Catatonia é uma doença estranha. O portador há tempos parado pode se movimentar de rompante. Basta um estímulo externo, que nem precisa ser grande coisa, para a alternância de estado. De modo que, após ler os jornais de hoje, levantei do caixão de vidro e resolvi tocar bumbo.
A vontade irresistível veio com o editorial d’O Estadão. Um trecho:
“O lulismo deixou o petismo de joelhos. Movido por um projeto inequivocamente pessoal que se desdobra em três etapas – eleger a candidata à sucessão que escolheu em decisão solitária, ser a eminência parda do próximo governo e voltar ao Planalto em 2015 -, o presidente Lula faz o que for preciso e obriga o PT a pagar qualquer preço para que se cumpram as cláusulas desse contrato que celebrou consigo próprio.”
Na Folha de S.Paulo, a mesma toada. Petistas históricos falaram sobre o vão entre Lula e seu partido. Reproduzo um pedacinho:
“FRANCISCO DE OLIVEIRA , sociólogo e fundador do PT: “A relação da crise atual com as anteriores é a mesma: o Lula tornou-se maior que o partido e o partido vive a reboque do presidente. Impõe o estilo autoritário que é próprio do Lula e foi escondido devido ao fato de que era um prestigioso líder sindical em oposição à ditadura. Lula é muito autoritário, arrasou o PT, fez do partido trampolim para suas alianças políticas espúrias. [A tese da governabilidade] é um velho argumento conservador. Todos no Brasil que preferem manter o status quo usam o argumento da governabilidade”.
Os contornos da briga entre lulismo e petismo ficam, portanto, cada vez mais definidos. Para o leitor é ótimo. Articulistas como Demétrio Magnoli há meses sinalizam tal direção:
“Lulismo e petismo são fenômenos distintos, porém entrelaçados. Lula é um político conservador, salvacionista, de rara sagacidade. No ocaso da ditadura, o suposto mago Golbery do Couto e Silva o imaginou como o agente da destruição da esquerda no Brasil. O PT é um fruto estranho, mas cheio de vitalidade, do encontro tríplice, no outono do socialismo soviético, entre a velha esquerda castrista, a militância católica da ‘Igreja da libertação’ e uma nova burocracia sindical.”
Além da divisão lulismo-petismo, epidérmica, existem outras. Talvez até mais importantes.
Há os petistas pragmáticos, seguidores de José Dirceu. Acomodaram-se em torno do empresariado e tocam um balcão de negócios de respeito. Tomam vinho fino, usam roupa de grife e não têm mais tempo para os amigos das antigas. Sua preocupação são as costuras políticas de longo prazo.
Há os petistas sindicalistas, outrora identificados com Luiz Gushiken. Sóbrios, centralizadores e pouco democráticos. Mandam nos fundos de pensão, nos bancos oficiais, nas centrais sindicais e na rede de distribuição da verba publicitária do governo. Na prática, são também os donos da polícia e os pauteiros do Ministério Público.
Ganha quem emplacar mais congressistas em 2010 e quem for o maior credor do futuro presidente, não importa o candidato.
O lulismo é o fiel da balança. Quando começa a pender muito para um dos lados, apanha forte.
Fácil apostar que o fogo não vai ter nada de amigo. Nada.
A ofensiva contra as empreiteiras (alguém lembra da “Castelo de Areia”?) secou o caixa dois dos partidos. Só vai arriscar quem tiver benção e garantia. O “dinheiro não contabilizado” vai sair mais fácil de estatais e congêneres.
Seguindo o raciocínio, é impressão ou o BNDES ficou invisível e faz o que quer? Capitalização de R$ 100 bilhões? Aumento da dívida pública? Dinheirama nas mãos dos amigos do rei?
Tenham dó, meninos da oposição. Depois não adianta reclamar.
Sábado à tarde, telefone. Minha filha. Está com os hunos na Av. Paulista, gritando contra a permanência de José Sarney.
Fico em silêncio.
Um lado meu pensa como a velhinha de Siracusa, aquela que protestou quando foram decapitar o tirano – “matam este e vem outro pior.”
