Arquivo de julho de 2008

segunda-feira, 28 de julho de 2008

A aranha e a teia

Escrevo rápido, sem revisar o texto, que sai meio como estou agora, afogueada e com cheiro de sal e pimenta, depois de caminhar sobre pedras por mais de hora. Tudo para escrever uma única frase: você me faz falta.

Onde estou não tem internet, nem telefone. Apenas aranhas, das mais variadas formas, falam comigo. Muitas teias foram tecidas com essas conversas nos últimos dias, mandalas finíssimas, etéreas, por entre plantas e velas. Não há luz elétrica, só água fresquinha. Durmo ao som de pequenas cachoeiras e o mar está à distância de uma sombra.

Além das aranhas há duas gatas, uma preta e uma malhada, e um cachorro magrelo, de olhos caídos, que me segue por todos os cantos. As gatas, não. Só ficam por perto quando acham que não as vi. Parecem as crianças da região nos primeiros dias; olhavam para a casinha como se feita de doces. Agora, qual!, desavergonharam. Surgem do mato todos os dias para trançar meus cabelos enquanto leio.

“Vai escrever sobre mim, tia?”“Vou. Vai lembrar de mim quando for grande?”“Vou.”

Talvez as crianças sejam mesmo gatos. A que saiu de mim é. No fim, vivemos todos de promessas.

Estranho o mundo. Assim, na tela, parece tudo idílico, urobórico, vida plena como se fosse uma linda trilha sonora, como a de “Amélie Poulain”, que toco sem parar dentro da minha cabeça.

Bobagem. A ausência é a parte mais la(c)tente de mim, uma teia pegajosa de passado e futuro a atrapalhar o presente. O café quentinho na caneca esmaltada queima as pontas dos dedos.

O problema é platônico: a verdade é inexprimível.

Diga, pois, se não é ridículo tantos se arvorarem Senhores dela. Verdade, amor, ódio, desejo, medo, humilhação _ cada um desses conceitos-sentimentos-sensações não passa de uma porta para o inconsciente. Do indivíduo e do coletivo.

Pensei tanto sobre o jornalismo nos últimos dias. Muitas coisas. Outra hora detalho. Neste momento, basta dizer que me convenci da inutilidade da notícia (e, por conseguinte, da minha própria). A compreensão que o leitor terá de determinado fato é um decalque da subjetividade dele, não da minha. Ele não tem instrumentos para “ler” do mesmo modo que eu.

Estou sendo hermética? Perdoe-me. Talvez seja melhor exemplificar. Quando leio uma notícia n’O Globo, por exemplo, lembro que seus donos são sócios de Carlos Slim, o dono da Embratel. Também lembro que as Organizações fizeram negócios com a Telecom Itália e muito dinheiro sumiu nessa lambança, um dos assuntos que estava sendo visto pela Procuradoria de Milão naquele inquérito que corre lá na Itália. Aí eu recordo que o pessoal do Globo quer comprar O Estadão, que ninguém sabe quem quer vender, e é sócio da Folha de S.Paulo no “Valor Econômico”, jornal que sempre teve ótimas relações com a Telecom Itália. A Folha também é sócia da Portugal Telecom no UOL. A Portugal Telecom, por sua vez, tem como acionistas importantes a espanhola Telefônica, a mesma que manda na telefonia de São Paulo, que é dona do Terra, e que recentemente fez negócio com a Abril, editora que recebeu um aporte grande de um fundo estrangeiro. Esse negócio foi intermediado pelo Citigroup, acionista da Oi (ex-Telemar) e da Brasil Telecom, controladora do iG. Impossível esquecer que das duas empresas participam os fundos de pensão, os mesmos que teriam os caixas sangrados em R$ 730 milhões para favorecer partidos políticos, vide CPI dos Correios, e que teriam sido usados pelo governo para pressionar o Citi, segundo e-mails trocados entre gente graúda do banco, contidos num processo que era movido em Nova York e que, hoje, não tenho a menor idéia de que fim deu. Óbvio que não é só o Citi, todos os bancos têm relações próximas com os veículos de comunicação, bem como com os sindicatos e movimentos sociais _ Bradesco, Unibanco, Itaú… os banqueiros têm seus preferidos. E o Banco do Brasil, claro, esse um capítulo per si. Ah, e as agências de propaganda, e o pedágio dos grandes negócios, as empreiteiras, os financiadores de campanha, as brigas e vaidades nos bastidores dos negócios e do jornalismo.

