Página Principal »

August 14, 2008

O Cavaleiro Inexistente

batmanbegins1.jpg

Sei que demorei a escrever, perdoe-me. As horas andam líquidas além do normal, escorrem sem que eu perceba. Aliás, nunca fui boa com medidas _ sofro de incapacidade crônica quando o assunto é calcular passagem do tempo, distância ou conseqüências.

Continuo a evitar análises cotidianas. Pesaria a mão se o fizesse agora. A guerra continua solta e, depois da bagulhada, a imparcialidade de todos foi para as cucuias. Inclusive, claro, a minha.

"Não há veneno pior que o das serpentes; não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão, que morar com uma mulher maldosa."

Eclesiastes, mas pode ficar com Nietzsche, se preferir. Dá na mesma.

Que bichos estranhos, os homens. Aos bandos são insuportáveis, totalmente sem condição de pensar por si mesmos. Sozinhos, escolhem uma persona, mascaram-na de conduta, e dela não se desgarram. A certeza é a substituta do peito da mãe, vai alimentá-los e acalmá-los pelo resto da vida.

O Batman dos cinemas, por exemplo, poderia ser alvo de horas de digressão. Prefiro, no entanto, falar do comissário Gordon, a figura mais interessante do filme.

("Ah, não, é o Coringa!" OK. Heath Ledger era um dos homens mais bonitos e talentosos do cinema, e o mal, sabemos ambos, tem apelo. Acontece que todo mundo falou sobre o quanto ele está sensacional no filme. Eu concordo. Logo, para que repetir?)

Gary Oldman, o Gordon, também aparece magistral no raquitismo, nos óculos de míope, na voz arrastada, no bigode stalinista. É ele quem valida a raison d'etat, a lógica de que as ações do Estado não estão sujeitas às mesmas regras que os atos dos cidadãos e que, portanto, o vale-tudo é o único meio de se fazer justiça em Sodoma, digo, Gotham.

O comissário é a antítese do sertanejo _ antes de tudo, um fraco. Um coadjuvante de si mesmo. Sem ajuda não prende ninguém, não interroga ninguém, não salva ninguém. Mesmo assim, ganha palmas e promoções. Harvey Dent, o Cavaleiro Branco, consegue a condenação. Bruce Wayne, o bilionário, planeja e banca os meios para o plano ser levado adiante. Batman, o Cavaleiro Negro, realiza. Todos lindos, bem vestidos, admirados, desejados e imitados de algum modo.

Gordon... Bom, Gordon é feinho, pobreta, diletante e incapaz de identificar sequer os corruptos de seu departamento que andam de braços com a máfia. Ele se contenta com o papel de abre-alas para Dent e Batman. Só o filho, Jr., vê alguma graça no velho comissário.

"Did Batman save you, daddy?"

"Actually, this time I saved him."

Rá. Mentira, mas ele acredita. Diga lá: se não fosse monitorarem todo mundo, o que seria de Gordon?

Enquanto o diálogo entre os homens da família Gordon acontece, a filha e a mulher do chefe de polícia estão amarradas e tremendo de medo, logo após terem sido ameaçadas por um maníaco desfigurado. Gordon pouco se importa: ele e o Jr. precisam ficar de olho é no Morcegão, a síntese de tudo aquilo que ele gostaria de ser e não é. Não é só o Coringa que precisa do Batman.

Ora, fácil perceber que o policial acomodou uma massa de bílis amarela e negra, encapada com fleuma, onde deveria colocar a pedra angular de sua personalidade. Raiva, ressentimento, impotência e inveja, tudo ali, guardado e escondido sob a aparente humildade. E é isso que ele está ensinando para o Jr.

"Y'see, madness, as you know, is like gravity. All it takes is a little...push."

Não é difícil imaginar que o Coringa tenha, um dia, sido Gordon, o Cavalariço.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (3) |



August 12, 2008

Vampiro

Poderiam ser o tambores em torno da Petrobras, ou as polêmicas do boqueirão virtual, mas a verdade é que Monteiro Lobato riscou na memória por conta de uma reclamação.

"O diabo queira escrever forçado! É o mesmo que andar arcado. Nada emperra mais a pena, e tolhe tanto o correntio da frase, como sentirmos sobre os ombros alguém a espiar-nos."

Verdade. Há um monte de coisas acontecendo por aí e algumas, poucas, valeriam comentário. O problema é que não tenho vontade de escrever sobre. Só consigo pensar em outra coisa: o morcego que invadiu a casinha de barro há algumas noites, enquanto eu, deitada, sozinha e à luz da vela, lia histórias da Companhia de Jesus.

Naquele momento, inesquecível, enfiei a cabeça sob o cobertor e torci, com a imaginação virada em Blake, para que o bicho parasse de dar rasantes perto de mim.

O diabrete, educadíssimo, atendeu. Pendurou-se de ponta-cabeça no gancho do teto, exatamente em cima da minha cabeça, trinta centímetros de envergadura recolhidos até o próximo vôo.

De modo que não tinha jeito, era preciso levantar. O andaraí enlouqueceu ainda mais. Passou a voar, aos guinchos, pertinho do meu ombro e dos meus cabelos. Nem sei de onde tirei calma suficiente para procurar os tênis, a corrente do portão, o cadeado e a blusa, necessários para sair em trilha noturna na busca de ajuda.

Meio do caminho, Fortuna descuidou-se e a lanterna pifou. Céu sem estrelas. O chão, lama pura. Breu, no meio da mata Atlântica. Barulhos de todos os bichos. Seguir ou voltar?

"Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre."

"Confúcio, meu filho, está certíssimo." Voltei. Como tinha percorrido o caminho há dois minutos, aclives e declives estavam frescos na memória, bem como as histórias do padre Abarébebê, que me precedeu na difícil arte das viagens e do autocontrole.

Entrei de novo na casa atrás de velas e fósforos para iluminar meus nervos. O pequeno Mefistófoles, persistente, continuava por lá. Voltou a se debater em torno de mim.

Confesso que aí minha porção Lilith já estava gostando da brincadeira e pensava que aquela coisinha nojenta bem que poderia se transformar num vampiro bonitão disposto a partilhar uma taça de vinho e boa conversa antes de se atracar com meu pescoço.

Os pensamentos ímpios me salvaram. Foi assim que, obsessa e digna, cheguei na casa da professora. Moradora há 15 anos do local, a moça contou sorrindo: o morcego é velho conhecido de todos eles. Eu é que tinha invadido a casa do Vlad, veja você.

Tudo, meu caro, é questão de perspectiva.


PS: O único perigo, esclareceu a professora, é que eu tenha sido mordida, pois o danado é transmissor da raiva e seu roçar de dentes é tão leve que, muitas vezes, o atacado nada sente (ou não demonstra que sente). Tenho algumas marcas na carótida (adoro tal palavra) e no pé. De lá para agora, porém, estou louca de calma. Se, contudo, ficar agressiva nos próximos dias, o motivo consta explicado.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (8) |



August 02, 2008

Os hunos 5 - As férias

MANU: "Minha ligação com a mata é tão forte que preciso de um filtro para não me perder em suas pequenas maravilhas."
JANA: "Que lindo isso, minha filha. E que filtro é esse?"
MANU: "Raid e repelente."

- * -

MANU: "Mamãe, tem um bicho ENORME aqui dentro."
JANA: "É um grilo, Manu. Só espantar."
MANU: "Eu me recuso. Ele é muito feio."
JANA: "Sinto informar, então, que ele e a feiúra continuarão aí."
MANU (resmungando para o grilo enquanto tenta conduzi-lo para fora da casa): "E ainda brigaram com o Pinóquio quando ele não te deu bola..."

- * -

JANA: "Você deixou a mochila arrumada para a trilha de amanhã, neném?"
MANU: "Sim, sim."
JANA (uma sobrancelha erguida): "Estou falando da mochila, espertinha. Frasqueira cor-de-rosa, a história da Gucci e batom não são coisas necessárias para andar no meio do mato."
MANU: "Claro que são! É uma questão de natureza."
JANA: "Não diga! De natureza, é?"
MANU: "É, mamãe. Da minha."

- * -

MANU: "Mamãe, a senhora não está medo de dormir aqui, nesse breu?"
JANA: "Não."
MANU: "Pode me explicar como isso é possível?"
JANA: "Penso no Oliver Sacks."
MANU: "E quem é esse?"
JANA: "Um neurologista famoso, ótimo escritor, que relata casos incríveis relacionados ao funcionamento do cérebro. Lembro de o Sacks ter explicado, certa vez, que os homens são seres emocionais, cuja visão depende, entre outros fatores, da predisposição. Em outras palavras, numa situação como a nossa a pessoa pode se condicionar para ver certas coisas, caso fique pensando muito nelas. Entendeu?"
MANU: "Entendi. Vou concentrar todo o meu emocional no Brad Pitt."

- * -

Depois de ler os diálogos acima, creio que é fácil entender por que bastou ela pedir uma vez para eu voltar correndo. Fico por aqui nos próximos dias.

Beijo para você.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (5) |



July 16, 2008

Nunca

Desculpem o sumiço. Ontem, minha filha chegou de viagem depois de duas semanas. Como toda huna, ela adora seriadinhos de TV, especialmente aqueles do tipo Law & Order, CSI etc. Confesso que também gosto (menos do CSI Miami, onde os cadáveres e os investigadores partilham das mesmas cores anos 80).

Tem uma coisa, porém que sempre me encafifa: por que as pessoas que morrem nunca deixam dicas mais óbvias para o pessoal que terá de procurar sua causa mortis?

Eu, por exemplo, teria uns dez itens de coisas escritas n’algum canto, tipo a lista do NUNCA. Mais ou menos assim:

1) Nunca me mataria. Tenho uma filha linda, que já deu sentido a ela. Portanto, estou por aqui fazendo hora. Mas jamais, nunca mesmo, faria sofrer as pessoas à minha volta.
2) Se me encontrassem asfixiada nunca seria por gostar de sexo com travesseiro na cara. Marcas de tortura de qualquer gênero deveriam ser encaradas como isso mesmo: tortura. Eu nunca apanharia por vontade própria.
3) Eu não uso drogas. Nunca morreria de overdose. Se acontecesse, teria sido induzida ou forçada.
4) Não ando em quebradas. Se encontrassem meu corpo muito distante do perímetro onde moro, pode saber: alguém fez aquilo.
5) Não tenho dinheiro, nem carro. Morrer num tiroteio no ponto de ônibus até que é provável, bem como ser atropelada etc. Mas é outro risco que não corro, pois minha disposição é mínima. No momento, nunca morreria disso também.
6) Adoro pedir comida pelo telefone. Mas estou na casa da minha mãe e ela não deixa. Veneno, então, nunca seria algo natural. E, como aos 35 o corpo ainda não precisa se preocupar com doenças crônicas do coração, o médico deveria pensar nessa hipótese se dissessem que foi um ataque cardíaco.
7) Afogamento é algo impossível de acontecer num apartamento com o banheiro tão apertado. Nunca seria plausível.
8) Brigas passionais também estão descartadas. Nunca. Moro com minha mãe e minha filha _ as duas pessoas mais importantes da minha vida. Posso ficar brava de vez em quando, ser linha dura e tal, mas nenhum mal seria feito por mim para elas e vice-versa.
9) Há a zarabatana de curare, mas meus vizinhos de Pinheiros nunca teriam o hábito de usá-las. Se bem que, depois de tanto CSI, me sinto pouco inclinada a abrir a janela.
10) Sobra o incêndio, esse sim, plausível. Afinal, quem brinca com o fogo sai queimado, não? Mas eu não começaria. Eu nunca começo.

