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Todos os anos, a festa junina é um acontecimento para os hunos. Eles cozinham, recortam bandeirinhas, gastam horas a fio nas escolha dos pares da quadrilha. Quando a quermesse finalmente termina, depois de um dia repleto de bilhetinho e pé-de-moleque, chegam em casa suados, pés em brasa e voz desaparecida, mas felizes. Hoje, porém, foi diferente. Tudo por conta da Cris.
Desde que voltamos para São Paulo, há três anos e pouco, ela é a melhor amiga da minha filha, a Manu. São inseparáveis, embora opostas: a Cris é tímida, certinha, concentrada, organizadíssima; Manu é praia e sol a um só tempo; espontaneidade, despreocupação e otimismo em cada gesto.
Por isso doeu em mim ver as duas abraçadas, chorando de maneira sentida enquanto os hunos vagavam cabisbaixos pela festa que havia sido planejada com tanto carinho. “Eu vou embora, tia”, explicou a Cris. “É a minha última junina com a galera.”
Filha de zelador e cozinheira, a Cris estuda com bolsa válida apenas para os anos fundamentais. Ano que vem, com a chegada ao ensino médio, os pais avisaram que não têm recursos para arcar com os custos da mensalidade e ela será matriculada em um curso técnico na escola pública. O sonho da USP, assim como a turma de amigos, acabará mais distante.
Olho agora para a Manu, deitadinha ao meu lado. Minha filha dormiu exausta de tanto chorar. “É injusto, mamãe”. Eu sei, querida. Muito.
O pai da Cris não pode pagar a mensalidade. Vive em um país onde a única opção de futuro para sua menina é o ensino público sucateado há anos, onde professores ganham uma miséria e entram na sala com medo de encontrar o aluno armado.
País com 75% de analfabetos funcionais entre 15 e 64 anos. A esquerda, esperança até há alguns anos, defende a corrupção como algo necessário _ afinal, “todos os que vieram antes fizeram o mesmo” e o governo distribui cada vez mais bolsas assistenciais. Não é o máximo?
Essa frouxidão moral serve de escudo para quem age como o compadre do presidente da República, que negocia favores lesando o Estado em centenas de milhões de reais. Também protege a ministra-chefe da Casa Civil, presidenciável, e a mantém cúmplice do tráfico de influência. Permite a propagação de jornalistas de serviços que blindam o governo e têm dívidas com bancos públicos perdoadas.
Sem cobrança dos eleitores, CPIs viram moeda de troca: o PSDB deixa que a dos cartões corporativos acabe em nada, o PT não faz tudo que pode para investigar a Alstom. A solidariedade também está presente quando a companheirada do Banco do Brasil engana a Previdência e ganha aposentadorias milionárias _ mesmo BB, aliás, que compra bancos públicos micados sem licitação. Ninguém fala nada.
O silêncio também ronda Celso Daniel, que continua injustiçado, pois aqueles a quem ele chamava "parceiros" preferiram sociedade com o que há de mais vil no mundo do crime. Alinharam-se aos narcotraficantes das Farc, abriram as portas do mercado para dinheiro da máfia russa e da corrupção angolana.
Aposto que os filhos de todos esses políticos e apanigüados estudam nos melhores colégios. Futuros doutores, talvez advogados como a filha de Roberto Teixeira, ou empresários bem-sucedidos como Paulo Henrique Cardoso e Lulinha.
A filha do zelador terá de ralar infinitamente mais se quiser ter diploma, plano de saúde e casa própria. Mas quem se importa? Um bando de garotos com 14 anos. E eles têm a vida pela frente. Tempo suficiente para esquecer das coisas que realmente fazem diferença, como a amizade e a esperança, por exemplo.
Comments
Bem, Janaína, eu tinha digitado um comentário longo e articulado quando a Providência Divina fez meu laptop superaquecer e desligar, salvando-me do ridiículo. Permita-me resumir e supersimplificar:
Alguém paga para a Cris estudar - isso é fato. Se ela tem bolsa, então todos os alunos não-bolsistas pagam uma parcela da educação dela.
Se "Um bando de garotos com 14 anos" se importa, ao ponto de fazer uma mãe se importar, podem fazer um bando de mães se importarem. Minha sugestão é: Bote o dinheiro onde a boca está. Se um grupo sempre pagou pela educação da Cris, que continue pagando.
É óbvio que retirar a bolsa da Cris diminui as despesas do colégio, mas a mensalidade da Manu não vai diminuir, com certeza. E eu sei que mais professores, etc etc. Mas.
E sobre o fato de que vocês pagam impostos ergo a educação pública, eu só posso sugerir uma inssurreição.