Tudo isso eu levo em consideração quando leio as notícias. “Isso” sou eu. De que adianta ficar me debatendo para que todos as compreendam do mesmo jeito? Ridículo. Equivale a dizer: “nos tempos do Império, ‘tigres’ cruzavam as ruas do Rio de Janeiro”. Só quem conhece um pouco da história daquela cidade, ou quem está interessado em aprender um pouco acerca dela, saberá que me refiro aos escravos que carregavam baldes de excremento na cabeça, das casas ricas até as fossas. Conforme andavam, a urina escorria em seu corpo como listras, daí a infâmia da alcunha.

“Simples, Janaína, explique o caso dos ‘leões’ como explicou o dos ‘tigres’ e todos poderão compartilhar do seu modo de ver as coisas”, dirá você.

Errado.

Ninguém grampeia meu telefone, nem estampa o nome da minha mãe num relatório de polícia, nem liga para minha casa ofendendo minha filha se eu falar dos ‘tigres’. Eles são o passado. Inexiste jogo de quem lucra, de quanto lucra e de como lucra com o que mora nos arquivos de biblioteca. É até de bom tom que alguém jogue luzes sobre o que passou. Lidar com os leões é diferente. Eu não posso sequer dar feliz aniversário para alguém que merece ouvir, o Grande Irmão está ali observando meus passos. Palavras a mais podem significar milhões, bilhões a menos para alguém. Fique calada, Janaína.

De quem é a culpa? Deles?

Não creio. O Estado somos nós e se nós somos uns avacalhados _ e o somos, queiramos admitir ou não _ como ele seria correto e justo? Impossível. De tanto virarmos as costas para o Estado, ele vai nos consumir, impor sua presença, gargalhar diante da nossa nudez. E fará isso por meio de delegado, juiz, procurador, jornalista. Dos peões. Cortininhas ambulantes de fumaça, feira livre, tudo baratinho e fresquinho, meu senhor. Rá.

De quem é a culpa? Deles?

De novo, não creio. Acham que fazem o melhor. Um dia também pensei assim. Fui um deles. Sou um deles. Eles nunca me deixarão por inteiro. Acho que foi Dostoiévski que disse que cada um de nós é responsável por tudo para todos os demais.

A despeito disso, hoje advogo: tais profissões precisam de uma dose de ignorância atroz, pois o jogo se dá em outras esferas, é “atopos”, inclassificável. E ponto final.

Demorei mais do que devia falando nisso. Daqui a pouco vence meu tempo e há outra pernada considerável até a casinha de barro.

Já disse que o barro em questão é feito pelas saúvas? Elas mascam a terra e o resultado é uma argila vermelha, resistente, da qual é feita a maioria das taperinhas daqui. Boa metáfora para o que querem alguns leitores: que alguém masque os fatos para ele e ofereça uma massa uniforme que servirá à construção de sua casinha de conhecimentos. Bah! Como farei tal coisa se não nasci formiga, mas cigarra? Uma cigarra que lê no meio do mato, tantos livros, tantos livros.

Lá fui eu falar das mesmas coisas de novo, força do hábito. Será vencida, creia-me. Que idiotice é essa de ficar agüentando gente imbecil, que nem me conhece, a torturar quem amo? Não são, a rigor, ninguém. EU confiro importância às vozes que parecem grasnados digitados com seus erros de ortografia, de sentido e de julgamento. “Instinto de morte”, disse-me alguém versado nas coisas de Freud. É mesmo, tantos livros, tanto melhor, tantos livros.

Instinto de vida é beijo _ será que Freud disse isso também? E ficar sozinha dá uma vontade danada de ganhar um beijo. Mas não um qualquer, descuidado, sem pretensão. Falo daqueles beijos que começam muito antes de acontecerem, daqueles em que há o frio na barriga, daqueles em que os primeiros a se roçarem são os olhares, e o fazem com delicadeza, como as mãos do acordeonista que toca a música de Amélie, como as mãos de Hikmet quando escrevia seus poemas.