E agora, leitor, você já sabe disso. Tomei muito do seu tempo, vou ali liberar os comentários e depois terminar meu frila. Ontem, a página estava dando problemas. Espero que hoje esteja tudo ok.

Beijos,
Jana

Postado por Janaína Leite às | Comentar (30) |



July 12, 2008

Essência

Nelson Rodrigues, em "Muerte na passeata", crônica publicada n'O Globo (11/04/1968):

"Um tigre é sempre um tigre. Pode vir o mundo abaixo. Ele tem um elenco de instintos e daí não sai. Há de ser tigre do berço ao túmulo. Do mesmo modo, a cabra é uma cabra para sempre. E assim o bode de charrete, com sua barbicha flamenga e os chifres em caracóis. Só o homem pode deixar de ser homem, e repito: só o homem pode se desumanizar.

Coincide que nós vivemos uma época crudelíssima. Para preservar a sua humanidade, o sujeito tem de lutar, ferozmente, contra tudo e contra todos. E das duas uma: - ou cada um de nós constrói a sua solidão ou os outros os matam. (Alguém disse que os "outros" são nossos assassinos.) Vêm de toda parte as pressões que nos desumanizam. Há a manchete, o rádio, a televisão, o anúncio e, em suma, toda uma gigantesca estrutura que exige a nossa falsificação."

Postado por Janaína Leite às | Comentar (4) |



June 26, 2008

Van Gogh

"Etten, 12 de novembro de 1881.
Mas precisamente porque o amor é tão forte, nós geralmente não somos fortes durante a nossa juventude (quero dizer 17, 18, 20 anos) para conseguir segurar firme nosso leme.

Veja, as paixões são as velas dos barquinhos.

E alguém com 20 anos abandona-se inteiramente a seus sentimentos, apanha vento demais nas águas e seu barco faz água -- e naufraga -- a não ser que ele se recupere.

Alguém que em compensação iça em seu mastro a vela Ambição e singra direto pela vida, sem acidentes, sem sobressaltos, até que -- até que enfim, enfim aparecem circunstâncias que o fazem observar: não tenho velas o bastante, e diz então: daria tudo o que tenho por um metro quadrado de vela a mais e não tenho. Ele se desespera.

Ah! mas então ele reconsidera e imagina poder utilizar uma outra força; ele pensa na vela até então guardada no porão. E é esta vela que o salva.

A vela 'Amor' deve salvá-lo, e se ele não a içar, ele não chegará nunca."

Vincent Van Gogh, em "Cartas a Théo".

Postado por Janaína Leite às | Comentar (7) |



June 19, 2008

Os hunos - 4

Há pelo menos quatro ocasiões no ano em que os hunos tremem e pedem ajuda ao Infinito_ a reunião trimestral dos pais. Nem tanto pelas notas, geralmente boas, mas pela perspectiva de os micos caseiros virarem gargalhadas públicas.

A mãe do Caldas, por exemplo, é um perigo. Graças à simpatia dela a turma ficou sabendo que o menino foi matriculado no Jardim de Infância quando passou a se comportar como os cachorros da casa. Sentindo falta de amiguinhos, latia, andava de quatro e ocasionalmente era flagrado roendo um biscoito canino. “Cãozinho perfeito”, definiu.

A revelação aconteceu há uns dois anos. No começo o Caldas rosnou, mas não teve jeito, o apelido “Eukanuba” acabou pegando.

Hoje até que ele até gosta da alcunha. Espalhou para as meninas do colégio, com sucesso, que "Eukanuba" veio a reboque da fama de “cachorrão”.

Outro exemplo de situação delicada ocorreu há alguns meses, quando o pai da Lelê, separado e tímido como uma noviça de Ribeirão do Pinhal, confidenciou que a filha chorava com freqüência. Não queria colocar biquíni por achar que, apesar de magrela, tinha celulite e busto grande. Imediatamente uma voz se ergueu no meio das 2.384 mulheres consternadas:

- Você já deixou de atacar alguém por causa de celulite e peitão?

E o pai da Lelê, uma beterraba:

- Claro que não! Homem não vê essas coisas... Digo, a celulite, senhoras...

O som da razão, devidamente identificado como a mãe do Caldas, retrucou na hora:

- Então, meu filho! Fala isso pra ela!

Deve ter sido a tarefa mais constrangedora enfrentada pelo sujeito desde a primeira vez que tentou comprar uma revista de pelados na banca. Seguiu, porém, o conselho. Ele e todos os outros hunos, uma vez que o comboio de genitoras exigiu que a turma acabasse com os grilos da amiga.

Desde então, os peitos da Lelê são tratados com a reverência de um cálice de missa e ela desfila decotes à la Elvira. O coitadinho do pai, agora, enfrenta outros problemas.

A Manu não tem muitos motivos para se queixar nas reuniões. Costumo ter noção e ficar quieta. O desespero da minha pequena aparece quando vou fotografar as danças e as apresentações. Sei lá o que acontece, mas a luta pelo melhor ângulo faz com que eu entre em transe; é como se o Henri Cartier-Bresson e o Hulk baixassem ao mesmo tempo.

- Mamãe, que mico, mamãe! Levanta daí, fotografa em pé! Olha a moça atrás de você, ela vai cair! MAMÃE!

Bom, no fim das contas, a adolescência é isso aí, a "fórmula de Caldas" _ a gente ri de si e dos outros, e descobre o quanto todo mundo é um pouco bárbaro. Quando se dá conta, passou. Ficaram lições e lembranças.

E as fotos da mamãe, claro.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (6) |



June 13, 2008

Fanáticos

Trechos de Bertrand Russell em "A Última Oportunidade do Homem":

"A essência do fanatismo consiste em considerar determinado problema como tão importante que ultrapasse qualquer outro. Os bizantinos, nos dias que precederam a conquista turca, entendiam ser mais importante evitar o uso do pão ázimo na comunhão do que salvar Constantinopla para a cristandade. Muitos habitantes da península indiana estão dispostos a precipitar o seu país na ruína por divergirem numa questão importante: saber se o pecado mais detestável consiste em comer carne de porco ou de vaca.

...Os que opõem objeções teológicas à limitação dos nascimentos, consentem que a fome, a miséria e a guerra persistam até ao fim dos tempos porque não podem esquecer um texto, mal interpretado, do Gênesis. Os partidários entusiastas do comunismo, tal como os seus maiores inimigos, preferem ver a raça humana exterminada pela radioactividade do que chegar a um compromisso com o mal - capitalismo ou comunismo segundo o caso. Tudo isto são exemplos de fanatismo.

Em cada comunidade há um certo número de fanáticos por temperamento. Alguns desses fanáticos são essencialmente inofensivos e os outros não fazem mal enquanto os seus partidários forem pouco numerosos ou estiverem afastados do poder. Os amish na Pensilvânia pensam que é mau usar botões; isto é completamente inofensivo, salvo na medida em que revela um estado de espírito absurdo.

...Para curar o fanatismo - salvo nas aberrações raras dos indivíduos excêntricos - são necessárias três condições: segurança, prosperidade e educação liberal."


Namorador, sarcástico e ateu convicto, Bertrand Russell foi uma das figuras mais interessantes do século XX. Sua vida é uma delícia, vale procurar a biografia do filósofo. (A vida do padrinho de Russell, John Stuart Mill é outra. Imaginou alguém que leu Heródoto aos oito?)

Postado por Janaína Leite às | Comentar (6) |



June 09, 2008

O Livro de Erdös

“Sua mente está aberta?”

Era assim que Paul Erdös, um dos maiores matemáticos de todos os tempos, costumava abordar seu interlocutor. Como ele dormia pouquíssimo, a pergunta podia surgir tarde da noite ou com o sol ainda no horizonte. Tinha como objetivo, na maioria das vezes, iniciar a proposição de um novo mistério para amigos, estudantes ou qualquer um que chamasse a atenção daquele húngaro franzino, de origem judaica, com sotaque carregadíssimo.

A biografia fascinante de Erdös começou em 26 de março de 1913, na cidade de Budapeste, mesmo dia em que morreram suas duas irmãs, abatidas pela escarlatina. Assim, cresceu único em uma família de matemáticos, educado com esmero pela mãe zelosa (o pai, coitado, foi preso pelos russos e passou anos em um campo de concentração na Sibéria). Mais tarde, seria Hitler o responsável por matar praticamente todos os parentes de Erdös. Ele nunca se casou, nem teve filhos.

O matemático estava distante, porém, de figurar como solitário. Era alegre, espirituoso e sociável a ponto de ter um vocabulário inventado conhecido pelos que o rodeavam. Por exemplo, quando ele dizia que o sujeito havia “partido”, o pessoal sabia que o indivíduo em questão tinha falecido. Se Erdös, contudo, afirmasse que a pessoa morrera, a conclusão acertada era a de que ela havia parado de fazer matemática.

Foi nos Estados Unidos, para onde se mudou após a formatura, que o prodígio húngaro iniciou a prática que viria a se tornar sua marca registrada: a colaboração com outros matemáticos, nos mais diferentes campos. Suas parcerias, centenas, resultaram em 1.500 artigos científicos publicados (dizem que a média de alguém extremamente prolífico nessa área não passa de 50.)

“'Estávamos tomando um café na cantina', conta o geômetra George Purdy, 'e havia um problema no quadro negro sobre análise funcional, uma área em que Erdös não sabia nada. Eu sabia que dois analistas recentemente conseguiram solucionar o problema num artigo de 30 páginas e estavam muito orgulhosos de seu feito. Erdös olhou para o quadro e disse: ‘O que é isso? É um problema?’ Eu disse que sim e então ele foi ao quadro e leu atentamente o problema. Ele me perguntou algumas questões sobre o que os símbolos ali escritos representavam e, aparentemente sem nenhum esforço, escreveu uma solução em apenas duas linhas. Se isso não é mágica, o que é então?”

Erdös não tinha casa nem bens. Suas posses eram duas bolsas de mão, uma para carregar roupas e a outra, publicações matemáticas. Vivia de conferência em conferência, visitando universidades. Era hospedado pelos amigos, responsáveis por todos os aspectos práticos da vida do matemático, do imposto de renda à comida. O dinheiro que recebia, inclusive milhares de dólares dos prêmios, doava para quem julgasse que faria melhor proveito.

Descobri essa figura única, que morreu em 1996, aos 83 anos, por conta do fascínio e da estranheza que causou a mim, representante do mundo das palavras, uma das suas crenças _ “O Livro”, publicação composta por todos (todos!) os teoremas da Matemática. Para cada um, segundo O Livro, haveria apenas uma prova, a resolução mais elegante e correta para o respectivo problema. Imaginou? (Se alguém souber mais sobre tal assunto, por favor, me avise. Minha curiosidade vai às alturas com essa história.)

Ao fim das contas, porém, o que me cativou na vida desse matemático singular foi o depoimento de um amigo dele, Richard K. Guy:

“Meu maior débito a Erdös vem de uma conversa 30 anos atrás, no Hotel Parco dei Principi em Roma. Ele veio a mim e me surpreendeu com um convite 'Guy, vamos tomar um café?'. Eu não bebo muito café, mas fiquei intrigado porque o grande homem tinha me escolhido. Quando chegamos ao café, Paul disse-me :

'Guy, você é infinitamente rico, me empresta $100?'

