Arquivo da Categoria ‘Falência’

quinta-feira, 13 de março de 2008

Juízo Final

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Os olhos de muitos buscarão amanhã o auditório Paganini, na cidade de Parma, Itália. Começa a série de audiências preliminares do julgamento dos envolvidos na falência fraudulenta da Parmalat. Mais de 50 pessoas foram acusadas pelos promotores italianos. (Os números publicados pela mídia italiana são divergentes.)

A concordata da Parmalat, maior indústria de laticínios do país e uma gigante mundial do setor, significou a maior bancarrota da história européia. Cálculos atualizados mostram pelo menos 14 bilhões de euros, de euros!, sumiram dos cofres da empresa.

De acordo com o jornal La Stampa, um dos mais importantes da Itália, o caso abarca 5 milhões de ações, 500 mil páginas de investigação, processos relativos a cinco empresas, 35 mil testemunhos.

Estarão no banco dos réus, entre vários outros capos da Parmalat, Calisto Tanzi (ex-presidente do grupo) e Fausto Tonna (ex-diretor financeiro).

Aos brasileiros muito interessa a condução do julgamento. Em 2004, Tonna afirmou aos procuradores italianos que a Parmalat pagava subornos no Brasil, além de contribuir de forma ilegal para financiar campanhas políticas.

“As operações na América do Sul e China foram supervalorizadas e que suspeitava que dirigentes dessas duas regiões fizessem caixa dois (mantivessem contas escondidas)”, informou a BBC Brasil, à época. Tonna implicou uma série de executivos que atuavam nas duas regiões.

Continuo aqui.

(mais…)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Passatempo

Nunca tive paciência para quebra-cabeças ou joguinhos de montar. Em contrapartida, posso ficar horas pesquisando, quietinha, publicações antigas. Acho divertidíssimo fuçar a internet, cruzar dados, traçar elos entre personagens de histórias que, a princípio, parecem distantes.

Há pouco, por exemplo, procurei informações sobre Rogério Buratti, o assessor que renegou as acusações de corrupção feitas por ele próprio contra Antônio Palocci em 2005, quando o último ainda era ministro da Fazenda.

A volta atrás de Buratti ocorreu em junho de 2007, mas foi divulgada apenas na semana passada. Mereceu duras críticas do delegado que cuidava do caso _ o mesmo que foi demitido ontem por “decisão administrativa” tomada pelo governo de São Paulo. Coincidência? A Secretaria de Segurança é que deveria explicar.

Não dispersemos, todavia. Encontrei coisas interessantes sobre o tema da pesquisa. Em 9 de novembro de 2005, a repórter Ana D’Ângelo publicou uma matéria no Correio Braziliense sobre o depoimento que dois assessores de Palocci, Buratti e Vladimir Poleto, dariam à CPI dos Bingos. Dê uma olhadinha nesse trecho:

Vladimir Poleto também será questionado sobre suas relações com a empresa Tecnosistemi Brasil Ltda. Ele recebeu 35 ligações de um telefone celular registrado em nome da empresa entre abril e junho de 2003. Foram no total uma hora e 10 minutos de conversas. A Tecnosistemi está envolvida numa história nebulosa. Com falência decretada desde o final de 2003 e uma calote de R$ 100 milhões no mercado, ela constou de relatório feito pela empresa internacional de investigação Kroll revelado no ano passado. Os investigadores da Kroll afirmaram que a empresa era responsável por fazer pagamento de propinas a prefeituras paulistas para obter autorização para instalar torres de transmissão para a operadora de telefonia TIM.

Os italianos estão em todas, até eu me impressiono. Deve ser por isso que o pessoal fica tão bravo quando alguns __ eu, inclusive __ defendem que a Justiça brasileira peça ao Ministério Público de Milão os testemunhos que falam sobre os esquemas conduzidos por empresas da Itália no Brasil. Ah, e aquele CD, mencionado pelo Corriere della Sera, com o nome dos políticos locais que receberam propina italiana _ “tangenti”, no original.

Não pára por aí. A matéria do Correio trazia outras informações que poderiam ser alvo de um pente-fino. Especialmente aquelas que se referem a Araçatuba, região boa, quente e rica, que vem atraindo muitos angolanos. O pessoal de Ribeirão e Araçatuba, aliás, a-do-ra Luanda. Não é, não, galerinha?