Que coisa boba escrever isso para você. Mas eu sou tão boba. Queria me tornar sabida a ponto de entender a Teoria dos Sistemas, aquela que explica como há infinitas variáveis e, logo, causa e efeito não podem ser separados. O Uno, a Mônada. O instante em que escrevo e beijo e penso e me despeço e solidão e esperança confirmam-se como únicos companheiros inseparáveis que conheci até hoje, 28 de julho de 2008, dia em que te contei: você me faz falta.

Mas eu vou demorar a voltar, pois também sinto muita saudade de mim mesma.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Il Matto

il matto.jpg

“Ela não dá mais o ar da graça tão facilmente nos dias que correm, mas dizem que a Virgem, na Idade Média, surgia para conversar de quando em quando com alguém de coração puro: crianças ou loucos.

Minha ignorância não permite que eu forneça certeza sobre os motivos da escolha. Uns diziam que aqueles interlocutores eram os únicos capazes de amar sem esperar grande troca, assim como o Senhor recomendara no Sinai e ratificara na boca do Cristo. Outros, menos etéreos, atribuíam a escolha ao fato de que infantes e malucos, pela ingenuidade e pela inconseqüência, eram os únicos que se animavam a relatar a Verdade tal qual ela havia sido revelada. Creio que todos estão certos n’alguma medida.

Foi, pois, no tempo das Trevas que aquele dia transcorreu, repleto de cultos e orações dentro da Catedral, e de ofensas e pregões fora dela. No lusco-fusco, peregrinos se recolhiam e religiosos apagavam as fileiras de velas, quando de súbito um barulho foi ouvido perto da imagem de Nossa Senhora. O monge mais diligente agarrou-se ao castiçal e rumou para castigar o perturbador. Pelas sombras, o cretino gesticulava e dançava.

Ah, o sentimento ruim que se apoderou do monge ao ver o louco, deformado, pagão e maltrapilho, com suas bolas coloridas, a fazer malabarismos diante de olhos tão puros! Agarrou-o como a um selvagem e o levou ao prior. Este, porém, limitou-se a perguntar:

- Que era do teu comportamento, filho meu?

O Bobo, sem malícia, assim respondeu:

- Não tenho inteligência, nem riquezas, a única coisa que pude oferecer foram meus poucos talentos. Não me arrependo, senhor. Por um instante, Ela sorriu para mim.

Este é o último post que escrevo antes de viajar com minha filha por alguns dias. É a primeira vez em muitos anos que minhas “férias” coincidem com as dela. Assim, o cãozinho da prudência mordeu meu calcanhar _ primeiro as coisas primeiras. Espero que, como dizem os italianos, sejamos como “Il Matto in Tarocchi”.

Que você fique bem, alinhado ao seu “puer aeternus”, seja ele Parsifal, Mishkin, Puk, Peter, Edgar, Arlecchino. Que, como ele, mantenha seu coração como uma bolsa cheia de vento, pois o vento sopra e renova tudo, mas o que é bom, no fim das contas, resume-se ao que Darwin ouviu de uma menininha ao perguntar o que era felicidade:

- É rir, falar e beijar.

Amém.

PS: Aqui vai algo para entreter você na minha ausência, o livro “Mídia, Máfia e Rock’n'Roll”, do jornalista Claudio Tognolli. Você pode baixar gratuitamente um exemplar aqui. Quem prefere cinema, poderá ver o lado destrutivo do arquétipo d’O Louco em Batman. “O Cavaleiro das Trevas” estréia na sexta. E se alguém quer apenas relembrar o encontro entre o proscrito e a Virgem, Esmeralda canta em Notre Dame.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Enquanto isso…

Lula e Protógenes, FHC e Dantas, Greenhalg e Gilberto Carvalho, PF e Abin, Gilmar e De Sanctis, MI-6 e Congresso, Reinaldo e LN… Tudo isso você acompanha querendo ou não. Mas o mundo não parou, melhor dar uma olhada.

