Há alguns dias, eu escrevi que, sob a desculpa da crise internacional, os Henry Paulson de subúrbio sairiam do armário e, como de costume, era provável que isso resultasse em algo muito louco, tipicamente patropi _ a tal jabuticaba com DNA de cagalheta. Pois bem. O governo publicou hoje medida provisória autorizando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal a estatizarem instituições com dificuldades.
N’O Estadão:
“De acordo com a medida, os dois bancos federais poderão comprar participações em instituições financeiras, públicas ou privadas, sediadas no Brasil, incluindo empresas dos ramos securitário, previdenciário e de capitalização, entre outras. Além disso, o negócio poderá ser realizado sem qualquer licitação para isso.
A MP 443 autoriza ainda a criação da empresa Caixa – Banco de Investimentos S.A., sociedade por ações, subsidiária integral da Caixa Econômica Federal, com a finalidade de explorar atividades de banco de investimento.
A última determinação da medida, que entra em vigor já nesta quarta, é que o Banco Central poderá realizar operações de swap (contratos que trocam os rendimentos em juros pela oscilação da moeda estrangeira) de moedas com bancos centrais de outros países, nos limites e condições fixados pelo Conselho Monetário Nacional.”
Estou fora da reportagem e das conversas com economistas. Portanto, talvez fale a seguir uma enorme besteira. Mas, para mim, essa tal MP é o jeitinho petista de colocar no colo do BB e da Caixa bancos do naipe do Besc e da Nossa Caixa. Voltemos a 8 de junho, quando Sheila D’Amorim publicou a seguinte matéria na Folha de S.Paulo:
“Se conseguir concretizar a compra dos quatro bancos estaduais já anunciada (Santa Catarina, Piauí, Brasília e São Paulo), o Banco do Brasil crescerá o equivalente ao tamanho do Santander/Banespa, agregando R$ 39,217 bilhões em depósitos aos R$ 188,282 bilhões que tinha no final de 2007.
(…) Por isso, o clima nos bastidores do BB é de quem se prepara para um guerra. Segundo a Folha apurou, os executivos do banco acreditam que o maior interesse dos seus concorrentes, especificamente o Bradesco e o Itaú, na Nossa Caixa é estabelecer uma “barreira de entrada” ao banco federal.
(…) A estratégia do BB de avançar sobre os bancos estaduais que sobraram depois do saneamento feito no governo passado foi desencadeada depois de alertas de especialistas sobre as dificuldades que essas instituições poderão ter para se manter no mercado, num cenário de redução da taxa de juros.
O fim da era de hiperinflação e a queda dos juros obrigaram os bancos a buscar outros nichos, e isso vem se acentuando dia após dia. Como são menores, mais limitados em produtos e têm alto custo de pessoal, os bancos estaduais se tornaram uma fonte de preocupação.”
A crise era todo esse auê em junho, leitor? Nada! Aproveitaram as turbulências no mercado financeiro como desculpa para fazer o anúncio. Ou seja, TAPETÃO!
O BB e a Caixa compram o que querem SEM LICITAÇÃO segundo a MP. Pergunto: quem vai estipular os preços, se o mercado está fora da jogada? A Nossa Caixa, por exemplo, tenta ser vendida há tempos e não há um cristão que se disponha a comprar _ menos, claro, o governo federal, pois o faz com o dinheiro do contribuinte.
Isso tudo sem contar que essa dinheirama vai acabar servindo para financiamento ilícito de campanha. Sou contra banco público comprar banco público. É ridículo.
Agora preste atenção na outra pegadinha: a MP serve para que o governo adquira também “empresas do ramo securitário, previdenciário e de capitalização”. Aí tem. (Em julho, pelo que lembro, falavam da “abertura do mercado de resseguros”. Bela abertura.)
Sobre a parte da construção civil, questiono: o quanto as medidas têm a ver com Angra 3 e a Andrade Gutierrez, com Rafael Correa no pé da Odebrecht, com os compromissos dos políticos que ocupam o poder com as empreiteiras, suas grandes financiadoras?
Por fim, na minha avaliação, para cobrir a verdeira intenção sob o manto dignificante de uma crise internacional, e não deixá-la agasalhada pela colcha de retalhos dos interesses político-econômicos de meia dúzia, tascaram um swap cambial lá no meio. A idéia é que o povo pense: “se o governo dos Estados Unidos teve de salvar os de lá, por que o governo brasileiro não pode salvar os daqui? Ele só estará fazendo o mesmo que os desenvolvidos”. Bobagem. Os daqui vivem capengando há anos e anos e anos. E a ajuda já estava programada.
Ressalto outra vez: minha análise pode ser rasteira, apressada e pessimista. Ótimo se for o caso. O que não dá é para fazer jornalismo esquizofrênico, tipo os do que aceitam discurso panglossiano ombreado por MPs esquipáticas como se fossem belezinhas complementares.
Com a palavra, os especialistas.