21 de agosto de 2009

Soluço

Catatonia é uma doença estranha. O portador há tempos parado pode se movimentar de rompante. Basta um estímulo externo, que nem precisa ser grande coisa, para a alternância de estado. De modo que, após ler os jornais de hoje, levantei do caixão de vidro e resolvi tocar bumbo.

A vontade irresistível veio com o editorial d’O Estadão. Um trecho:


“O lulismo deixou o petismo de joelhos. Movido por um projeto inequivocamente pessoal que se desdobra em três etapas – eleger a candidata à sucessão que escolheu em decisão solitária, ser a eminência parda do próximo governo e voltar ao Planalto em 2015 -, o presidente Lula faz o que for preciso e obriga o PT a pagar qualquer preço para que se cumpram as cláusulas desse contrato que celebrou consigo próprio.”

Na Folha de S.Paulo, a mesma toada. Petistas históricos falaram sobre o vão entre Lula e seu partido. Reproduzo um pedacinho:


“FRANCISCO DE OLIVEIRA , sociólogo e fundador do PT: “A relação da crise atual com as anteriores é a mesma: o Lula tornou-se maior que o partido e o partido vive a reboque do presidente. Impõe o estilo autoritário que é próprio do Lula e foi escondido devido ao fato de que era um prestigioso líder sindical em oposição à ditadura. Lula é muito autoritário, arrasou o PT, fez do partido trampolim para suas alianças políticas espúrias. [A tese da governabilidade] é um velho argumento conservador. Todos no Brasil que preferem manter o status quo usam o argumento da governabilidade”.

Os contornos da briga entre lulismo e petismo ficam, portanto, cada vez mais definidos. Para o leitor é ótimo. Articulistas como Demétrio Magnoli há meses sinalizam tal direção:


“Lulismo e petismo são fenômenos distintos, porém entrelaçados. Lula é um político conservador, salvacionista, de rara sagacidade. No ocaso da ditadura, o suposto mago Golbery do Couto e Silva o imaginou como o agente da destruição da esquerda no Brasil. O PT é um fruto estranho, mas cheio de vitalidade, do encontro tríplice, no outono do socialismo soviético, entre a velha esquerda castrista, a militância católica da ‘Igreja da libertação’ e uma nova burocracia sindical.”

* * *

Além da divisão lulismo-petismo, epidérmica, existem outras. Talvez até mais importantes.

Há os petistas pragmáticos, seguidores de José Dirceu. Acomodaram-se em torno do empresariado e tocam um balcão de negócios de respeito. Tomam vinho fino, usam roupa de grife e não têm mais tempo para os amigos das antigas. Sua preocupação são as costuras políticas de longo prazo.

Há os petistas sindicalistas, outrora identificados com Luiz Gushiken. Sóbrios, centralizadores e pouco democráticos. Mandam nos fundos de pensão, nos bancos oficiais, nas centrais sindicais e na rede de distribuição da verba publicitária do governo. Na prática, são também os donos da polícia e os pauteiros do Ministério Público.

Ganha quem emplacar mais congressistas em 2010 e quem for o maior credor do futuro presidente, não importa o candidato.

O lulismo é o fiel da balança. Quando começa a pender muito para um dos lados, apanha forte.

Fácil apostar que o fogo não vai ter nada de amigo. Nada.

* * *

A ofensiva contra as empreiteiras (alguém lembra da “Castelo de Areia”?) secou o caixa dois dos partidos. Só vai arriscar quem tiver benção e garantia. O “dinheiro não contabilizado” vai sair mais fácil de estatais e congêneres.

Seguindo o raciocínio, é impressão ou o BNDES ficou invisível e faz o que quer? Capitalização de R$ 100 bilhões? Aumento da dívida pública? Dinheirama nas mãos dos amigos do rei?

Tenham dó, meninos da oposição. Depois não adianta reclamar.

* * *

Sábado à tarde, telefone. Minha filha. Está com os hunos na Av. Paulista, gritando contra a permanência de José Sarney.

Fico em silêncio.

Um lado meu pensa como a velhinha de Siracusa, aquela que protestou quando foram decapitar o tirano – “matam este e vem outro pior.”

Outro lado, resquício cara-pintada, quer dizer para a pequena o quanto tem orgulho dela, que democracia exige participação, que ter esperança é essencial para mudar etc.

No fim, pergunto apenas a que horas ela estará de volta. “Cedo”, diz.

Ainda bem.

* * *

Você também lembra do Igor, de “O Jovem Frankenstein”, quando o Collor arregala os olhos?

* * *

Lina, Dilma, Ideli, Lula. O Brasil, às vezes, parece uma grande Sucupira.

* * *

E a Record tomou uma lambada justo quando está prestes a lançar seu portal de notícias na internet. Coincidência ou não, a história da lavagem de dinheiro me fez lembrar desta aqui; a oferta de indulgências, daquela .

* * *

Acabo de ler que exportamos um “Jesus Pinto da Luz” para Madonna. É para fazer qualquer um passar mais seis meses quieto.

9 comentários para “Soluço”

  1. Alex disse:

    Que bom ter você de volta Jana!
    Quem me perguntou de você foi a SED. Quer saber o que anda fazendo.
    Bjs
    Alex
    JANAÍNA: De volta “pero no mucho”. Foi só um soluço; caí em tentação. :-D
    Puxa, que notícia boa a sua. Por favor, diga a S. que mandei um beijão para ela. Peça para me escrever, vou ficar feliz em responder.
    Outro beijo pra você.

  2. Eduardo F Netto disse:

    Sempre passo em sua casa, as portas e janelas fechadas. luz apagada, quando passo e vejo a sua casa tão florida me vem a alegria de te reencontrar
    JANAÍNA: Oi, Eduardo. Que coisa linda isso que você escreveu. Espero que tudo corra muito bem, sempre. Abs.

  3. janice tomanini disse:

    A boa e velha -no bom sentido, Jornalista com J maiúsculo. Saudades de um bom soluço. Mesmo que a notícia do nosso Jesus Pinto da Luz cale sua voz por mais uns seis meses fica valendo este post para ler e reler. Garanto que em 6 meses não produzirão tanta qualidade na internet. Qualidade é aqui e em mais meia dúzia.
    Obrigada, amiga.
    Beijos!
    JANAÍNA: Ah, coisa querida, você é suspeita! Pois é, bateu uns cinco minutos aí… Estou com saudade. Vamos nos falar. Bj.

  4. Diego disse:

    O post foi censurado.
    A mãe zelosa é mais importante que a conspícua jornalista.
    Pois é, talvez eu seja o único idiota que ache mais importante ser um pai dedicado.
    JANAÍNA: Oi, Diego. Acho que você não é o único, não. Eles, sempre eles, em primeiro lugar. :-)

  5. Odracir Silva disse:

    Cara Janaina, talvez foi um soluco, e foi um “soluco” opinativo. Porem, acho mais interessante qdo vc faz um jornalismo investigativo. Alias, faz falta atualmente um bom jornalismo investigativo.
    JANAÍNA: Oi, Odracir. Assim como você, também acho o jornalismo investigativo o que há de melhor. Mas, meu tempo na atividade acabou. Agora é só opinião mesmo, com uma leiturinha daqui, outra acolá… :-D Abs.

  6. paulo araújo disse:

    Oi, Jana.
    Não me admiraria que a princesa estivesse no comando de um “fora Sarney”. Não me espantei ao ler que ela foi. E o realismo da mãe é providencial. Equilibra.
    bjs.
    JANAÍNA: Oi, Paulo! Que bom você por aqui. Pois é. Até queria de volta aquela crença toda que eu tinha, mas por enquanto… nada! :-) Um beijo pra você.

  7. diego disse:

    Antes eu nao votava no Lula pelo que ele era; agroa nao voto pelo que ele nao é!
    JANAÍNA: Enigmático, mas tá no seu direito. :-)

  8. Sharp Random disse:

    Muito bom.
    Abre um Twitter, Janaína.
    É utilíssimo. Gotas do seu conteúdo vão fazer muito bem. É rápido e indolor. Vamos lá… (!)
    Abração.
    JANAÍNA: Oi, Sharp. Eu tenho um negocinho desses lá, é /janainaleite. Mas, para falar a verdade, até hoje não me animei muito. Acho que rolou o gap entre gerações… :-)

  9. Sharp Random disse:

    Janaína, no meu tempo o emblema desse gap foi a tecla ‘enter’ rsrsrs. Superado o trauma nada mais poderia ser tão desafiador… ;) ))
    Tô na fita. Pílulas de Janaína…
    [ ]s
    JANAÍNA: Vamos ver, vamos ver… Não prometo nada. :-) Abração.

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