Folha de S.Paulo:

“A operadora de telefonia Oi anunciou ontem que obteve empréstimo de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil para financiar a compra da Brasil Telecom. O negócio, anunciado em abril, ainda depende de mudanças na lei para ser efetivado.

… Desse total, R$ 5,8 bilhões serão pagos pelo controle da BrT. Outros R$ 3,5 bilhões farão parte da oferta pública obrigatória para aquisição de ações ordinárias dos minoritários -o chamado ‘tag along’. Mais R$ 3 bilhões serão gastos na oferta voluntária para a compra de ações preferenciais da BrT.

… Em nota, a Oi afirmou que comprará a BrT com recursos próprios e que o empréstimo do Banco do Brasil ‘constitui-se no primeiro movimento de captação de recursos’ que, em seguida, contará com ‘emissão de notas promissórias com os bancos Santander, Bradesco e Itaú’.

… É o segundo financiamento de um banco público obtido pela Oi para a operação de compra da BrT, operação apoiada pelo governo federal sob o argumento de que o país precisaria de uma grande empresa no setor para concorrer com gigantes multinacionais como a espanhola Telefónica e a mexicana Claro. O BNDES já havia anunciado crédito de R$ 2,5 bilhões, com o objetivo específico de promover a reestruturação acionária da Oi -condição necessária para a compra da BrT.” (Roberto Machado)

Na mesma Folha:

“Sergio Ramírez é um notável escritor nicaragüense, que se tornou revolucionário, lutou com a Frente Sandinista de Libertação Nacional contra a nefanda ditadura Somoza, elegeu-se vice-presidente e, afinal, rompeu com os companheiros, horrorizado com o nível de corrupção a que se dedicaram uma vez instalados no poder.

No auge do escândalo do mensalão, ele me disse uma frase que não me sai da cabeça: ‘Se eu fosse presidente, antes da posse chamaria todos os parentes e amigos e lhes diria que, durante o meu governo, não poderiam fazer negócios. Nem negócios legais’.” (Clóvis Rossi)

Seguido de:

“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou ontem a lei que cria o piso salarial dos professores da educação básica (ensino infantil a médio). A partir de 2010, os professores da rede pública terão que receber, no mínimo, R$ 950.” (Angela Pinho)

Por fim:

“NEM TODO MUNDO tem senso de humor. É como inteligência natural. Nem todo mundo é esperto. De fato, algumas pessoas são naturalmente obtusas.

Não significa que elas sejam de alguma maneira inferiores ou menos charmosas, bonitas, fortes ou bem sucedidas. Mas o fato é que os seres humanos têm diferentes talentos e diferentes capacidades. Essa é uma descoberta da vida, especialmente para os professores. Eu sei que mães relutam em aceitar esse fato com relação aos seus filhos, mas ainda assim é verdade.” (Kenneth Maxwell)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Coisas pequenas

http://www.editoradobispo.com.br/site/download.php

http://www.editoradobispo.com.br/site/areafile/download/arquivo/Livro%20Tognolli_ok.pdf

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Nunca

Desculpem o sumiço. Ontem, minha filha chegou de viagem depois de duas semanas. Como toda huna, ela adora seriadinhos de TV, especialmente aqueles do tipo Law & Order, CSI etc. Confesso que também gosto (menos do CSI Miami, onde os cadáveres e os investigadores partilham das mesmas cores anos 80).

Tem uma coisa, porém que sempre me encafifa: por que as pessoas que morrem nunca deixam dicas mais óbvias para o pessoal que terá de procurar sua causa mortis?

Eu, por exemplo, teria uns dez itens de coisas escritas n’algum canto, tipo a lista do NUNCA. Mais ou menos assim:

1) Nunca me mataria. Tenho uma filha linda, que já deu sentido a ela. Portanto, estou por aqui fazendo hora. Mas jamais, nunca mesmo, faria sofrer as pessoas à minha volta.

2) Se me encontrassem asfixiada nunca seria por gostar de sexo com travesseiro na cara. Marcas de tortura de qualquer gênero deveriam ser encaradas como isso mesmo: tortura. Eu nunca apanharia por vontade própria.

