Escrevo rápido, sem revisar o texto, que sai meio como estou agora, afogueada e com cheiro de sal e pimenta, depois de caminhar sobre pedras por mais de hora. Tudo para escrever uma única frase: você me faz falta.
Onde estou não tem internet, nem telefone. Apenas aranhas, das mais variadas formas, falam comigo. Muitas teias foram tecidas com essas conversas nos últimos dias, mandalas finíssimas, etéreas, por entre plantas e velas. Não há luz elétrica, só água fresquinha. Durmo ao som de pequenas cachoeiras e o mar está à distância de uma sombra.
Além das aranhas há duas gatas, uma preta e uma malhada, e um cachorro magrelo, de olhos caídos, que me segue por todos os cantos. As gatas, não. Só ficam por perto quando acham que não as vi. Parecem as crianças da região nos primeiros dias; olhavam para a casinha como se feita de doces. Agora, qual!, desavergonharam. Surgem do mato todos os dias para trançar meus cabelos enquanto leio.
“Vai escrever sobre mim, tia?”
“Vou. Vai lembrar de mim quando for grande?”
“Vou.”
Talvez as crianças sejam mesmo gatos. A que saiu de mim é. No fim, vivemos todos de promessas.
Estranho o mundo. Assim, na tela, parece tudo idílico, urobórico, vida plena como se fosse uma linda trilha sonora, como a de “Amélie Poulain”, que toco sem parar dentro da minha cabeça.
Bobagem. A ausência é a parte mais la(c)tente de mim, uma teia pegajosa de passado e futuro a atrapalhar o presente. O café quentinho na caneca esmaltada queima as pontas dos dedos.
O problema é platônico: a verdade é inexprimível.
Diga, pois, se não é ridículo tantos se arvorarem Senhores dela. Verdade, amor, ódio, desejo, medo, humilhação _ cada um desses conceitos-sentimentos-sensações não passa de uma porta para o inconsciente. Do indivíduo e do coletivo.
Pensei tanto sobre o jornalismo nos últimos dias. Muitas coisas. Outra hora detalho. Neste momento, basta dizer que me convenci da inutilidade da notícia (e, por conseguinte, da minha própria). A compreensão que o leitor terá de determinado fato é um decalque da subjetividade dele, não da minha. Ele não tem instrumentos para “ler” do mesmo modo que eu.
Estou sendo hermética? Perdoe-me. Talvez seja melhor exemplificar. Quando leio uma notícia n’O Globo, por exemplo, lembro que seus donos são sócios de Carlos Slim, o dono da Embratel. Também lembro que as Organizações fizeram negócios com a Telecom Itália e muito dinheiro sumiu nessa lambança, um dos assuntos que estava sendo visto pela Procuradoria de Milão naquele inquérito que corre lá na Itália. Aí eu recordo que o pessoal do Globo quer comprar O Estadão, que ninguém sabe quem quer vender, e é sócio da Folha de S.Paulo no “Valor Econômico”, jornal que sempre teve ótimas relações com a Telecom Itália. A Folha também é sócia da Portugal Telecom no UOL. A Portugal Telecom, por sua vez, tem como acionistas importantes a espanhola Telefônica, a mesma que manda na telefonia de São Paulo, que é dona do Terra, e que recentemente fez negócio com a Abril, editora que recebeu um aporte grande de um fundo estrangeiro. Esse negócio foi intermediado pelo Citigroup, acionista da Oi (ex-Telemar) e da Brasil Telecom, controladora do iG. Impossível esquecer que das duas empresas participam os fundos de pensão, os mesmos que teriam os caixas sangrados em R$ 730 milhões para favorecer partidos políticos, vide CPI dos Correios, e que teriam sido usados pelo governo para pressionar o Citi, segundo e-mails trocados entre gente graúda do banco, contidos num processo que era movido em Nova York e que, hoje, não tenho a menor idéia de que fim deu. Óbvio que não é só o Citi, todos os bancos têm relações próximas com os veículos de comunicação, bem como com os sindicatos e movimentos sociais _ Bradesco, Unibanco, Itaú… os banqueiros têm seus preferidos. E o Banco do Brasil, claro, esse um capítulo per si. Ah, e as agências de propaganda, e o pedágio dos grandes negócios, as empreiteiras, os financiadores de campanha, as brigas e vaidades nos bastidores dos negócios e do jornalismo.
