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August 14, 2008

O Cavaleiro Inexistente

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Sei que demorei a escrever, perdoe-me. As horas andam líquidas além do normal, escorrem sem que eu perceba. Aliás, nunca fui boa com medidas _ sofro de incapacidade crônica quando o assunto é calcular passagem do tempo, distância ou conseqüências.

Continuo a evitar análises cotidianas. Pesaria a mão se o fizesse agora. A guerra continua solta e, depois da bagulhada, a imparcialidade de todos foi para as cucuias. Inclusive, claro, a minha.

"Não há veneno pior que o das serpentes; não há cólera que vença a da mulher. É melhor viver com um leão e um dragão, que morar com uma mulher maldosa."

Eclesiastes, mas pode ficar com Nietzsche, se preferir. Dá na mesma.

Que bichos estranhos, os homens. Aos bandos são insuportáveis, totalmente sem condição de pensar por si mesmos. Sozinhos, escolhem uma persona, mascaram-na de conduta, e dela não se desgarram. A certeza é a substituta do peito da mãe, vai alimentá-los e acalmá-los pelo resto da vida.

O Batman dos cinemas, por exemplo, poderia ser alvo de horas de digressão. Prefiro, no entanto, falar do comissário Gordon, a figura mais interessante do filme.

("Ah, não, é o Coringa!" OK. Heath Ledger era um dos homens mais bonitos e talentosos do cinema, e o mal, sabemos ambos, tem apelo. Acontece que todo mundo falou sobre o quanto ele está sensacional no filme. Eu concordo. Logo, para que repetir?)

Gary Oldman, o Gordon, também aparece magistral no raquitismo, nos óculos de míope, na voz arrastada, no bigode stalinista. É ele quem valida a raison d'etat, a lógica de que as ações do Estado não estão sujeitas às mesmas regras que os atos dos cidadãos e que, portanto, o vale-tudo é o único meio de se fazer justiça em Sodoma, digo, Gotham.

O comissário é a antítese do sertanejo _ antes de tudo, um fraco. Um coadjuvante de si mesmo. Sem ajuda não prende ninguém, não interroga ninguém, não salva ninguém. Mesmo assim, ganha palmas e promoções. Harvey Dent, o Cavaleiro Branco, consegue a condenação. Bruce Wayne, o bilionário, planeja e banca os meios para o plano ser levado adiante. Batman, o Cavaleiro Negro, realiza. Todos lindos, bem vestidos, admirados, desejados e imitados de algum modo.

Gordon... Bom, Gordon é feinho, pobreta, diletante e incapaz de identificar sequer os corruptos de seu departamento que andam de braços com a máfia. Ele se contenta com o papel de abre-alas para Dent e Batman. Só o filho, Jr., vê alguma graça no velho comissário.

"Did Batman save you, daddy?"

"Actually, this time I saved him."

Rá. Mentira, mas ele acredita. Diga lá: se não fosse monitorarem todo mundo, o que seria de Gordon?

Enquanto o diálogo entre os homens da família Gordon acontece, a filha e a mulher do chefe de polícia estão amarradas e tremendo de medo, logo após terem sido ameaçadas por um maníaco desfigurado. Gordon pouco se importa: ele e o Jr. precisam ficar de olho é no Morcegão, a síntese de tudo aquilo que ele gostaria de ser e não é. Não é só o Coringa que precisa do Batman.

Ora, fácil perceber que o policial acomodou uma massa de bílis amarela e negra, encapada com fleuma, onde deveria colocar a pedra angular de sua personalidade. Raiva, ressentimento, impotência e inveja, tudo ali, guardado e escondido sob a aparente humildade. E é isso que ele está ensinando para o Jr.

"Y'see, madness, as you know, is like gravity. All it takes is a little...push."

Não é difícil imaginar que o Coringa tenha, um dia, sido Gordon, o Cavalariço.

Postado por Janaína Leite às |



Comments

Like DD.

Até meados dos 90 foi acumulando a bílis.

Aí alguém deu um empurrãozinho. Administrou $$$ de poderosos. Quase foi governo. Fazenda ou BC. ACM queria.

Daí em diante foi só vingança. Contra o mundo.

Like Coringa.

