Arquivo de agosto de 2008

sábado, 30 de agosto de 2008

Fantasia

Eram quatro, mas o barulho teria feito as tropas de Akbar fugir às carreiras. Dois dias antes da festa, a mãe marca a barra da rockabilly, cola a lantejoula na coroa da princesa, ajeita o ombro da garota das cavernas. Tudo em silêncio de missa, para não perturbar as considerações sobre o Pierrot e o Rapper _ eles sim, as verdadeiras fantasias da noite.

De repente, a mocinha com o óculos gigantescos e batom cor de melancia olha para baixo.

- Do que você se fantasiaria, mamãe?

- De Suzanne Curchod. Não balança o quadril, ou fica torto. – responde a aia, alfinete no canto da boca.

- Quem?

- Suzanne Curchod, ora. Vão dizer que não conhecem?

- Não!!! – uníssono.

- Que coisa. O que a escola ensina por esses dias? – diz para si mesma, sobrancelha involuntariamente levantada. – Pronto, acabei.

Silêncio estratégico enquanto a mãe se levanta devagar; as juntas não são mais as mesmas. Aliás, precisa fazer alguma coisa com aquele cabelo branco, perdido, que insiste em espetar no cocoruto. “Até que não seria mau a volta das perucas dos nobres.”

- Quem é ela, tia?

- Fala, mamãe!

- Ah, nem se incomodem… Alguém quer mais chá? – pergunta, servindo-se vagarosamente. “Metade do segredo é o suspense”, pensa.

- Conta, conta, conta, POR FAVOR!

Uníssono. A mãe adora. Nada melhor do que envelhecer com serventia. Suspira, coloca xícara de lado e se acomoda na cadeira, enquanto as três faladeiras sentam-se à moda comanche, olhinhos arregalados, mãos delicadas segurando os queixos. Impossível não achar adorável a reunião insólita no assoalho.

- Tão bonitinhas, vocês!

- Conta! – outro uníssono. E, pelo tom, mais ansioso. O sorriso da mãe aumenta.

- Ok, ok. Vamos lá. Há muitos e muitos anos, lá por mil e setecentos e pouco, uma criança muito loura nasceu na Suíça.

- Suzanne Curchor.

- Curchod. A própria.

- Era bonita?

- Muito. E também muito inteligente.

- Claro, né? A senhora não iria querer se fantasiar de Suzanne se ela fosse feia.

- Eu me fantasiaria de Frida Kahlo e ela era feia. – diverte-se a contadora.

- Como é que é?

- Mamãe, não bagunça!

- Está bem, está bem. Deixem a Frida para outra oportunidade; e Suzanne era bonita. Além disso, revelou-se muito inteligente. O pai era pastor de igreja, o que significava que ela tinha acesso a muitos livros. Infelizmente, isso não queria dizer que tinham dinheiro, muito pelo contrário.

- Ih, era pobreta. Tinha de ter defeito – pondera a filha.

- Pobreza não é defeito, mocinha.

- Nem qualidade – sentencia a adolescente.

A mãe retorce o canto do lábio, sinal claro de reprovação, mas continua como quem não ouviu.

- O fato é que Suzanne ficou uma moça tão interessante que um rapaz, também inteligentíssimo, se apaixonou por ela. O nome dele era Edward Gibbon.

- O que ele fazia?

- Era historiador. Escreveu um dos livros mais bacanas do mundo, “A História do Declínio e da Queda do Império Romano”, que conta toda a história dos Césares.

- Eles casaram?

- Gibbon pediu permissão ao pai, mas o velho ordenou que terminasse o relacionamento. Considerava Suzanne inferior. Ela era pobre, lembram? – completa, os olhos cravados na filha.

- O que o Bibbon fez?

- Gibbon! – socorrem as outras duas.

- Isso, Gibbon – assente a mãe. – Gibbon rompeu o noivado. Segundo ele próprio escreveu, sem a proteção do pai ele estaria perdido e, portanto, ele “suspirava como um amante, mas obedecia como um filho”.

- Que covarde!

- Que sujeito ridículo. Odiei. – diz a filha, o olhar crispado sobre as lentes que descansam na ponta do nariz.

É a deixa.