A íntegra da reportagem de Ana D’Ângelo está aqui. Para ler outras matérias daquele tempo, basta clicar.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Leite derramado

Reportagem de hoje, escrita por Cris Barbieri, na Folha de S.Paulo:

“A Parmalat Brasil, controlada pelo fundo Laep Investments, pediu a abertura de dois inquéritos policiais para esclarecimento de atos praticados por empresas coligadas à antiga Parmalat, que estariam prejudicando a nova gestão.

Segundo a Parmalat Brasil, Carital Brasil e Zircônia Participações, que faziam parte do confuso emaranhado societário da antiga Parmalat, agiram para prejudicar sua recuperação judicial.

Procurado pela Folha, Francisco Mungioli, presidente da Carital, afirmou, por meio de sua secretária, ter sido orientado por advogados a não se pronunciar. Carlos Padeti, presidente da Zircônia, não respondeu a pedidos de entrevista.”

“…A primeira vez que os nomes Carital e Wishaw Trading apareceram no noticiário foi em 2004, durante os inquéritos de apuração do escândalo que levou à quebra da Parmalat.

Segundo o jornal “La Repubblica”, ao ser questionado por um promotor italiano sobre onde estaria o dinheiro desviado da Parmalat Spa, um dos principais contadores da empresa, Gianfranco Bocchi, respondeu: “Não sei onde foi parar o dinheiro que vocês estão procurando. Mas, se me permitem, posso dar duas pistas interessantes. Investiguem duas subsidiárias do grupo: a Carital do Brasil e a Wishaw. Não sei os detalhes, mas é certo que um saco de dinheiro terminou ali”.

De lá para cá, Ministério Público, Receita Federal e outras autoridades no Brasil e na Itália passaram a rastrear as operações das empresas, criadas em 1999, com as primeiras dificuldades da Parmalat. Acusações e processos passaram a envolvê-las das mais variadas formas.”

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

“O mundo é dos experts”

Nós, brasileiros, adoramos ouvir que somos criativos. Mentira. Somos enfadonhos e quadradinhos, tão previsíveis quanto fila em agência bancária, quanto atraso de noiva, quanto rebolado em baile funk. Ainda mais quando se trata de conseguir dinheiro para recuperar empresas em apuros. Quer ver?

Em 20 de dezembro, escrevi um post falando sobre a Gradiente. Mal das pernas, a empresa dependia de um investidor que a capitalizasse em R$ 70 milhões. O responsável pelo plano é o presidente da Gradiente, Nelson Bastos _ com passagens pela Parmalat, pela Brasil Ferrovias e pela Varig.

“[Bastos] tem ótimo trânsito entre os tucanos”, lembrei. “O dono da Gradiente, Eugênio Staub, por sua vez, era muito bem visto no PT. Devem encontrar um investidor mais rápido do que se imagina.”

Quase um mês depois, em 18 de janeiro, escrevi que Lula tinha recebido Staub. Segundo o empresário, ele não tinha ido pedir ajuda ao presidente. “Sei não. Acho que começou o movimento dos ‘também quero’“, disse eu.

Hoje, na Folha, sai a nota de Mônica Bergamo: “Fundos de pensão, alguns ligados a estatais, negociam para injetar R$ 100 milhões na Gradiente, do empresário Eugenio Staub. As conversas estão sendo conduzidas por Nelson Bastos, presidente executivo da empresa. Uma das condições para a operação é que Staub se afaste da condução dos negócios. A Gradiente não comenta.”

Ou seja, mais uma vez os fundos de pensão _ aqueles que nunca sofrem interferência governamental _ injetarão dinheiro em negócio falido.

O estranho é que, entre o Natal e o Carnaval, o socorro teria aumentado de R$ 70 milhões para R$ 100 milhões.

Mas, pensando bem, isso também não é nenhuma surpresa. É?

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Banco(s) de réus

Começou hoje em Milão o julgamento dos bancos internacionais envolvidos na quebra da Parmalat (Morgan Stanley, UBS, Deutsche, Citigroup e Bank of America). Nove executivos são acusados de agiotagem, segundo agências de notícias italianas.

Segundo os procuradores que acompanham o caso, “é a primeira vez que instituições financeiras que manipularam o mercado” serão julgadas na Itália.

