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De Eugène Delacroix, no "Diário":
"É preciso esconjurar, da forma que nos for possível, este diabo de vida que não sei porque é que nos foi dada e que se torna tão facilmente amarga se não opusermos ao tédio e aos aborrecimentos uma vontade de ferro. É preciso, numa palavra, agitar este corpo e este espírito que se delapidam um ao outro na estagnação e numa indolência que se confunde com um torpor. É preciso passar, necessariamente, do descanso ao trabalho - e reciprocamente: só assim estes parecerão, ao mesmo tempo, agradáveis e salutares. Um desgraçado que trabalhe sem cessar, sob o peso de tarefas inadiáveis, deve ser, sem dúvida, extremamente infeliz, mas um indivíduo que não faça mais do que divertir-se não encontrará nas suas distracções nem prazer nem tranquilidade; sente que luta contra o tédio e que este o prende pelos cabelos - como se fosse um fantasma que se colocasse sempre por detrás de cada distracção e espreitasse por cima do nosso ombro....Sempre pensei que havia tempo a mais. Atribuo em grande parte este sentimento ao prazer que quase sempre encontrei no próprio trabalho: os verdadeiros ou pretensos prazeres que se lhe sucediam não contrastavam talvez muito com a fadiga que me comunicava o trabalho - fadiga que a maior parte dos homens sente duramente. Não tenho dificuldade em imaginar o prazer que deve sentir nas suas horas de repouso essa multidão de homens que vemos vergados sob trabalhos desencorajadores - e não me refiro apenas aos pobres, que têm de ganhar o seu pão quotidiano, mas também aos advogados, aos funcionários, submersos pela papelada e ocupados com encargos fastidiosos ou que não lhe dizem respeito. "
No entanto, também é verdade que a maior parte desses indivíduos não têm problemas com a imaginação e vêem nas suas ocupações maquinais uma maneira como qualquer outra de ocupar o tempo. E serão tanto menos infelizes quanto mais medíocres forem. Para me consolar, termino com este último axioma: que é por ter espírito que me aborreço."
Para ver alguns quadros de Delacroix, clique aqui.
Comments
Será que não se praticava sexo e esporte na França da era romântica? Ou era o talentoso pintor averso a essas práticas tão saudáveis e prazerosas que espantam qualquer tédio e melancolia? Afinal de contas, são práticas que independem de tecnologia, recursos ou IDH. Se o Delacroix fizesse mais amor e suasse com alguma atividade corporal não se aborreceria tanto. Trabalhar é bom sim, mas não é tudo.
Posted by: Alex Maciel | May 30, 2008 07:02 PM
Afinal, suicidou-se ou não?
WU
JANAÍNA: Oi, Wymac. Pelo que sei, Delacroix morreu por conta de sucessivas crises de laringite. E eu jamais pensaria em suicídio. ;-)
Grande abraço.
Posted by: Wymac Uorres | May 31, 2008 02:53 AM
O trabalho engrandece, pode parecer chavão, mas eu acabei aprendendo isso na prática. Não vivo direito sem trabalhar, produzir, criar, não importa de que forma. É essencial para a minha sanidade.
Quanto mais disciplina (mas sem perder a flexibilidade), mais livre eu me torno para sentir prazer e aproveitar as coisas boas da vida, o lazer, as bobagens e os detalhes que cada um de nós elege como fontes primárias de deleite. Não sou disciplinada por natureza, tenho dificuldades com rotina, repetição e hierarquia. Todas elas, no entanto, são fundamentais. Desde que vividas em sua essência.
Delacroix transborda amargura e sabedoria em suas palavras. A amargura é triste, porém há de se respeitá-la. A culpa nunca é da vida e de Deus (ele não diz isso, mas eu estou dizendo). Acho sacanagem culpar qualquer um dos dois. Somo nós os agentes. Mas respeito quem assim sente. Entendo, compreendo, me coloco no lugar, mesmo não sendo fácil e mesmo que as diferenças me provoquem certas emoções.
A vida nos foi dada por amor. E por amor vivemos, comemos e tudo fazemos. Balela pseudo-romântica ou pseudo-religiosa? Pode ser, cada um sente, entende e expressa como quer. Não é por isso que tudo vale a pena?
Nos dias nublados, dentro e fora da gente, as nuvens parecem pesar demais e a vontade de voar é uma gota escorrendo na parede, que chega no chão e depois desaparece. Adoraria pegar o que eu tenho dentro de mim e me dividir em muitos pedacinhos. Assim, nestes dias nublados, um pouquinho do meu entusiasmo, entraria no olhar, pelo menos no olhar, de cada um que sente que tudo está pesado e sem fim.
Dante era um homem. Delacroix era um homem. Estamos todos aqui para viver essa humanidade. Escolhemos isso, com todos os ingredientes necessários. Essa escolha não pode ser esquecida. Todo dia vale a pena, toda hora é nova. Nada se repete. Apenas os nossos mecanismos. Sabendo disso, tudo pode ficar mais leve.
Leve.
JANAÍNA: Adoro você, menina. Mesmo. Um beijo.
Posted by: Mariana | May 31, 2008 03:06 PM