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"Olá Janaína:Tenho 17 anos e sou estudante, estou me preparando para o vestibular, mas ainda não escolhi a faculdade. Pensei em educação física ou jornalismo, por isso o meu irmão advogado mostrou seu blog. Gostei do jeito que você escreve, mas fiquei com medo, nunca vou ter a sua capacidade nem o seu conhecimento. Não é que seja burro, mas vejo que você leu muita coisa, é muito culta. Eu só leio quadrinhos... Kkkkkkkkk... Mesmo assim, parabéns pelo trabalho.
Um beijo do
M."
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Querido M.,
achei seu e-mail a coisa mais bonitinha. Saiba que fiquei muito feliz e orgulhosa com as suas palavras, elogios são sempre deliciosos, obrigada. Escreverei minha resposta aqui, na página principal, em formato de post, espero que não se importe. O caso é que recebi outros e-mails parecidos com o seu e talvez nossa conversa possa ser útil a outras pessoas.
Você diz: “nunca vou ter a sua capacidade nem o seu conhecimento”.
Tal imagem, meu anjo, é idealização _ apesar de me deixar honrada, não reflete o que eu sou, e sim aquilo que você percebe. Se é capaz de divisar inteligência e cultura, diria que tem potencial para ambas. :-)
Gosto de ler desde pequena, M., é verdade, e tenho especial apreço por temas históricos e filosóficos. Assim, alguns leitores deduzem que aos 12 eu recitava uma Enéada e discutia a transcendência do Uno. Bobagem! Os poucos conhecimentos que tenho chegaram de mansinho, de forma paulatina e despretensiosa (lembre-se que tenho o dobro da sua idade!). Meu grande mérito foi manter a porta aberta para eles, simples assim. É do que posso me orgulhar: gosto de aprender.
Parece fácil, mas nem sempre é moleza. Aprender pressupõe desprendimento. Um dogmático não aprende, ele decora, tem certezas. E anda com iguais, o que é ainda mais triste.
Você disse que “só” lê quadrinhos. Será? Estava lendo meu blog e, até aqui, o Arrastão ainda não tinha falado do tema... :-)
Além disso, quem falou que pessoas “cultas” não lêem quadrinhos, M.? Elas lêem o que dá na telha, o que consideram interessante. A diferença é que esses leitores se envolvem com a informação, buscam aprofundá-la, complementá-la, encaixá-la em outros contextos.
O melhor argumento que tenho é um... quadrinho. Você conhece a história da Mulher Maravilha? Diana Prince, princesa moldada com os dons dos deuses gregos, embaixatriz das amazonas no mundo dos homens, moça bonita que luta com bandidos (sem nunca machucá-los além do necessário) em nome da justiça e da verdade, dona de um laço que obriga a falar a verdade e de braceletes de prata que defendem de balas, blábláblá...
Sim, o que está aí em cima todo mundo sabe. Minha pergunta é se você conhece a verdadeira história por trás da Mulher Maravilha, personagem criada durante a Segunda Guerra por um psicólogo americano, o mesmo que inventou a tecnologia do detector de mentiras para o governo dos Estados Unidos, bígamo e grande conhecedor de mitologia grega?
Pois é. Eu leio quadrinhos e adoro a Mulher Maravilha! :-)
Charles Moulton era o pseudônimo de William Moulton Marston. Professor de Harvard, deduziu que, em tempos difíceis como aqueles, a indústria de quadrinhos, em franca expansão, tinha grande potencial educativo.
Naquela época, quando as tropas nazistas avançavam sobre vários países e o mundo começava a entender o real significado do nazismo, só existiam protagonistas homens nesse tipo de leitura _ Super-Homem, Batman, Lanterna Verde etc.
Também conselheiro da All-American Publications, uma das sementes da DC Comics, Marston decidiu bolar um novo tipo de super-herói, “que não triunfasse por meio de seus punhos ou suas armas, mas por meio do amor”. Ao contar a opinião para a esposa, Elizabeth, ouviu o óbvio: “Bom, se você quer isso, então faça com que seu herói seja mulher.”
Elizabeth, aliás, é um capítulo à parte, bastante, hum, digamos, diferente das mulheres de seu tempo. Ela ajudou Marston em seus inventos científicos e vivia em poligamia com o marido e a assistente dele, Olive Byrne. Não é exagero dizer que Diana/Mulher Maravilha possui várias qualidades de comportamento que lembram Elizabeth, assim como características físicas de Olive, uma jovem de longos cabelos negros, que sempre usava jóias em forma de braceletes.
