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quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Memórias

A história é comprida e cumprida, por isso encurto: a gente só sabe o que é depois que vira. Foi assim com a minha mãe, com a mãe de minha mãe, com a mãe da mãe de minha mãe e com a avó delas tudo. E foi assim comigo também, embora só recentemente, porque tem pessoas que demoram a aceitar individualidades.

Nasci segunda, no dia errado e numa hora inconveniente. Um olho verde, outro azul, duas mãos esquerdas, pé sem curva e cabelo de taturana. De modo e forma que você entende se digo que me guardaram por duas estações dentro da cesta de costura. Só saí de lá quando cerzida à touca, às luvas e aos sapatos corretivos.

Dos detalhes daquele primeiro encontro familiar sei pouco, apenas que providenciaram chá de ninho de passarinho na mamadeira. Era para curar bronquite, e curou, mas desde então vôo. Basta usar camisola.

O primeiro a perceber laço tão esquisito com o céu foi o padre China. Por conta disso, quase não me batiza.

- A menina não tem raiz, é desfincada da terra. Foi chocada num ovo, claramente!

Precisou Santa Terezinha, com as mãos cheias de rosas, descer do altar e interceder por mim. Caso contrário, pagã, arriscava moleira aberta até hoje.

Por uma questão de justiça, é bom assinalar de vermelho que o padre China não era mau. Conforme me explicou mais tarde o Frère Jacques, outro da congregação, o colega era sem traquejo porque tinha sido ensinado a agir como o maior comunista da paróquia _ achava perigoso lidar com gente que dormia fora da prateleira.

O padre China, com o tempo, tornou-se convidado de honra das minhas bonecas. No chá que elas promoviam todo fim de tarde, ele até levava hóstia não consagrada para servir de quitute. As anfitriãs suspiravam com a delicadeza.

Em troca, as bonequinhas apresentaram o padre ao senhor Pedro Álvares Cabral e à bruxa da casa de doces. Juntos, os três discutiam animadamente sobre as variações do canibalismo. O Boi Amarelinho, outro que não perdia os encontros, arrepiava de mugido _ fazia o sinal da cruz repetidamente antes de discursar sobre as vantagens de ser herbívoro.

Eu, de minha parte, gostava mesmo era de brincar com o Menino Jesus, sempre divertido e milagreiro.

Era uma vida boa.

(Para Fefê, a linda da titia. Smack!)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Alegoria

Roberto Calasso, em ” A Literatura e os Deuses”:

“De acordo com as representações mais freqüentes, Orfeu foi degolado por uma mênade que lhe puxou os cabelos para trás e lhe enterrou uma lâmina no pescoço. Para defender-se, o poeta brandia a lira como uma arma. E cantava, mas a vis carminum [força dos cantos] só por algum tempo conseguiu segurar, no ar, as pedras que as outras mênades lhe atiravam. Depois, o fragor do ataque superou sua voz, que ficou sem ação. A cabeça de Orfeu foi decepada com uma foice. Jogada num rio, começou a flutuar. Cantava e sangrava. Mas estava sempre fresca, saudável. Do rio passou para o mar. Atravessou um vasto trecho do Egeu e aportou em Lesbos.

(…) A literatura jamais é coisa de um só sujeito. Os autores são, pelo menos, três: a mão que escreve, a voz que fala, o deus que a vigia e a impõe. O seu aspecto não é muito diferente: todos os três são jovens, com cabeleira abundante e serpentina. (…) Entre os três seres ocorre um contínuo processo de triangulação. Toda frase, toda forma são variações no interior daquele campo de forças. Daí a ambigüidade da literatura. Porque o ponto de vista desloca-se, incessantemente, entre esses extremos, sem nos avisar. E, às vezes, sem avisar o autor. Aquele que escreve na tabuinha está absorto, como se não visse nada em torno de si. E talvez não veja mesmo. Talvez nem saiba quem o circunda. Basta o estilete que desenha as letras, para capturar sua atenção. A cabeça que navega nas águas e sangra.”