- Ora, o pai dele não era má pessoa. Só pensava como você, a se levar em conta o que falou agora há pouco… – arremata a mãe.

A rockabilly abaixa a cabeça e alisa a saia, as faces coradas diante do olhar de reprovação das amigas.

- É…

A mãe percebe que a lição foi aprendida. Hora de estender a xícara de chá e o biscoito.

- Muito bem, Suzanne tomou um fora, o que é absolutamente normal, gente que nunca foi rejeitada é muito chata, e nossa heroína superou muito bem a perda. Alguns anos depois, casou-se com outro rapaz, chamado Jacques Necker.

- Diz que ele era melhor que o Gibbon, tia!

- Melhor, não digo, mas era tão bom quanto. Jacques Necker era filho de uma família nobre e um excelente economista. Tanto que em 12, 13 anos de trabalho, se não me engano, comprou um banco. Mais tarde, muito por influência de Suzanne, tornou-se escritor e político. No governo, chegou a ser o ministro das finanças do rei da França. O rei gastava muito e em bobagens. Jacques Necker foi quem o aconselhou a controlar as contas.

- Puxa!

- A Suzanne ficou rica, então, tia?

- Ficou. Bastante.

- Isso não interessa, né? – corta a filha, ainda ruborizada. – Quer dizer, o que importa é se ela foi feliz… Ela foi, mamãe?

Lição, definitivamente, assimilada. A mãe se controla para não dar beijar a bochecha cor-de-rosa.

- Foi, querida. Muito feliz e ativa. Fez campanha para o fim do comércio de escravos, ajudou os maiores hospitais de Paris, escreveu livros e tornou-se muito famosa na sociedade. Isso porque ela fazia sempre fazia reuniões com as pessoas mais brilhantes da época: artistas, filósfosos, políticos, escritores etc. Madame Necker, era como a chamavam. “O maior elogio que uma mulher pode receber é ser amada.” Foi o que ela falou.

- Que legal!

- Pois é. E olhem que nem é o mais legal…

- Como assim, tia?

- O que ela fez?

- Ela teve uma filha. Uma filha linda, que é, até hoje, uma das mulheres mais sensacionais de todos os tempos: Anne-Louise Germaine Necker, mais conhecida como Madame de Staël, a primeira filósofa política da história. Todos reconhecem o talento de Anne-Louise, que teve uma vida cheia de romances e testemunhou, na primeira fila, a Revolução Francesa e o governo de Napoleão. Benjamin Constant vivia tentando casar com ela e…

Na frente da mãe, as meninas esticam os braços e se olham. “Benjamin Constant é demais”, reconhece a mãe, que se levanta e impõe o ritmo:

- Bom, agora vocês já sabem, vamos tirar essas roupas, vamos, vamos.

Não precisou nem terminar. A algazarra tinha sido naturalmente instituída; o Pierrot e o rapper eram de novo o centro das atenções. A mãe dá de ombros e começa a recolher as xícaras, quando, de súbito, uma das visitas faz a pergunta faltante:

- E o Bibbon, hein, tia?

- Gibbon.

A mãe sorri.

- Morreu sem nunca ter se casado. E bem gordo. Dizem que um dos amigos de Suzanne, um biólogo chamado George Buffon, descobriu uma família de gorilas e deu a ela o nome de “Gibbons”. Mas não sei se é verdade.

Suzanne Necker, se estivesse viva, teria adorado as gargalhadas que ecoaram na sala como se punhados e punhados de diamantes tivessem sido jogados para o alto.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Fortuna

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terça-feira, 26 de agosto de 2008

Uma pitada de surreal

O conto que segue, “A Cartomante”, foi escrito por Murilo Mendes há 75 anos.

