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April 28, 2008

Telezona, a síntese do Brasil (parte 6 - última)

Para encerrar, mais alguns números e considerações. Até aqui, claro, você pescou: no Brasil, é possível ser empresário sem ligações com os governantes de plantão. Mas, para conseguir atuar em uma área de concessão pública, é recomendável ter bons amigos entre os poderosos. Agora, se o caso é fechar um negócio ilegal envolvendo concessionárias... Aí é bom conhecer os políticos, se dar bem com várias facções e partidos, ceder a prepostos alguns lugares no conselho das empresas e, muito provavelmente, doar um bom dinheiro para campanhas eleitorais.

Antes das ponderações, contudo, os números da “supertele” (como é fácil criar uma impressão positiva, sem desembolsar um tostão em publicidade!).

Li em todos os jornais que a La Fonte e a Andrade terão, juntas 38,68% da Telemar Participações _ empresa que não é negociada em bolsa e está acima, em uma árvore socitária complicada, da operadora. Quase 40%... Dá até para entender facilmente os R$ 2,4 bilhões vindos do BNDES.

Mas, como eu disse, há informações numéricas que são como cebolas. A Telemar Participações está acima da Tele Norte Participações, que manda na Telemar Norte Leste (TMAR), a operadora. E, fazendo os cálculos, somando-se inclusive a participação direta de Jereissati e Andrade, descobre-se que a parte relativa a ambos corresponde a... 5,89%.

Os dois terão praticamente 6%, talvez um pouco menos, da Telezona, mas nela mandarão. A operadora nascerá um tantinho endividada. O risco estará mais com o mercado, creio, uma vez que são os investidores os donos de boa parte das ações da operadora.

Outros, bem mais inteligentes que eu, perceberam antes. As ações com direito a voto da TNL Part., da controladora da Oi, despencaram hoje 10,6%. E os papéis preferenciais caíram 9,7%. Avalio _ e isso é apenas minha avaliação _ que o movimento demonstra que o mercado não acreditou na história de uma governança corporativa aperfeiçoada para a Telezona.

Provavelmente, os operadores lembraram de casos recentes, como, por exemplo, o de Marco Tronchetti Provera, da Pirelli. Ele controlava a Telecom Italia por meio de uma empresa acima dela na árvore societária. Para financiar a empresa em que estavam suas ações, o empresário permitiu que a dívida da Telecom Itália (onde só tinha 3% do total) explodisse.

Enquanto o governo italiano era amigo de Provera, não houve problema. Quando, entretanto, Romano Prodi, que detestava o presidente da Pirelli, assumiu o cargo de primeiro-ministro, a situação virou. Em pouco tempo, a procuradoria italiana varria as atividades da Telecom Itália e os bancos cobravam as dívidas.

Resultado: Provera perdeu a companhia para a espanhola Telefónica. Os espanhóis que adquiriram o controle da Telecom Italia no ano passado em parceria com instituições financeiras.

“O que você quer dizer com isso, Janaína?” Que, na minha opinião, a Telezona continuará dependendo das relações de seus comandantes com a política. O acordo de acionistas não saiu mas, para descompensar o bloco de controle, basta que UM feche com o grupo contrário. Assim, a composição ainda é crucial para que Jereissati e Andrade fiquem à dianteira da tele.

“E a administração?” Espero que seja boa. O primeiro ponto a ser olhado com cuidado é o quanto os empresários querem essa companhia para aperfeiçoar as atividades da operadora por aqui ou como um braço mecânico para expandir suas outras atividades lá fora.

Se for o segundo caso, o dinheiro público financiou ambições privadas que, embora nacionais, são de pouca valia para nós, os brasileiros. E daqui a pouquinho, um estrangeiro, como a Portugal Telecom, por exemplo, comprará a controladora Telezona _ pagando muito mais pelas ações dos manda-chuvas (Jereissati, Andrade e o fundo de pensão da Telemar, o Atlantis) do que para os demais sócios (os fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, da Petrobras e da BNDESPar).