Fiquei impressionado, não apenas pelo pedido, minha maior surpresa foi a capacidade de satisfazê- lo. Desde esse dia, entendi que sou infinitamente rico; não apenas no plano material, no sentido de que tenho tudo o que preciso, mas infinitamente rico em espírito, em ter a matemática, em ter conhecido Erdös.”

Não é preciso muito para ver que Guy tinha razão.

PS: Os trechos acima foram retirados de traduções feitas por André Kauffman. Um primor.

PS2: O post é para você, Yara, outra "geninha" do Leste Europeu com coração de ouro. Um beijo grande e carinhoso.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (7) |



June 07, 2008

Os hunos e o Brasil

Todos os anos, a festa junina é um acontecimento para os hunos. Eles cozinham, recortam bandeirinhas, gastam horas a fio nas escolha dos pares da quadrilha. Quando a quermesse finalmente termina, depois de um dia repleto de bilhetinho e pé-de-moleque, chegam em casa suados, pés em brasa e voz desaparecida, mas felizes. Hoje, porém, foi diferente. Tudo por conta da Cris.

Desde que voltamos para São Paulo, há três anos e pouco, ela é a melhor amiga da minha filha, a Manu. São inseparáveis, embora opostas: a Cris é tímida, certinha, concentrada, organizadíssima; Manu é praia e sol a um só tempo; espontaneidade, despreocupação e otimismo em cada gesto.

Por isso doeu em mim ver as duas abraçadas, chorando de maneira sentida enquanto os hunos vagavam cabisbaixos pela festa que havia sido planejada com tanto carinho. “Eu vou embora, tia”, explicou a Cris. “É a minha última junina com a galera.”

Filha de zelador e cozinheira, a Cris estuda com bolsa válida apenas para os anos fundamentais. Ano que vem, com a chegada ao ensino médio, os pais avisaram que não têm recursos para arcar com os custos da mensalidade e ela será matriculada em um curso técnico na escola pública. O sonho da USP, assim como a turma de amigos, acabará mais distante.

Olho agora para a Manu, deitadinha ao meu lado. Minha filha dormiu exausta de tanto chorar. “É injusto, mamãe”. Eu sei, querida. Muito.

O pai da Cris não pode pagar a mensalidade. Vive em um país onde a única opção de futuro para sua menina é o ensino público sucateado há anos, onde professores ganham uma miséria e entram na sala com medo de encontrar o aluno armado.

País com 75% de analfabetos funcionais entre 15 e 64 anos. A esquerda, esperança até há alguns anos, defende a corrupção como algo necessário _ afinal, “todos os que vieram antes fizeram o mesmo” e o governo distribui cada vez mais bolsas assistenciais. Não é o máximo?

Essa frouxidão moral serve de escudo para quem age como o compadre do presidente da República, que negocia favores lesando o Estado em centenas de milhões de reais. Também protege a ministra-chefe da Casa Civil, presidenciável, e a mantém cúmplice do tráfico de influência. Permite a propagação de jornalistas de serviços que blindam o governo e têm dívidas com bancos públicos perdoadas.

Sem cobrança dos eleitores, CPIs viram moeda de troca: o PSDB deixa que a dos cartões corporativos acabe em nada, o PT não faz tudo que pode para investigar a Alstom. A solidariedade também está presente quando a companheirada do Banco do Brasil engana a Previdência e ganha aposentadorias milionárias _ mesmo BB, aliás, que compra bancos públicos micados sem licitação. Ninguém fala nada.

O silêncio também ronda Celso Daniel, que continua injustiçado, pois aqueles a quem ele chamava "parceiros" preferiram sociedade com o que há de mais vil no mundo do crime. Alinharam-se aos narcotraficantes das Farc, abriram as portas do mercado para dinheiro da máfia russa e da corrupção angolana.

Aposto que os filhos de todos esses políticos e apanigüados estudam nos melhores colégios. Futuros doutores, talvez advogados como a filha de Roberto Teixeira, ou empresários bem-sucedidos como Paulo Henrique Cardoso e Lulinha.

A filha do zelador terá de ralar infinitamente mais se quiser ter diploma, plano de saúde e casa própria. Mas quem se importa? Um bando de garotos com 14 anos. E eles têm a vida pela frente. Tempo suficiente para esquecer das coisas que realmente fazem diferença, como a amizade e a esperança, por exemplo.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (7) |



June 04, 2008

Natasha

O russo Vladimir Nabokov, autor do polêmico "Lolita", é um dos meus escritores prediletos. O estilo dele é único, elegante e surpreendente. Roça os sentidos com leveza, mas de jeito inesquecível.

Em 1924, quando contava com 25 anos, Nabokov aproveitou as férias de Cambridge, onde estudava, e deitou ao papel "Natasha", conto sobre uma jovem russa que emigrou para Berlim com seu pai exilado e doente. A história é o relato dos acontecimentos incríveis que cercam a vida de Natasha.

Até agora, o conto havia sido mantido na língua original, russo. O filho de Vladimir Nabokov, Dmitri, o verteu para o inglês. Seu texto foi publicado na edição desta semana da revista New Yorker. Imperdível. (Clique aqui.)

Também vale ouvir a leitura da primeira história de Nabokov publicada na New Yorker, "Símbolos e Sinais", armazenada neste link.

PS: Acabo de ver que meu vizinho querido, o Tiago A., havia avisado sobre o conto na New Yorker (obrigada, Ruy!). Está vendo por que eu recomendo que você passeie sempre entre os blogs do A Postos? Os meninos são feras! Aliás, pergunta para a galera do portal que manja tudo de traduções: rolaria uma versão de vocês na língua portuguesa? Abraços!

Continue lendo "Natasha" »

Postado por Janaína Leite às | Comentar (10) |



June 03, 2008

A Casa de Nigiśta Śab'a

Quando menina, a única profissão que chegava a rivalizar com o jornalismo na minha cabeça era a arqueologia. Reconstituir o passado, além de contar sobre o presente, tem um apelo enorme na minha imaginação. Fico emocionada, por exemplo, quando leio notícias como o relato feito por uma equipe de cientistas da Universidade de Hamburgo, que acredita ter localizado o castelo da mítica rainha de Sabá.

As ruínas do castelo, construído no século X a.C., estavam escondidas sob o palácio de um rei cristão na cidade de Axum-Dungur, Etiópia. Segundo nota dos arqueólogos, que estudam a região desde 1999, "nesse palácio pode ter ficado durante um tempo a Arca da Aliança".

Fale a verdade, não é o máximo?

Haverá vestígios de Menelik I, como acreditam os estudiosos? Seria ele realmente filho da rainha de Sabá gerado pelo rei Salomão, como afirma o Kebra Negast, livro que conta a história da dinastia etíope? A Arca da Aliança, onde estavam guardadas as Tábuas da Lei, os dez mandamentos trazidos aos hebreus por Moisés, foi mesmo abrigada no palácio da rainha, fortaleza erguida nas terras onde, supostamente, teria surgido o homo sapiens e que, milênios depois de morta a soberana, seriam conhecidas como Abissínia e invadidas pela Itália a mando de Mussolini? E o que acontece no mosteiro de Tana Kirkos, nascente do Nilo Azul, onde, reza a lenda, a Arca estaria protegida por 40 monges cristãos que só saem do mosteiro depois de mortos? (Segundo tal versão, apenas um deles, “Atang”, o guardião da Arca, tem permissão para vê-la.)

É muito mais bacana pensar nessas coisas do que em outros mistérios, mais prosaicos, como o fato de boa parte do pessoal que se deu bem no mercado financeiro ter passado pelo Planibanc. Ou os motivos que levam gente importante a ser conselheira de time de futebol onde depois aparece lavagem de dinheiro russo.

Por isso, leitor, se você for bem rico e quiser ser meu anjo da guarda, patrocinando uma série de TV ou reportagens na internet sobre os mistérios mais legais do mundo, vou achar lindo. Estou fácil, fácil. Mesmo. Fácil.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (7) |



May 30, 2008

A Barca de Dante

De Eugène Delacroix, no "Diário":

"É preciso esconjurar, da forma que nos for possível, este diabo de vida que não sei porque é que nos foi dada e que se torna tão facilmente amarga se não opusermos ao tédio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. É preciso, numa palavra, agitar este corpo e este espírito que se delapidam um ao outro na estagnação e numa indolência que se confunde com um torpor. É preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho - e reciprocamente: só assim estes parecerão, ao mesmo tempo, agradáveis e salutares. Um desgraçado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadiáveis, deve ser, sem dúvida, extremamente infeliz, mas um indivíduo que não faça mais do que divertir-se não encontrará nas suas distracções nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o tédio e que este o prende pelos cabelos - como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detrás de cada distracção e espreitasse por cima do nosso ombro.

...Sempre pensei que havia tempo a mais. Atribuo em grande parte este sentimento ao prazer que quase sempre encontrei no próprio trabalho: os verdadeiros ou pretensos prazeres que se lhe sucediam não contrastavam talvez muito com a fadiga que me comunicava o trabalho - fadiga que a maior parte dos homens sente duramente. Não tenho dificuldade em imaginar o prazer que deve sentir nas suas horas de repouso essa multidão de homens que vemos vergados sob trabalhos desencorajadores - e não me refiro apenas aos pobres, que têm de ganhar o seu pão quotidiano, mas também aos advogados, aos funcionários, submersos pela papelada e ocupados com encargos fastidiosos ou que não lhe dizem respeito. "

No entanto, também é verdade que a maior parte desses indivíduos não têm problemas com a imaginação e vêem nas suas ocupações maquinais uma maneira como qualquer outra de ocupar o tempo. E serão tanto menos infelizes quanto mais medíocres forem. Para me consolar, termino com este último axioma: que é por ter espírito que me aborreço."

Para ver alguns quadros de Delacroix, clique aqui.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (3) |



May 13, 2008

Resposta a um leitor de quadrinhos

300px-Wonder_Woman_v_1_98.jpg
"Olá Janaína:

Tenho 17 anos e sou estudante, estou me preparando para o vestibular, mas ainda não escolhi a faculdade. Pensei em educação física ou jornalismo, por isso o meu irmão advogado mostrou seu blog. Gostei do jeito que você escreve, mas fiquei com medo, nunca vou ter a sua capacidade nem o seu conhecimento. Não é que seja burro, mas vejo que você leu muita coisa, é muito culta. Eu só leio quadrinhos... Kkkkkkkkk... Mesmo assim, parabéns pelo trabalho.

Um beijo do
M."

--------------

Querido M.,

achei seu e-mail a coisa mais bonitinha. Saiba que fiquei muito feliz e orgulhosa com as suas palavras, elogios são sempre deliciosos, obrigada. Escreverei minha resposta aqui, na página principal, em formato de post, espero que não se importe. O caso é que recebi outros e-mails parecidos com o seu e talvez nossa conversa possa ser útil a outras pessoas.

Você diz: “nunca vou ter a sua capacidade nem o seu conhecimento”.

Tal imagem, meu anjo, é idealização _ apesar de me deixar honrada, não reflete o que eu sou, e sim aquilo que você percebe. Se é capaz de divisar inteligência e cultura, diria que tem potencial para ambas. :-)

Gosto de ler desde pequena, M., é verdade, e tenho especial apreço por temas históricos e filosóficos. Assim, alguns leitores deduzem que aos 12 eu recitava uma Enéada e discutia a transcendência do Uno. Bobagem! Os poucos conhecimentos que tenho chegaram de mansinho, de forma paulatina e despretensiosa (lembre-se que tenho o dobro da sua idade!). Meu grande mérito foi manter a porta aberta para eles, simples assim. É do que posso me orgulhar: gosto de aprender.