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Murry e Mansfield

Katherine Mansfield nasceu rica. Largou o marido em três semanas, mudou-se da Nova Zelândia para Londres, teve gonorréia, envolveu-se em amores bissexuais e perdeu um bebê. Tudo isso antes dos 24 anos, quando serviu chá numa tigela para John Middleton Murry, editor que recusou um de seus contos, publicou outro e apaixonou-se pela moça que gostava de usar penhoar.

Murry para Katherine:

“There’s only one thing greater than my fear _ that is my love. My love will always conquer my fear _ but it can’t do it immediately. It needs the full force of my love to do it an it takes days for that to emerge out its dark hiding places.”

Katherine para Murry:

“I haved loved you for three years with my heart and my mind, but it seems to me I have never loved you avec mon âme, as I do now. I love you with all our future life _ our life together which seems only now to have taken root and to be alive and growing up in the sun… I have never felt anything like it before. In fact I did not comprehend the possibility of such a thing.”

Mansfield, uma das principais integrantes do grupo de Bloombsbury (andam falando tanto em Keynes!), morreu aos 35 anos, em 1923, por conta de complicações de tuberculose. Murry seguiu-a em 1957, depois de ter escrito muito e incentivado autores importantes, de ter se casado outras vezes e sido pai de vários filhos _ a primeira deles chamada Katherine.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Em tempo

Saiu há dias na Folha, mas só li hoje, no dia certo para combinar meu humor com o texto. Danuza Leão, “Se eu pudesse”.

“ACORDEI hoje pensando que, se eu pudesse, mudava minha vida toda; não que ela esteja ruim, mas só para ver que ela poderia ser diferente.

Me desfaria de muitas coisas: da minha casa e de quase todas as roupas. Afinal, quem precisa de mais de dois pares de sapato, dois jeans, quatro camisetas e dois suéteres, sobretudo quando está mudando de vida?

Se eu tivesse jóias, enterrava todas elas na areia da praia para que um dia alguém enfiasse a mão na areia, brincando, e tivesse a felicidade de encontrar um colar de brilhantes.

Seria lindo, não? Das garrafas de champanhe guardadas cuidadosamente na horizontal, daria para abrir mão, sem nenhum remorso; champanhe, além de engordar, não passa de um espumante metido a alguma coisa e nem barato dá, de tão fraquinho que é.

Dos vinhos, mais fácil ainda. É um tal problema ter vinhos em casa, abrir a garrafa e descobrir que viraram vinagre, que se acaba chegando à conclusão de que nada melhor do que uma boa vodca, com a qual sempre se pode contar.

E as amizades? Aliás, as amizades, não: as relações. Ah, se tivesse coragem rasgava o caderno de telefones e fazia outro, só com o nome das pessoas que estão guardadas dentro do coração. Aliás, para essas nem precisaria de agenda.

Se pudesse, seria vegetariana, passaria as noites em claro e teria muito amor por todos os bichos e pelas crianças. Mas como não gosto de bichos (só de gatos) e não tenho nenhuma paciência com crianças, a não ser as minhas, vou ter que atravessar a vida levando essa pesadíssima cruz; afinal, ficou combinado que de certas coisas não se pode não gostar, e se não gostar, não se pode dizer.

Se pudesse, me transformaria numa pessoa sem passado e sem futuro; iria para um lugar esquisito onde não entenderia a língua do povo, ninguém entenderia a minha e ninguém conseguiria me fazer sofrer, pois a capacidade de sofrer é um bem pessoal e intransferível. Seríamos todos, assumidamente, estranhos, como somos no edifício em que moramos, no local de trabalho, dentro da nossa própria família. Ou você pensa que as pessoas se conhecem só porque se telefonam e jantam juntas?

Se eu pudesse, acordaria hoje de madrugada e sairia descalça, só com um casaco em cima da pele, e iria molhar os pés na água do mar, sozinha. E depois ia tomar café num botequim, em pé, como fazem os homens.