“Minhas pernas circulavam num céu de sabão, quando uma mulher que de tão morena parecia a estátua da Fatalidade plantou-se diante de mim. Imediatamente nasceram dois baralhos de suas mãos. Diversos senadores, choferes, estudantes, operários e o núncio apostólico suicidaram-se na frente dela. Eu também devo ter me suicidado, só que o poeta é o tipo do sobrevivente. Ela ainda agarrou pela aba do roupão o banhista José, mas o herói deslizou na primeira onda de som e caiu no mar. A mulher soltava mentiras a todo instante. Cada vez que ela soltava uma mentira, nascia uma roseira. Em breve a praça tornou-se coalhada de roseiras com seus cinemas, suas confeitarias, seus bordéis, seus anúncios luminosos, seus bancos, suas guilhotinas. Os peixes cintilavam no céu, e, movendo graciosamente as barbatanas, faziam vibrar a música das esferas. Diante do espetáculo da ordem da criação, meu espírito bárbaro levantou as camadas de sífilis e de pesadelo que me legaram os retratos de meus avós cretinos, e gritou diante do mar coalhado de paquetes:

‘Mulher que pareces contemporânea do primeiro tempo do espírito, explique-me, ô anjo máquina de costura-caos, por que existe um limite para a desarmonia; por que os anjos não atropelam os geômetras na rua; por que os capitalistas nas suas casas; por que as diabas-antenas não atropelam os músicos nas suas cabeças; por que a minha namorada não me matou’.

Aposto um mamão contra a eternidade que a mulher ia responder; mas um aeroplano que passava atirou uma bomba de tinta Eureka na cabeça dela. O ar ficou tão lavado e transparente que eu pude distinguir com nitidez a linha que vai do equador ao pólo; em cima dela um japonês se equilibrava, jogando bilboquê com a cabeça de um chinês.”

Mais do autor aqui.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Beleza? Clarice

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Polêmica? Zeitgeist

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Constatação 2

Acabo de voltar do hospital pela segunda vez em dois dias. Crise alérgica com perda de capacidade respiratória. Lá na emergência, tomando corticóide na veia, de súbito veio a luz nas palavras de Lame Deer. “Ser um curandeiro significa estar exatamente no meio da confusão, e não defender-se dela”. É isso aí.

Tive uma proposta de emprego. Vou aceitá-la. O Arrastão é incompatível com o que vou fazer daqui para diante. O blog torna-se, a partir de hoje, um espaço restrito a textos ficcionais, como os seguintes versos de Goethe:

“E enquanto não tiveres passado por

Isso: morrer e assim nascer,

És apenas hóspede perturbado

Na terra sombria.”

Um beijo para você, leitor. E obrigada por tudo.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Soon…

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A arte da memória

Se você gosta de história, filosofia, teologia ou ciência, dê um pulo no site da revista New Yorker e leia o artigo “The Forbidden World”. O texto, em inglês, é sobre Giordano Bruno, padre italiano condenado à fogueira pela Inquisição no século XVI.

Entre outras coisas, Bruno dizia que habitamos um dos infinitos mundos e que as estrelas têm diferentes grandezas e não são fixas. Suas idéias, consideradas heréticas, influenciaram Galileu e Espinosa, por exemplo.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Voto

Concordo com João Pereira Coutinho. Ele escreve hoje, na Folha de S.Paulo, sobre voto obrigatório:

“Só uma vida examinada vale a pena ser vivida? Os gregos, pela boca platônica (na “Apologia”), acreditavam que sim. Mas os gregos acreditavam em mais: acreditavam que a vida pública era marca suprema da excelência. Os homens podem ocupar-se dos seus assuntos pessoais e privados. Mas a recusa em votar, em discursar, em interessar-se pelos assuntos da cidade, revelava não apenas egoísmo ou ignorância. Essa recusa cobria o abstencionista com um manto de imoralidade e infâmia. Os gregos, aliás, tinham uma palavra bem expressiva para essas tribos: ‘idiotai’. Não é difícil imaginar a evolução da palavra nos tempos futuros.

Foi o cristianismo que quebrou esse “absolutismo democrático” ao introduzir um espaço íntimo, pessoal, intransmissível, palco da minha consciência. A Deus o que é de Deus, a César o que é de César. Ou, por outras palavras, um ser humano não se define, apenas, pela vontade em participar nos destinos da cidade terrestre. Existe uma relação fundamental, e talvez superior, com os mandamentos da cidade celeste. Involuntariamente, o cristianismo promovia a liberdade individual ao apresentar aos homens não apenas um caminho, mas dois: o caminho público e o caminho privado.

… Pessoalmente, creio que a verdadeira legitimidade de qualquer eleito só existe quando o voto foi uma opção pessoal do eleitor, não uma exigência do sistema. A autonomia valoriza o ato. Mas também valoriza, como Kant relembra, as conseqüências do ato.