Claro, o dinheiro público está nos últimos. Meio Fellini, eu sei. Mas, é só um detalhe, não é?

E la nave va.

Postado por Janaína Leite às |



Comments

Janaina, sua analise foi a mais clara e provocante que ja li ate o momento. Parabéns. Enquanto isso, o xxxxxx fica com aquela conversinha de "economez" chinfrim e não dá nome aos bois. Mais fácil assim, porque deixa espaço para ele formar opininão quando for conveniente.

Nessa questão das Teles BrT e Oi tinham duas alternativas, a fusão que acabou acontecendo ou seriam engolidas por America Movil/Telmex ou Telefônica.

No segundo mandato de Lula, mesmo com a manutenção da politica macroeconomica , houve um aumento da influência dos desenvolvimentistas na formulação da ação estratégica de inserção do Brasil no mundo globalizado.

Os desenvolvimentistas como Luciano Coutinho, presidente do BNDEs; Marcio Pochman, presidente do IPEA; Roberto Mangabeira, sec.Politicas Longo Prazo;
Paulo Nogueira Batista Jr,representante do Brasil no FMI; Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, alem da ministra chefe da Casa Civil Dilma Roussef estão produzindo transformações importantes no nosso ambiente economico. Sem esquecer dos consultores presidenciais que tem cada vez mais força como Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, ligado a ala tucana do PMDB e tambem conselheiro de Serra.

Fica calro que existem mudanças sendo gestadas, a Folha ontem noticia articulações no sentido de criar uma grande empresa farmaceutica nacional á partir da fusão de 2 ou 3 industrias, o numero crescente de multinacionais brasileiras - Vale, Petrobras, Gerdau, Natura, Marcopolo, WEG, Votorantin, Ambev, podem indicar para o futuro o crescimento da influencia do Brasil no cenário economico mundial.

A nova Tele possui escala para se internacionalizar e pode ocupar posições na America Latina e mesmo fora dela.

Jana,

“Muito elucidantes” todas essas explicações. O risco da BrOi ser palco para novas disputas, dependendo do cenário político e dos interesses envolvidos, realmente continua.
No entanto, há um lado que é esse que o Paulo colocou acima, que me parece existir de fato, pois mesmo aos trancos e barrancos, o Governo está conseguindo imprimir um naquinho de desenvolvimento, ainda que totalmente insuficiente.
Mesmo com grandes aportes por parte do BNDES, me parece que a Oi tem tido bons resultados e, como vc disse, tanto Jereissati quanto Andrade são bons de negócio. Se formos analisar, sua gestão tem muito mais a dizer do que a do Opportunity na Brasil Telecom.
Tudo isso para dizer que a possibilidade dos dois empresários terem interesses em permanecer no comando também é uma hipótese.
Ou seja, tudo o que vc falou procede, tudo o que o Paulo falou procede.
O mercado está cheio de gestores e de grupos que se utilizam de capital alheio, os chamados investidores, cujas relações político-econômicas são sempre permeadas de detalhes tipicamente capitalistas e não republicanos.
Mas se não é um grupo que faz isso, é outro. Ganha quem se organiza, produz e se relaciona melhor.
Este é o nosso mundo. Cheio de caminhos curtos e falta de ética. But this is the real world.
E o seu papel é esse mesmo, informar, dizer qual é a sua opinião e possibilitar que nós leitores possamos chegar a “nossa” opinião.

Acho muito legal o jeito que vc escreve. Por mim, vc poderia continuar contando, independente de fugir do foco “telezona”. Porque a gente lê aqui no seu blog um pouco, lê no de outra pessoa mais um pouco, lê nos jornais, nas revistas, ouve de sicrano e de beltrano e vai se informando. Vale a pena.
Sem “pseudo-demagogias”, ideologias e interesses “mezzo-obscuros”, fica mais fácil né?

Grande abraço da sua leitora curiosa.
Mari

Parabéns pelo excelente texto (1 a 6). Uma referência que merece ser guardada.

JANAÍNA: Puxa, obrigada! Seja bem-vindo e volte sempre. Abs.

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