Abraços,
JANAÍNA: Nós vamos tentar isso, Igor. Espero que dê certo. A escola da Manu tem um programa de bolsas para o ensino fundamental (há outras meninas que, órfãs, estudam no colégio e moram com as freiras). Por isso, estender a bolsa da Cris significa mudar todo esse programa e, muito provavelmente, arcar com custos adicionais para todas elas. Aí é preciso ver se os outros pais poderão se comprometer com algo do tipo. Eu, por exemplo, estou sem emprego. Como é que fica? É uma equação difícil, mas a gente vai tentar resolver. Um beijo grande, querido.
Posted by: Igor | June 7, 2008 11:35 PM
Janaína, sou mais um dos leitores que aportaram no seu blog através do Blog do Reinaldo. Desde então tenho lido-o com certa freqüência e, em geral gostado.
Sou um comentarista bissexto, mas farei uma observação sobre este post. Não concordo com a sua necessidade de parecer isenta e, ao sutilmente acusar o Lulinha, necessitar tentar fazer o mesmo com o PH que nunca foi acusado de nada próximo ao que fez o dito molusco. E ainda por cima, usando um site tendencioso, sem credibilidade, que acusa sem provas. E no caso do EJ (comento já que está no mesmo link junto com um monte de outras mentiras perpetradas pela máquina de destruir reputações dos Petralhas) que já provou sua inocência em todas as esferas do poder judiciário, faz então acusações criminosas, pois sabe-as falsas. Não tenho procuração para defender o governo Fernando Henrique, e nem capacidade para tanto, mas noves fora a qualidade da governança, em relação à proto-ditadura Petista o governo FHC foi um governo de vestais.
JANAÍNA: Olá, Renato. Tudo bem? Agradeço pelo seu comentário. Minha intenção não foi mencionar o EJ, deveria ter sido mais cuidadosa, peço desculpas aos leitores. Vou trocar o link lá em cima.
No mais, concordo com você quando diz que a corrupção é pior hoje. Divergimos quanto aos motivos. Creio que a corrupção é uma espécie de abrasivo, de ferrugem, que vai corroendo a crença das pessoas nas instituições. Assim, há um efeito cumulativo sobre a aceitação da sociedade em relação aos crimes do colarinho branco, fazendo com que a situação presente seja sempre pior.
Para mim, os tucanos jamais foram vestais, muito pelo contrário. Tiveram a seu favor um respeito maior pelos ritos, inclusive os de cunho legal, e o fato de jamais terem agido como se detivessem o monopólio da ética _ algo que o PT fez e, a despeito da cara-de-pau necessária para tanto, continua fazendo.
De qualquer forma, Renato, escrevi o post com o coração. Quando minha filha está na parada, não consigo usar meio termo. Abraços.
Posted by: Renato Gasull | June 8, 2008 12:19 AM
O colégio da Manu oferecer esse tipo de bolsa é uma benção. O grupo de amigos que se formou é o máximo. Deve marcar a vida de cada um deles. A dor da separação é forte, ainda mais nessa idade. E a injustiça dos homens deve doer ainda mais em quem está apenas construindo a sua percepção de mundo.
A Cris vai fazer diferença aonde quer que ela esteja. Pelo carinho e amor dos amigos que fez, pela bolsa que possibilitou anos de ensino diferenciado, pela melhor amiga, que vai sempre se dedicar a poder compartilhar com ela o que há de mais importante na vida. Os hunos valem a pena. Isso é o que importa.
Manu: vai dar tudo certo. A Cris vai fazer por onde e você vai estar sempre perto. Acredite. Porque dá certo. Um beijo no seu coração. Mari.
JANAÍNA: Você sempre diz a coisa certa e me faz sorrir. Amanhã mostro seu comentário para a pequena. Beijoca.
Posted by: Mariana | June 8, 2008 02:17 AM
Janaina, não jogue a toalha antes de ir à luta.
Aconteceu algo semelhante com meu caçula e nós pais dos amiguinhos do grande amiguinho nos reunimos e fomos à direção do colégio pedir que fosse aberta uma exceção mas que, o custo, fosse debitado em rateio para nós, os pais com poder aquisitivo. Para resumir, o amiguinho não só continuou no colégio como não nos foi cobrado nada.
Percebo um coração de mãe entristecido mas não entregue.
Abraço Fraterno
JANAÍNA: Oi, Paschoal. Tudo bem? Obrigada por me contar o que aconteceu, espero que possamos repetir a vitória por aqui. Apenas não quero criar expectativas na cabeça da Manu que, depois, podem não ser cumpridas. Mas pode ter certeza que tentaremos todo o possível. Um abração.
Posted by: paschoal | June 8, 2008 07:23 AM
Linda mensagem, Mari, e acima de tudo, correta e lúcida.
Gostaria de celebrá-la e secundá-la, digamos. Ta, do meu jeito, meio destrambelhado, mas espero que seja útil para a Manu e a Cris. De huna pra huna. ;-)
Título da apologia dos hunos: “I’ll stand by you (you both, Cris and Manu)”. ;-)
Primeiramente, Manu, não devemos, nós hunas, aceitar o retrato distorcido que a história vista de cima, pelos Romanos, faz de nós. Quem lê esta mensagem pensa que nós, hunas, somos fracotes cheias de fricotes e firulas e faniquitos. Ninguém nos definirá assim, Manu, nem passará esta imagem de nós, pelo menos enquanto eu estiver por aqui.
