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Se você gosta de história, filosofia, teologia ou ciência, dê um pulo no site da revista New Yorker e leia o artigo "The Forbidden World". O texto, em inglês, é sobre Giordano Bruno, padre italiano condenado à fogueira pela Inquisição no século XVI.
Entre outras coisas, Bruno dizia que habitamos um dos infinitos mundos e que as estrelas têm diferentes grandezas e não são fixas. Suas idéias, consideradas heréticas, influenciaram Galileu e Espinosa, por exemplo.
Comments
Alô, Janaina?
Um beijo, minha querida!
JANAÍNA: Outro.
Posted by: D. Dantas | August 19, 2008 07:57 PM
Conta-se que Spinoza recusou o convite para a Universidade de Heidelberg. Foi-lhe dito que ele teria "ampla liberdade de filosofar, desde que não criticasse a religião estabelecida". A sua educada recusa: “Desconheço os limites do meu pensamento e não posso garantir que nunca irei incomodar a religião estabelecida".
Posted by: Paulo Araújo | August 19, 2008 10:34 PM
Dearest Janaína,
Preferências à parte, que fique claro: As idéias de Giordano Bruno não são consideradas heréticas - elas são heréticas. A definição de heresia é escolha contrária à reta doutrina. No caso específico, não pela astrologia, que tendo ou não influenciado Galileu, não é de interesse da Igreja, mas por outras escolhas.
Abraço,
Posted by: Igor | August 20, 2008 08:24 AM
Janaína,
Ainda não li o artigo sugerido, mas gostaria de deixar uma observação aqui: Giordano Bruno não foi condenado pela inquisição por defender a idéia do sistema heliocêntrico, mas porque realmente era um herege, de acordo com os padrões católicos da época. Bruno, confessadamente, era um sacerdote hermenêutico, seita que adorava deuses egípcios e seus respectivos congêneres gregos (Hermes-Toth-Rá-Apolo, etc). Isso é fato, conforme colocado pelo próprio Bruno durante o processo inquisitório. O modelo heliocêntrico era conveniente às idéias religiosas de Bruno (Sol-Rá), e essa foi a única razão pela qual ele converteu-se em um propagandista da idéia (nada a haver com ciência). A igreja católica passou a condenar o sistema heliocêntrico exatamente por causa de Giordano Bruno. Antes dele, havia uma predisposição natural em aceitar o novo conceito, tanto que a obra que lançou a idéia original do sol como centro do universo (e não a terra, como se pensava à epoca), "De revolutionibus orbium coelestium", de Copérnico, somente foi publicada devido a insistencia de alguns bispos católicos amigos de Copérnico, e um deles (esqueci o nome), inclusive redigiu o prefacio do livro.
E outra: Giordano Bruno teve todas as oportunidades possíveis para se retratar. Mas como sabemos, ele escolheu o caminho do martírio, provavelmente por motivação religiosa.
Estas informações estão presentes na obra "The scientists", de John Gribbin (que é um astrônomo britânico).
E no mais gostaria de cumprimentá-la pelo excelente conteúdo do blog.
Posted by: Michel | August 20, 2008 12:37 PM
Adoros os hereges. Não sei bem o que isso diz da minha personalidade mas adoro. hhahaha
Ótima dica de link.
Obrigada.
Posted by: Paty | August 20, 2008 03:25 PM
Janaína, aí vai a perguntinha matreira, embrulhada porém em folhas de papel crepom. Se achar despropositado, não publique. Beijo.
Era fim de tarde; o sol baixo cobria com faixas de claro-escuro as ruas do Alto de Pinheiros. Terça-feira, dia de pegar as crianças na escola, lá vou eu pela calçada, caminhando e ruminando pensamentos vadios. A dois ou três quarteirões da Nazaré Paulista, pouco antes de chegar ao Santa Clara, quando já ouvia o zunzunzum de pais e mães aguardando à porta do colégio — frases soltas sobre a derrota para a Argentina espoucando, entre indignadas e divertidas, no ar primaveril — fui surpreendido pelo som de uma gaita inusitada. Vinha, logo percebi, de um Palio azul-escuro estacionado no meio-fio. Em seu interior, um homem gordo, espremido atrás do volante, trajando camisa e calças sociais, um caderninho de partituras no colo, levava desajeitadamente o instrumento à boca e tirava dele algumas notas melodiosas, ainda que surdas, pois as janelas do carro estavam todas fechadas. O lirismo esdrúxulo da cena não chegava a ser comovente, mas, associado ao esplendor do entardecer e à brisa fresca que batia e vez por outra trazia consigo um cheiro discretíssimo de jasmim, acentuou ainda mais o caráter já de si devaneador do meu estado de espírito.
Foi assim que cheguei à Nazaré e percorri mais alguns quarteirões até alcançar a pracinha que fica defronte da escola dos meus filhos. Ainda não eram 17h30, de modo que sentei num banco de concreto para esperar. Alguns instantes depois, veio inesperadamente se sentar a meu lado uma velha amiga, uma mulher que, pelas minhas contas, deve ter passado dos 50, embora continue com o mesmo ar de mocinha atrevida que me fascinava quando a conheci, já lá se vão mais de vinte anos. Na época, eu acabara de entrar na faculdade, ao passo que ela concluíra um mestrado em Comunicações, tinha um livrinho publicado e freqüentava com alguma assiduidade as páginas dos suplementos culturais. Por isso, sempre teve para comigo uma atitude meio maternal, de irmã mais velha, não obstante o frisson que me provoca toda vez que me chama de “meu anjo”, coisa que volta e meia ela faz: vive se condoendo de mim e dos desatinos da minha imaginação.