Parece fácil, mas nem sempre é moleza. Aprender pressupõe desprendimento. Um dogmático não aprende, ele decora, tem certezas. E anda com iguais, o que é ainda mais triste.

Você disse que “só” lê quadrinhos. Será? Estava lendo meu blog e, até aqui, o Arrastão ainda não tinha falado do tema... :-)

Além disso, quem falou que pessoas “cultas” não lêem quadrinhos, M.? Elas lêem o que dá na telha, o que consideram interessante. A diferença é que esses leitores se envolvem com a informação, buscam aprofundá-la, complementá-la, encaixá-la em outros contextos.

O melhor argumento que tenho é um... quadrinho. Você conhece a história da Mulher Maravilha? Diana Prince, princesa moldada com os dons dos deuses gregos, embaixatriz das amazonas no mundo dos homens, moça bonita que luta com bandidos (sem nunca machucá-los além do necessário) em nome da justiça e da verdade, dona de um laço que obriga a falar a verdade e de braceletes de prata que defendem de balas, blábláblá...

Sim, o que está aí em cima todo mundo sabe. Minha pergunta é se você conhece a verdadeira história por trás da Mulher Maravilha, personagem criada durante a Segunda Guerra por um psicólogo americano, o mesmo que inventou a tecnologia do detector de mentiras para o governo dos Estados Unidos, bígamo e grande conhecedor de mitologia grega?

Pois é. Eu leio quadrinhos e adoro a Mulher Maravilha! :-)

Charles Moulton era o pseudônimo de William Moulton Marston. Professor de Harvard, deduziu que, em tempos difíceis como aqueles, a indústria de quadrinhos, em franca expansão, tinha grande potencial educativo.

Naquela época, quando as tropas nazistas avançavam sobre vários países e o mundo começava a entender o real significado do nazismo, só existiam protagonistas homens nesse tipo de leitura _ Super-Homem, Batman, Lanterna Verde etc.

Também conselheiro da All-American Publications, uma das sementes da DC Comics, Marston decidiu bolar um novo tipo de super-herói, “que não triunfasse por meio de seus punhos ou suas armas, mas por meio do amor”. Ao contar a opinião para a esposa, Elizabeth, ouviu o óbvio: “Bom, se você quer isso, então faça com que seu herói seja mulher.”

Elizabeth, aliás, é um capítulo à parte, bastante, hum, digamos, diferente das mulheres de seu tempo. Ela ajudou Marston em seus inventos científicos e vivia em poligamia com o marido e a assistente dele, Olive Byrne. Não é exagero dizer que Diana/Mulher Maravilha possui várias qualidades de comportamento que lembram Elizabeth, assim como características físicas de Olive, uma jovem de longos cabelos negros, que sempre usava jóias em forma de braceletes.

A Mulher Maravilha foi a maneira encontrada pelo establishment americano de cumprir três objetivos. Primeiro, o governo antevia a possibilidade de entrar no conflito (o que, de fato, só aconteceu um par de anos depois) e, portanto, julgou conveniente encontrar maneiras de convencer a opinião pública de maneira não ostensiva. Assim, Diana é uma “embaixatriz da verdade e da Justiça”, “só usa a força para o bem” e “só machuca o estritamente necessário”. É a pátria.

Se homens fossem mandados para o front, quem iria segurar a barra da produção eram as mulheres. Logo, Diana é “secretária”, trabalha com os bravos militares (a paixão dela é um piloto, Steve Trevor). Mas, olha só!, ela também é “uma princesa”, que tem “força, poderes e beleza acima da média”. É a guerreira.

Essa parte da beleza, aliás, é interessante. A leitura dos rapazes nos quartéis era... quadrinhos. Por isso, a Mulher Maravilha aparecia com as perninhas de fora e seus desenhos foram baseados nas mais famosas atrizes de Hollywood. Tudo embalado por roupinhas feitas com a bandeira dos Estados Unidos. É a mulher.

Belo estímulo ao patriotismo, não?

Bom, M., vou parar por aqui. O texto está gigante. Todo esse palavrório foi só para dizer, do meu jeito enrolado, que Jornalismo ou Educação Física, tanto faz. Confio que você irá além e que, daqui para a frente, vai encarar os outros como a si mesmo: dignos de respeito e admiração, jamais inalcançáveis.

Seu fosse realmente danadinha, como você achava, teria resumido tudo o que está acima em uma frase. Assim fez Plotino (aquele da Enéada): “Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no Universo.”

É isso aí.

Abração,

Janaína

PS: Ah, M., eu também como pipoca, vejo filme de Kung Fu, sei letra de música do Robertão...

PS2: Depois coloco os links, a conexão, para variar, está medonha.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (17) |



May 11, 2008

Dia das Mães - Mãe

Quando decidiu ter a criança, fugiu de casa. Não podia dar aquele desgosto para os pais _ gente simples, que comia arroz e feijão nos dias de festa, mas que se orgulhava da rédea curta sobre os filhos. Mãe solteira, justo ela, a filha mais certinha?

Bobagem. Tenho comigo que ninguém entendia era como, tão linda e dedicada, continuava solteira. Que homem não iria querer tocar os cabelos negros, lisos, que desciam até a cintura fina? Quem não se importaria com lágrimas nos olhos verdes, tão verdes que faziam inveja às plantações da região?

Fácil entender. "Martha Rocha", a chamaram. O pai, ao saber, dela tirou sangue.

A cabeça dos outros, na verdade, sempre foi mistério demais para a moça, perda de tempo tentar decifrá-la. Havia ferido suas próprias leis, importava algo mais? Para quem tinha vida impecável, não era o bebê, e sim o passado o difícil de carregar.

Resoluta, criou vida nova. Foi para a capital _ "nossa, que cidade fria!" _ empregou-se como doméstica enquanto esperava companhia. Não precisou de muito. Numa madrugada gelada, sozinha, sem ninguém para ampará-la entre as dores do parto, ganhou sua companheirinha.

Cheguei antes da hora, intuindo, talvez, que seria de mais valia fora daquele lugar quentinho e gostoso onde vivera até então.

Desde o começo fomos só nós duas, mamãe, eu e você, apartadas do resto do mundo. Filha única de mãe solteira, poderiam dizer _ e disseram, quantas e quantas vezes, não é?

Demorei tempo demais para ver o quanto de esforço foi necessário para você selar os ouvidos às besteiras e impedir, assim, que eu fosse resumida a um clichê. Perdão, mamãe. Queria ter entendido antes a beleza dos seus gestos, o conforto do seu abraço, a importância dos seus conselhos.

Infelizmente, os defeitos eram (e são) muitos. Teria que ser infinitamente melhor para merecer todo o amor que recebi, justo eu, mãezinha, que baguncei tanto a sua vida...

A despeito disso tudo, hoje, Dia das Mães, tenho a oportunidade que eu buscava há tempos: a de deixar claro para milhares de pessoas o amor imenso que sinto por você, bem como meu reconhecimento da sua dignidade, da sua capacidade de superação, de seu desprendimento, da sua coragem.

Talvez nunca tenha dito isso (na ocasião eu tinha só a idade da Manu), mas o sentimento de orgulho que tive ao ver a senhora recebendo o diploma de uma universidade federal nunca foi superado por nenhum outro. Você é meu exemplo, mamãe. Embora eu dificilmente consiga um décimo da sua força e das suas realizações, continuarei tentando. Ajude-me quando eu falhar, ok? E obrigada por tudo.

A senhora se lembra quando mangavam de mim _ “Janaína é filhinha da mamãe...” _, eu ficava triste e, por conseqüência, acho que a deixava um pouco triste também? Que boboca! Como demorei a ver o óbvio: esse é o maior elogio que posso receber. Sim, eu sou a filhinha da mulher mais linda, mais íntegra, mais amorosa, mais presente. Sou filhinha da Otani, filhinha da mamãe.

Eu te amo tanto por isso, mãezinha, a senhora nem faz idéia, pois as palavras, às vezes, como agora, são insuficientes.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (8) |



Dia das Mães - Filha

Quando a vi pela primeira vez, era apenas uma massinha roxa cheia de geleca, 48 centímetros de bons pulmões envoltos pelas mãos do médico. Chamei por ela. Imediatamente silenciou o choro e abriu as pálpebras. Dois olhinhos negros me encararam, a expressão no rostinho mudou. Todo mundo diz que é maluquice, não adianta, pouco me importa: minha filha sorriu para mim naquele instante, tenho certeza.

Não precisei nem de cinco minutos para descobrir as características básicas da personalidade da Manu: sensibilidade, incrível atenção, dom para cativar de maneira instantânea, capacidade acima da média de entender o que a rodeia.

Outras modinhas, claro, percebi com o tempo. Para ela, música é algo necessário até em R.E.M., chocolate e livros de mistério são os únicos vícios admissíveis, cabeça nas alturas é compatível com pé no chão, jornalismo não compensa, roupa nova jamais é coisa supérflua, a família é feita de gente louquinha (mas está sempre em primeiro lugar).

Hoje, 14 anos e meio depois do primeiro parágrafo, dona Manu fez de novo. Dormia gostoso, mas abriu os olhões de jabuticaba assim que ouviu minha voz, o sorriso lindo surgindo no mesmo instante.

“Feliz dia das mães, mamãe!”

Pronto. Tudo mais é pequeno e sem importância. Meu coração e o dela, estrelas duplas, próximas e consonantes, ligadas para sempre. Amor eterno, filhinha. Eterno.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (1) |



Dia das Mães - Avó

Era índia, qualquer um que a visse sabia. Vários banhos por dia, pés descalços mesmo no frio, tez morena e voz linda. Podia ter sido cantora, podia ter sido médica. A ignorância da família, de letras e de modos, não deixou. Assim, passou os dias cantando só para os filhos, nascidos sem testemunha _ ela mesma, sozinha, fez os 11 partos.

Dona Dulce a chamavam, embora seu nome de registro e de batismo fosse outro. Dulcíssima, vestia-se de homem e buscava seu italiano no puteiro sempre que preciso. A culpa, pensava, era dos olhos azuis. Eles faziam o marido ver as coisas de um jeito aéreo, menos terreno. Por isso, a índia fez promessa para desbotar os olhos dos filhos homens. Ficaram marrons. Nenhum, como ela bem previra, teve sina de infiel.

Bóia-fria e fazedora de bóia, eis boa parte da vida da minha avó, ela que contava histórias de assombração e da Bíblia com voz tão cantadora que uma e outra, na cabeça dos meninos, tinham a mesma autoridade.

Minha Dulce sangrava e nem via, batia roupa na pedra e limpava a casa com escovinha nos cantos, cozinhando para aquele mundaréu de gente. Aos nove, eu lia “Ubirajara” e “Iracema” para ela; em troca, a avó coçava minhas costas e meus pés, ai, que delícia, vó, o mundo acabando num carinho de índio, tão despreocupado.

Nunca ergueu a mão para mim. Quase arrancou a tampa da cabeça de todos os outros, que vinham sujos do “terreiro” e não cuidavam de suas limpezas. "Janaína sabe andar de sapatos", sentenciava.

