe desses, bem como uma planilha de contribuição de campanhas em sua própria casa. Ainda mais sabendo que seria preso a qualquer momento, como acusa a própria polícia! Mas essa é outra história e, a exemplo do que ocorre no caso dos jornalistas, teremos de esperar.

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Daniel e os leões

A discussão em torno do comportamento da Polícia Federal no caso da prisão de Daniel Dantas ofusca outra, muito mais importante: quais são, no detalhe, os crimes detectados pela PF e pelo Ministério Público Federal? “Lavagem de dinheiro, formação de quadrilha etc.”, responde você. “US$ 2 bilhões entre 1992 e 2004 foram movimentados de forma ilegal.”

OK, leitor, mas quais são as empresas envolvidas? Qual o caminho do dinheiro? Quando ocorreu a lavagem? É o mesmo tipo de operação detectado no âmbito do mensalão? Nesse caso, o dinheiro foi recebido por quem? Repassado para qual conta? Voltou ao Brasil por qual caminho? E Dantas pagou para receber qual benefício?

Por que os advogados dos acusados não podiam sequer saber o motivo pelo qual estavam sendo investigados? Isso é normal? Cerceia o direito de defesa? Onde os supostos crimes praticados por Dantas convergiam com os de Nahas? Quem são os supostos brasileiros arrolados no Opportunity Fund? Como houve o acesso ao disco rígido do banco? Quem permitiu?

Ninguém informa. Leio que Daniel Dantas foi libertado, que Daniel Dantas foi preso, que a Polícia Federal não gosta dos jornalistas da Folha, que a Polícia Federal gosta dos jornalistas da Globo, que o presidente do STF critica as algemas, que o ministro da Justiça elogia as algemas, que o delegado é um demônio, que o delegado é um anjo.

BULLSHIT. Isso é firula.

Na Folha, li que a PF apura privilégio a Dantas na venda da BrT à Oi. Por quê? A princípio, a operação não me parece escandalosa por conta do que Dantas pediu para vender suas ações, nem por Carlos Jereissati e Sérgio Andrade terem concordado em pagar tal valor. O absurdo dos absurdos é que o dinheiro SAIA DO BNDES. Se Jereissati e Andrade querem pagar caro pelas ações de Dantas e do Citi, azar o deles. O que não pode é o Planalto apoiar essa vergonha.

Dizer que Dantas sai da BrT “beneficiado” é estranho. Não é ele que vai ficar com a companhia, aliás, acredito que ele nem quisesse sair de lá. Esse sim era o plano de Dantas: unir BrT e Telemar, ficando no controle de ambas. Os beneficiados, no caso, são os novos compradores _ grandes financiadores da campanha presidencial.

Posso estar falando besteira? Posso. Não vi os autos. Vai que ali tem coisa que salta aos olhos e eu não sei? As referências que ouvi do Ministério Público Federal e do juiz são excelentes. O currículo do delegado também é de peso _ qualquer pessoa que tenha brigado para esclarecer o caso Banestado e as supostas falcatruas de Paulo Maluf tem, a princípio, minha simpatia. Mas até aqui ainda não deu para entender as informações que estão saindo por aí, parece tudo uma grande massaroca.

Outro exemplo, também da Folha, é o caso da mulher de Daniel Dantas, Maria Alice, que teria movimentado US$ 21 milhões em menos de um ano. “Ela não teria fonte de renda para tanto”, teria constatado o Coaf. Pelo amor de Deus! Maria Alice é casada com um dos homens mais ricos do país e não tem fonte de renda? Acudam! O mesmo acontece com os filhos de Verônica Dantas _ é proibido filho pedir dinheiro para os pais? Os investigadores afirmam que sim e talvez tenham razão, mas até aqui não está claro o motivo. Até que me convençam, considero muito mais escandaloso o caso Gamecorp.

