« Resposta a Luís Nassif | Página Principal | JANNONE: "Chefe da Abin em 2005 recebia dinheiro da Telecom Italia; há informações sobre Marcos Valério no inquérito de Milão" (parte 3) »
Aqui, a segunda parte da entrevista de Angelo Jannone, ex-chefe de Segurança para a América Latina da Telecom Italia, ao Arrastão.
ARRASTÃO - Como funcionava o esquema de segurança da Telecom Italia no Brasil? (Quem era quem na hierarquia? quem eram os colaboradores? Como eles eram pagos?)
JANNONE - O diretor de Segurança da Telecom Itália (a Pirelli é outro grupo) era Giuliano Tavaroli. Dele dependiam responsáveis para diferentes funções. No Brasil havia [antecessor de Jannone, Marco] Bonera, responsável pela TIM Brasil e pela Latino-América. Quando cheguei ao Brasil, eu era responsável so pela Latino-América, ou seja, nada. Para a TIM chegou um amigo de Tavaroli, [?] Gulinatti, vindo da Pirelli. Os consultores externos, como Bernardini, [o dono da empresa de inteligência Global Service e ex-agente da CIA Gianpaolo] Spinelli e Cipriani eram todos velhos amigos de Tavaroli e, no Brasil, de Bonera. Eles eram pagos pela Telecom Italia. Mas os subfornecedores no Brasil e na Argentina eram pagos por Spinelli e Bernardini por motivos de segurança. Não havia nenhum funcionário público.
ARRASTÃO - Quem eram os subfornecedores e o que eles forneciam? É possível que os subfornecedores tenham cooptado funcionários públicos sem o seu conhecimento?
JANNONE - Exceto pelo episódio suspeito de Eloy Lacerda, nossos fornecedores nunca cooptaram funcionários públicos. Certamente isso não se encontra nos papéis do processo italiano (a não ser nos depoimentos de Bernardini). Mas, por exemplo, João Álvaro [de Almeida], ex-funcionário da Polícia Federal: no computador da secretária de Bernardini, há todas as suas contas. apenas num caso ele [João Álvaro] pergunta se pode dar mil dólares a um "amigo" que o ajudou a escrever dois relatórios, especificando que se tratava de outro policial aposentado.
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ARRASTÃO - Havia corrupção envolvida?
JANNONE - O que Álvaro ganhou no total é tão pouco que a hipótese de corrupção não se justificaria. Repito que Álvaro me foi apresentado por um funcionário da embaixada italiana, doutor Perez, e não pelo chefe da Polícia Federal, que não conheci [como disse à Folha de S.Paulo Marco Bernardini]. A maioria dos fornecedores paga por Bernardini ficava na Argentina e eram consultores de Bonera. Esses fornecedores desempenhavam uma atividade de coleta e análise de informações. Mas eu não precisava de fichas ou de outro material ilícito. Entreguei ao Ministério Público [italiano] todas as mensagens que troquei com essas pessoas. Por exemplo, 226 mensagens de APS [Alexandre Paes dos Santos], nada de ilegal, só análise da situação, interpretações qualificadas dos fatos. O mesmo vale para [o advogado e sócio de Luís Demarco] Marcelo Elias (exceto pelo contrato com Bernardini para o pagamento dos advogados de Londres). Entreguei também os relatórios feitos por essas pessoas.
ARRASTÃO - Qual foi sua atuação no caso Kroll? Qual a sua opinião sobre Daniel Dantas? Pode contar como foi feito o CD entregue à Polícia Federal brasileira em 2004?
JANNONE - Assumi o cargo na Telecom Italia no início de 2004. Em abril daquele ano, Tavaroli e Bernardini me informaram que a Kroll investigava ilegalmente a Telecom Italia. A evidência dessa cronologia é um documento sobre a estrutura societária (lícita) da Kroll Italiana que eu pedi e recebi por fax no dia 26 de abril de 2004. Meu primeiro trabalho foi entrevistar as pessoas contratadas pela Kroll na Itália. Fui informado do Bonera que o tal [Tiago] Verdial, [que trabalhava para a Kroll no Brasil] tinha enviado um currículo à TIM Brasil, na esperança de ser contratado. Fui entrevistá-lo e, na conversa, gravada por mim, o Verdial disse que foi avisado por “uma fonte” que era alvo de investigações pela Polícia Federal brasileira e, por isso, foi colocado de lado pela Kroll. Falou também que quem coordenava o esquema de espionagem era [o dono do Opportunity, Daniel] Dantas e Carla Cico, mas sem que eu pedisse nada. Basta ver as transcrições para entender.
