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May 21, 2008

ALSTOM: Pano para todas as mangas

Prometi que voltaria com o caso Alstom, eis que estou aqui. Em linhas gerais, você sabe: procuradores da Suíça investigam se a francesa Alstom, um gigante mundial na área de infra-estrutura, pagou propinas entre 1997 e 2003 a políticos brasileiros para ganhar licitações gigantescas.

A cobertura dos jornais têm sido muito bem feita em relação aos contratos da Alstom com o metrô paulistano e com a CTEEP. Hoje, por exemplo, Mario Cesar Carvalho e José Ernesto Credendio revelam na Folha de S.Paulo que o Tribunal de Contas do Estado de S.Paulo julgou irregular a compra de 12 trens feita pela CPTM, companhia que cuida do metrô local, no fim de 2005. Por aqueles dias, o tucano Geraldo Alckmin era o governador.

O negócio, fechado sem licitação, correspondeu a R$ 223 milhões. Baseou-se em um contrato de 1995. Pior: o documento havia expirado em 2000. Vale a leitura.

Também é interessante a nota escrita por Monica Bergamo, da mesma Folha. Ela informa que o procurador suíço que investiga a Alstom já havia colaborado com o promotor Sílvio Marques, que cuida do caso no Brasil. Da outra vez, o alvo eram as contas do ex-prefeito Paulo Maluf.

Da outra vez, eu disse? Talvez não. Se o Ministério Público tiver liberdade para a investigação que pretende, é possível que esquemas antigos voltem à tona. Digo isso pois a história de usar notas frias para encobrir repasses ilegais aos políticos é antiga, respingou em Maluf há 11 anos, com o escândalo da Lavanderia Monte Cristo. Revista IstoÉ de 29/10/1997.

“... Ali funciona a sede do grupo Monte Cristo, amontoado de mais de 30 empresas, quase todas de fachada, comandadas pelo empresário Samir Assad. Duas delas, a Montreal Assessoria e Consultoria e a Somartec C M & Futuros Ltda., tiveram operações com títulos públicos da Prefeitura de São Paulo registradas pela CPI do Senado e há seis meses passaram a ser investigadas. O que a PF não sabia era o tamanho da conexão que seria descoberta. No bunker da Monte Cristo os policiais encontraram farta documentação (incluindo mais de dez mil notas fiscais frias) e funcionários dispostos a contar tudo o que sabem sobre um esquema de falsificações e lavagem de dinheiro. Este esquema aponta para empreiteiras e seus costumeiros parceiros, os políticos. Apenas em 125 das notas já analisadas, o valor da falcatrua atinge R$ 17,8 milhões. A PF acredita que o escândalo pode superar os R$ 500 milhões.

Segundo os depoimentos... as notas eram completamente falsas. Não correspondiam a nenhum serviço prestado pelas empresas do grupo, não eram registradas na Secretaria da Fazenda e, embora tenham sido impressas na Izar Artes Gráficas Ltda., estampavam o nome de gráficas fantasmas no rodapé.”

Se eu fosse cobrir essa bagunça toda, daria uma olhadinha em quem eram as parceiras da Alstom à época e veria se elas podem ter repassado dinheiro por aí em nome da francesa. Ficaria de olho especialmente na corretagem e nas operações financeiras. É aí que as investigações costumam se perder _ nos meandros do mercado.

A OAS, por exemplo, no fim de 1997 mandou para Jersey (onde ficavam as supostas contas de Paulo Maluf) R$ 6,8 milhões.

Volto para a Folha de hoje:

"Segundo o jornal norte-americano 'The Wall Street Journal', uma dessas propinas, de US$ 6,8 milhões, teria sido paga para que a Alstom conseguisse um contrato de US$ 45 milhões do Metrô de São Paulo."

Pode ser apenas coincidência de valores, e provavelmente o é, mas eu começaria a investigar por aí.

Para continuar lendo, clique aqui.