Claro, há a história da corrupção. É séria, muito séria, e lamentável. Foi uma péssima escolha tentar jogar de maneira suja quando se está cercado de inimigos. Se todo o divulgado for comprovado, a tentativa deve ser punida como manda a lei.

Quer saber? Bom mesmo era se Daniel Dantas falasse tudo. Eu, no lugar, não teria dúvidas. Tudo que parece horrível hoje pode ser apenas uma chance que o Universo está dando a ele de virar completamente o jogo amanhã.

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PS: Rusgas entre a Folha e a Globo não devem fazer com que o pessoal das redações perca de vista o mais importante _ o direito ao segredo da fonte e o de informar da melhor forma possível.

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Adulação

Marco Túlio Cícero, em "Diálogo Sobre a Amizade":

"Pois que é próprio da verdadeira amizade dar e receber conselhos, dá-los com franqueza e sem azedume, recebê-los com paciência e sem repugnância, persuadamo-nos bem de que não ha defeito maior na amizade que a lisonja, a adulação, as baixas complacências. Com efeito, não se poderia dar bastantes nomes ao vício desses homens frívolos e enganadores, que falam sempre para agradar, e jamais para dizer a verdade.

A dissimulação é funesta em todas as coisas (pois corrompe e altera em nós o sentimento da verdade) mas é, sobretudo, contrária à amizade. Destrói a sinceridade, sem a qual não subsiste mesmo o próprio nome da amizade. Se a força da amizade consiste em fazer de várias almas uma só, como seria assim, se em cada homem a alma não é a mesma, não é constante, mas variável, mutável, tomando mil formas? De fato, que há de mais mutável, de mais versátil que a alma daquele que se transforma não apenas segundo o sentimento e a vontade dum outro, mas a um pequeno sinal deste, a um mínimo gesto seu? 'Ele diz não? Eu digo não; ele diz sim? eu digo sim: numa palavra, eu me impus a obrigação de tudo aplaudir', como disse Terêncio, sobre a máscara de Gnathon. Seria inconcebível leviandade ter relações com gente desta espécie."

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Tristesse

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July 09, 2008

Espetáculo

Muitas foram as discussões ao longo do dia sobre o trabalho da Polícia Federal na Operação Satiagraha. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, achou que houve epetáculo na hora das prisões. Minha opinião é que não tinha como ser de outro jeito, levando-se em conta os envolvidos: Daniel Dantas é o banqueiro mais polêmico do país, Naji Nahas quebrou a bolsa do Rio; Celso Pitta administrou São Paulo apadrinhado por Paulo Maluf. Óbvio que alguém faria imagens e que elas vazariam rapidamente.

Em contrapartida, classifico as declarações de Tarso Genro sobre a forma da prisão ridículas a não mais poder. É um absurdo que tenham saído da boca de um ministro que comanda justamente a pasta da Justiça. Ao dizer que "se fizerem uma lei no país dizendo que pessoas de baixa renda podem ser algemadas e pessoas de alta renda não podem, então a Polícia Federal vai cumprir", Genro valeu-se de uma politicagem de galinheiro. Inadmissível.

Continuo não entendendo os motivos pelos quais os presos não tiveram acesso aos autos, ou por que os diretores do Opportunity estão presos. Mas é visível que a situação de Dantas está complicada por conta da história da tentativa de suborno do delegado, reconhecida pelo advogado de um dos homens acusados de serem emissários do banqueiro. Certamente o delegado estava gravando a conversa. Por que será que as imagens foram vazadas sem áudio?

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Cérebro

Jill Bolte Taylor é uma cientista americana que trabalhava como pesquisadora do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Harvard. Sua área de conhecimento: disfunções cerebrais.

Em dezembro de 1996, Jill teve um derrame e, com ele, a chance de estudar o próprio cérebro. Foram oito anos para a recuperação plena, mas hoje suas idéias são reconhecidas e motivo de polêmica no mundo acadêmico. Confira os motivos para tanto no vídeo abaixo (ele não tem legendas, mas há a tradução na íntegra no Parem o Mundo, basta clicar aqui.)

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July 08, 2008

Satiagraha

O banqueiro Daniel Dantas está em maus lençóis, a se julgar pela reportagem veiculada há pouco pelo Jornal Nacional (clique aqui para assistir). O grande problema, na minha opinião, não são as acusações do Ministério Público sobre as supostas atividades ilegais do Opportunity Fund, motivo principal da Operação Satiagraha, mas a informação de que colaboradores próximos de Dantas tentaram subornar delegados da Polícia Federal.

Por que digo isso? Porque as operações ainda estão sendo investigadas. O trabalho do Ministério Público e da Polícia é esse mesmo. Mas vai ser difícil contradizer as imagens que mostram os encontros dos colaboradores de Dantas com os delegados, bem como explicar por qual razão um desses sujeitos, que, de acordo com os delegados, oferecia a propina, tinha mais de um milhão de reais em dinheiro vivo dentro de casa.

Se a história da tentativa de suborno for comprovada, Dantas escolheu o caminho errado e pagará caro pelo erro de ter achado que dinheiro resolve tudo. Não resolve. Às vezes, como agora, complica.

Um dos pontos pelo qual não escrevi antes sobre o assunto foi entender a gênese da ação que resultou na prisão de Dantas e várias pessoas ligadas a ele hoje pela manhã, no Rio de Janeiro. Também queria saber quem eram os encarregados pelas prisões. Pois bem, a permissão veio do juiz Fausto de Santis, da 6ª Vara Federal de São Paulo, entende do riscado. Foi ele o responsável pela prisão de outro banqueiro, Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, aquele dono da casa onde os banheiros tinham torneiras de ouro. É sério e pouco dado a espetáculos. Esse é um ponto importante.

Outro ponto que me parecia importante ver esclarecido é se a Operação Satiagraha tinha algo com a Operação Chacal, aquela do caso Kroll, deflagrada em 2004. Isso porque o disco rígido do Banco Opportunity foi apreendido naquela operação, cujo fato gerador da ação é questionado em juízo. O Ministério Público Federal de São Paulo esclareceu que não é. Mesmo assim, eu gostaria de entender um pouco melhor como eles tiveram acesso ao disco rígido do banco (quem cuidava do outro processo, o primeiro, relativo aos acontecimentos de 2004, permitiu? Se não, como isso aconteceu, uma vez que o primeiro processo estava na segunda instância? Leitores advogados, ajudem-me).

Ah, outra coisa: qual é a participação de Luiz Eduardo Greenhalg nessa história? Por que o Ministério Público pediu sua prisão? E por que o juiz a rejeitou? Falo de fatos específicos, não esse blablabá genérico que vi até agora.

Por fim, chamou minha atenção o fato de que uma das testemunhas de acusação arrolada pela Procuradoria-Geral da República no processo do Supremo Tribunal Federal, Lúcio Bolonha Funaro, teve ordem de prisão no âmbito da Satiagraha. Você lembra-se dele? Lúcio era dono de uma empresa chamada Garanhuns e estaria, segundo desconfiava a CPI dos Correios, por trás das operações da corretora Bônus Banval, também investigada naquela época sob a suspeita de ter esquentado recursos do mensalão. Afinal, Funaro foi preso ou é um dos foragidos?

E Naji Nahas? Pelo jeito abastecia Celso Pitta, que caiu de pára-quedas na história. Eu gostaria de saber quais são as empresas onde ele e Dantas são sócios. Essa história também é novidade pra mim. Até onde eu sabia, Nahas trabalhava para a Telecom Italia, que era aliada dos fundos de pensão até o começo de 2005. Ora, se as investigações começaram em 2004, tem gente dos fundos envolvida?

Vamos esperar. Os jornais prometem vir recheados amanhã.

PS: O release oficial do Ministério Público está aqui.