Quando fui embora de Curitiba, aos 19 anos, ela me chamou no canto da cozinha, botou o café na mesa e avisou: a vida não seria fácil longe de casa. “Mas quem tem alma de vento, minha filha, não pode temer tempestade”, abençoou.

E assim, muito tempo atrás, vestida de ar, eu deixei minha taba. Algum tempo depois minha avó foi levada de mim _ um besouro transformou seu coração, sempre grande, em um órgão enorme, talvez para caber as muitas chagas amealhadas em seus mais de 70 anos.

A sabedoria de dona Dulce, porém, é amuleto de índio _ foi tatuada na minha alma. Não tiro nem para dormir, vó, eu te amo e ouço tua voz cantando para mim todas as noites, pode ter certeza.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (1) |



May 10, 2008

a vingança dos hunos

Oi gente tdo bem??? --- aki eh a Manu

Minha mãe tah com dor de cabeça, ela anda doente, provavelmente ela escreve só amanhã... Por isso vou aproveitar para fazer um post.

Eu não entendo bem de política, mas entendo mto bem dos famosos "HUNOS" -- ¬¬' não sei de onde ela tirou esse nome...) O meu amigo Maradona não se parece nda com o jogador amistoso apresentado naquela foto lindíssima... Tah certo que ele eh cabeludinho mas nem tanto.

Minha mãe soh conta os micos da minha turma e não cometa sobre os DELICADOS MICOS dela....

Bom, acho que tdo mundo gostaria de saber dos engraçados acontecimentos que giram em torno do Clube do Senadinho ( como nós somos os Hunos... -- acho que era hora da revanche! )

===> Vamos começar pelo passado. Como vcs devem saber minha mãe eh de Curitiba - PR. Desde que era pequenininha sempre foi chamada pela minha avó de X CENSURADO X ( por ser mto branquinha ).

Mamãe sempre foi uma menina aplicada e estudiosa. Um belo dia, a profª pediu para a sala fazer um teatro de Páscoa, e dividiu a turma em duas. A Janoca ficou com um grupo que iria representar a morte de Jesus junto com um amigo chamado Christian Omar. um nome divino, vcs não acham ?

Como minha mãe gosta de tdo perfeitamente certo, decidiu que iria fazer custasse o que custasse Jesus morrendo na cruz, e para isso teria de haver sangue. A mamãe atormentou a avó, a mãe e tdo mundo, inclusive os pais dos amigos. Fizeram tdo como manda o figurino --- Janokinha queria ver realismo na atuação, por isso fez coroa de durepox e chicote com espumas cheinhas de mercúrio, para que na hora na apresentação o mercúrio escorresse e parecesse sangue...

Bom, o seu amigo fiel Christian Omar, que representaria Jesus, cooperou com tdo (na verdade creio que ele tinha era medo da mamãe, que na peça representava a Maria) e por isso não se importou em sair por ai manchadão de mercúrio, pelo menos na teoria...

MAS, PORÉM , TODAVIA .... na hora da espetáculo Christian Omar amarelou e flou que não poderia atuar. Mamãe deve ter quase enfartado. Mandou ele entrar custasse o que custasse.

Tadinho dele Mamãe, que aquela altura só se importava em atuar, nem reparou que o coitadinho do Christian Omar era ALÉRGICOOOO a mercúrio...

Foi o 1º caso de jesus com sarna na história da dramaturgia brasileira.

Você pensa que acabou por aí... Olha só, "Jesus Cristian" foi crucificado (deve ter sido o único jeito que eles acharam do coitado não se coçar) e na hora de seu último suspiro... "Pai , em tuas mãos entrego meu Espírito"... Maria ( Janoka, por assim dizer) cairia aos seus pés. Só que infelizmente a mamãe caiu LITERALMENTE em cima dos pés de Jesus Cristian, que não agüentou e mesmo morto soltou um : "AIIIIIII!!!!!!"

Bom, esses dias minha mãe estava flando dos amigos que ela tinha qdo era pequena. Aí disse que nunca mais encontrou o Christian Omar. POR QUE SERÁ???

AUSHUASHUASHUAS

Espero que tenham gostado.

Bjs

Manu

Postado por apostos às | Comentar (14) |



May 08, 2008

PODCAST: Sêneca e o ócio produtivo

nb_pinacoteca_rubens_the_death_of_seneca_prado.jpg

Ócio, objetivos, organização, horizonte, horror, ônus, óbito. Ficar em casa contra a vontade consciente significa deparar com esses conceitos todos num curtíssimo espaço de tempo _ aparecem a toda hora, na música do aparelho, na conversa pelo computador, na notícia da televisão, no apito alto da chaleira.

Há algum tempo comprei um livrinho, desses de bolso, intitulado “Sobre a brevidade da vida”. O autor é um dos filósofos romanos mais conhecidos, Sêneca, o Jovem. Compreensível. Foi conselheiro de Calígula, banido por Cláudio, preceptor de Nero. Estóico, grande frasista, o sábio teve uma vida fascinante; oscilou do luxo à miséria, da glória à sentença de traição. Nero ordenou a ele o suicídio.

Sêneca obedeceu. Abriu as próprias veias, mas, como o sangue demorasse a correr, pediu veneno. Só morreu, porém, muito mais tarde, sufocado entre vapores.

Além de fascinar seus contemporâneos, Sêneca influenciou muitos que vieram depois. É possível ver ecos de suas palavras em vários filósofos e grandes que o sucederam nos mais variados campos, como Tomás de Aquino, Rubens (autor do quadro reproduzido acima), Racine e Freud, por exemplo.

Infelizmente, ao que parece, a ressonância descambou também para o vulgo que Sêneca tanto desprezava, para o simplismo dos “milagreiros” e o uso descaracterizado em forma de auto-ajuda, tendência que Petrônio, há séculos, havia detectado, segundo a minha ediçãozinha.

“Muitos diluem o sentido da sua obra em uma espécie de filosofia paliativa, cujo único objetivo fosse ajudar os seus próximos a extinguir a dor do espírito ou pelo menos amenizá-la.”
“Transformam a simplicidade das propostas [de Sêneca] em superficialidade, e o caráter mais profundo da filosofia, em um auxílio a desamparados de todas as latitudes.”

Tal fanfarronice está muito distante de minha intenção. Ofereço a você, no podcast de hoje, algumas pílulas do que contém “Sobre a Brevidade da Vida”, uma pequena jóia escrita pelo filósofo romano (nascido em Córdoba, na verdade). Fiz pequenas adaptações, de estilo e supressão de páragrafos, para que o texto fosse melhor compreendido no formato de áudio. Nada, creio, que implique alteração de sentido.

Ademais, minha intenção é provocá-lo, leitor, para que fique tão curioso em relação a Sêneca quanto eu e, assim, procure as obras do sábio. Nenhum conhecimento de segunda mão é tão bacana quanto ler o próprio autor.

Como disse Sêneca, “deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer”.

Mudar é morrer um pouquinho. E eu estou em plena fase de mudanças.

Um ótimo dia e até mais tarde, meu caro.




Postado por Janaína Leite às | Comentar (9) |



May 04, 2008

Carmen

O silêncio em volta dela sempre traz o mesmo pensamento e, de assalto, a faz sorrir, envergonhada de si como se fora um truão. “Todos os homens deveriam ser Gardel, todas as mulheres deveriam ser Callas.”

Queria tingir o mundo de carmim, desassossegá-lo, traduzi-lo em língua do latim, latina, latindo, os pés em uivo e a boca dançarina, tudo sem rimar nada, nada.

Mas, é domingo. Previsível e quieto, como querem os outros.

Apenas por isso está livre o arlequim, deita-se fora n'algum canto da cabeça torta. Ele, às vezes, principalmente nos dias santos, é boa companhia, a faz sorrir. Assim como as vozes que preenchem todos os espaços da sala e do peito, as vozes daquela gente intensa, que chora e gargalha e quer sempre mais e quer sempre agora e quer sempre pra si.

 Maria Callas - Habanera

Postado por Janaína Leite às | Comentar (4) |



April 26, 2008

Os hunos - 3

valderrama.jpg

Sábado ou domingo, invariavelmente, os hunos arranjam algum programa. O mais comum deles é perturbar a irmã Clementina até que ela, às lágrimas de desespero, quase amaldiçoando os votos, ceda a quadra do colégio para o vôlei da turma.

Às vezes, porém, a irmã Clementina escapa. (Desconfio que se tranque na sacristia ou se esconda atrás do órgão da capela. Como diabinhos que são, os hunos jamais entram na igreja sem o belisco cristão de alguma tia-avó para incentivá-los.)

Foi o que aconteceu hoje. Nós, os pais, somos escalados para substituir a boa freira. De sorte que começa o diálogo bizantino, passível de acabar somente na manhã da segunda-feira, quando voltam as aulas.

Costumava me perder nele, mil e uma explicações pedagógicas-cabeção. Até que descobri uma técnica muito melhor. Basta escolher uma palavra _ “sim”, “não” ou “talvez” _ e usá-la para responder a série de perguntas.

- Mamãe, posso ir no shopping?
- Não.
- Por que não?
- Não.
- Mas todo mundo vai!
- Não.
- Mamãe, por favor, por favor, por favor...
- Não.
- Que droga, você só me regula!
- Não.
- Então posso ir?
- Não.

É o melhor jeito para acertar, vai por mim. A conversa acaba em segundos.

Na maioria das vezes, entretanto, sou bacana. Concordo em levar alguns dos integrantes da tribo ao cinema ou a uma exposição. É, invariavelmente, experiência antropológica que marca a retina, algo como dançar com os índios do Alto Xingu ou observar um concurso de miss entre as mulheres de Tonga.

Da última vez, por exemplo, um menino magrelinho, cara de icterícia e cabelo da Diana Ross na época disco, veio me cumprimentar:

- Oi, gata.

Eu, fascinada com as molas, digo, melenas do guri, “como elas podiam crescer para cima e para os lados?”, me perdi.

- Hein? Ah, desculpa. Eu sou a tia Jana, a mãe da Manu.

“Ele poderia ser aquele Globbetrotter, o Gizmo. Será que guarda coisas aí dentro?”

- Mãe? Pô, parece irmã. Aí, tia, beleza? Sou o Maradona.

“Parece com alguém... A Marge Simpson tridimensional, talvez.”

- Valderrama, é? Muito prazer, filhinho.

Só deixei o transe quando ouvi o berro desesperado:

- MÃÃÃÃÃÃÃÃÃE!

Tarde demais.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (12) |



April 24, 2008

Equação de quinto grau

Há algumas semanas, visitei o antigamente. Recebi uma carta manuscrita, selada, trazida pelo homem dos Correios. Veio repleta da benção das tias e de páginas soltas, resquício dos meus diários de menina, encontradas por elas em alguma gaveta ou caixa empoeiradas.

Minha capacidade mnemônica é imprevisível. Portanto, ver que lembrava da ocasião em que quase todos os escritos foram ao papel deixou-me alegre; os traços se apresentavam como há dois dias, não duas décadas.

Apenas uma das folhas sumira da mente. Justo aquela, corações flechados, mil e uma voltas de letra gorduchinha. Dei consciência: era documento, não bobagem, um registro de próprio punho da minha primeira paixão. Há quanto tempo eu não ouvia falar do mocinho brilhante e impetuoso que ignorou minha existência todos os dias da sua curta vida?

Eu o conheci pelo gosto em comum por Alexandre Dumas, autor cujas aventuras rivalizavam com as de seus personagens, todos companhias inseparáveis por aqueles dias. Foi amor à primeira vista. Infinita admiração, que me acompanha até hoje, pelas pessoas que brincam com os números, com o exato, com a falta de adjetivos repleta de propriedades. Diziam que “a loucura da matemática” o dominava. A mim, encanta.

Évariste de Galois, pai da álgebra moderna, autor da Teoria dos Grupos, republicano francês, passional e incompreendido, morreu assassinado em um duelo aos vinte anos, 1832. O motivo da luta atendia por Stéphanie-Félice Poterine du Motel, noiva de um exímio atirador. Toda a capacidade lógica de Galois foi insuficiente para blindá-lo diante do desejo.

Galois passou a noite anterior do duelo em branco, escrevendo freneticamente. Sabia que a morte era iminente e, desperdício!, ainda tinha muitas idéias a compartilhar. “Não tenho tempo, não tenho tempo!”, escreveu o insone, rascunho das equações e das cartas aos amigos entremeados por menções a “Stéphanie”, a “une femme”.

Não sei bem por que fiquei com vontade de contar a você esta história. Talvez a dignidade de herói capa-e-espada ainda me impressione. Ou, talvez, a reverência tenha permanecido até hoje, quase 200 anos depois do duelo, posto que vários problemas lançados por Galois continuam insolúveis.

Mas, provavelmente, a razão é lembrar a mim e a quem lê o Arrastão que, à luz do tempo, a opção pelo embate, tanto faz se movido pelo amor ou pelo ódio, parece um enorme desperdício. Fugir da briga, porém, é para os fracos. E as minhas paixões, pelo menos as verdadeiras e constantes, desde sempre andaram na mão contrária do medo. Vida sem intensidade, sem honra e sem propósito está longe de ser vida.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (11) |



April 14, 2008

Os hunos - 2

Minha filha usou o computador. Esqueceu o comunicador instantâneo aberto. De repente, o amiguinho que é a cara do menino de óculos do filme Superbad, Fogell-McLovin, surge na tela.*

Wolverine: Oi.
Cacau: Oi.
Wolverine: Você saiu correndo hoje de manhã.
Cacau: Não entendi.
Wolverine: E... é... Eu... tem uma coisa que eu queria falar há tempos: você é linda.
Cacau: É?
Wolverine: É. Está sempre feliz, sempre sorrindo. Conta o segredo?
Cacau: Tiro sarro de adolescentes. Vai por mim. Infalível.
Wolverine: Hein?
Cacau: Aqui é a mãe da Manu, Fogell.
Wolverine: Ah, tá... Entendi... Oi, tia Jana.
Cacau: Oi nada, mocinho. Você anda cantando a minha filha? Vou falar com a sua mãe.
Wolverine: Não, tia, não! Não é nada disso, não, eu gosto muito da Manu, tia, ela é minha amiga, amiga, tia...
Cacau: Fogell, eu estava brincando. Já tive a idade de vocês. Sei como é.
Wolverine: Ah, bom... Hahahaha... Puxa, a senhora quase me pegou!
Cacau: Imagina se depois de mandar o que você escreveu pra toda a lista da Manu eu ainda teria coragem de entregar você pra sua mãe...
Wolverine: TIA!!!

Tenho sérias dúvidas se algum dia vou parar de rir.

* Traduzi a conversa para o português, pois ninguém merece o tupinambá virtual dessa turminha.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (8) |



April 11, 2008

Os herdeiros

Mil e novecentos e noventa e dois foi um ano singular para os brasileiros. O encanto do voto direto à Presidência, depois de três décadas de ditadura, havia se transformado em azedume. Fernando Collor, eleito sob a promessa de caçar marajás, preferira confiscar a poupança que a classe média, com muito custo, salvara entre a mão e a boca. A inflação, galopante. A roubalheira, sarampo.

Eu tinha 18, quase 19 anos. Cursava o primeiro ano de jornalismo na PUC do Paraná. A mãe, que sempre sonhara comigo cirurgiã ou juíza, torcia o nariz _ “jornalista só anda de jeans, minha filha!” _ mas pagava metade da mensalidade. A outra parte eu, formada há pouco no magistério, arrecadava trabalhando em uma escolinha de bairro.

O seqüestro dos investimentos teve zero de impacto lá em casa, onde o mês era invariavelmente maior do que o salário e palavras como “aplicação“ designavam, no máximo, injeção na farmácia. O que excedia a subsistência da família tinha destino certo, as prestações da linha telefônica, caríssima, pela qual minha mãe havia esperado pelo menos uns cinco anos, algo comum no período Telebrás.

A inflação sem cabresto, todavia, jogava a todos, pobres e remediados, no mesmo inferno. Nenhum salário alcançava a remarcação de preços, muito menos o meu, anoréxico, informal e previamente comprometido.

Assim, quando o meio do ano chegou, eu contabilizava mais de uma mensalidade atrasada e estava sem perspectiva alguma de conseguir dinheiro para realizar os pagamentos. Trocando em miúdos, fim de aventura. Pelas regras da PUC, só poderia voltar à sala após quitar o débito.

Continuo aqui.

Continue lendo "Os herdeiros" »

Postado por Janaína Leite às | Comentar (14) |



April 10, 2008

Cláusula Quem

A movimentação dos últimos dias resultou em vários e-mails de novos leitores questionando, entre outras coisas, meu estilo de vida, minha família, meus gostos. O interessante é que tais perguntas vieram exatamente no momento em que me divirto com “O Livro das Vidas”, um compilado dos obituários publicados no New York Times.

Os textos, organizados por Matinas Suzuki, são um primor, estão a quilômetros da morbidez. A maioria deles responde a uma pequena e bem-sucedida fórmula, a chamada “cláusula Quem”: contar o que tornou a vida do retratado singular em uma única linha. A primeira. Exemplo:

“Jerry Siegel, cuja atração adolescente por garotas deu ao mundo o Super-Homem, morreu em Los Angeles aos 81 anos”.

Muito bem, admito que o Siegel é meio fácil. Um empresário da noite, então:

“Barney Josephson, que derrubou as barreiras raciais como dono do lendário Café Society e que trouxe reconhecimento a Billie Holiday, Teddy Wilson, Alberta Hunter e outros músicos e cantores de jazz durante quase meio século de apresentações, morreu aos 86 anos de hemorragia gastrointestinal no St. Vicent’s Hospital em Greenwich Village.”

Descrições simples e perfeitas.

Gostaria de ter capacidade de síntese o bastante para me apresentar mais ou menos segundo a cláusula, mas é difícil que só. Até aqui, sairia algo mais ou menos assim:

“Janaína Leite, cuja vida foi infinitamente mais divertida desde a chegada de sua filha, Manu, viajou todos os dias de sua fase adulta, quando entendeu que as palavras eram o mais eficiente veículo de transporte inventado pelo homem.”

Cruzes, não ficou grande coisa. Aliás, ficou bem ruim. Vou pensar mais um pouquinho.

E você, o que diria sobre si em sua única linha? Se quiser me contar, por e-mail ou na caixa de comentários, eu adoraria.

Até daqui a pouco.

PS: Paula, querida, no seu caso teria de haver um trecho tipo “Paula Cleto, aquela que fazia os amigos se sentirem pessoas melhores quando a tinham por perto..."

Postado por Janaína Leite às | Comentar (5) |



March 26, 2008

Questão de gosto - 3

turl020.jpg

John Steele foi o amante predileto de Lana Turner na primavera/verão de 1957. Mandava flores, comprava jóias e fazia boa figura quando jogava as chaves de seu Lincoln Continental aos manobristas das boates de L.A.

Demorou algum tempo para que a loura fatal descobrisse que o príncipe era, na verdade, o gângster Johnny Stompanato. Quando aconteceu, Lana já tinha se tornado dependente da virilidade do amante.

Muitas surras, porres e escândalos depois, ela levantou os olhos do chão para encarar o rosto triste da adolescente que enterrara uma faca nas costelas do mafioso. Sem a filha de 14 anos, Cheryl, a diva jamais teria deixado de questionar a identidade daquele homem.

Talvez porque gostasse dele.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (1) |



Questão de gosto - 2

campanella.jpg

Fingir-se de louco foi a saída que o calabrês Tommaso Campanella encontrou para evitar a fogueira. Para tanto, ele ria naturalmente durante as sessões de tortura. Talvez pensasse nos primeiros contornos da Cidade do Sol, lugar onde não existem homossexuais e as mulheres são partilhadas entre todos.

Sem ter idéia dos escritos que daí resultariam, a Inquisição permitiu que o dominicano passasse 27 anos enclausurado. Viu a liberdade em 1626. Mandado para Roma, Tommaso percebeu que gostava mesmo é dos ares mais cínicos e refinados da França.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (0) |



March 25, 2008

Questão de gosto - 1

ottishenry.jpg

Ottis Toole e Henry Lee Lucas formavam uma dupla que aterrorizou o interior dos Estados Unidos no fim da década de 70. Muito amigos, eram compatíveis em quase tudo que compunha sua rotina _ roubar, espancar, estuprar, matar. Desentendiam-se, entretanto, na hora do churrasco.

Enquanto Ottis estavalava os beiços ao empalar suas vítimas, antevendo se fartar com o cadáver, assado por inteiro, como um leitão, Henry fazia cara de nojo. Problemas com o canibalismo? Nada. Da carne até que o rapaz gostava. O que não lhe apetecia era o molho.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (1) |



March 24, 2008

E se...

parsonslouellabio.jpg

Se a maledicência tivesse nome próprio, é muito provável que fosse o da jornalista que aterrorizou meio mundo na era de ouro de Hollywood: Louella Parsons.

Dona de constituição atarracada, língua ferina, imune às súplicas de terceiros e ao próprio remorso, especial gosto pelo exercício do poder, Louella reunia as características necessárias para se tornar a mais influente colunista de fofocas dos Estados Unidos. Muitos, porém, creditam o sucesso da moça a algo que ultrapassava seu estilo de rapina _ a proteção incondicional do magnata William Randolph Hearst, para quem Louella trabalhou ao longo de quase toda a vida.

A forte ligação entre patrão e empregada, segundo essa versão, teria começado em 1924, durante a festa de 42 anos do diretor, produtor e roteirista Thomas Ince. Foi, de fato, uma celebração especial. O homenageado não sobreviveu muito tempo a ela.

A dita festa aconteceu em um dos iates de Hearst, o Oneida. A história oficial é que Ince ficou indisposto no navio, desembarcou e morreu antes de chegar a Hollywood. Há, no entanto, relatos oficiosos. O principal deles conta que o aniversariante levou um tiro de Hearst na cabeça. O milionário, enciumado diante de um rela-rela entre a amante Marion Davies e Charles Chaplin, teria confundido Ince com o humorista e atirado no convidado de honra por engano.

De acordo com essa narrativa, Hearst comprou o silêncio da viúva por cinco milhões de dólares. O de Louella, até então uma jornalista inexpressiva, teria saído mais barato: cadeira vitalícia nas organizações de Hearst, com total autonomia para destruir reputações. Menos, claro, a de Marion Davies.

Nunca puderam comprovar nenhuma das teses, pois Ince foi cremado logo depois do anúncio de sua morte. Chaplin _ assim como os demais convidados _ disse que nada viu, nada sabia e nada lembrava. A viúva sumiu. Louella viveu um progresso vertiginoso e se tornou a "Paganini da Bobagem". Hearst amou Marion até o fim de seus dias e inspirou a personagem principal daquele que é tido pela maioria dos críticos como o melhor filme de Hollywood, "Cidadão Kane", de Orson Welles. A palavra "Rosebud", indispensável à trama, era uma referência ao modo carinhoso com que Hearst apelidou parte da anatomia de Marion, segundo Gore Vidal.