O choro da Manu não é o choro da vítima que entrega os pontos: é o choro de compaixão, solidariedade e amor por sua amiga, Cris.
Prova apenas uma coisa: as hunas também amam.
Raramente as circunstâncias são favoráveis para a maioria de nós, Manu e Cris. O que diferencia as hunas dos outros é o fato de sermos incansáveis, de jamais pararmos para culpar eternamente as circunstâncias; nós trabalhamos para mudá-las e para realizarmos nossos sonhos mesmo quando as ondas insistem em nos vomitar para a terra árida e deserta.
Nós não aceitamos derrotas sem termos lutado como vencedoras!
Por isso, Cris, nada, absolutamente nada está perdido: a amizade entre você e a Manu é suficiente para contornar os obstáculos de ordem econômica e prática mesmo; o sentimento verdadeiro de amizade é uma força propulsora, ou melhor, de atração, capaz de arrastar sonhos aparentemente de outra galáxia aqui para nosso dia a dia, para a Terra, para nossa vida cotidiana.
De resto, I’ll stand by you, always. Cris, confiança, sim, na tradição huna de nunca desistir, nunca descansar: continue estudando muito, dedicando-se, e aposto que, se é uma Faculdade da USP que você almeja, você VAI conseguir. Só não desistir de trabalhar para esse objetivo, e eu sei que como huna você não o fará.
Porque nós, hunas, parafraseando o que se diz numa música de que gosto muito, “we’re gonna face no defeat!” (somebody to love, do Queen, linda música). E podemos cantar outra para este governo: “Who needs you?”, da mesma banda. Nós, não: conquistamos e continuaremos conquistando nosso espaço sem depender da negligência dele.
A Jana tem meu e-mail, eu a ajudo a estudar, Cris, e a tirar dúvidas suas, sempre que eu puder e estiver ao meu alcance: minha facilidade é para as exatas.
Uma huna nunca deixa a outra na mão. A ética huna é muito mais elevada que essa mesquinha do Governo.
Aliás, adorei a charge do Machado. Sei que dá trabalho, mas adoraria sugerir que ele colocasse rótulos nos frascos da banca, para simbolizar as promessas a que o Governo está vinculado: “educação”, “saúde”, e tudo mais. Os frasquinhos, claro, estariam todos vazios no desenho, tal como na realidade. A autoridade tem um rótulo, chamado democracia, a que precisa corresponder. ;-)
Beijo beisebol na Jana, aperto de mão energético e determinado para as minhas colegas hunas: somos muito Machas! Exatamente isso: corajosas, fortes, mas, sim, vulneráveis, como qualquer Macha: é o diminutivo afetivo, ou apelido gracioso, de Maria em Russo (estraguei a brincadeira, mas por bom motivo). ;-) (Macha ou Masha). Maria somos todas nós, tão discretas, numerosas e invisíveis como as moléculas de oxigênio viajando aqui a nossa volta. ;-)
JANAÍNA: Minha filha é meu orgulho, Yara, e ela JAMAIS poderia ser classificada como fraca e fresca, muito menos por mim. Pelo contrário, ela é o tipo de pessoa que faz as coisas acontecerem. Creio que a sua impressão do texto foi truncada. Em nenhum momento eu dei a entender que a Cris não conseguirá uma boa faculdade, por exemplo. É óbvio que sim. Mas o esforço terá de ser maior e ignorar isso é viver com a cabeça nas nuvens.
O fato é que nós daremos, sim, um jeito. Mas fazer isso tempo todo cansa, você não acha? O problema é viver nessa sociedade torta, injusta, cheia de ladrões e não reclamar. Isso eu não vou fazer, ainda mais quando essa realidade horrorosa atingir quem eu amo. No mais, obrigada pelas palavras. Um beijo.
Posted by: Yara Chiara | June 8, 2008 02:08 PM
Belo texto. Expressou legal o sentimento contido em alguma parcela revoltada com a esquerda brazuca.
JANAÍNA: Obrigada, Cristiano. Fico feliz que você tenha gostado. Volte sempre!
Posted by: Cristiano | June 8, 2008 02:22 PM
belo enfoque Janaina, ótimo que sua filha se mantenha otimista, apesar de tudo. chega a ser ridicula esta polarizaçao que PT e PSDB conseguiram impor a nossa sociedade, o que acaba por restringir as escolhas políticas por exclusão.
JANAÍNA: Oi, Vinícius. Tudo bem? A Manu é uma otimista inveterada e certamente vai atormentar muito as freiras para conseguir o que quer, assim como todos da turma. E você tem razão quando fala do sectarismo que Abs. :-)
Posted by: vinicius | June 8, 2008 10:09 PM