Um monte de gente gravou, inclusive a Peggy Lee. Eu gosto da versão que está aqui.
Arquivo de agosto de 2009
Soluço
Catatonia é uma doença estranha. O portador há tempos parado pode se movimentar de rompante. Basta um estímulo externo, que nem precisa ser grande coisa, para a alternância de estado. De modo que, após ler os jornais de hoje, levantei do caixão de vidro e resolvi tocar bumbo.
A vontade irresistível veio com o editorial d’O Estadão. Um trecho:
“O lulismo deixou o petismo de joelhos. Movido por um projeto inequivocamente pessoal que se desdobra em três etapas – eleger a candidata à sucessão que escolheu em decisão solitária, ser a eminência parda do próximo governo e voltar ao Planalto em 2015 -, o presidente Lula faz o que for preciso e obriga o PT a pagar qualquer preço para que se cumpram as cláusulas desse contrato que celebrou consigo próprio.”
Na Folha de S.Paulo, a mesma toada. Petistas históricos falaram sobre o vão entre Lula e seu partido. Reproduzo um pedacinho:
“FRANCISCO DE OLIVEIRA , sociólogo e fundador do PT: “A relação da crise atual com as anteriores é a mesma: o Lula tornou-se maior que o partido e o partido vive a reboque do presidente. Impõe o estilo autoritário que é próprio do Lula e foi escondido devido ao fato de que era um prestigioso líder sindical em oposição à ditadura. Lula é muito autoritário, arrasou o PT, fez do partido trampolim para suas alianças políticas espúrias. [A tese da governabilidade] é um velho argumento conservador. Todos no Brasil que preferem manter o status quo usam o argumento da governabilidade”.
Os contornos da briga entre lulismo e petismo ficam, portanto, cada vez mais definidos. Para o leitor é ótimo. Articulistas como Demétrio Magnoli há meses sinalizam tal direção:
“Lulismo e petismo são fenômenos distintos, porém entrelaçados. Lula é um político conservador, salvacionista, de rara sagacidade. No ocaso da ditadura, o suposto mago Golbery do Couto e Silva o imaginou como o agente da destruição da esquerda no Brasil. O PT é um fruto estranho, mas cheio de vitalidade, do encontro tríplice, no outono do socialismo soviético, entre a velha esquerda castrista, a militância católica da ‘Igreja da libertação’ e uma nova burocracia sindical.”
Além da divisão lulismo-petismo, epidérmica, existem outras. Talvez até mais importantes.
Há os petistas pragmáticos, seguidores de José Dirceu. Acomodaram-se em torno do empresariado e tocam um balcão de negócios de respeito. Tomam vinho fino, usam roupa de grife e não têm mais tempo para os amigos das antigas. Sua preocupação são as costuras políticas de longo prazo.
Há os petistas sindicalistas, outrora identificados com Luiz Gushiken. Sóbrios, centralizadores e pouco democráticos. Mandam nos fundos de pensão, nos bancos oficiais, nas centrais sindicais e na rede de distribuição da verba publicitária do governo. Na prática, são também os donos da polícia e os pauteiros do Ministério Público.
Ganha quem emplacar mais congressistas em 2010 e quem for o maior credor do futuro presidente, não importa o candidato.
O lulismo é o fiel da balança. Quando começa a pender muito para um dos lados, apanha forte.
Fácil apostar que o fogo não vai ter nada de amigo. Nada.
A ofensiva contra as empreiteiras (alguém lembra da “Castelo de Areia”?) secou o caixa dois dos partidos. Só vai arriscar quem tiver benção e garantia. O “dinheiro não contabilizado” vai sair mais fácil de estatais e congêneres.
Seguindo o raciocínio, é impressão ou o BNDES ficou invisível e faz o que quer? Capitalização de R$ 100 bilhões? Aumento da dívida pública? Dinheirama nas mãos dos amigos do rei?
Tenham dó, meninos da oposição. Depois não adianta reclamar.
Sábado à tarde, telefone. Minha filha. Está com os hunos na Av. Paulista, gritando contra a permanência de José Sarney.
Fico em silêncio.
Um lado meu pensa como a velhinha de Siracusa, aquela que protestou quando foram decapitar o tirano – “matam este e vem outro pior.”
Outro lado, resquício cara-pintada, quer dizer para a pequena o quanto tem orgulho dela, que democracia exige participação, que ter esperança é essencial para mudar etc.
No fim, pergunto apenas a que horas ela estará de volta. “Cedo”, diz.
Ainda bem.
Você também lembra do Igor, de “O Jovem Frankenstein”, quando o Collor arregala os olhos?
Lina, Dilma, Ideli, Lula. O Brasil, às vezes, parece uma grande Sucupira.
E a Record tomou uma lambada justo quando está prestes a lançar seu portal de notícias na internet. Coincidência ou não, a história da lavagem de dinheiro me fez lembrar desta aqui; a oferta de indulgências, daquela lá.
Acabo de ler que exportamos um “Jesus Pinto da Luz” para Madonna. É para fazer qualquer um passar mais seis meses quieto.
Dica
Demétrio Magnoli, uma das vozes mais bacanas do país, lança novo livro em 2 de setembro, às 19 horas, na Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi.

Dedos e anéis
“Neste mundo, se você ler os jornais/ Verá que todos estão brigando/ Você não pode contar com ninguém, baby/ Nem mesmo com seu próprio irmão.”
Get it while you can.