JANAÍNA: Hahaha... Você acha mesmo que DD queimaria uma pilha de dinheiro? Se ele agisse como o Coringa, meu amigo, a República iria por água abaixo. Quem age como o Coringa é pq não tem nada a perder. Like others, que não têm importância real alguma no jogo. Só pensam que têm. Abs.

Ainda não vi o filme, mas adorei o passeio:

“É ele quem valida a raison d'etat, a lógica de que as ações do Estado não estão sujeitas às mesmas regras que os atos dos cidadãos e que, portanto, o vale-tudo (eu acrescento: dos agentes do Estado - policiais e juízes) é o único meio de se fazer justiça em Sodoma, digo, Gotham.”

Neste aspecto que você anotou, o filme é uma boa metáfora para a nossa conjuntura histórica. Nela, observamos o ressurgimento da Razão de Estado e dos realismos políticos como “nobres defesas” dos interesses das grandes potências ou dos grupos e acima de qualquer consideração ética e de moralidade. Terroristas não são somente as seitas “religiosas” que não hesitam entregar-se de corpo e alma a todo tipo de violência repressiva sem limites. As grandes potências (EUA, China, Rússia) praticam o terrorismo de Estado em nome da Razão de Estado. Este é o nosso tempo: o da razão ligada à força bruta em desprezo (o riso louco dos “realistas” defensores da Raison d’État) à justiça e ao direito.

É deplorável e preocupante que a nação protagonista da revolução democrática do século XVIII na América aprove em pleno século XXI essa aberração absolutista que é a Lei Patriótica. Uma lei emergencial (exceção) prorrogada (virando a regra) em nome do combate ao terrorismo e em defesa do cidadão. Santa Razão de Estado, Batman!

Aqui na Botocúndia a questão dos grampos e da privacidade dos cidadãos atualiza o filme. Protógenes e o juiz com nome de personagem de novela são as faces do Batman bananeiro.

JANAÍNA: Veja o filme, Paulo, você vai gostar. É uma metáfora interessantíssima. Na minha opinião, todas as personagens masculinas são uma única, apenas estão em diferentes estágios no que diz respeito ao amor, ao poder e à loucura. Um beijo.

Hum. Puxa. Estamos mal na fita. Em bando, somos insuportavelmente dominados pelo espírito de manada. Sozinhos, tornamo-nos irremediavelmente cabotinos, ocultando de nós mesmos — com a capa preta do Morcegão — a verdade mais terrível: seio materno já não há.
O que me fez lembrar do seguinte. Perto de casa, numa esquina estreita, até poucos meses atrás havia um botequim encardido. Um lugar pequeno, escuro, com um balcão de inox já sem brilho, prateleiras abastecidas com as pingas e conhaques mais populares e, empilhados em redor do caixa, maços de cigarro de marcas suspeitíssimas. Nos fundos, uma porta dando para a casinha do dono — um mulato franzino, com cabelos grisalhos e olhar injetado. Na frente, um arremedo de varanda, onde meia dúzia de homens passavam o dia jogando dominó. Velhos e bêbados.
Há alguns meses, o bar e a casinha foram demolidos e em seu lugar surgiu um pequeno estacionamento. Por algum tempo fiquei me perguntando que fim levariam aqueles homens. Como fariam sem poder mais se entregar ali ao exercício cotidiano de deixar suas existências passar em branco? A princípio, imaginei que se mudariam para outro bar — há um perto dali, com características semelhantes, embora não tão decaído. Qual não foi minha surpresa, porém, quando, algumas semanas mais tarde, vi a esquina ocupada por seus antigos freqüentadores, agora descaradamente instalados na própria calçada, com mesas e cadeiras de metal. Desde então, sentam-se lá todos os dias, com seus estojos de dominó e uma geladeirinha de isopor em que imagino haver uma garrafa de pinga, alguns limões, um espremedor, dois ou três copinhos e um pedaço de salame. Passam o dia fumando, bebendo e jogando dominó. Compõem um espetáculo triste, patético, deplorável. Mas vez por outra sorriem misteriosamente.

JANAÍNA: Ando azeda, não ligue. Os amigos da esquina provavelmente me comparariam às respectivas. O bom de ser mulher é isso: o humor lunar é um entre tantos ciclos. Um beijo.

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