A Mulher Maravilha foi a maneira encontrada pelo establishment americano de cumprir três objetivos. Primeiro, o governo antevia a possibilidade de entrar no conflito (o que, de fato, só aconteceu um par de anos depois) e, portanto, julgou conveniente encontrar maneiras de convencer a opinião pública de maneira não ostensiva. Assim, Diana é uma “embaixatriz da verdade e da Justiça”, “só usa a força para o bem” e “só machuca o estritamente necessário”. É a pátria.
Se homens fossem mandados para o front, quem iria segurar a barra da produção eram as mulheres. Logo, Diana é “secretária”, trabalha com os bravos militares (a paixão dela é um piloto, Steve Trevor). Mas, olha só!, ela também é “uma princesa”, que tem “força, poderes e beleza acima da média”. É a guerreira.
Essa parte da beleza, aliás, é interessante. A leitura dos rapazes nos quartéis era... quadrinhos. Por isso, a Mulher Maravilha aparecia com as perninhas de fora e seus desenhos foram baseados nas mais famosas atrizes de Hollywood. Tudo embalado por roupinhas feitas com a bandeira dos Estados Unidos. É a mulher.
Belo estímulo ao patriotismo, não?
Bom, M., vou parar por aqui. O texto está gigante. Todo esse palavrório foi só para dizer, do meu jeito enrolado, que Jornalismo ou Educação Física, tanto faz. Confio que você irá além e que, daqui para a frente, vai encarar os outros como a si mesmo: dignos de respeito e admiração, jamais inalcançáveis.
Seu fosse realmente danadinha, como você achava, teria resumido tudo o que está acima em uma frase. Assim fez Plotino (aquele da Enéada): “Procurai sempre conjugar o divino que há em vós com o divino que há no Universo.”
É isso aí.
Abração,
Janaína
PS: Ah, M., eu também como pipoca, vejo filme de Kung Fu, sei letra de música do Robertão...
PS2: Depois coloco os links, a conexão, para variar, está medonha.
Comments
Parece um petralha arrependido...cuidado...hehehe
Posted by: Bira | May 13, 2008 04:45 PM
Sou igualmente fã de quadrinhos. O que diria ao M. é para não parar nisso. Migre para livros que tenham tópicos que agradam. Aos poucos o interesse por outras coisas surge (em quem, claro, está aberto para isso).
Aliás, para quem gosta de política, tenho várias HQs a recomendar...
ExMachina (de Warren Ellis)
Legion of Super Heroes (a fase escrita por Keith Giffen e Tom & Mary Biernbaum - só importado usado)
Maus (Art Spiegelman)
As HQs do Joe Sacco
Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons)
Justice League International (Giffen & DeMatteis)
E muito mais...
Posted by: Ricardo Amaral | May 13, 2008 05:31 PM
Sou leitor seu há algum tempo, mas nunca escrevi. Acho seu texto muito bom, além de comungar de visões políticas semelhantes.
Você foi ao ponto com M. e pode acrescentar que tem muita gente por aí com uma situação acadêmica bastante sólida que lê quadrinhos.
Não gosto de me gabar, mas acho que dizer ajuda, sou antropólogo, tenho uma situação acadêmica legal e leio muito quadrinho, menos do que gostaria e, pior ainda, meus amigos, muitos acadêmicos lêem quadrinhos aos montes.
Pode dizer para o M que, em nossos momentos de descontração conversamos sobre quadrinhos.
Abraço,
Ps.: Você tem me inspirado a criar um blog, no meu caso não quero abordar a política diretamente, quero falar de cinema, quadrinhos, música e televisão. Por enquanto é um projeto embrionário. Mas assim que tiver andando, te mando o link.
JANAÍNA: Você não sabe o quanto me deixa feliz, Roberto! Mande o link, vou ter prazer em visitá-lo. E comente mais, por favor. Abs!
Posted by: Roberto Fonseca | May 13, 2008 07:33 PM
Eu lia Godzila, serve? Ah, e adoro o Cebolinha. Jana, querida, com este seu post, desconfio que o M. vai ser um belo de um jornalista, viu? Beijos
Posted by: marie tourvel | May 13, 2008 08:21 PM
Quem gosta de quadrinhos acho que vai gostar muiot disso. Quem viu disse que o Google Sky ficou ridículo.
http://www.worldwidetelescope.org/
Para quem tem máquina e interesse. Interesse eu tenho, mas minha carroça não chega nem perto da configuração exigida.