ARRASTÃO - O CD entregue pelo sr. à PF foi adulterado?
JANNONE - O CD, que nunca foi usado como prova contra Dantas ou a Kroll, era uma seleção do material extraído por hackers do Tiger Team do Ghioni [Fabio, vice presidente da Segurança e hacker conhecido como Sombra Divina). Eu não tinha conhecimento do trabalho dos hackers. O CD não foi manipulado, como muitos disseram. Não tenho nenhuma opinião em particular sobre Dantas, acredito que seja uma pessoa diabolicamente inteligente, mas como todas as pessoas que mentem, tem de se haver com os fatos. E eu tenho muitos fatos por todos. E os fatos dizem, tambem, que a investigação sobre a Kroll e sobre Dantas é uma investigação independente da Polícia Federal, seguramente independente em relação a mim e à Telecom Italia.
ARRASTÃO - Como a ação da Polícia Federal brasileira é percebida pelos procuradores e jornalistas italianos?
JANNONE - Na Itália tenta-se apresentar a idéia absurda segundo a qual a investigação tenha sido inventada por mim. Quando me refiro ao “circuito midiático-judiciário“, quero dizer exatamente isso: deixam entrar algumas hipóteses no processo italiano e, por mejo do processo italiano, na imprensa brasileira, que depois pubblica versões parciais o fornecem uma interpretação dos atos de uma investigação ainda em curso, sem possibilidade de ouvir a outra parte. É o que torna legítima a suspeita de um elo entre algumas testemunhas dessa investigação e aqueles, como Dantas, que têm interesse em difundir certas teorias. Mas os fatos são diferentes.
ARRASTÃO - O senhor pode explicar um pouco melhor?
JANNONE - Em fevereiro de 2007, esclareci tudo ao MP italiano. Entreguei muitos materiais, tudo o que tinha (15 mil mensagens trocadas por mim, gravações, o material da Kroll que estava comigo, todos os meus relatórios). A análise desses documentos e dos outros que eles possuíam permitiria que eles concluíssem que eu estava dizendo a verdade. Em vez disso, eles nunca examinaram ou comentaram esse material, nem o disponibilizaram aos juízes, violando as normas processuais italianas. Basearam tudo em testemunhas discutíveis, que freqüentemente se desmentiram sozinhas ou foram desmentidas pelos documentos da própria promotoria. Essas pessoas deram de mim e de meu papel uma dimensão falsa.
ARRASTÃO - Foi acusado injustamente?
JANNONE - Sim. Por exemplo, fui acusado de ser o mandante da espionagem por meio de hackers contra Dantas, Carla Cico, [o jornalista italiano Davide] Giacalone, etc. A perícia feita pelos técnicos da polícia, que eu li, e o Ministério Público [milanês] talvez não leu, diz que esse serviço de espionagem foi realizado entre setembro e outubro de 2003, quando eu ainda trabalhava na polícia e estava concluindo importantes investigações internacionais sobre o narcotráfico. Essa superficialidade e essa obstinação contra mim me inquietam.
ARRASTÃO - A Telecom Italia pagava lobistas e colaboradores para influenciar jornalistas brasileiros em favor da empresa na briga contra o Opportunity? Quem? Como eram feitos os pagamentos? O senhor sabe quem eram esses jornalistas?
JANNONE - Falo sobre aquilo que sei que é fato. As pessoas pagas por mim por meio de Bernardini não trabalhavam para influenciar a imprensa, mas para fornecer análises e informações. Cito um exemplo, de Alexandre Paes dos Santos:
“Da: Alexandre Paes dos Santos [alexandre@ipav.com.br]Inviato: lunedì 24 ottobre 2005 20.24
A: pdalpino@telecomitalia.com.br
Cc: ajannone@telecomitalia.com.br; Jannone Angelo; Drummond Filho Antonio
Carlos ; pedrorogerio@apis.com.br;
Oggetto: Ambiente na BrT
Priorità: Alta
Contr. completamento: Para sua informação
Stato contrassegno: Contrassegnato
Dirigentes e funcionários da BrT estão revoltados com a postura dos novos gestores (Citi e
Fundos).