3) Eu não uso drogas. Nunca morreria de overdose. Se acontecesse, teria sido induzida ou forçada.

4) Não ando em quebradas. Se encontrassem meu corpo muito distante do perímetro onde moro, pode saber: alguém fez aquilo.

5) Não tenho dinheiro, nem carro. Morrer num tiroteio no ponto de ônibus até que é provável, bem como ser atropelada etc. Mas é outro risco que não corro, pois minha disposição é mínima. No momento, nunca morreria disso também.

6) Adoro pedir comida pelo telefone. Mas estou na casa da minha mãe e ela não deixa. Veneno, então, nunca seria algo natural. E, como aos 35 o corpo ainda não precisa se preocupar com doenças crônicas do coração, o médico deveria pensar nessa hipótese se dissessem que foi um ataque cardíaco.

7) Afogamento é algo impossível de acontecer num apartamento com o banheiro tão apertado. Nunca seria plausível.

8) Brigas passionais também estão descartadas. Nunca. Moro com minha mãe e minha filha _ as duas pessoas mais importantes da minha vida. Posso ficar brava de vez em quando, ser linha dura e tal, mas nenhum mal seria feito por mim para elas e vice-versa.

9) Há a zarabatana de curare, mas meus vizinhos de Pinheiros nunca teriam o hábito de usá-las. Se bem que, depois de tanto CSI, me sinto pouco inclinada a abrir a janela.

10) Sobra o incêndio, esse sim, plausível. Afinal, quem brinca com o fogo sai queimado, não? Mas eu não começaria. Eu nunca começo.

E agora, leitor, você já sabe disso. Tomei muito do seu tempo, vou ali liberar os comentários e depois terminar meu frila. Ontem, a página estava dando problemas. Espero que hoje esteja tudo ok.

Beijos,Jana

terça-feira, 15 de julho de 2008

Virei melô do Claudinho e Buchecha

E lá vem o Nassif descendo a ladeira com a tamanca na mão. Justo. Eu reproduzi a coluna na qual Mainardi ouviu de Otavio Frias Filho que ele é achacador, hora do revide.

O que está no relatório da PF:

PF Janaina 01.jpg

Pois bem. Aí vem Nassif e diz que eu era “informante” de Daniel Dantas. Bom, deixa eu ver se entendi: a super espiã aqui falava para o Dantas sobre notícias publicadas na internet sobre… Daniel Dantas. Claro, é o raciocínio lógico mais perfeito que existe. Supor que eu pudesse ter lido a notícia do Ucho e ligado para perguntar o que era aquilo é inimaginável. Que coisa.

Outra da PF é o diálogo mantido entre Janaína (sim, é óbvio que sou eu) com Daniel Dantas. Olhe como Nassif publicou o diálogo:

PF Janaina 02.jpg

Olhe como é o diálogo na íntegra:

160_161_manus.jpg

Pois bem. Eu tinha uma tese sobre a BrOi, a de que o modelo da operação levaria alguns sócios a ficarem com uma participação pequena, mas controladora. Para financiar esse controle eles teriam de endividar a operadora, a exemplo do que ocorreu com a gestão de Tronchetti Provera na Itália. Isso é errado? Eu deveria escrever sem checar? Não sei os motivos pelos quais a PF sabia que aí eu era Janaína e nas outras conversas não, uma vez que ela identificou o telefone no nome da minha mãe (sim, meus amigos, minha mãe apareceu no relatório).

Continuo. Outro trecho do relatório, página 157 (numeração manuscrita). Lá aparece um diálogo datado de 18/02/2008 entre Daniel Dantas e MNI. Fiquei pensando no que que isso quer dizer? Mulher Não Identificada? Vou ficar com Moça Não Identificada, é mais bonitinho. Se bem que, a partir de agora, você saberá que a MNI sou eu.

O resumo do diálogo analisado pelo agente da PF está aqui e aqui eu o explico frase a frase. Mas primeiro contextualizo. Um dia antes, 17 de fevereiro, houve o primeiro ataque a mim por parte de Luís Nassif, na palhaçada do tal “Dossiê Veja”. Eu dei minha resposta.

