Eram quatro, mas o barulho teria feito as tropas de Akbar fugir às carreiras. Dois dias antes da festa, a mãe marca a barra da rockabilly, cola a lantejoula na coroa da princesa, ajeita o ombro da garota das cavernas. Tudo em silêncio de missa, para não perturbar as considerações sobre o Pierrot e o Rapper _ eles sim, as verdadeiras fantasias da noite.
De repente, a mocinha com o óculos gigantescos e batom cor de melancia olha para baixo.
- Do que você se fantasiaria, mamãe?
- De Suzanne Curchod. Não balança o quadril, ou fica torto. – responde a aia, alfinete no canto da boca.
- Quem?
- Suzanne Curchod, ora. Vão dizer que não conhecem?
- Não!!! – unÃssono.
- Que coisa. O que a escola ensina por esses dias? – diz para si mesma, sobrancelha involuntariamente levantada. – Pronto, acabei.
Silêncio estratégico enquanto a mãe se levanta devagar; as juntas não são mais as mesmas. Aliás, precisa fazer alguma coisa com aquele cabelo branco, perdido, que insiste em espetar no cocoruto. “Até que não seria mau a volta das perucas dos nobres.”
- Quem é ela, tia?
- Fala, mamãe!
- Ah, nem se incomodem… Alguém quer mais chá? – pergunta, servindo-se vagarosamente. “Metade do segredo é o suspense”, pensa.
- Conta, conta, conta, POR FAVOR!
UnÃssono. A mãe adora. Nada melhor do que envelhecer com serventia. Suspira, coloca xÃcara de lado e se acomoda na cadeira, enquanto as três faladeiras sentam-se à moda comanche, olhinhos arregalados, mãos delicadas segurando os queixos. ImpossÃvel não achar adorável a reunião insólita no assoalho.
- Tão bonitinhas, vocês!
- Conta! – outro unÃssono. E, pelo tom, mais ansioso. O sorriso da mãe aumenta.
- Ok, ok. Vamos lá. Há muitos e muitos anos, lá por mil e setecentos e pouco, uma criança muito loura nasceu na SuÃça.
- Suzanne Curchor.
- Curchod. A própria.
- Era bonita?
- Muito. E também muito inteligente.
- Claro, né? A senhora não iria querer se fantasiar de Suzanne se ela fosse feia.
- Eu me fantasiaria de Frida Kahlo e ela era feia. – diverte-se a contadora.
- Como é que é?
- Mamãe, não bagunça!
- Está bem, está bem. Deixem a Frida para outra oportunidade; e Suzanne era bonita. Além disso, revelou-se muito inteligente. O pai era pastor de igreja, o que significava que ela tinha acesso a muitos livros. Infelizmente, isso não queria dizer que tinham dinheiro, muito pelo contrário.
- Ih, era pobreta. Tinha de ter defeito – pondera a filha.
- Pobreza não é defeito, mocinha.
- Nem qualidade – sentencia a adolescente.
A mãe retorce o canto do lábio, sinal claro de reprovação, mas continua como quem não ouviu.
- O fato é que Suzanne ficou uma moça tão interessante que um rapaz, também inteligentÃssimo, se apaixonou por ela. O nome dele era Edward Gibbon.
- O que ele fazia?
- Era historiador. Escreveu um dos livros mais bacanas do mundo, “A História do DeclÃnio e da Queda do Império Romano”, que conta toda a história dos Césares.
- Eles casaram?
- Gibbon pediu permissão ao pai, mas o velho ordenou que terminasse o relacionamento. Considerava Suzanne inferior. Ela era pobre, lembram? – completa, os olhos cravados na filha.
- O que o Bibbon fez?
- Gibbon! – socorrem as outras duas.
- Isso, Gibbon – assente a mãe. – Gibbon rompeu o noivado. Segundo ele próprio escreveu, sem a proteção do pai ele estaria perdido e, portanto, ele “suspirava como um amante, mas obedecia como um filho”.
- Que covarde!
- Que sujeito ridÃculo. Odiei. – diz a filha, o olhar crispado sobre as lentes que descansam na ponta do nariz.
É a deixa.
- Ora, o pai dele não era má pessoa. Só pensava como você, a se levar em conta o que falou agora há pouco… – arremata a mãe.
A rockabilly abaixa a cabeça e alisa a saia, as faces coradas diante do olhar de reprovação das amigas.
- É…
A mãe percebe que a lição foi aprendida. Hora de estender a xÃcara de chá e o biscoito.
- Muito bem, Suzanne tomou um fora, o que é absolutamente normal, gente que nunca foi rejeitada é muito chata, e nossa heroÃna superou muito bem a perda. Alguns anos depois, casou-se com outro rapaz, chamado Jacques Necker.
- Diz que ele era melhor que o Gibbon, tia!
- Melhor, não digo, mas era tão bom quanto. Jacques Necker era filho de uma famÃlia nobre e um excelente economista. Tanto que em 12, 13 anos de trabalho, se não me engano, comprou um banco. Mais tarde, muito por influência de Suzanne, tornou-se escritor e polÃtico. No governo, chegou a ser o ministro das finanças do rei da França. O rei gastava muito e em bobagens. Jacques Necker foi quem o aconselhou a controlar as contas.
- Puxa!
- A Suzanne ficou rica, então, tia?
- Ficou. Bastante.
- Isso não interessa, né? – corta a filha, ainda ruborizada. – Quer dizer, o que importa é se ela foi feliz… Ela foi, mamãe?
Lição, definitivamente, assimilada. A mãe se controla para não dar beijar a bochecha cor-de-rosa.
- Foi, querida. Muito feliz e ativa. Fez campanha para o fim do comércio de escravos, ajudou os maiores hospitais de Paris, escreveu livros e tornou-se muito famosa na sociedade. Isso porque ela fazia sempre fazia reuniões com as pessoas mais brilhantes da época: artistas, filósfosos, polÃticos, escritores etc. Madame Necker, era como a chamavam. “O maior elogio que uma mulher pode receber é ser amada.” Foi o que ela falou.
- Que legal!
- Pois é. E olhem que nem é o mais legal…
- Como assim, tia?
- O que ela fez?
- Ela teve uma filha. Uma filha linda, que é, até hoje, uma das mulheres mais sensacionais de todos os tempos: Anne-Louise Germaine Necker, mais conhecida como Madame de Staël, a primeira filósofa polÃtica da história. Todos reconhecem o talento de Anne-Louise, que teve uma vida cheia de romances e testemunhou, na primeira fila, a Revolução Francesa e o governo de Napoleão. Benjamin Constant vivia tentando casar com ela e…
Na frente da mãe, as meninas esticam os braços e se olham. “Benjamin Constant é demais”, reconhece a mãe, que se levanta e impõe o ritmo:
- Bom, agora vocês já sabem, vamos tirar essas roupas, vamos, vamos.
Não precisou nem terminar. A algazarra tinha sido naturalmente instituÃda; o Pierrot e o rapper eram de novo o centro das atenções. A mãe dá de ombros e começa a recolher as xÃcaras, quando, de súbito, uma das visitas faz a pergunta faltante:
- E o Bibbon, hein, tia?
- Gibbon.
A mãe sorri.
- Morreu sem nunca ter se casado. E bem gordo. Dizem que um dos amigos de Suzanne, um biólogo chamado George Buffon, descobriu uma famÃlia de gorilas e deu a ela o nome de “Gibbons”. Mas não sei se é verdade.
Suzanne Necker, se estivesse viva, teria adorado as gargalhadas que ecoaram na sala como se punhados e punhados de diamantes tivessem sido jogados para o alto.