A reclamação é grande e fundamentada, pois a nova direção contratou uma consultoria que
está avaliando o nível de honestidade dos executivos e funcionários da BrT, mediante a
aplicação de um questionário, conjugado com a analise um sofisticado software israelense e
uma entrevista individual.
Foi criado um sistema de tele-denuncias (0800) onde os funcionários, fornecedores, etc.,
podem fazer suas denuncias de corrupção, super-faturamento, sub-faturamento, e outras
irregularidades que possam ter prejudicados os resultados da empresa, bem como tentar
descobrir como a administração passada praticava suas irregularidades.
A grande dificuldade dos novos gestores é com referência a localização de diversos
documentos que simplesmente sumiram da empresa. Carla Cico é chamada pelos
administradores de Carla Katrina, pois destruiu todos os documentos de diversos
departamentos.
Outra dificuldade é conseguir bons executivos no mercado, pois existe grande incerteza por
parte dos executivos empregados em trocar o certo pelo duvidoso. A BrT está a venda e
ninguém pode precisar quando será realizada essa operação.”
JANNONE - Quando no meu depoimento falo dos jornalistas brasileiros, falo de todos. Por exemplo, Demarco tinha boas relações com você, Hugo Marques e tantos outros. Ele era uma boa fonte, uma memória histórica e um leader opinion muito ouvido, mas isso não quer dizer que corrompesse jornalistas.
ARRASTÃO - Sim, Demarco era minha fonte. Isso é público. Além de mim e de Hugo, quais os outros jornalistas que falavam com Demarco? O senhor se dava bem com Demarco ou não? Por quê?
JANNONE - Demarco tinha boas relações com toda a imprensa brasileira, exceto com [o editor da revista Dinheiro, Leonardo] Attuch e Mainardi. Mas eu não conheço suas relações específicas. Meu relacionamento com ele foi um tanto negativo e conflituoso. Ele continuava a prestar contas a Bonera e Tavaroli, e juntos falavam mal de mim. Brigávamos também por esse motivo. Além disso, eu não gostava de seu comportamento, o de uma pessoa a quem tudo era devido.
ARRASTÃO - O senhor fala que Giuliano Tavaroli, a mando da Pirelli, espionou ministros e o presidente brasileiro, a mando da Telecom Italia. Pode explicar melhor? Como é possível confirmar suas afirmações?
JANNONE - A documentação está no processo, em Milão. Há um relatório de Bernardini sobre a Continental Brazil, concorrente da Pirelli (com a Pirelli, eu não tive nada a ver), de novembro de 2005. Bernardini trabalhava na Romênia com [o ex-chefe de Segurança mundial da Telecom Italia, Giuliano] Tavaroli, na época CEO da Pirelli romena. Ele [Tavaroli] lhe pediu um relatório de inteligência industrial sobre a Continental [Pneus, concorrente da Pirelli], na Bahia. Nesse trabalho, Bernardini, no estilo “fofoqueiro” de Bernardini, relatou as conexões entre [o ex-ministro da Justiça Marcio Thomaz] Bastos e o presidente da Continental. O relatório, que também cita o presidente Lula, foi encontrado no computador da secretária de Bernardini e a nota foi paga pela Pirelli.
Comments
Essa história está melhor do que novela policial do titio Poe... A cada capítulo um novo lance.
[]s,
Roberto Takata
Posted by: Roberto Takata | April 22, 2008 02:14 AM
Concordo com vc Roberto.
Estou acompanhando como se fosse um livro de romance policial. Intrigas, romances suspeitos (Janaína e Gravata, hehehehe), orquestrações transnacionais, personagens estereotipados e agora, o melhor: Janaína nos revela que, na verdade, ela se chama LEITE. JANAÍNA LEITE.
Ainda bem que tem gente levando tudo na esportiva.
mari
JANAÍNA: Baby, eu NÃO conheço o Gravata pessoalmente e esse negócio só me rendeu namorado a menos, nunca a mais. Um dia eu conto. No mais, só rindo, né? Um beijo.
Posted by: Mariana | April 22, 2008 04:50 PM
Cara Janaina, estou vindo aqui ha dois dias, li no Nariz Gelado qeu vc iria fazer a casa cair.O CORONEL tb faz elogios a vc.Espero que vc esteja bem e que Deus te proteja, porque o que vc está fazendo é muito sério.Força e coragem sempre! Dora Jardim
Posted by: dora | April 22, 2008 06:49 PM