(Colocaria link para o Nassif, se ele não tivesse limpado seu histórico.)

No dia seguinte, DD me ligou. Estava preocupado comigo, pois sabia serem injustas as acusações de que eu tinha usado meu cargo de repórter na Folha de S.Paulo para favorecê-lo. Seu conselho, como alguém mais experiente e que entendia dessa história, era que eu ignorasse os ataques de Nassif, pois havia algo estranho na motivação daquele dossiê, algo que ele não sabia dizer o que era, mas que não parecia bom, uma vez que estavam mirando em alguém como eu. E ponderou que ele próprio, DD, considerava a hipótese de que o dossiê estivesse ligado a interesses comerciais e, portanto, era uma briga que não valia a pena. Outro argumento usado por ele era o de que Diogo Mainardi, da Veja, tinha apoio institucional para entrar numa batalha desse porte, poderia pagar advogados. Eu, que tinha pedido demissão da Folha, não. Dantas me alertou ainda que seus inimigos fariam qualquer coisa caso se sentissem acuados e que ele já tinha sofrido muito pois seus adversários tinham a simpatia do Estado, ao contrário dele. Disse ainda que a guerra tinha ficado tão terrível que mesmo alguns de seus inimigos, os quais não tinham limites, não sabiam exatamente contra o que brigavam. O assunto já estaria nas mãos dos procuradores (Mainardi havia informado na coluna que mandara os papéis).

Eu disse a DD o seguinte: que não tinha o menor interesse de ficar brigando com alguém mais conhecido que eu. Por mim tudo tinha acabado, apenas respondi os ataques injustos que recebi (num tom bem educado até, como você pode ver aqui). Mas deixei claro que eu não tinha o que temer, pois nunca vendi matéria nenhuma, nem inventei nada, e portanto iria responder quantas vezes viessem para cima de mim. E, se não me engano, falei algo na linha de que o assunto das teles estava pegando fogo (por conta da criação da BrOi), ao que ele respondeu que eu deveria parar de insistir com o assunto da Telecom Itália (alvo das críticas de Nassif), mas que isso não implicava parar de escrever, eu podia falar sobre os assuntos que quisesse, Telemar, o que fosse.

Ora, eu sabia disso. Tanto que já vinha escrevendo contra a operação e continuei a fazê-lo.

Fiquei me perguntando os motivos pelos quais a PF teria se interessado por essa conversa. Simples, leitor. Naquele mesmo dia, eu escrevi à noite que o tempo esclarecia mais que os esforços, como havia me dito alguém de quem gosto muito, e que eu acataria o conselho. Sacou?

Sinceramente, quantas pessoas me falaram que eu não deveria brigar com Luís Nassif? TODAS. TODAS. Inclusive minha mãe, que hoje eu vejo estampada num relatório policial. Perdão, querida. A culpa é minha. Eu deveria ter ouvido você. E Dantas também.

Continuando o melô do Claudinho e Buchecha da PF (“quero te encontrar!”), outra parte onde a mamãe, coitadinha, aparece no relatório:

janaina3.jpg

Olhe nos meus arquivos (é, para o bem ou para o mal eu não apaguei nenhum dos meus textos). No dia 10 de abril, depois de a mulher de Nassif ter lançado dúvidas sobre mim, eu havia escrito um post desafiando Nassif a abrir seus clientes, contas, tudo, com direito ao acompanhamento de auditores e jornalistas. Está aqui, basta você conferir.

Recebi e retornei vários telefonemas aquele dia. Pelo jeito um deles foi para Daniel Dantas, com quem tive o diálogo acima: tudo isso era uma palhaçada – quantas vezes vou ter de repetir? -, e que ele mais do que ninguém sabia disso. Pois bem.

Mas agora eu entendi o segundo recado do que está aí: insinuam que minha mãe é minha laranja. Pois bem. Então aí vai o segundo desafio: VAMOS ABRIR A CONTA DA MINHA MÃE TAMBÉM? Inclusive os investimentos? Podem procurar bens em nome de toda a minha família e detodos os meus amigos. Nada encontrarão. Eu não tenho nada, nem eles, coitados.