O telescópio worldWide (WWT) é um software para fazer o computador funcionar como um telescópio virtual com as imagens dos melhores telescópios do mundo.
JANAÍNA: Uau!!! Que bacana!!! Obrigada, Paulo. Você sempre acerta, impressionante... :-) Bj.
Posted by: Paulo Araújo | May 13, 2008 08:29 PM
Depois deste post talvez eu retome o meu blogue: http://themutanteens.zip.net/
[]s,
Roberto Takata
Posted by: Roberto Takata | May 13, 2008 10:01 PM
Jana
Uma amigo havia comentado que esse software foi apresentado no começo do ano e que breve estaria disponível na WEB. Meu inglês para ouvir é nulo. Há um filme feito na ocasião da apresentação do WWT. Quem apresenta é um dos colaboradores do projeto, Roy Gould, professor de Harvard
http://www.ted.com/talks/view/id/224
Um diferencial do WWT são os links para os astronômos e professores que falam sobre as imagens que o telescópio mostra. Também há links para revistas de astronomia. Esse software numa escola deve ser o máximo. Espero que traduzam logo.
No Globo on line de hoje
http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2008/05/13/para_concorrer_com_google_sky_microsoft_lanca_telescopio_virtual_que_explora_espaco-427357078.asp
Posted by: Paulo Araújo | May 13, 2008 10:48 PM
Cara Janaína,
Comecei a ler seu blog há pouco tempo – quando lhe envolveram em algumas confusões já tratadas, explicadas, “dissecadas” neste espaço por você. Desde então, entro aqui diariamente e, por vezes, verifico se há atualizações várias vezes durante o dia (confesso que seus textos me agradam tanto, que gostaria que a freqüência de postagens fosse ainda maior :-)).
Ainda não tinha comentado, mas este post dos quadrinhos realmente me fez pensar. Não leio quadrinhos há, pelo menos, 10 anos. Não sou fã e, confesso, já critiquei alguns por essa prática (ok, ok... já estou tratando esse e outros preconceitos). O que me impressionou é quanto conhecimento interessante pode haver por trás de uma “simples” história em quadrinhos. Admito ter ficado surpreso.
Além disso, pude constatar também que, além de algumas posições políticas coincidentes, também compartilhamos do interesse por história e filosofia (muito embora eu ainda esteja engatinhando com meus estudos nessas áreas). Espero ler por aqui sempre esses e outros temas tratados com suas admiráveis lógica e capacidade de argumentação.
Um abraço do leitor e admirador,
Régis
PS.: Desculpe-me pelos possíveis erros de pontuação, concordância, regência, etc... Dizem que engenheiro não sabe escrever, mas estou me esforçando... ;-)
Posted by: Régis | May 13, 2008 11:48 PM
Eu tenho cerca de 5 mil gibis em casa. Tem tudo isso aí. E mais um pouco. Ok, mais um muito.
Mas DC, legaaaaaaaaal, mesmo, só Alan Moore ou Giffe/DeMatteis (ou a beleza das coisas do Alex Ross).
Menino gosta mais de Marvel, tal e coisa :D
Posted by: Gravatai Merengue | May 14, 2008 02:52 AM
Seu blog é uma das melhores coisas que achei na Internet até hoje!!
Parabéns e obrigado pela iluminação!!
Abs,
Marcos
Posted by: Marcos | May 14, 2008 08:41 AM
Amei o texto... vai ser ótimo para indicar para os meus alunos com dúvidas existenciais...
Posted by: Ulisses Adirt | May 14, 2008 11:03 AM
Ia aqui comentar que também sou leitor e icentivar M. a seguir em frente, mas a lista já vai grande (há até sugestões de leituras boas de quadrinhos!), mas a essência está no que você, Janaína, disse. É a conduta dele que ditará onde chegará. Boa sorte a M. e uma grata surpresa em saber de mais um gosto comum deste leitor com a autora do blog. Abraços deste novo leitor.
Posted by: Alexandre Gomes | May 14, 2008 11:29 AM
Mulher Maravilha ganhou meu respeito aqui:
http://www.yesbutnobutyes.com/archives/funnycomic_wonderwoman_eyelash.jpg
JANAÍNA: hahahahaha... Muito bom!