Vale acompanhar.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

G00db0ys

Há alguns dias, o ombudsman da Folha reclamou da cobertura relativa ao processo judicial enfrentado pela Telecom Italia em seu país de origem. Pois bem. Aí vai uma dica que pode render boa matéria: a Procuradoria de Milão, que cuida do assunto, descobriu que a Telecom Italia escondeu contas suíças de altos dirigentes da empresa. As contas tinham sido encontradas pela Kroll.

Ah, você não está entendendo nada? Eu explico.

A Brasil Telecom (BrT, operadora das regiões Norte, Centro-Oeste e Sul) é uma espécie de dama medieval. Desde que foi criada, em 1998, com o leilão da Telebrás, há um monte de gente brigando por ela. Seus quatro principais sócios na época em que essa história começou eram fundos de pensão ligados a estatais, Citigroup, Opportunity e Telecom Italia. A administração da BrT cabia aos fundos geridos pelo Opportunity .

No dia 20 de dezembro de 2002, a pedido da Brasil Telecom, a Kroll abriu um novo caso. A partir daquela data, a maior agência de investigação do mundo iria se ocupar em coletar provas de que uma das acionistas da operadora, a Telecom Italia, atuava contra os interesses da empresa brasileira. Era o início do chamado “projeto Tóquio”, uma saga policial onde a realidade é capaz de fazer qualquer roteirista de Hollywood verde de inveja.

Na Kroll, a investigação ficou a cargo de um certo Richard Bastin, embora por pouco tempo. Meses depois ele foi contratado pela própria Telecom Italia. A troca de empregos _ e, ao que tudo indica, a entrega de parte dos dados obtidos pela investigação _ desencadeou uma fortíssima reação dos italianos, a “operação K”.

Por conta delas, hackers que trabalhavam na área de segurança da Telecom Italia invadiram computadores da Kroll e roubaram as informações que ainda não tinham. Depois as gravaram em um CD, entregue à Polícia Federal brasileira como se tivesse sido obtido de forma anônima.

(A PF brasileira já estava investigando a Kroll, por conta do caso Parmalat. Juntou tudo e prendeu meio mundo em julho de 2004. O furdunço ganhou ampla cobertura da mídia e tornou-se conhecido como “caso Kroll”. Ainda rola na Justiça daqui.)

Acontece que esses hackers, cujos nomes de guerra são um show à parte, como “Sombra Divina” e “G00db0y”, participavam de um esquema de coleta e venda ilegal de informações, um mercado negro do grampo telefônico e eletrônico descoberto em 2006 pelos procuradores de Milão.

Ao longo do tempo, por conta dessa investigação e de outras, a Justiça italiana encontrou indícios da existência de uma rede que maquinava falências fraudulentas no Brasil. Essa rede abarcaria pessoas ligadas à Telecom Italia e sua fornecedora Tecnosistemi, além da Parmalat e da Cirio (Bombril).

A Kroll, muito antes dos procuradores italianos, tinha levantado dados sobre as triangulações. E, de quebra, descobriu contas bancárias na Suíça de dois importantes executivos da Telecom Italia. Por lá teria passado dinheiro da venda da operadora brasileira CRT.

Ambos, aliás, continuam trabalhando na operadora italiana. Um deles, segundo o depoimento de uma testemunha, negou a existência da conta.

Depois de entregar o CD manipulado à PF brasileira, os italianos tentaram fazer algo semelhante com a polícia italiana, “os carabinieri”. Lá o golpe não deu certo.

Outra coisa interessante que os procuradores de Milão descobriram é que a decisão de sumir com as informações contou com o aval, entre outros, de um executivo da Telecom Italia chamado Adamo Bove. Pena que não podem perguntar nada para ele: o rapaz suicidou-se em circunstâncias estranhíssimas quando estava começando a colaborar com o Ministério Público, passando outras informações para os procuradores. A família do morto não acredita que ele se jogou do viaduto.

Claro que alguns vão dizer (como parece que já fizeram com o ombudsman da Folha): “essas informações são todas falsas”. Ah, é? Peguem o documento onde a Procuradoria de Milão explica os motivos pelos quais mandou prender Angelo Jannone, ex-chefe da Segurança para a América Latina da Telecom Italia. Há vários depoimentos dizendo a mesma coisa.

“Imagina, isso é chute”. Se quiserem saber a opinião dos homens da Lei de Milão, procurem na página 261, rá.

Claro que quem tiver paciência de ler tudo vai encontrar muito, muito mais. O pessoal de lá e a turma com quem eles se metiam eram “tutti buona genti”, “g00db0ys”.