Não resisto a um exercício de possibilidades: e se, alguns anos depois do ocorrido em alto-mar, Hearst tivesse demitido Louella? Será que a colunista, indignada com a rejeição, revelaria novos detalhes do que viu no Oneida? E, supondo que assim agisse, será que a fala remodelada seria o bastante para mudar o caso Ince? Algum promotor acreditaria nela ou pensaria que está liberando parte das informações para chantagear o antigo chefe? Os leitores ficariam do seu lado? Outros convidados também adaptariam seus relatos?

Especulações bobas, eu sei. Mas divertem à beça, fala a verdade.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (2) |



March 21, 2008

Os hunos

Andam em bandos, com os tênis imundos, as calças caindo e o rosto cheio de espinhas. Parece que engoliram um megafone; a voz sempre sai muitos decibéis acima dos sons produzidos pelo restante da humanidade. Eles me tratam como “tia” e fazem bagunça por onde passam. Eu os chamo de "hunos" e faço sanduíches em quantidade industrial.

O grupo decidiu se empenhar no trabalho de Biologia. Em duplas, cruzava informações genéticas para criar um bebê fictício. Resultados foram comparados ao fim com expressão de tristeza _ as “crianças” não estavam saindo lá muito bonitas.

Uma das garotas, balançando os brincos enormes, perguntou para o sósia do McLovin:

- E o nome do nosso filho?
- Só tem um que combina com ele.
- Qual?
- “What-A-Hell”...

Dias depois, as gargalhadas adolescentes ainda ecoam pela casa. A mais deliciosa veio da mocinha que morou um tempo na minha barriga e que, desde então, ilumina meus dias sem fazer um pingo de esforço.

Postado por Janaína Leite às |



March 20, 2008

Histórias macabras

judith.jpg

Em 1734, as ruas de Londres eram vielas sombrias, recobertas por urina, sangue, entranhas de animais e toda a sorte de coisas nojentas que você puder imaginar. A maioria dos transeuntes, porém, mal percebia o horror. Sem emprego, cambaleava em meio aos excrementos com a consciência turvada pela ingestão do gim de banheira _ uma bebida clandestina, muitas vezes comercializada ainda quente, que misturava ácido sulfúrico, aguardente, açúcar, água de cal, água de rosas, óleo de amêndoa, óleo de terebentina e sal de tártaro, entre outros químicos igualmente saudáveis para o fígado.

Judith Dufour era um desses pobres diabos. Sem um pence no bolso, deixou a filhinha de dois anos temporariamente em um orfanato. Lá, a pequena tomou banho, comeu e ganhou roupas. Mas, apesar dos cuidados, não sobreviveu ao raiar do dia. Foi assassinada pela mãe.

Assim que a tirou da instituição, Judith estrangulou a menina. Despiu o corpinho inerte e o abandonou ali, no meio da rua. O dinheiro obtido com a venda das peças serviu para que a mulher comprasse uma garrafa de gim e um naco de pão mofado, dieta típica dos viciados de então.

O episódio causou profunda revolta entre os ingleses. Marcou o início de uma ofensiva do governo contra os destilados proibidos, as chamadas “bebidas loucas“. A luta contra o gim, no entanto, só foi vencida pela geração seguinte.

Lembrei dessa história mórbida quando vi o noticiário desta semana repleto de mães torturando crianças e enfermeiras surrando velhinhos. Infelizmente, parece que a nossa capacidade de indignação está em ponto morto, distante do que aconteceu em Londres séculos atrás.

A banalização da violência e a descrença na Justiça criaram uma sociedade de autistas, incapaz de se mobilizar mesmo diante de um garotinho arrastado vivo pelo asfalto ou de pessoas gritando dentro de ônibus incendiados por marginais. Nem a exposição dos assassinos, em outras épocas tida como execração pública do mais alto grau, surte efeito. Virou mais uma imagem entre milhares; quando muito, assegura três minutos de solitária comoção.

É assustador pensar o que será preciso acontecer para que os brasileiros saiam dessa letargia e reformulem seus valores, suas prioridades e suas exigências, como os ingleses fizeram há quase 300 anos. Dinheiro para investir em segurança e educação há. Falta mostrar que a sociedade é capaz de se organizar e que está farta do que vê.

P.S.: Judith e seu descaso com o próprio bebê foram imortalizados em “Gin Lane”, gravura feita em 1751 pelo pintor William Hogarth. A ilustração do início do post é um detalhe da obra.

Postado por Janaína Leite às |



March 12, 2008

Glamour

A mulher que inventou a alteração contínua das freqüências de rádio para neutralizar bombas alemãs teleguiadas _ tecnologia que, mais tarde, permitiu a criação do celular. A modelo estampada na embalagem do CorelDraw. A moça que protagonizou o primeiro nu da história do cinema. A esposa de um fabricante de armas. A lady austríaca que sofria do complexo de Electra. A beleza que inspirou Walt Disney nos traços da Branca de Neve.

O que elas têm em comum? Tudo. São a mesma pessoa _ Hedwig Eva Maria Kiesler, ou Hedy Lamarr, uma das estrelas mais fascinantes de Hollywood.

Passei muitas tardes com Hedy quando era menina, comendo pipoca e chorando pelo coitadinho do Victor Mature, açoitado pelo escárnio filisteu depois de perder os cabelos. Mesmo com pena dele, porém, tudo o que eu queria era ser linda e misteriosa como uma Dalila do Cecil B. DeMille.

Nunca consegui, claro. Mas, anos depois, soube que Hedy não considerava a tarefa tão difícil. “Qualquer garota pode ser glamourosa. Tudo que você precisa fazer é ficar imóvel e parecer estúpida”, disse ela.

Será?

Agora dê um pulo no vizinho. ;)

Postado por Janaína Leite às |



March 10, 2008

Direita festiva

Liga a amiga com quem eu não conversava há algumas semanas.

- Puxa, esse último texto me deu um alívio... Estava com medo que você tivesse virado de direita, hahaha... - Quem disse que não virei? - Ah, pára! Eu te conheço há anos. Nunca vi alguém tão mãe dos pobres. - É sério, flor. Tenho andado com um pessoalzinho radical. Entra no Arrastão daqui a pouco que eu te mostro."

 Língua de Trapo - Samba Enredo da TFP

Às vezes, é muito divertido sacanear as pessoas. ;-)

Postado por Janaína Leite às |



March 03, 2008

Os enganadores

Uma das histórias gregas que considero mais interessantes é a que conta o primeiro dia de vida de Hermes, o Mensageiro. Por um motivo simples: o Brasil é um país que cultua as qualidades herméticas. As coisas, por aqui, se resolvem no jeitinho, no gingar dos quadris, na certeza da impunidade.

Ao contrário do que ocorre em países desenvolvidos, na Bruzundanga os valores apolíneos _ individualidade, correção, clareza, justiça, ordem _ são motivo de risada. O resultado é um exército de Autólicos, senhores da mentira, sentindo-se cada vez mais livres para agir.

Mas, sigamos rumo ao mito. Você poderá acompanhar melhor o meu raciocínio.

Conhecido como Mercúrio entre os romanos, Hermes é o deus da fala e o protetor dos comunicadores, negociantes, viajantes, atletas e ladrões; mestre da astúcia, persuasão e oportunidade; senhor dos caminhos e do sono, guardião dos limites e fronteiras, arauto dos deuses, guia das almas, patrono da alquimia, alcoviteiro real, salvador dos inocentes e semeador da fortuna.

Clique aqui para continuar.

Continue lendo "Os enganadores" »

Postado por Janaína Leite às |



February 28, 2008

O anel de Polícrates e o scarpin de Lula

Muitas histórias deixou-nos Heródoto, inclusive a de Polícrates, rei que governou a ilha de Samos há quase dois mil e quinhentos anos.

Consta que Polícrates fazia jus ao próprio nome, cujo significado era “o que tem muitos poderes”. Extremamente rígido, cruel até, ele governou com mão de ferro. Astuto, fortaleceu seu reinado por meio de uma série de alianças. Comandou frotas portentosas e ergueu grandes obras, entre elas um aqueduto conhecido em toda a Grécia e um dos mais famosos templos de Hera.

Nada dava errado na vida do tirano. Isso chamou a atenção de um de seus aliados, Amásis, faraó do Egito. Desconfiado do excesso de sorte, ponderou ao amigo que tanta alegria era, também, um alerta _ não convinha causar inveja aos moradores do Olimpo. Para aplacar qualquer possibilidade de retaliação, palpitou, o rei de Samos devia fazer um sacrifício e ofertar aos deuses o bem que mais apreciava.

Assim fez Polícrates, lançando ao mar seu anel. Passados alguns dias, contudo, a jóia reapareceu diante do soberano durante um banquete. Tinha sido engolida por um peixe que, trazido à cozinha real pelos pescadores de Samos, transformou-se na iguaria servida ao rei.

Mais feliz que de costume, correu ao faraó para contar-lhe o ocorrido. Amásis, porém, tomou o retorno do anel como um sinal. Desfez imediatamente seu trato com o soberano grego. Nenhum homem pode contar com sorte incondicional, muito menos gabar-se dela, pois não é dado aos humanos uma vida sem desespero.

Ao que tudo indica, Amásis estava certo. Tempos depois, Polícrates morreu assassinado de forma cruel. Foi traído e empalado. Nem seu corpo inerte teve descanso, vítima de crucificação.

Não sei se o presidente Lula, o sortudo, conhece essa passagem de Heródoto, ou mesmo se gostaria de ouvi-la. Mas algo me diz que talvez um contador de histórias fosse de mais valia para o ocupante do Planalto do que o bando de puxa-sacos que o incentiva a desfilar por aí de salto alto, sem o menor pudor, sem a menor prudência.

Postado por Janaína Leite às |



February 27, 2008

Senhorinha

O nome ficou perdido em algum bloco de anotações e acabou pelo tempo apagado. A fisionomia, porém, carrego na superfície da memória.

Quando a vi, estava sentada em uma espécie de balanço, a cabeça branquinha e a pele vincada, papel que o tempo dobrou e redobrou sem cuidados de belezura. Tinha a atenção voltada a um ponto só percebido por seus olhos cegos _ a vista exauriu depois de 102 anos passados ali, na aba do leito amazônico. Ribeirinha, ela, como tinham sido seus pais e como, mais tarde, foram os que saíram de suas entranhas.

Naqueles dias, estava quase sozinha. A prole havia sido espalhada pelo destino. Para garantir os cuidados que a velhice impõe sobrara uma só filha. Da janela, a moça de voz arrastada explicava brasilidades para o repórter estrangeiro. A mãe, no silêncio, se balouçava.

O motivo do encontro não era festivo. A iminência da construção de usinas no Madeira havia deflagrado visitas ao povo que morava na beira do rio. A licitação sequer tinha sido feita, mas isso não impediu que começassem a ferver grileiros na região. Ofertavam R$ 3 mil pelas casinhas de madeira, desde que o dono tivesse o certificado do terreno.

Em três dias andando pelos caminhos do rio, não encontrei quem os tivesse. Posse, ali, era coisa de boca para boca. Documentos são para aqueles cuja existência o Estado reconhece. Não era o caso da senhorinha e de sua filha. Isso não quer dizer que fossem bobas: "Eles só querem tomar o que é nosso baratinho", disse ela, olhar oco de boneca. "Eu enxergo longe, minha filha."

