Há alguns dias, o ombudsman da Folha reclamou da cobertura relativa ao processo judicial enfrentado pela Telecom Italia em seu país de origem. Pois bem. Aí vai uma dica que pode render boa matéria: a Procuradoria de Milão, que cuida do assunto, descobriu que a Telecom Italia escondeu contas suíças de altos dirigentes da empresa. As contas tinham sido encontradas pela Kroll.
Ah, você não está entendendo nada? Eu explico.
A Brasil Telecom (BrT, operadora das regiões Norte, Centro-Oeste e Sul) é uma espécie de dama medieval. Desde que foi criada, em 1998, com o leilão da Telebrás, há um monte de gente brigando por ela. Seus quatro principais sócios na época em que essa história começou eram fundos de pensão ligados a estatais, Citigroup, Opportunity e Telecom Italia. A administração da BrT cabia aos fundos geridos pelo Opportunity .
No dia 20 de dezembro de 2002, a pedido da Brasil Telecom, a Kroll abriu um novo caso. A partir daquela data, a maior agência de investigação do mundo iria se ocupar em coletar provas de que uma das acionistas da operadora, a Telecom Italia, atuava contra os interesses da empresa brasileira. Era o início do chamado “projeto Tóquio”, uma saga policial onde a realidade é capaz de fazer qualquer roteirista de Hollywood verde de inveja.
Na Kroll, a investigação ficou a cargo de um certo Richard Bastin, embora por pouco tempo. Meses depois ele foi contratado pela própria Telecom Italia. A troca de empregos _ e, ao que tudo indica, a entrega de parte dos dados obtidos pela investigação _ desencadeou uma fortíssima reação dos italianos, a “operação K”.
Por conta delas, hackers que trabalhavam na área de segurança da Telecom Italia invadiram computadores da Kroll e roubaram as informações que ainda não tinham. Depois as gravaram em um CD, entregue à Polícia Federal brasileira como se tivesse sido obtido de forma anônima.
(A PF brasileira já estava investigando a Kroll, por conta do caso Parmalat. Juntou tudo e prendeu meio mundo em julho de 2004. O furdunço ganhou ampla cobertura da mídia e tornou-se conhecido como “caso Kroll”. Ainda rola na Justiça daqui.)
Acontece que esses hackers, cujos nomes de guerra são um show à parte, como “Sombra Divina” e “G00db0y”, participavam de um esquema de coleta e venda ilegal de informações, um mercado negro do grampo telefônico e eletrônico descoberto em 2006 pelos procuradores de Milão.
Ao longo do tempo, por conta dessa investigação e de outras, a Justiça italiana encontrou indícios da existência de uma rede que maquinava falências fraudulentas no Brasil. Essa rede abarcaria pessoas ligadas à Telecom Italia e sua fornecedora Tecnosistemi, além da Parmalat e da Cirio (Bombril).
A Kroll, muito antes dos procuradores italianos, tinha levantado dados sobre as triangulações. E, de quebra, descobriu contas bancárias na Suíça de dois importantes executivos da Telecom Italia. Por lá teria passado dinheiro da venda da operadora brasileira CRT.
Ambos, aliás, continuam trabalhando na operadora italiana. Um deles, segundo o depoimento de uma testemunha, negou a existência da conta.
Depois de entregar o CD manipulado à PF brasileira, os italianos tentaram fazer algo semelhante com a polícia italiana, “os carabinieri”. Lá o golpe não deu certo.
Outra coisa interessante que os procuradores de Milão descobriram é que a decisão de sumir com as informações contou com o aval, entre outros, de um executivo da Telecom Italia chamado Adamo Bove. Pena que não podem perguntar nada para ele: o rapaz suicidou-se em circunstâncias estranhíssimas quando estava começando a colaborar com o Ministério Público, passando outras informações para os procuradores. A família do morto não acredita que ele se jogou do viaduto.
Claro que alguns vão dizer (como parece que já fizeram com o ombudsman da Folha): “essas informações são todas falsas”. Ah, é? Peguem o documento onde a Procuradoria de Milão explica os motivos pelos quais mandou prender Angelo Jannone, ex-chefe da Segurança para a América Latina da Telecom Italia. Há vários depoimentos dizendo a mesma coisa.
“Imagina, isso é chute”. Se quiserem saber a opinião dos homens da Lei de Milão, procurem na página 261, rá.
Claro que quem tiver paciência de ler tudo vai encontrar muito, muito mais. O pessoal de lá e a turma com quem eles se metiam eram “tutti buona genti”, “g00db0ys”.