Se eu pudesse, faria uma linda fogueira com meus casacos de pele para saber como vivem os que não têm, nunca tiveram nem nunca vão ter nenhum. E aproveitando o embalo, cortaria os fios do telefone, jogaria o celular na tela da televisão e o computador pela janela.

Se eu pudesse, rasparia a cabeça, fumaria dois cigarros ao mesmo tempo e tomaria uma vodca dupla, sem gelo, num copo de geléia. E pegaria uma tesourinha para picar os talões de cheques, cortar os cartões de crédito, carteira de identidade, o CPF, e o passaporte, sem pensar um só instante nas conseqüências, e sem um pingo de medo do futuro. E jogaria no lixo meus lençóis, meus travesseiros de pluma, meu edredom, e engoliria minhas pestanas postiças, só para aprender que a vida não é isso.

Se eu pudesse, esqueceria do meu nome, do meu passado e da minha história, e iria ser ninguém.

Ninguém.

Pois é, tem dias que a gente acorda assim; mas passa.”

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Conversa de bar

- Vai chegar aqui.

- Não vai.

- Concordo com o João. Chega. E a gente vai se ferrar. Isso é que dá acreditar nesses neoliberais.

- É, Pedro. Tem razão. Bom mesmo é acreditar nos socialistas. Eles estão, inclusive, construindo um novo sistema econômico. Usam como base as pedras do Muro de Berlim.

- Rá. Muito engraçado.

- Não é? Falando sério, amigo, olha as reservas. A gente tem reservas.

- E você acha que esse colchão dá?

- Menos fino que o saco de dormir dos americanos.

- E você, Mateus, o que acha?

- Que vocês são uns manés. Boa parte do dinheiro que entra aqui via CC-5 é caixa dois de brasileiro.

- Ih, lá vem você e as teorias conspiratórias.

- Não quer acreditar, não acredita, ué. Mas em vez de ficarem perguntando uns pros outros o que vai acontecer, ou engolindo a baboseira dos jornais, os senhores deveriam ir atrás de um doleiro.

- Como é que é?

- Simples, meus filhos. Quando alguém aqui dentro vai ficar no sal, a procura pelo dólar cabo explode. O pessoal que manda nas coisas conta pros amigos, que contam pros amigos, que contam pros amigos… Todo mundo quer tirar o dinheiro daqui. Enquanto isso, os “comuns” ficam hipnotizados pelo que acontece no teatro das notícias. Acompanharam o raciocínio?

- Ninguém aqui conhece doleiro, Mateus.

- A viagem mais longa que a gente fez nos últimos tempos foi para Paranaguá. ‘Cê sabe disso muito bem, maluco.

- Lógico que sei. Vocês são um ótimo exemplo de “comuns”. Um brinde aos meus amigos pobres e honestos.

- Um brinde ao seu novo emprego. By the way, o que é que você vai fazer mesmo?

- Intermediar a venda de uns softwares especiais.

- Quem diria, rapaz, o super Mateus agora é caixeiro virtual.

- Para você ver.

- E o que faz o tal software?

- Tem vários. Um desvia centavos das contas de bancos e camufla investimentos suspeitos. O segundo faz a distribuição viciada de ações entre as varas de um tribunal. O outro tem algo com urnas eletrônicas. Tem um que vem embutido nos aparelhos de TV a cabo e permite o registro, em vídeo e áudio, do ambiente. Mas o meu preferido é o que não faz nada. Esse vai ser um estouro.

- Como é que é?

- É, ué. O software não faz nada, é um engodo. Quem compra está só pagando pedágio para ser fornecedor da companhia que exige o uso do programa.

- Hahahaha…

- Impressionante. Garçom traz mais uma rodada aqui. Vamos comemorar a imaginação do Mateusinho; viva o pedágio com notinha fiscal!

- …

- Desde menino ele inventa as coisas mais extraordinárias. Monitoramento via caixinha de TV a cabo, veja só. Não vai mudar nunca. Grande Mateus.

- Só bebendo, só bebendo. Bichão de sete cabeças.