Posted by: Gustavo | May 14, 2008 11:32 AM
Já que o M gosta tanto de quadrinhos, gostaria de sugerir a leitura da Mafalda do extraordinário Quino. Certamente será muito útil para ajudá-lo a evoluir seus conhecimentos a partir dessa linha "quadrinista" da qual ele se mostra tão aficcionado. Para mim a Mafalda é uma referência na área e a (re)leio sempre que posso a ponto de ter decorado grande parte de sua tiras impagáveis!! Faça bom uso dessa leitura, portanto.
Posted by: Gilberto | May 14, 2008 12:40 PM
Também amo quadrinhos e acho perfeitamente possível concilar as 02 coisas (HQ e vida acadêmica). Possível e até natural. Flórida seria se ele gostasse de funk, se pegar com homem em ringues e afins.
(Querida, obrigado por tudo; estou as raias da arrogância com essa história toda; estou impossível, hehe. Beijos mil)
Posted by: Rodrigo Rover | May 14, 2008 02:03 PM
Que bela resposta, Janaína!
Também li muitas gibis na minha infância e adolescência, hoje já não os leio mais, prefiro ler belos textos como os seus.
Um grande abraço.
Posted by: Mário | May 14, 2008 02:29 PM
Janaína e M.,
eu também gosto muito de histórias em quadrinhos.
E muita gente também. A tal ponto que em Bruxelas tem um Centro Belga de Quadrinhos. Lá, o principal destaque Tintin, personagem criado pelo belga Georges Rémi, que usa o pseudônimo Hergé, a pronúncia invertida de suas iniciais em francês.
Hergé revolucionou a história dos quadrinhos. Seus personagens, Tintin, um jovem jornalista e Milu, um cachorro, viveram inúmeras aventuras transcritas em 23 livros.
Uma delas, "Tintim no Congo", é polêmica. Segundo a Reuters, de 11.07.2007, "o governo britânico recomendou que as livrarias de todo o país recolham os exemplares do livro em quadrinhos "Tintin no Congo", com as aventuras do herói belga de Hergé. A Comissão pela Igualdade Racial da Grã Bretanha (CRE) emitiu a recomendação depois de receber uma reclamação de uma pessoa que vira o título em uma livraria da rede Borders.
"Seja de qual aspecto se observar, o conteúdo desse livro é flagrantemente racista", disse o órgão britânico em uma nota".
Para o Universo HQ.com, de 06.07.2007, "existe uma confusão na mídia sobre qual a versão do álbum em questão que causou polêmica. Segundo alguns jornais foi o fac-simile, em preto e branco, do original em 1931 (esta edição foi modificada duas vezes, nas décadas de 1940 e 1970), disponível nas livrarias inglesas há mais de dez anos. Outros, provalvelmente, mais corretos, falam da versão colorida, publicadada na Inglaterra pela Egmont, em 2005, pela primeira vez, que traz um aviso numa faixa circulando a capa, que o livro contém uma interpretação paternalista e estereotipada característica do período em que foi produzido, e que alguns leitores podem considerá-lo ofensivo."
A polêmica disparou as vendas do álbum "Tintim no Congo" que ocupava a posição 4.343 e passou para o 5º lugar nas vendas da Amazon.co.uk.
"Hergé, o criador de Tintim e Milu, declarou diversas vezes que se sentia embaraçado com a versão original de seus dois primeiros álbuns (Tintim no País dos Soviéticos e Tintim na África), e que eles eram pecados de sua juventude, na década de 1920, refletindo valores da época, da sociedade que o cercava."
Em março de 2008, a versão de " Tintin no Congo", à venda na livraria do Centro Belga de História em Quadrinhos, em Bruxelas, não é a polêmica. Segundo a vendedora, essa versão dos quadrinhos era "quite shocking" (chocante).
Quem tem lugar garantido no Centro Belga de Histórias em Quadrinhos é Pierre Cullifor, conhecido como Peyo. Ele criou histórias vividas com criaturas pequenas azuis - "Les Schtroumps" – que ficaram conhecidas como "Smurfs".
A estréia aconteceu em 23 de outubro de 1958 mas foi somente em 1981quando foram transformados em uma série animada pela Hanna-Barbera, transmitida no Brasil pela TV Globo, que os Smurfs ganharam o mundo e se tornaram um clássico dos desenhos animados. Eles completam 50 anos e o Centro prepara uma grande festa.
Em Bruxelas se pode fazer um tour pela cidade em companhia dos personagens das histórias em quadrinhos.
A Mulher Maravilha não é uma maravilha para mim. Prefiro a menina Mafalda, que é maravilhosa, do Quino.
Posted by: Isa Maria Terra | May 14, 2008 04:54 PM