Só tem uma coisa, PF. Eu quero ver a da família do Nassif. Ah, e pedir um favorzinho também. Será que vocês poderiam vazar a ligação em que Rodrigo Andrade me conta que avisou Nassif que não tinha dito coisíssima nenhuma para o juiz que eu era informante dele e que Nassif não tinha publicado? Nessa ligação, eu peço para Andrade me mandar o print screen. Veja você mesmo, clique aqui.

Afinal, a PF é para todo mundo. Não é?

terça-feira, 15 de julho de 2008

Relatório da PF – Operação Satiagraha

Eis não ter sido preciso muito. A íntegra do relatório da Polícia Federal, escrita no âmbito da Operação Satiagraha, foi divulgada no site Consultor Jurídico por Claudio Tognolli, clique aqui.
A parte que fala sobre a mídia está aqui.
Vou ler tudo o que está ali e converso com você depois. A princípio, numa leitura rápida, vi que há pelo menos um diálogo meu ali reproduzido. Quem achar outras citações, por favor, avise-me.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

McMáfia

Muito bom o Milênio, exibido pela Globonews na semana passada. O entrevistado é o jornalista britânico Misha Glenny, autor de “McMáfia – Crime sem fronteiras”. Ele relata atividades criminosas em vários paises, inclusive no Brasil, que aparece na parte final do programa. Glenny destaca o aumento dos crimes cibernéticos entre os brasileiros e dá sua opinião sobre a polícia daqui:

“O sistema policial brasileiro é um desastre ambulante. Há uma proliferação entre as forças policiais, uma competição entre essas diferentes forças e, claro, há o problema da corrupção.”

segunda-feira, 14 de julho de 2008

A letra escarlate

Desde que estourou o escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Dantas, na semana passada, recebi alguns comentários escritos por pessoas dignas de uma educação da realeza. Coisas bonitas, na linha de “sua carreira acabou” e “encontro você no inferno”.

Isso mexe comigo, claro. E muito. Esta noite, por exemplo, sonhei que estava na Inglaterra de 1637 e havia sido condenada ao pelourinho por falar contra o governo e publicar, sem permissão, material dissidente. De repente, no meio do sonho, a acusação mudava: por conta de fazer mapa astral e de ler o tarô, vinham com dedo em riste acusando-me de posar de oráculo e de fazer previsões em benefício próprio. A expiação passava pela fogueira. A acusação era que, travestida de parteira, apelava para artes da bruxaria e sedução para dominar as pessoas. Por fim, o cenário mudava e eu era do serviço secreto. Como falava com certa facilidade com pessoas importantes, em qualquer horário e sobre qualquer assunto, até aconselhando se fosse o caso, minha sentença era a cadeira elétrica.

O problema é que, quando acordei, vi que não era sonho. Realmente fui colocada em um pelourinho eletrônico depois de escrever reportagens que feriram os interesses do governo. Eu realmente faço o mapa astral de todo mundo que me dá na telha, até de atores de Hollywood. A quantidade de gente, inclusive fontes, que fiz perguntar o horário de nascimento para a mãe é incomensurável. E eu realmente nunca fui uma pessoa formal _ brinco, aconselho, fofoco e dano a filosofar com qualquer um que tenha a bondade de falar comigo e de me tratar com atenção.

Esse jeito despachado já garantiu (e certamente continuará garantindo) umas boas vergonhas, mas também garante que eu tenha a capacidade de me colocar no lugar do outro e atue de forma desarmada. Também trouxe amigos maravilhosos, a quem eu decepciono com mais freqüência do que gostaria, embora se divirtam com meu jeito tresloucado, e boas propostas de emprego, algumas das quais recusei por achar que eram incompatíveis com a minha liberdade. Outras eu aceitei, como aquela da consultoria, feita por um estrangeiro com quem acabei namorando e de quem hoje sou amiga.

Certamente há quem critique o meu jeito, especialmente aqueles que têm a pretensão de ser a palmatória do mundo. Mas uma coisa eles devem admitir: não sou venal e minha paciência com joguinhos às escuras é mínima. (O céu explica, meu ascendente é Áries.)