Não foi assim no princípio. No princípio, ela se irritava, perdia a paciência. É que o livrinho dela, um livrinho que era o supra-sumo da literatura confessional, me deixou completamente pirado. Eu tinha vertigens toda vez que lia aquelas páginas em que a autora parecia contar tudo, escancarando portas e janelas, desvelando as verdades mais secretas de sua intimidade. Então, quando a procurei pela primeira vez, ela teve que me explicar como a coisa funcionava. Porque não era bem como eu estava pensando; naquela altura a ingenuidade não me permitia notar seu “olhar estetizante”. Então ela se punha a explicar para mim, tintim por tintim: “Olha, presta atenção, querido. Quando eu escrevo, eu não faço rasgos de verdade. Não, minha opção é pela construção. Ou melhor, eu sei que não consigo transmitir para você uma verdade sobre a minha subjetividade. É uma impossibilidade até. E já que é uma impossibilidade, eu opto pelo literário e essa opção tem que ter uma certa alegria. Ela é engraçada. Não é uma perda como parece. Tem uma renúncia inicial, mas no fim, não é uma perda não. A gente tem que falar, a gente tem mais é que falar. Falar nunca é a verdade exatamente, mas a gente tem que falar, falar, falar, falar, falar... para abrir brecha. Se não a gente angustia muito”.
E desde então conversamos bastante, eu e essa minha amiga. Passamos longos períodos sem nos ver, mas de tempos em tempos nos falamos por telefone — ela adora passar horas pendurada ao telefone, trocando figurinhas. Quando ligo, invariavelmente estou aflito. É que, por mais que ela ensine, não aprendo a lição. Tenho uma tendência irrefreável a me enamorar de certos textos, sobretudo os que carregam uma dose acentuada de urgência, textos que querem muito ser lidos e que vêm temperados com a pitada de neurose necessária à sedução do leitor; textos às vezes terríveis, mas que, apesar de tudo, são textos coquetes. E como, via de regra, esses textos saem de mãos femininas, providas de dedos finos e elegantes, enfeitados com anéis, acabo transformando o fascínio pelo texto numa admiração um tanto quanto tresloucada por sua própria autora.
Nesse fim de tarde de terça-feira, eu tinha justamente um texto desses na cabeça. De modo que foi providencial a chegada da minha amiga.
Assim que recebi seu beijo no rosto, sempre delicadíssimo, saquei do bolso da calça um pedaço de papel contendo uma citação de dois versos antigos e meia dúzia de palavras escritas por uma moça cujos textos andavam exercendo sobre mim certo efeito hipnótico. Foi o que bastou para ela entender o drama.
“Você não se emenda, hein? Não vá me dizer que está aflitíssimo porque não consegue entender o que está escrito aí, ‘nas entrelinhas’?”
“Pois é”, admiti.
“Meu anjo, quantas vezes eu já te disse que não existe esse negócio de entrelinha? Entrelinha é mistificação. Existe a linha mesmo, a palavra mesmo. O que é uma entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está escrito aí?”
“Mas, olha só”, tentei argumentar. “Estes dois versos. Depois deles, no poema original, vem uma pergunta, não vem?”
Minha amiga é uma leitora voraz. Conhece, de cor e salteado, não só aqueles, como muitos outros versos do barbudo que os escreveu, há mais de 150 anos. De modo que sabia perfeitamente bem o que vinha em seguida. Como também podia facilmente imaginar a miríade de significações e possibilidades que eu queria atribuir àquilo. Por alguns instantes, ficou apenas me olhando com seus olhos claros, um tanto fatigados pela idade, mas ainda assim irrequietos, buliçosos. Então deu um suspiro de impaciência e disse: “Quando é que você vai entender que um texto é só um texto? Um texto não é pele, querido. Não é mãos tocando, não é hálito, não é dedos...”.
“Ah, não sei!”, exclamei, reunindo coragem para contestá-la. “Para mim um texto é uma coisa tão concreta! Tudo bem, concordo que não é da ordem do corpo, mas não deixa de haver um desejo nele. De repente a pessoa escreve: ‘isto não é um livro, isto sou eu; sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas nos teus braços’. Por acaso isso não é o próprio escancaramento do desejo? Porque, convenhamos, no fundo todo texto gostaria de não ser texto.”
“Justement, meu anjo. Aí é que está. Gostaria de não ser, mas é. E você teima em negar isso. Não se conforma com essa consciência trágica: texto é só texto, nada mais que texto. Que tragédia!”, disse ela com um sorriso em que havia um misto de sarcasmo e comiseração. Ato contínuo, levantou-se, deu um beijo afetuoso na minha testa e foi embora, os cabelos castanhos e cacheados balançando ao ritmo de suas passadas de pernalta.
Escurecia. Lembrei-me dos meus filhos e me levantei também. Em minha cabeça ainda soou uma última vez a pergunta insidiosa que havia dias me perturbava: “Which of the young men does she like the best?”. Ao que o poeta barbudo respondia, soturno e ameaçador como uma esfinge: “Ah the homeliest of them is beautiful to her”.
Posted by: Alexandre | August 20, 2008 04:55 PM
divertido ...
http://www.youtube.com/watch?v=M-Ql2EeP6Gw
Yakisoba Bee Gees
Posted by: Jorge | August 20, 2008 06:48 PM
ORA,POIS CÁ ESTOU LENDO
TEU PRECIOSO BLOG.
"Ó DEUSA DA IMPRENSA PAULISTA".
Posted by: PORTO | August 20, 2008 10:00 PM