- É, meus caros. Pedro, João, lúcidos amigos, faço minhas as suas palavras: só bebendo.

sábado, 30 de agosto de 2008

Fantasia

Eram quatro, mas o barulho teria feito as tropas de Akbar fugir às carreiras. Dois dias antes da festa, a mãe marca a barra da rockabilly, cola a lantejoula na coroa da princesa, ajeita o ombro da garota das cavernas. Tudo em silêncio de missa, para não perturbar as considerações sobre o Pierrot e o Rapper _ eles sim, as verdadeiras fantasias da noite.

De repente, a mocinha com o óculos gigantescos e batom cor de melancia olha para baixo.

- Do que você se fantasiaria, mamãe?

- De Suzanne Curchod. Não balança o quadril, ou fica torto. – responde a aia, alfinete no canto da boca.

- Quem?

- Suzanne Curchod, ora. Vão dizer que não conhecem?

- Não!!! – uníssono.

- Que coisa. O que a escola ensina por esses dias? – diz para si mesma, sobrancelha involuntariamente levantada. – Pronto, acabei.

Silêncio estratégico enquanto a mãe se levanta devagar; as juntas não são mais as mesmas. Aliás, precisa fazer alguma coisa com aquele cabelo branco, perdido, que insiste em espetar no cocoruto. “Até que não seria mau a volta das perucas dos nobres.”

- Quem é ela, tia?

- Fala, mamãe!

- Ah, nem se incomodem… Alguém quer mais chá? – pergunta, servindo-se vagarosamente. “Metade do segredo é o suspense”, pensa.

- Conta, conta, conta, POR FAVOR!

Uníssono. A mãe adora. Nada melhor do que envelhecer com serventia. Suspira, coloca xícara de lado e se acomoda na cadeira, enquanto as três faladeiras sentam-se à moda comanche, olhinhos arregalados, mãos delicadas segurando os queixos. Impossível não achar adorável a reunião insólita no assoalho.

- Tão bonitinhas, vocês!

- Conta! – outro uníssono. E, pelo tom, mais ansioso. O sorriso da mãe aumenta.

- Ok, ok. Vamos lá. Há muitos e muitos anos, lá por mil e setecentos e pouco, uma criança muito loura nasceu na Suíça.

- Suzanne Curchor.

- Curchod. A própria.

- Era bonita?

- Muito. E também muito inteligente.

- Claro, né? A senhora não iria querer se fantasiar de Suzanne se ela fosse feia.

- Eu me fantasiaria de Frida Kahlo e ela era feia. – diverte-se a contadora.

- Como é que é?

- Mamãe, não bagunça!

- Está bem, está bem. Deixem a Frida para outra oportunidade; e Suzanne era bonita. Além disso, revelou-se muito inteligente. O pai era pastor de igreja, o que significava que ela tinha acesso a muitos livros. Infelizmente, isso não queria dizer que tinham dinheiro, muito pelo contrário.

- Ih, era pobreta. Tinha de ter defeito – pondera a filha.

- Pobreza não é defeito, mocinha.

- Nem qualidade – sentencia a adolescente.

A mãe retorce o canto do lábio, sinal claro de reprovação, mas continua como quem não ouviu.

- O fato é que Suzanne ficou uma moça tão interessante que um rapaz, também inteligentíssimo, se apaixonou por ela. O nome dele era Edward Gibbon.

- O que ele fazia?

- Era historiador. Escreveu um dos livros mais bacanas do mundo, “A História do Declínio e da Queda do Império Romano”, que conta toda a história dos Césares.

- Eles casaram?

- Gibbon pediu permissão ao pai, mas o velho ordenou que terminasse o relacionamento. Considerava Suzanne inferior. Ela era pobre, lembram? – completa, os olhos cravados na filha.

- O que o Bibbon fez?

- Gibbon! – socorrem as outras duas.

