“Sua mente está aberta?”
Era assim que Paul Erdös, um dos maiores matemáticos de todos os tempos, costumava abordar seu interlocutor. Como ele dormia pouquíssimo, a pergunta podia surgir tarde da noite ou com o sol ainda no horizonte. Tinha como objetivo, na maioria das vezes, iniciar a proposição de um novo mistério para amigos, estudantes ou qualquer um que chamasse a atenção daquele húngaro franzino, de origem judaica, com sotaque carregadíssimo.
A biografia fascinante de Erdös começou em 26 de março de 1913, na cidade de Budapeste, mesmo dia em que morreram suas duas irmãs, abatidas pela escarlatina. Assim, cresceu único em uma família de matemáticos, educado com esmero pela mãe zelosa (o pai, coitado, foi preso pelos russos e passou anos em um campo de concentração na Sibéria). Mais tarde, seria Hitler o responsável por matar praticamente todos os parentes de Erdös. Ele nunca se casou, nem teve filhos.
O matemático estava distante, porém, de figurar como solitário. Era alegre, espirituoso e sociável a ponto de ter um vocabulário inventado conhecido pelos que o rodeavam. Por exemplo, quando ele dizia que o sujeito havia “partido”, o pessoal sabia que o indivíduo em questão tinha falecido. Se Erdös, contudo, afirmasse que a pessoa morrera, a conclusão acertada era a de que ela havia parado de fazer matemática.
Foi nos Estados Unidos, para onde se mudou após a formatura, que o prodígio húngaro iniciou a prática que viria a se tornar sua marca registrada: a colaboração com outros matemáticos, nos mais diferentes campos. Suas parcerias, centenas, resultaram em 1.500 artigos científicos publicados (dizem que a média de alguém extremamente prolífico nessa área não passa de 50.)
“’Estávamos tomando um café na cantina’, conta o geômetra George Purdy, ‘e havia um problema no quadro negro sobre análise funcional, uma área em que Erdös não sabia nada. Eu sabia que dois analistas recentemente conseguiram solucionar o problema num artigo de 30 páginas e estavam muito orgulhosos de seu feito. Erdös olhou para o quadro e disse: ‘O que é isso? É um problema?’ Eu disse que sim e então ele foi ao quadro e leu atentamente o problema. Ele me perguntou algumas questões sobre o que os símbolos ali escritos representavam e, aparentemente sem nenhum esforço, escreveu uma solução em apenas duas linhas. Se isso não é mágica, o que é então?”
Erdös não tinha casa nem bens. Suas posses eram duas bolsas de mão, uma para carregar roupas e a outra, publicações matemáticas. Vivia de conferência em conferência, visitando universidades. Era hospedado pelos amigos, responsáveis por todos os aspectos práticos da vida do matemático, do imposto de renda à comida. O dinheiro que recebia, inclusive milhares de dólares dos prêmios, doava para quem julgasse que faria melhor proveito.
Descobri essa figura única, que morreu em 1996, aos 83 anos, por conta do fascínio e da estranheza que causou a mim, representante do mundo das palavras, uma das suas crenças _ “O Livro”, publicação composta por todos (todos!) os teoremas da Matemática. Para cada um, segundo O Livro, haveria apenas uma prova, a resolução mais elegante e correta para o respectivo problema. Imaginou? (Se alguém souber mais sobre tal assunto, por favor, me avise. Minha curiosidade vai às alturas com essa história.)
Ao fim das contas, porém, o que me cativou na vida desse matemático singular foi o depoimento de um amigo dele, Richard K. Guy:
“Meu maior débito a Erdös vem de uma conversa 30 anos atrás, no Hotel Parco dei Principi em Roma. Ele veio a mim e me surpreendeu com um convite ‘Guy, vamos tomar um café?’. Eu não bebo muito café, mas fiquei intrigado porque o grande homem tinha me escolhido. Quando chegamos ao café, Paul disse-me :
‘Guy, você é infinitamente rico, me empresta $100?’
Fiquei impressionado, não apenas pelo pedido, minha maior surpresa foi a capacidade de satisfazê- lo. Desde esse dia, entendi que sou infinitamente rico; não apenas no plano material, no sentido de que tenho tudo o que preciso, mas infinitamente rico em espírito, em ter a matemática, em ter conhecido Erdös.”
Não é preciso muito para ver que Guy tinha razão.
PS: Os trechos acima foram retirados de traduções feitas por André Kauffman. Um primor.
PS2: O post é para você, Yara, outra “geninha” do Leste Europeu com coração de ouro. Um beijo grande e carinhoso.