Tudo isso eu levo em consideração quando leio as notícias. “Isso” sou eu. De que adianta ficar me debatendo para que todos as compreendam do mesmo jeito? Ridículo. Equivale a dizer: “nos tempos do Império, ‘tigres’ cruzavam as ruas do Rio de Janeiro”. Só quem conhece um pouco da história daquela cidade, ou quem está interessado em aprender um pouco acerca dela, saberá que me refiro aos escravos que carregavam baldes de excremento na cabeça, das casas ricas até as fossas. Conforme andavam, a urina escorria em seu corpo como listras, daí a infâmia da alcunha.
“Simples, Janaína, explique o caso dos ‘leões’ como explicou o dos ‘tigres’ e todos poderão compartilhar do seu modo de ver as coisas”, dirá você.
Errado.
Ninguém grampeia meu telefone, nem estampa o nome da minha mãe num relatório de polícia, nem liga para minha casa ofendendo minha filha se eu falar dos ‘tigres’. Eles são o passado. Inexiste jogo de quem lucra, de quanto lucra e de como lucra com o que mora nos arquivos de biblioteca. É até de bom tom que alguém jogue luzes sobre o que passou. Lidar com os leões é diferente. Eu não posso sequer dar feliz aniversário para alguém que merece ouvir, o Grande Irmão está ali observando meus passos. Palavras a mais podem significar milhões, bilhões a menos para alguém. Fique calada, Janaína.
De quem é a culpa? Deles?
Não creio. O Estado somos nós e se nós somos uns avacalhados _ e o somos, queiramos admitir ou não _ como ele seria correto e justo? Impossível. De tanto virarmos as costas para o Estado, ele vai nos consumir, impor sua presença, gargalhar diante da nossa nudez. E fará isso por meio de delegado, juiz, procurador, jornalista. Dos peões. Cortininhas ambulantes de fumaça, feira livre, tudo baratinho e fresquinho, meu senhor. Rá.
De quem é a culpa? Deles?
De novo, não creio. Acham que fazem o melhor. Um dia também pensei assim. Fui um deles. Sou um deles. Eles nunca me deixarão por inteiro. Acho que foi Dostoiévski que disse que cada um de nós é responsável por tudo para todos os demais.
A despeito disso, hoje advogo: tais profissões precisam de uma dose de ignorância atroz, pois o jogo se dá em outras esferas, é “atopos”, inclassificável. E ponto final.
Demorei mais do que devia falando nisso. Daqui a pouco vence meu tempo e há outra pernada considerável até a casinha de barro.
Já disse que o barro em questão é feito pelas saúvas? Elas mascam a terra e o resultado é uma argila vermelha, resistente, da qual é feita a maioria das taperinhas daqui. Boa metáfora para o que querem alguns leitores: que alguém masque os fatos para ele e ofereça uma massa uniforme que servirá à construção de sua casinha de conhecimentos. Bah! Como farei tal coisa se não nasci formiga, mas cigarra? Uma cigarra que lê no meio do mato, tantos livros, tantos livros.
Lá fui eu falar das mesmas coisas de novo, força do hábito. Será vencida, creia-me. Que idiotice é essa de ficar agüentando gente imbecil, que nem me conhece, a torturar quem amo? Não são, a rigor, ninguém. EU confiro importância às vozes que parecem grasnados digitados com seus erros de ortografia, de sentido e de julgamento. “Instinto de morte”, disse-me alguém versado nas coisas de Freud. É mesmo, tantos livros, tanto melhor, tantos livros.
Instinto de vida é beijo _ será que Freud disse isso também? E ficar sozinha dá uma vontade danada de ganhar um beijo. Mas não um qualquer, descuidado, sem pretensão. Falo daqueles beijos que começam muito antes de acontecerem, daqueles em que há o frio na barriga, daqueles em que os primeiros a se roçarem são os olhares, e o fazem com delicadeza, como as mãos do acordeonista que toca a música de Amélie, como as mãos de Hikmet quando escrevia seus poemas.
Que coisa boba escrever isso para você. Mas eu sou tão boba. Queria me tornar sabida a ponto de entender a Teoria dos Sistemas, aquela que explica como há infinitas variáveis e, logo, causa e efeito não podem ser separados. O Uno, a Mônada. O instante em que escrevo e beijo e penso e me despeço e solidão e esperança confirmam-se como únicos companheiros inseparáveis que conheci até hoje, 28 de julho de 2008, dia em que te contei: você me faz falta.
Mas eu vou demorar a voltar, pois também sinto muita saudade de mim mesma.