Sendo assim, leitor, aqui vai o que você realmente precisa saber: a aparição dos jornalistas nessa história de Daniel Dantas não é gratuita. O fato de alguns nomes de jornalistas antes acusados, como o meu, terem sumido subitamente da listagem também não. Há um jogo pesado de recados nos bastidores (não só entre as partes aparentes, governo e Opportunity) e você, desavisado, acha que isso é notícia.

Minha dúvida é se a polícia está envolvida propositalmente no leva-e-traz ou se está sendo usada. Se grampos vazarem de forma descontextualizada e truncada por aí, saberemos.

No mais, chegou a hora de eu dizer o que acho da história toda ocorrida na semana passada. Daniel Dantas não deveria ter sido libertado pela segunda vez por Gilmar Mendes, pois a atitude do ministro realmente foi uma afronta ao Judiciário. O fato de a Globo cobrir a prisão do banqueiro não foi “espetaculosidade” coisíssima nenhuma, foi um furaço. E, principalmente, Dantas não tinha nada que dar sinal verde para seus emissários conversarem com delegados fora da delegacia, nem se valer de gente como Luiz Eduardo Greenhalg e Roberto Teixeira, credo.

(Dizem que Dantas é o maior corruptor do Brasil. Acho que é o pior, isso sim, porque sempre descobrem o que ele faz. Os maiores, e melhores, estão agindo com foto em coluna social.)

Por outro lado, que mal tem o advogado perguntar para a repórter que noticiou a história onde está o processo? Eu teria tido essa mesma idéia, é mais inteligente do que mandar um batalhão de pessoas para vagar nos tribunais do país inteiro. E que mal tem a repórter, questionada sobre seu trabalho, informar o número do processo? Por acaso vivemos em uma ditadura, onde as pessoas não podem constituir advogados para defender seus interesses?

Por fim, essa história de israelense espião e do Opportunity Fund rola há anos, desde que explodiu o caso Kroll. Por que, raios, representantes do fundo não chamam uma coletiva para explicar isso direito? Contem a história tintim por tintim. Mas não. Ficam aí tentando essas técnicas subreptícias, como levar delegado pra comer picanha. Dá no que dá. Jogam nas sombras igualzinho aos adversários.

A BrOi é um escândalo e todo mundo sabe disso. Mas ela significa apascentar o cumprimento da promessa de campanha e, na minha opinião, o primeiro passo para que a Portugal Telecom aumente sua relevância como player. Quem ganha com ela? E quem perde com ela? E com toda a história da prisão de Dantas, quem ganha e quem perde?

O que há no processo de Nova York contra o governo? E quem mais aparece nos autos? O que há no processo da Itália contra o governo? E quem mais está nos papéis de Milão? O acordo da BrOi está sendo fechado às pressas para impedir que esses documentos, os americanos e os de Milão, vazem por aqui?

O que há no relatório da Polícia Federal, fato específico e não genérico, no uso de empresas de prateleira apontadas no relatório? Quanto foi que o Opportunity perdeu com essa história e para onde foi o dinheiro? Há gente ligando para os investidores do banco e provocando fuga de recursos?

E, principalmente, o bilhete encontrado na casa de Dantas com o timbre do Waldorf Astoria era um lembrete de que há documentos em Nova York relativos a um encontro do presidente da República com representantes do Citigroup naquele hotel, em 23 de junho de 2004, fato noticiado por mim e Leila Suwwan na Folha de S.Paulo em 12 de maio de 2005, numa reportagem que jornalistas submissos ao governo tentam de todo o modo desacreditar?

Enfim, há pano para a manga. Polícia Federal, Ministério Público e Justiça deveriam olhar para esse tipo de coisa e não ficarem servindo de fontes para garotos de recado de chantagistas.

Pronto, amigos. Podem me mandar para o pelourinho, para a fogueira, para a cadeira elétrica. Revelem minhas conversas, distorçam o contexto, plantem provas, costurem a letra escarlate no meu peito. A minha carreira, como vocês bem observaram, acabou. Vocês só não contavam que meus valores são diferentes dos seus. A gente se encontra no inferno.

domingo, 13 de julho de 2008

Iron & Wine

Mixwit