Outro ponto que levei em consideração são os outros nomes usados pela Alstom por aqui: Cegelec e Alcatel. Menos de 15 segundos após digitar alguns comandos, eis que encontrei a Folha de S.Paulo de 3/12/2000:

"Uma nova planilha eletrônica do comitê financeiro da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, revela a ação do ministro Andrea Matarazzo (Secretaria de Comunicação de Governo) junto a grandes empresas e dá as primeiras pistas sobre a origem dos R$ 3 milhões arrecadados por ele para o caixa-dois da reeleição.

O registro eletrônico desse arquivo informa que seu autor, mais uma vez, é o ex-ministro da Administração e Reforma do Estado Luiz Carlos Bresser Pereira, tesoureiro oficial das duas campanhas presidenciais de Fernando Henrique Cardoso. A última alteração feita nesses dados ocorreu em 8 de julho de 1998 -portanto, quase três meses antes da eleição."

Nenhum dos três nomes da Alstom aparece nesse texto. A reportagem que traz o "outro lado", porém, intitulada "Empresas negam ter feito doações irregulares a FHC", não deixa dúvidas:

"Alegaram não ter tido tempo hábil para responder à Folha o grupo Vicunha e a Cegelec. Pela planilha, a meta de arrecadação para a Vicunha seria de R$ 150 mil. A Cegelec está no grupo de dez empresas para as quais não há indicação de meta para doação."

A Cegelec fechou contrato com o metrô do Rio em 1997. A Alcatel, por sua vez, era fornecedora de todas as grandes empresas de telefonia. Ah, e tem a Sabesp e a Dersa, responsável pelo Rodoanel.

Quem assinou o documento pela Dersa foi Manfred Von Richtofen. Você, certamente, ouviu falar dele: o engenheiro e a mulher foram assassinados a pauladas por ordem da filha, Suzane, presa por conta do crime. Sugiro que leia a íntegra da reportagem escrita por Helio Fernandes em 16/10/2002. Abaixo, alguns trechos:

"Surgiram agora, no horizonte, os seguintes fatos que estavam encobertos, não ganhavam o sol diário. As nuvens vão sendo afastadas, Receita Federal, polícia, Procuradoria entraram em cena, tentam esclarecer estes fatos.

1 - A Receita Federal já apurava a "evolução patrimonial" de Richtofen. Tiveram a atenção provocada pelos seus gastos e gostos luxuosos, incompatíveis com os salários.

2 - Estão sendo investigados, por três órgãos diversos, (federais) os últimos empregos de Richtofen. Em todos era "assalariado", nada que permitisse as "extravagâncias".

3 - A Receita acredita que indo fundo, vai abrir "a caixa-preta" da Dersa-SP.

4 - Tratavam disso há algum tempo, os obstáculos eram grandes.

5 - Essa Dersa participou e participa das maiores obras viárias do estado.

6 - Já existem pistas que levam à investigação, pelo menos a duas grandes empreiteiras. Uma delas foi que colocou Richtofen na Dersa.

7 - A Polícia Federal faz a sua parte e muito bem. Já localizou viagens ao exterior de Suzane (e do namorado), na companhia do próprio pai.

8 - Essa polícia já tem elementos convincentes sobre desvios (escondidos) de dinheiro feitos pela própria Suzane na conta externa do pai.

9 - Os dólares que o namorado de Suzane diz que recebeu dela, teriam vindo dessa conta. De onde mais?

10 - Ao lhe dar a "senha da conta no exterior", Richtofen não disse à filha que só uma parte do dinheiro era dele.

11 - Não contou, nem podia contar mesmo, que empreiteiros-pagadores-parceiros, eram donos de dois terços.

12 - Dele era o outro terço, nunca essa percentagem valeu tanto."

Bom, leitor, acho que essas sugestões estão de bom tamanho. A lista pode até crescer mais adiante, se os procuradores conseguirem dilatar o prazo em que foram assinados os contratos. Mas, lembre-se: tudo que está aqui é apenas um compilado de informações. Vamos esperar o trabalho do Ministério Público e das redações antes de concluir qualquer coisa. Até!

Postado por Janaína Leite às |



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