- Isso, Gibbon – assente a mãe. – Gibbon rompeu o noivado. Segundo ele próprio escreveu, sem a proteção do pai ele estaria perdido e, portanto, ele “suspirava como um amante, mas obedecia como um filho”.

- Que covarde!

- Que sujeito ridículo. Odiei. – diz a filha, o olhar crispado sobre as lentes que descansam na ponta do nariz.

É a deixa.

- Ora, o pai dele não era má pessoa. Só pensava como você, a se levar em conta o que falou agora há pouco… – arremata a mãe.

A rockabilly abaixa a cabeça e alisa a saia, as faces coradas diante do olhar de reprovação das amigas.

- É…

A mãe percebe que a lição foi aprendida. Hora de estender a xícara de chá e o biscoito.

- Muito bem, Suzanne tomou um fora, o que é absolutamente normal, gente que nunca foi rejeitada é muito chata, e nossa heroína superou muito bem a perda. Alguns anos depois, casou-se com outro rapaz, chamado Jacques Necker.

- Diz que ele era melhor que o Gibbon, tia!

- Melhor, não digo, mas era tão bom quanto. Jacques Necker era filho de uma família nobre e um excelente economista. Tanto que em 12, 13 anos de trabalho, se não me engano, comprou um banco. Mais tarde, muito por influência de Suzanne, tornou-se escritor e político. No governo, chegou a ser o ministro das finanças do rei da França. O rei gastava muito e em bobagens. Jacques Necker foi quem o aconselhou a controlar as contas.

- Puxa!

- A Suzanne ficou rica, então, tia?

- Ficou. Bastante.

- Isso não interessa, né? – corta a filha, ainda ruborizada. – Quer dizer, o que importa é se ela foi feliz… Ela foi, mamãe?

Lição, definitivamente, assimilada. A mãe se controla para não dar beijar a bochecha cor-de-rosa.

- Foi, querida. Muito feliz e ativa. Fez campanha para o fim do comércio de escravos, ajudou os maiores hospitais de Paris, escreveu livros e tornou-se muito famosa na sociedade. Isso porque ela fazia sempre fazia reuniões com as pessoas mais brilhantes da época: artistas, filósfosos, políticos, escritores etc. Madame Necker, era como a chamavam. “O maior elogio que uma mulher pode receber é ser amada.” Foi o que ela falou.

- Que legal!

- Pois é. E olhem que nem é o mais legal…

- Como assim, tia?

- O que ela fez?

- Ela teve uma filha. Uma filha linda, que é, até hoje, uma das mulheres mais sensacionais de todos os tempos: Anne-Louise Germaine Necker, mais conhecida como Madame de Staël, a primeira filósofa política da história. Todos reconhecem o talento de Anne-Louise, que teve uma vida cheia de romances e testemunhou, na primeira fila, a Revolução Francesa e o governo de Napoleão. Benjamin Constant vivia tentando casar com ela e…

Na frente da mãe, as meninas esticam os braços e se olham. “Benjamin Constant é demais”, reconhece a mãe, que se levanta e impõe o ritmo:

- Bom, agora vocês já sabem, vamos tirar essas roupas, vamos, vamos.

Não precisou nem terminar. A algazarra tinha sido naturalmente instituída; o Pierrot e o rapper eram de novo o centro das atenções. A mãe dá de ombros e começa a recolher as xícaras, quando, de súbito, uma das visitas faz a pergunta faltante:

- E o Bibbon, hein, tia?

- Gibbon.

A mãe sorri.

- Morreu sem nunca ter se casado. E bem gordo. Dizem que um dos amigos de Suzanne, um biólogo chamado George Buffon, descobriu uma família de gorilas e deu a ela o nome de “Gibbons”. Mas não sei se é verdade.

Suzanne Necker, se estivesse viva, teria adorado as gargalhadas que ecoaram na sala como se punhados e punhados de diamantes tivessem sido jogados para o alto.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

O Cavaleiro Inexistente

batmanbegins1.jpg

Sei que demorei a escrever, perdoe-me. As horas andam líquidas além do normal, escorrem sem que eu perceba. Aliás, nunca fui boa com medidas _ sofro de incapacidade crônica quando o assunto é calcular passagem do tempo, distância ou conseqüências.

Continuo a evitar análises cotidianas. Pesaria a mão se o fizesse agora. A guerra continua solta e, depois da bagulhada, a imparcialidade de todos foi para as cucuias. Inclusive, claro, a minha.

“Não há veneno pior que o das serpentes; não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão, que morar com uma mulher maldosa.”

Eclesiastes, mas pode ficar com Nietzsche, se preferir. Dá na mesma.

Que bichos estranhos, os homens. Aos bandos são insuportáveis, totalmente sem condição de pensar por si mesmos. Sozinhos, escolhem uma persona, mascaram-na de conduta, e dela não se desgarram. A certeza é a substituta do peito da mãe, vai alimentá-los e acalmá-los pelo resto da vida.

O Batman dos cinemas, por exemplo, poderia ser alvo de horas de digressão. Prefiro, no entanto, falar do comissário Gordon, a figura mais interessante do filme.

(“Ah, não, é o Coringa!” OK. Heath Ledger era um dos homens mais bonitos e talentosos do cinema, e o mal, sabemos ambos, tem apelo. Acontece que todo mundo falou sobre o quanto ele está sensacional no filme. Eu concordo. Logo, para que repetir?)

Gary Oldman, o Gordon, também aparece magistral no raquitismo, nos óculos de míope, na voz arrastada, no bigode stalinista. É ele quem valida a raison d’etat, a lógica de que as ações do Estado não estão sujeitas às mesmas regras que os atos dos cidadãos e que, portanto, o vale-tudo é o único meio de se fazer justiça em Sodoma, digo, Gotham.

O comissário é a antítese do sertanejo _ antes de tudo, um fraco. Um coadjuvante de si mesmo. Sem ajuda não prende ninguém, não interroga ninguém, não salva ninguém. Mesmo assim, ganha palmas e promoções. Harvey Dent, o Cavaleiro Branco, consegue a condenação. Bruce Wayne, o bilionário, planeja e banca os meios para o plano ser levado adiante. Batman, o Cavaleiro Negro, realiza. Todos lindos, bem vestidos, admirados, desejados e imitados de algum modo.

Gordon… Bom, Gordon é feinho, pobreta, diletante e incapaz de identificar sequer os corruptos de seu departamento que andam de braços com a máfia. Ele se contenta com o papel de abre-alas para Dent e Batman. Só o filho, Jr., vê alguma graça no velho comissário.


“Did Batman save you, daddy?”

“Actually, this time I saved him.”

Rá. Mentira, mas ele acredita. Diga lá: se não fosse monitorarem todo mundo, o que seria de Gordon?

Enquanto o diálogo entre os homens da família Gordon acontece, a filha e a mulher do chefe de polícia estão amarradas e tremendo de medo, logo após terem sido ameaçadas por um maníaco desfigurado. Gordon pouco se importa: ele e o Jr. precisam ficar de olho é no Morcegão, a síntese de tudo aquilo que ele gostaria de ser e não é. Não é só o Coringa que precisa do Batman.

Ora, fácil perceber que o policial acomodou uma massa de bílis amarela e negra, encapada com fleuma, onde deveria colocar a pedra angular de sua personalidade. Raiva, ressentimento, impotência e inveja, tudo ali, guardado e escondido sob a aparente humildade. E é isso que ele está ensinando para o Jr.


“Y’see, madness, as you know, is like gravity. All it takes is a little…push.”

Não é difícil imaginar que o Coringa tenha, um dia, sido Gordon, o Cavalariço.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Vampiro

Poderiam ser o tambores em torno da Petrobras, ou as polêmicas do boqueirão virtual, mas a verdade é que Monteiro Lobato riscou na memória por conta de uma reclamação.

“O diabo queira escrever forçado! É o mesmo que andar arcado. Nada emperra mais a pena, e tolhe tanto o correntio da frase, como sentirmos sobre os ombros alguém a espiar-nos.”

Verdade. Há um monte de coisas acontecendo por aí e algumas, poucas, valeriam comentário. O problema é que não tenho vontade de escrever sobre. Só consigo pensar em outra coisa: o morcego que invadiu a casinha de barro há algumas noites, enquanto eu, deitada, sozinha e à luz da vela, lia histórias da Companhia de Jesus.

Naquele momento, inesquecível, enfiei a cabeça sob o cobertor e torci, com a imaginação virada em Blake, para que o bicho parasse de dar rasantes perto de mim.

O diabrete, educadíssimo, atendeu. Pendurou-se de ponta-cabeça no gancho do teto, exatamente em cima da minha cabeça, trinta centímetros de envergadura recolhidos até o próximo vôo.

De modo que não tinha jeito, era preciso levantar. O andaraí enlouqueceu ainda mais. Passou a voar, aos guinchos, pertinho do meu ombro e dos meus cabelos. Nem sei de onde tirei calma suficiente para procurar os tênis, a corrente do portão, o cadeado e a blusa, necessários para sair em trilha noturna na busca de ajuda.

Meio do caminho, Fortuna descuidou-se e a lanterna pifou. Céu sem estrelas. O chão, lama pura. Breu, no meio da mata Atlântica. Barulhos de todos os bichos. Seguir ou voltar?

“Ande com calma na estrada escorregadia, pois nela se embosca o demônio do desastre.”

Confúcio, meu filho, está certíssimo.” Voltei. Como tinha percorrido o caminho há dois minutos, aclives e declives estavam frescos na memória, bem como as histórias do padre Abarébebê, que me precedeu na difícil arte das viagens e do autocontrole.

Entrei de novo na casa atrás de velas e fósforos para iluminar meus nervos. O pequeno Mefistófoles, persistente, continuava por lá. Voltou a se debater em torno de mim.

Confesso que aí minha porção Lilith já estava gostando da brincadeira e pensava que aquela coisinha nojenta bem que poderia se transformar num vampiro bonitão disposto a partilhar uma taça de vinho e boa conversa antes de se atracar com meu pescoço.

Os pensamentos ímpios me salvaram. Foi assim que, obsessa e digna, cheguei na casa da professora. Moradora há 15 anos do local, a moça contou sorrindo: o morcego é velho conhecido de todos eles. Eu é que tinha invadido a casa do Vlad, veja você.

Tudo, meu caro, é questão de perspectiva.

PS: O único perigo, esclareceu a professora, é que eu tenha sido mordida, pois o danado é transmissor da raiva e seu roçar de dentes é tão leve que, muitas vezes, o atacado nada sente (ou não demonstra que sente). Tenho algumas marcas na carótida (adoro tal palavra) e no pé. De lá para agora, porém, estou louca de calma. Se, contudo, ficar agressiva nos próximos dias, o motivo consta explicado.

sábado, 2 de agosto de 2008

Os hunos 5 – As férias

MANU: “Minha ligação com a mata é tão forte que preciso de um filtro para não me perder em suas pequenas maravilhas.”

JANA: “Que lindo isso, minha filha. E que filtro é esse?”

MANU: “Raid e repelente.”

- * -

MANU: “Mamãe, tem um bicho ENORME aqui dentro.”

JANA: “É um grilo, Manu. Só espantar.”

MANU: “Eu me recuso. Ele é muito feio.”

JANA: “Sinto informar, então, que ele e a feiúra continuarão aí.”

MANU (resmungando para o grilo enquanto tenta conduzi-lo para fora da casa): “E ainda brigaram com o Pinóquio quando ele não te deu bola…”

- * -

JANA: “Você deixou a mochila arrumada para a trilha de amanhã, neném?”

MANU: “Sim, sim.”

JANA (uma sobrancelha erguida): “Estou falando da mochila, espertinha. Frasqueira cor-de-rosa, a história da Gucci e batom não são coisas necessárias para andar no meio do mato.”