PS2: Querem tanto vincular o Diogo Mainardi ao Daniel Dantas que se esquecem de um pequeno detalhe, a realidade. Ouça ou leia o podcast do moço e conclua você mesmo.


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Serraglio: "Muito ainda vai acontecer"

Vale ouvir a entrevista de Osmar Serraglio (PMDB-PR), relator da CPI dos Correios, até o fim.

"Existe ainda uma outra vertente (do mensalão) que sequer foi iniciada e é muito grave: a dos fundos de pensão... Tem muita coisa ainda que vai acontecer, tenho convicção que vai."

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A prisão de Dantas e os proxenetas

Os proxenetas do dinheiro público estão assanhadíssimos com a prisão de Daniel Dantas e dos diretores do Opportunity. Haja paciência.

Luís Nassif, que havia calado a boca por meses depois que veio a público o perdão* de R$ 2 milhões de sua dívida com o BNDES, resolveu investir de novo no infame dossiê Veja, um amontoado de baboseiras que serve de desculpas para o ataque a Diogo Mainardi e ao próprio Dantas.

A exemplo do que havia feito em outras ocasiões, o introdutor do jornalismo de serviços no Brasil _ seja lá que raios isso quer dizer _ aproveitou para colocar meu nome no meio da balbúrdia outra vez. Claro que, depois de ter sido criticado pelas inconsistências de suas acusações, teve o cuidado de fazer com que a menção do meu nome fique na boca de outros. Nassif sabe que, juridicamente, está no sal comigo. Mesmo assim, insiste. O que será que ele ganha com isso?

A claque ligada aos inimigos de Dantas também saiu a campo para encher o saco daqueles que criticam o governo. Há pouco recebi o seguinte comentário do leitor que assina Marcelo:

"E ai jornalistinha de aluguel, seu patrão ( Daniel Dantas ) foi preso. Está com medo do que vai acontecer com você ?? bjs"

Não estou, Marcelinho. Nunca tive medo e continuo não tendo. Nunca vendi matéria, nunca fechei acordo dilapidando patrimônio de banco público, nunca achaquei ninguém que não queria patrocinar minhas empresas, nunca apoiei falcatrua de nenhum tipo.

E quer saber mais? DANIEL DANTAS, AÍ ESTÁ UM CONVITE PÚBLICO DO ARRASTÃO: SE VOCÊ QUISER DAR ENTREVISTA PARA O BLOG, AVISE-ME.

E quer saber ainda mais, ô, Marcelinho? VOU CONTINUAR FALANDO MAL DO GOVERNO O QUANTO EU QUISER.

Não tenho motivo para temer falar com quem quer que seja. Talvez outros tenham: até o fim do mês passado, a informação da Justiça italiana era que o inquérito tocado pela Procuradoria de Milão (que mostra pagamentos irregulares da Telecom Itália para políticos, lobistas, funcionários públicos e jornalistas) será encerrado entre o fim deste mês e o início de setembro. A partir de então, os papéis se tornarão públicos.

Aí eu quero ver.

( * ) - Ao contrário do que Nassif diz para seus leitores, houve uma renegociação de dívida _ que ele não pagou. A RENEGOCIAÇÃO NÃO FOI HONRADA. O BNDES, portanto, entrou com uma execução cobrando um valor X. O "subcrédito A" (parte que, paga, desobriga das demais) do ACORDO realizado é absurdamente inferior ao próprio valor X inicial da execução.

Além disso, ao contrário do que se faz em qualquer acordo judicial, não foi oferecida garantia alguma. A única garantia que o BNDES tem do pagamento do acordo - que foi esticado em dez anos! - é o próprio jornalista. Isso mesmo. Embora vários bens tenham sido apontados ao longo do processo de execução, no acordo não pediram nenhum bem como garantia.

O "dossiê Veja", essa patacoada onde Nassif fala mal de mim e de Mainardi, começou poucas semanas depois de celebrado o acordo. Ah, e depois de Mainardi ter escrito uma coluna com críticas negativas ao BNDES.

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