Os gregos admiravam a vida pública sobre qualquer outra. E reservavam o rótulo de ‘idiotas’ para quem discordava. Não é grave, leitores, não é grave. Ontem, como hoje, melhor ser ‘idiota’ do que escravo.”

domingo, 17 de agosto de 2008

Pais

Folha de S. Paulo, reportagem de Laura Capriglione: “Publicitária que foi alvo de atentado quer rever o pai”. A seguir, alguns trechos:

“Vítima de atentado contra sua vida -um tiro na bochecha, outro logo abaixo do nariz (a bala ficou alojada na coluna vertebral) e outro no pulso esquerdo-, cometido por um homem vestido de Papai Noel a cinco dias do Natal de 2001, a publicitária Renata Guimarães Archilla, 29, desde logo teve a certeza de que os mandantes do crime foram seu pai e avô. No dia 12, os dois, que alegam inocência, foram presos em São Paulo. A jovem sobrevivente, depois de se submeter a oito cirurgias reparadoras (chegou a ter a morte anunciada em virtude de complicações), ainda manifesta o desejo de se encontrar com o pai, Renato Garembeck Archilla, 49, para lhe perguntar: ‘Por quê?’”

“Por quê? Eu sei que ninguém pode ser obrigado a amar ninguém. Mas eu nunca fiz nada de mal para você. Eu nunca fui à sua casa para ofender. Por que você fez isso comigo?”

“…Eles se conheceram no Guarujá -mamãe tinha 17 anos, ele, 19. Meu pai sempre mandava flores. Ele a chamava de ‘Prin’, de princesa, escrevia cartas de amor derramado. Tinha acabado de entrar na Fundação Getúlio Vargas e ela estava fazendo cursinho… Para driblar a oposição paterna, ele teve a idéia: como meu avô tinha muita vontade de ter um neto, seria uma boa minha mãe engravidar. Uma vez confirmada a gestação, eles chegariam com a ‘feliz notícia’ e tudo se resolveria. No dia 31 de dezembro de 1978, meu pai levou minha mãe a um hotel para a primeira noite deles.”

“… Já com a gestação avançada, uma vez a minha mãe viu meu pai dentro de um [carro] BMW, parado em um semáforo da rua Augusta. Correu para falar com ele, que fechou o vidro. O farol abriu. Ele arrancou. Mamãe ficou plantada na rua.”

“Quando nasci, no dia 15 de agosto de 1979, às 22h35, no Hospital São Luiz, minha mãe estava cercada pela sua família e amigos. Meu pai não apareceu.”

“… Então, minha mãe telefonou para o meu pai. Perguntou-lhe se já sabia da novidade. ‘Não’. Pedi para falar com ele. ‘Eu não tenho filha.’”

“… Meu pai sentou-se à minha esquerda e minha mãe, à direita. Foi a única vez em que tive os dois ao meu lado.

Tiramos o sangue. O médico pediu que eu escrevesse meu nome no meu tubinho de sangue, que minha mãe escrevesse o nome do meu pai no tubo dele, e que ele escrevesse o nome da minha mãe no tubo dela. Era para que ninguém suspeitasse da troca dos tubos de sangue. Então, ele se virou para minha mãe e perguntou: ‘Como é mesmo o seu nome?’ Iara Lucia Chinaglia Guimarães, respondeu minha mãe, que logo emendou: ‘E o seu, como é?’. Ela não ia ficar por baixo. Foi por muito pouco que eu não perguntei: ‘E o meu mesmo, como é?’ Quando saí da Pro-Matre, chorei, chorei.”

“… Eu tentava tranqüilizá-lo: ele não precisava me amar do dia para a noite. Eu só queria conhecê-lo. Ele me perguntava, por exemplo, se eu já havia visto o nascimento de um potro. ‘Não? É a coisa mais linda e mais emocionante que já vi na vida. Um dia levo você na fazenda, para ver como é lindo.’”

Renato Archilla é mesmo o culpado? Não sei. Espero que não. Mas eu gostaria de dizer para Renata que alguns pais matam pela ausência. Outros fazem o mesmo ao ficarem por perto.

Desejo a ela um futuro muito, muito feliz.