MANU: “Claro que são! É uma questão de natureza.”

JANA: “Não diga! De natureza, é?”

MANU: “É, mamãe. Da minha.”

- * -

MANU: “Mamãe, a senhora não está medo de dormir aqui, nesse breu?”

JANA: “Não.”

MANU: “Pode me explicar como isso é possível?”

JANA: “Penso no Oliver Sacks.”

MANU: “E quem é esse?”

JANA: “Um neurologista famoso, ótimo escritor, que relata casos incríveis relacionados ao funcionamento do cérebro. Lembro de o Sacks ter explicado, certa vez, que os homens são seres emocionais, cuja visão depende, entre outros fatores, da predisposição. Em outras palavras, numa situação como a nossa a pessoa pode se condicionar para ver certas coisas, caso fique pensando muito nelas. Entendeu?”

MANU: “Entendi. Vou concentrar todo o meu emocional no Brad Pitt.”

- * -

Depois de ler os diálogos acima, creio que é fácil entender por que bastou ela pedir uma vez para eu voltar correndo. Fico por aqui nos próximos dias.

Beijo para você.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Nunca

Desculpem o sumiço. Ontem, minha filha chegou de viagem depois de duas semanas. Como toda huna, ela adora seriadinhos de TV, especialmente aqueles do tipo Law & Order, CSI etc. Confesso que também gosto (menos do CSI Miami, onde os cadáveres e os investigadores partilham das mesmas cores anos 80).

Tem uma coisa, porém que sempre me encafifa: por que as pessoas que morrem nunca deixam dicas mais óbvias para o pessoal que terá de procurar sua causa mortis?

Eu, por exemplo, teria uns dez itens de coisas escritas n’algum canto, tipo a lista do NUNCA. Mais ou menos assim:

1) Nunca me mataria. Tenho uma filha linda, que já deu sentido a ela. Portanto, estou por aqui fazendo hora. Mas jamais, nunca mesmo, faria sofrer as pessoas à minha volta.

2) Se me encontrassem asfixiada nunca seria por gostar de sexo com travesseiro na cara. Marcas de tortura de qualquer gênero deveriam ser encaradas como isso mesmo: tortura. Eu nunca apanharia por vontade própria.

3) Eu não uso drogas. Nunca morreria de overdose. Se acontecesse, teria sido induzida ou forçada.

4) Não ando em quebradas. Se encontrassem meu corpo muito distante do perímetro onde moro, pode saber: alguém fez aquilo.

5) Não tenho dinheiro, nem carro. Morrer num tiroteio no ponto de ônibus até que é provável, bem como ser atropelada etc. Mas é outro risco que não corro, pois minha disposição é mínima. No momento, nunca morreria disso também.

6) Adoro pedir comida pelo telefone. Mas estou na casa da minha mãe e ela não deixa. Veneno, então, nunca seria algo natural. E, como aos 35 o corpo ainda não precisa se preocupar com doenças crônicas do coração, o médico deveria pensar nessa hipótese se dissessem que foi um ataque cardíaco.

7) Afogamento é algo impossível de acontecer num apartamento com o banheiro tão apertado. Nunca seria plausível.

8) Brigas passionais também estão descartadas. Nunca. Moro com minha mãe e minha filha _ as duas pessoas mais importantes da minha vida. Posso ficar brava de vez em quando, ser linha dura e tal, mas nenhum mal seria feito por mim para elas e vice-versa.

9) Há a zarabatana de curare, mas meus vizinhos de Pinheiros nunca teriam o hábito de usá-las. Se bem que, depois de tanto CSI, me sinto pouco inclinada a abrir a janela.

10) Sobra o incêndio, esse sim, plausível. Afinal, quem brinca com o fogo sai queimado, não? Mas eu não começaria. Eu nunca começo.

E agora, leitor, você já sabe disso. Tomei muito do seu tempo, vou ali liberar os comentários e depois terminar meu frila. Ontem, a página estava dando problemas. Espero que hoje esteja tudo ok.

Beijos,

Jana