Dois anos depois, é certo que as usinas vão sair do papel. Não sei o que foi feito daquela mulher com aparência tão sofrida e da sua companheira. Nem sei se foi batido o martelo com o valor das indenizações para quem testemunhar a casa inundada.

Tenho esperança de que ambas não acabem como os ribeirinhos desalojados para a construção de Samuel, no rio Jari, meados dos anos 80. Muitos não receberam um tostão _ o dinheiro sumiu nos escaninhos da burocracia. Analfabetos e sem recursos, foram morar em uma vila esquecida no meio do mato. Lá, suprema ironia!, nunca chegou a luz elétrica. É um lugar suspenso entre o presente e o futuro, onde os acertos com Deus são feitos à luz dos lampiões e das estrelas que pontilham o céu da Amazônia.

Postado por Janaína Leite às |



February 22, 2008

Resumo

Sabem o que é estranho?

Estranho é jornalista que prefere ver o Ministério Público sem investigar denúncias de corrupção e fraude. Estranho é deixarem de repercutir e avançar nas apurações da coluna mais lida da maior revista do país. Estranho é o Executivo calar sobre o fato de que gente próxima ao presidente da República está sob suspeita de tudo quando é tipo. Estranho é a oposição que se faz de cega e louca. Estranho é um Legislativo comandado por empreiteiras. Estranho é banqueiro alardear um monte de denúncias e depois se fazer de paisagem. Estranho é considerar calúnia a fofoca sobre contas no exterior que não se pode provar falsas. Estranho é fechar negócio fora da lei com a benção do Estado. Estranho é fundo de pensão de estatal se meter em tanta roubada. Estranho é a quantidade de falências fraudulentas que deixam um monte de gente desempregada e os credores na mão. Estranho é juiz que comanda rede de corrupção junto com sócio advogado. Estranho é lobista alugar suíte presidencial de hotel de luxo para contar dinheiro. Estranho é fatiar o mercado de telecomunicações entre meia dúzia. Estranho é grampo telefônico ter virado commoditie. Estranho é a Abin ser acusada de colaborar com a arapongagem particular e não se explicar. Estranho é a PF ter tantas facções quanto o pessoal do crime. Estranho é sindicalista que não pode falar em voz alta. Estranho é igreja usar gente simples para coagir pessoas. Estranho é aceitar os maleiros, os mensaleiros, os picaretas, os coronéis e os intelectuais que não pensam. Estranho é político cassado comprar avião. Estranho é dissimular, enganar e manipular os que se apóiam em uma ideologia partidário-ideológica, supostamente baseada em companheirismo e igualdade, fazendo com que virem zumbis predispostos a acreditar em qualquer coisa. Estranho é o Celso Daniel, é o Toninho de Campinas, é o PC Farias. Estranho é o pacto de silêncio.

Ou, talvez, não. A história dos italianos deve ser maior do que eu imaginava. Só isso justifica preocupação tamanha entre a infantaria daqueles que estão empoleirados no poder.

Postado por Janaína Leite às |



Bauhütte

Avisaram-me que falta a página 55 do documento que postei ontem.

A princípio, confesso, a queixa soou como implicância para desviar a atenção do restante. Engano meu.

A dita página, descobri, é o vórtice, o ponto de Bauhütte de qualquer texto. Olhem só:

- se a minha Bíblia viesse sem a 55, eu teria perdido o Gênesis 7, 8 e 9. Ou seja, metade do dilúvio, a baixa das águas e o sacrifício de Noé;

- teria ignorado que Kafka tinha medo de não conseguir explicar ao pai as tentativas de casamento;*

- passaria em brancas nuvens que Julius Clarence, durante as duas últimas semanas, visitara fazendas e medira a altura de pés de soja;*

- não descobriria que Bigode se tornou o conselheiro secreto de Tistu.*

Você entendeu o espírito da coisa. Fiquei profundamente convencida da necessidade de divulgar a página 55 do depoimento de Angelo Jannone, o araponga italiano.

Só há um probleminha _ eu não a tenho. Se tivesse, ela estaria entre a 54 e a 56, ué.

PAUSA PARA OS FANIQUITOS - “Ela não tem! Ela não tem!” - FIM DA PAUSA.

É, não tenho. Mas disponibilizei todas as outras.

E em nenhum momento eu disse que o documento estava na internet fazia tempo, e sim que seu teor já tinha sido noticiado.

----- Aliás, vamos deixar duas coisas bem claras aqui: quem me acusa de manipulação e de esconder os documentos são exatamente os que NÃO querem que os papéis sejam divulgados.

Esse tipo de distorção de sentido pode dar certo por algum tempo e junto a alguns, mas não cola na Justiça. É por isso que há tanta gritaria: para convencer a todos da falta de importância do processo italiano e caracterizar, assim, que só os “maus” juízes querem ler o material, assim como os "maus" jornalistas querem apurar esse assunto. -----

Na falta da 55, que eu não sei o que tem, nem nunca soube, pois nunca a vi, os interessados podem atacar Daniel Dantas, o diabólico made in Brazil, com as acusções contidas na página 60, onde Jannone diz que a Brasil Telecom, então administrada por fundos geridos pelo banqueiro, trambicava com a Alcatel.

Se o interesse é ter acesso ao conteúdo total da mensagem, os gritalhufos podem FAZER alguma coisa, como, por exemplo, encaminhar um abaixo-assinado ao Ministério Público para que solicite formalmente os documentos à Justiça milanesa. Na íntegra, claro, que é para garantir que a 55 não fuja.

Os mais ousados podem pedir os papéis diretamente a fabio.napoleone@giustizia.it, o procurador linha-dura que cuida do assunto na Itália. Acho que ele não vai mandar assim, sem mais nem menos, mas a tentativa é de graça.

Na hipótese de a Procuradoria-Geral da República agir de maneira firme e levar a história adiante, creio que virão para o Brasil pelo menos umas cinco ou seis pilhas de documentos, hoje trancadas em uma estante de vidro na sala de Napoleone.

Quem for coordenar o abaixo-assinado, por favor, não esqueça de pedir ao procurador o CD com o nome dos políticos que recebiam propina da Telecom Italia. (Aliás, é aí que está o ponto nevrálgico de todos esses ataques, não é?)

Era recomendável, porém, que o pedido fosse efetuado rapidão, antes que alguém suma com a 55 do inquérito original e o CD vire fumaça.

Agora, se o interesse for atacar de forma irracional os mensageiros _ veículos e jornalistas _ aí não há o que fazer. Podem sapatear como espanholas, mas sozinhos.

Enquanto isso, vou esmiuçar todos os meus livros para descobrir as pérolas escondidas nesses dois números gordinhos e cabalísticos: 55.

O primeiro que peguei é “O Velho Senado”, onde mora uma crônica escrita por Machado de Assis em 1° de novembro de 1861.

Olhem que trecho interessante:

“O que há de vir, há de vir, dizem muitos ministros, que, além de acharem o sistema cômodo, por amor da indolência própria, querem também por a culpa dos maus acontecimentos nas costas da entidade invisível e misteriosa, a que atribuem tudo.”

Mas, pensando bem, uma brasa mesmo é a página 78:

“Relevem o estilo e as idéias; a minha dor de cabeça não dá para mais.”

* Os livros citados são, respectivamente, "Carta ao Pai", "Os Mercadores da Noite" e "O Menino do Dedo Verde".

Postado por Janaína Leite às |



February 19, 2008

El Comandante

Estava um calor sertanejo na tarde de 1° de janeiro de 2003, quando o presidente Lula tomou posse. Meus pés, duas batatas, depois de onze horas perseguindo declarações de políticos, empresários e celebridades. Tinha conversado com várias pessoas, mas ainda faltava aquela que, para mim, era a mais importante: Fidel Castro.

Rumei para o hotel carregando os amigos que tinham viajado de São Paulo e do Rio especialmente para a ocasião. Também na avaliação deles Fidel seria o ponto alto da festa. O mesmo aparentavam pensar Letícia Sabatella e Ângelo Antônio, ambos sentadinhos no saguão do Naoum, junto a um batalhão de repórteres.

Eis que, após um bom tempo de espera, surge Fidel. Uma figura enorme, altiva, carisma embalado em uniforme verde-oliva. Estava cercado de seguranças que mais pareciam montanhas humanas. Acena para nós e segue para o carro.

- "¡El comandante, la prensa por favor!"

Fidel pára, gira e avança em nossa direção, longas respostas engatadas sem tomar fôlego, o ritmo da fala semelhante ao das metralhadoras empunhadas pelos revolucionários.

Ao fim, minha cara-de-pau costumeira: peço uma exclusiva. Ele diz que não pode, eu insisto, ele diz que não dá, sai andando. De repente, pára. Volta e, com a mão no meu ombro, Fidel abre um sorriso:

- “És una gran reportera.”

E vai-se embora.

Eu, em choque, senti os olhos ficarem cheios d'água. Um dos mitos do século XX havia me elogiado. Sabatella, do meu lado, se emocionou comigo. Uma cena para Dom Cappio nenhum botar defeito.

Menos de três meses depois, chego na redação e abro os jornais. "Cuba é a maior prisão de jornalistas do mundo", acusa o Le Monde, reproduzindo manifesto de um grupo de intelectuais radicados na França. Vários dissidentes haviam sido presos e executados após julgamento sumário.

Chorei de novo, desta vez sozinha. Aqueles minutos com Fidel tinham sido (e continuem sendo) um dos momentos inesquecíveis da minha vida profissional. Mas senti vergonha por ter compactuado, mesmo que por instantes, com uma ditadura.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (0) |



February 13, 2008

Diálogo

- Mamãe, você não vai responder?
- Não.
- Está errada. Devia responder.
- Não.
- Então me explica o motivo.
- Ninguém citou meu nome.
- Tentaram deixar a senhora mal do mesmo jeito.
- Ué, trabalho de jornalista é isso aí. O resultado fica lá para quem quiser ver. Eu já critiquei muita gente, é a vez de falarem de mim. O jornal achou que estava bom o bastante para publicar e isso fala por si. Não é a primeira nem última vez que isso acontecerá.
- Tudo bem.

Cinco minutos depois:

- Eu respondia.
- Respondia o que, sabichona?
- Que acusam a senhora de levantar para uns só porque não se abaixa para outros.

Postado por Janaína Leite às | Comentar (0) |



February 07, 2008

O Brasil de Bismarck


Tenho convivido um bocado com estrangeiros, por força do trabalho e de amizades recentes. É sempre um desafio tentar explicar a lógica “sui generis” que impera na terrinha.

Há pouco, por exemplo, uma amiga européia, que não conhece o Brasil, perguntou sobre o Carnaval. Tentei fazer um resumo da festa, mas acabei derrapando ao contar o caso da Ângela Bismarck. (Para quem não sabe, Ângela é aquela moça que fez mais de 40 operações plásticas para ficar parecida com a Barbie. Na última segunda-feira, transformada em japonesa, ela informou que pretende fazer mais uma: restauração da virgindade.)

- Por que ela quer voltar a ser virgem?
- Não tenho a menor idéia. Talvez por conta do casamento próximo.
- Ah, o noivo não sabe direito quem ela é?
- Sabe, claro. Provavelmente o único. É o cirurgião plástico dela.
- É ele que vai fazer a próxima operação?
- Sim, sim.
- M