« Corte gastos, ministro! | Página Principal | Tchau, cafezinho! »

May 08, 2008

PODCAST: Sêneca e o ócio produtivo

nb_pinacoteca_rubens_the_death_of_seneca_prado.jpg

Ócio, objetivos, organização, horizonte, horror, ônus, óbito. Ficar em casa contra a vontade consciente significa deparar com esses conceitos todos num curtíssimo espaço de tempo _ aparecem a toda hora, na música do aparelho, na conversa pelo computador, na notícia da televisão, no apito alto da chaleira.

Há algum tempo comprei um livrinho, desses de bolso, intitulado “Sobre a brevidade da vida”. O autor é um dos filósofos romanos mais conhecidos, Sêneca, o Jovem. Compreensível. Foi conselheiro de Calígula, banido por Cláudio, preceptor de Nero. Estóico, grande frasista, o sábio teve uma vida fascinante; oscilou do luxo à miséria, da glória à sentença de traição. Nero ordenou a ele o suicídio.

Sêneca obedeceu. Abriu as próprias veias, mas, como o sangue demorasse a correr, pediu veneno. Só morreu, porém, muito mais tarde, sufocado entre vapores.

Além de fascinar seus contemporâneos, Sêneca influenciou muitos que vieram depois. É possível ver ecos de suas palavras em vários filósofos e grandes que o sucederam nos mais variados campos, como Tomás de Aquino, Rubens (autor do quadro reproduzido acima), Racine e Freud, por exemplo.

Infelizmente, ao que parece, a ressonância descambou também para o vulgo que Sêneca tanto desprezava, para o simplismo dos “milagreiros” e o uso descaracterizado em forma de auto-ajuda, tendência que Petrônio, há séculos, havia detectado, segundo a minha ediçãozinha.

“Muitos diluem o sentido da sua obra em uma espécie de filosofia paliativa, cujo único objetivo fosse ajudar os seus próximos a extinguir a dor do espírito ou pelo menos amenizá-la.”
“Transformam a simplicidade das propostas [de Sêneca] em superficialidade, e o caráter mais profundo da filosofia, em um auxílio a desamparados de todas as latitudes.”

Tal fanfarronice está muito distante de minha intenção. Ofereço a você, no podcast de hoje, algumas pílulas do que contém “Sobre a Brevidade da Vida”, uma pequena jóia escrita pelo filósofo romano (nascido em Córdoba, na verdade). Fiz pequenas adaptações, de estilo e supressão de páragrafos, para que o texto fosse melhor compreendido no formato de áudio. Nada, creio, que implique alteração de sentido.

Ademais, minha intenção é provocá-lo, leitor, para que fique tão curioso em relação a Sêneca quanto eu e, assim, procure as obras do sábio. Nenhum conhecimento de segunda mão é tão bacana quanto ler o próprio autor.

Como disse Sêneca, “deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer”.

Mudar é morrer um pouquinho. E eu estou em plena fase de mudanças.

Um ótimo dia e até mais tarde, meu caro.




Postado por Janaína Leite às |



Comments

Acho que esse tratado foi traduzido por uma ex-professora minha de latim e um amigo para a L&PM pocket. Parece que estão traduzindo outro. Deve sair este ano ou o próximo.

JANAÍNA: Puxa, que legal! O nome dela é Lúcia Rebello? Será que você descola o contato para mim, Rodrigo? Beijão, vizinho!

Por que mudar é só morrer, e não também nascer?

JANAÍNA: Não é "só" morrer, acho. Morrer implica nascer para outro estágio, mas às vezes não de maneira automática. No meu caso, especificamente, estava falando de mudanças profissionais. Como o novo ainda não chegou, o nascimento ainda é expectativa. Um beijo, meu anjo! Daqui a pouco vou lá ver a crônica nova.

Questões com Q maiúsculo são importantes, para não dizer desafiadoras, no dia-a-dia da vida louca vida, onde nos acostumamos a seguir em frente, como papéizinhos voando sem direção. Eu, na medida do possível, trato de estar sempre atenta, me questionando, avaliando quais minhas reais intenções em tudo aquilo que faço. Óbvio que tem o automático, mas esse exercício diário acaba fazendo com que você consiga quebrar mecanismos, padrões e consiga sair da porteira. Porteira porque no mundo de hoje, sinto que somos todos um bando de vacas sendo superficialmente conduzidos por auto-intitulados peões da vida no pasto. Sair porteira a fora, portanto, pode parecer estranho, num primeiro momento, mas depois, dá um prazer danado.
Acho que você, colocando um filósofo/sábio/o que seja pra abordar temas mais introspectivos ou mais profundos, meio que coloca alguns pontos nos i's.
Afinal, eu, assim como muitos, vim parar na sua seara blogueática, através de uma contenda que, ao som de Sêneca, escorrega vala a baixo. Uma contenda que revela muito pouco, para olhos destreinados e fanáticos, do que realmente está por trás dos personagens virtuais criados na blogosfera.
Não só na blogosfera, mas na vida em geral, ainda mais olhando para os tubarões, todas sedentos de aprovação e de pessoas que sirvam de gado; assim, quanto mais vaquinhas, mais poder, mais bocas para pastar o que se serve e mais força para atacar quando preciso.