Outro lado, resquício cara-pintada, quer dizer para a pequena o quanto tem orgulho dela, que democracia exige participação, que ter esperança é essencial para mudar etc.
No fim, pergunto apenas a que horas ela estará de volta. “Cedo”, diz.
Ainda bem.
Você também lembra do Igor, de “O Jovem Frankenstein”, quando o Collor arregala os olhos?
Lina, Dilma, Ideli, Lula. O Brasil, às vezes, parece uma grande Sucupira.
E a Record tomou uma lambada justo quando está prestes a lançar seu portal de notícias na internet. Coincidência ou não, a história da lavagem de dinheiro me fez lembrar desta aqui; a oferta de indulgências, daquela lá.
Acabo de ler que exportamos um “Jesus Pinto da Luz” para Madonna. É para fazer qualquer um passar mais seis meses quieto.








Que bom ter você de volta Jana!
Quem me perguntou de você foi a SED. Quer saber o que anda fazendo.
Bjs
Alex
JANAÍNA: De volta “pero no mucho”. Foi só um soluço; caí em tentação.
Puxa, que notícia boa a sua. Por favor, diga a S. que mandei um beijão para ela. Peça para me escrever, vou ficar feliz em responder.
Outro beijo pra você.
Sempre passo em sua casa, as portas e janelas fechadas. luz apagada, quando passo e vejo a sua casa tão florida me vem a alegria de te reencontrar
JANAÍNA: Oi, Eduardo. Que coisa linda isso que você escreveu. Espero que tudo corra muito bem, sempre. Abs.
A boa e velha -no bom sentido, Jornalista com J maiúsculo. Saudades de um bom soluço. Mesmo que a notícia do nosso Jesus Pinto da Luz cale sua voz por mais uns seis meses fica valendo este post para ler e reler. Garanto que em 6 meses não produzirão tanta qualidade na internet. Qualidade é aqui e em mais meia dúzia.
Obrigada, amiga.
Beijos!
JANAÍNA: Ah, coisa querida, você é suspeita! Pois é, bateu uns cinco minutos aí… Estou com saudade. Vamos nos falar. Bj.
O post foi censurado.
A mãe zelosa é mais importante que a conspícua jornalista.
Pois é, talvez eu seja o único idiota que ache mais importante ser um pai dedicado.
JANAÍNA: Oi, Diego. Acho que você não é o único, não. Eles, sempre eles, em primeiro lugar.
Cara Janaina, talvez foi um soluco, e foi um “soluco” opinativo. Porem, acho mais interessante qdo vc faz um jornalismo investigativo. Alias, faz falta atualmente um bom jornalismo investigativo.
Abs.
JANAÍNA: Oi, Odracir. Assim como você, também acho o jornalismo investigativo o que há de melhor. Mas, meu tempo na atividade acabou. Agora é só opinião mesmo, com uma leiturinha daqui, outra acolá…
Oi, Jana.
Um beijo pra você.
Não me admiraria que a princesa estivesse no comando de um “fora Sarney”. Não me espantei ao ler que ela foi. E o realismo da mãe é providencial. Equilibra.
bjs.
JANAÍNA: Oi, Paulo! Que bom você por aqui. Pois é. Até queria de volta aquela crença toda que eu tinha, mas por enquanto… nada!
Antes eu nao votava no Lula pelo que ele era; agroa nao voto pelo que ele nao é!
JANAÍNA: Enigmático, mas tá no seu direito.
Muito bom.
Abre um Twitter, Janaína.
É utilíssimo. Gotas do seu conteúdo vão fazer muito bem. É rápido e indolor. Vamos lá… (!)
Abração.
JANAÍNA: Oi, Sharp. Eu tenho um negocinho desses lá, é /janainaleite. Mas, para falar a verdade, até hoje não me animei muito. Acho que rolou o gap entre gerações…
Janaína, no meu tempo o emblema desse gap foi a tecla ‘enter’ rsrsrs. Superado o trauma nada mais poderia ser tão desafiador…
))
Abração.
Tô na fita. Pílulas de Janaína…
[ ]s
JANAÍNA: Vamos ver, vamos ver… Não prometo nada.