A partir de letras maiúsculas aplicadas a questões aparentemente medíocres, podemos começar a perder essa necessidade de fazer parte de um grupo e de sermos conduzidos cegamente.

Obrigada pelo post, senhora jornalista. Senhora pelo gosto musical, hehehehe. E jornalista não sei. Porque vc está parecendo que está realmente em processo de mudança.

Viva. mari.

JANAÍNA: Querida, você é um presente vindo com esse blog. Sua inteligência, franqueza e generosidade são acima da média. Muito, muito obrigada pelas palavras. Elas me emocionaram verdadeiramente. É assim, por ler e ouvir algo que transcende o imediato, que consigo sentir que a vida continua _ dentro e fora da internet. Sei que você duvida do que eu digo e age com um grau de imparcialidade de fazer inveja a qualquer jornalista. Mesmo assim, ou talvez por exatamente isso, a minha admiração. Um grande e carinhoso beijo.

Olá Janaína! Sou uma das leitoras 'passivas' do blog. Mas ouvindo a CBN hj de manhã não resisti em te escrever. Se puder, dê uma olhada no comentário da Mírian Leitão ("Governo erra ao anunciar ajuda financeira..."). Ela traz dados, ainda que já conhecidos, bem interessante sobre os despropósitos do BNDES.
abs, CarolZ

JANAÍNA: Querida, muito obrigada pela dica. Vou tentar recuperar o comentário da Miriam. Um beijo.

Eu tenho o "Sobre a Brevidade da Vida" e gosto muito -mas não é essa edição da L&PM, é uma que a Nova Alexandria lançou há uns 15 anos. A tradução é do William Li, que chegou a trabalhar na Folha e era COMPLETAMENTE maluco -mas parece que verteu direitinho o Sêneca. Beijos, querida.

JANAÍNA: Puxa, você estava sumido! Já estava saudosa. Vontade de ler essa versão. Onde será que anda o tradutor? Você sabe? Vi que atualizou o Pura Goiaba (www.puragoiaba.apostos.com), vou lá daqui a pouquinho. Só preciso liberar alguns comentários. Beijo, beijo.

Janaína, o que vc acha da atitude do senador Agripino em relação a ministra Dilma ?

O Mão Santa jamais faria uma coisa dessas...rsrs, fez pior !

JANAÍNA: Paulo, hoje eu só vi informações da AgripinA, a mãe do Nero. Minhas antenas estavam lá para Roma Antiga. Depois dou um pulo lá no site do Senado para ver o que falaram aqui na Brasiléia e digo pra você, ok? Bj.

Eu quero um post como este pelo menos uma vez por semana, se não for exigir demais.

Não sei se você conhece

http://citador.weblog.com.pt/

É um ótimo sítio com trechos de pensamentos dos mais variados autores. Também há links para citações e provérbios organizados por temas, além de centenas advinhas.

Algumas citações que busquei no tema mulher. A do George Meredith escolhi, claro, pensando em você. As outras citações, bom elas também são muito espirituosas.

As mulheres, durante séculos, serviram de espelho aos homens por possuírem o poder mágico e delicioso de refletirem uma imagem do homem duas vezes maior que o natural.
Virgínia Woolf

Uma mulher leva vinte anos para fazer do seu filho um homem - outra mulher, vinte minutos para fazer dele um tolo.
Helen Rowland

Uma mulher espirituosa é um tesouro; uma beleza espirituosa é um poder.
George Meridith

JANAÍNA: Olha, Paulo, fiquei enrolando um pouco, passeando e tal, na tentativa de imaginar uma resposta capaz de fazer com que você e os demais leitores pensassem que a minha verve corresponde ao elogio. Não consegui. Levaria muito mais de 20 minutos, talvez uns 20 anos. Mesmo com todo esse tempo, reconheço, corria o sério risco de acabar pálido reflexo da gentileza. Assim, acho por bem sair de mansinho rumo ao site que me indicou. Na semana que vem eu volto com outro post do gênero, prometo. Um beijo.

20h28: Fui até lá, estou ENCANTADA!!! Se eu sumir daqui por um tempo, a probabilidade de estar nos Citadores é grande. Obrigada!

O William Li morreu em 1999, Jana. Jovem ainda, não devia ter nem 40 anos. Outro beijo.

JANAÍNA: Bom, levando em conta que eu não tinha a mais vaga idéia da morte do Costinha (o Ruy depois me informou que foi em 1995), você me perdoa, né? É mais uma da série "não acredito que a Jana disse isso!"... Hahahaha Bjs.

Essa L&M está matando a pau , ótimos pocket books a 10 merré. Rezo para que não vá a falência nesse país de ignorantes.

E Sênece era o cara!!!

Abraço cordial,

Fabio Tagliavini Neto

Comente

(Os comentários só serão publicados após moderação do dono do blog)

Comentários: