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April 24, 2008

Equação de quinto grau

Há algumas semanas, visitei o antigamente. Recebi uma carta manuscrita, selada, trazida pelo homem dos Correios. Veio repleta da benção das tias e de páginas soltas, resquício dos meus diários de menina, encontradas por elas em alguma gaveta ou caixa empoeiradas.

Minha capacidade mnemônica é imprevisível. Portanto, ver que lembrava da ocasião em que quase todos os escritos foram ao papel deixou-me alegre; os traços se apresentavam como há dois dias, não duas décadas.

Apenas uma das folhas sumira da mente. Justo aquela, corações flechados, mil e uma voltas de letra gorduchinha. Dei consciência: era documento, não bobagem, um registro de próprio punho da minha primeira paixão. Há quanto tempo eu não ouvia falar do mocinho brilhante e impetuoso que ignorou minha existência todos os dias da sua curta vida?

Eu o conheci pelo gosto em comum por Alexandre Dumas, autor cujas aventuras rivalizavam com as de seus personagens, todos companhias inseparáveis por aqueles dias. Foi amor à primeira vista. Infinita admiração, que me acompanha até hoje, pelas pessoas que brincam com os números, com o exato, com a falta de adjetivos repleta de propriedades. Diziam que “a loucura da matemática” o dominava. A mim, encanta.

Évariste de Galois, pai da álgebra moderna, autor da Teoria dos Grupos, republicano francês, passional e incompreendido, morreu assassinado em um duelo aos vinte anos, 1832. O motivo da luta atendia por Stéphanie-Félice Poterine du Motel, noiva de um exímio atirador. Toda a capacidade lógica de Galois foi insuficiente para blindá-lo diante do desejo.

Galois passou a noite anterior do duelo em branco, escrevendo freneticamente. Sabia que a morte era iminente e, desperdício!, ainda tinha muitas idéias a compartilhar. “Não tenho tempo, não tenho tempo!”, escreveu o insone, rascunho das equações e das cartas aos amigos entremeados por menções a “Stéphanie”, a “une femme”.

Não sei bem por que fiquei com vontade de contar a você esta história. Talvez a dignidade de herói capa-e-espada ainda me impressione. Ou, talvez, a reverência tenha permanecido até hoje, quase 200 anos depois do duelo, posto que vários problemas lançados por Galois continuam insolúveis.

Mas, provavelmente, a razão é lembrar a mim e a quem lê o Arrastão que, à luz do tempo, a opção pelo embate, tanto faz se movido pelo amor ou pelo ódio, parece um enorme desperdício. Fugir da briga, porém, é para os fracos. E as minhas paixões, pelo menos as verdadeiras e constantes, desde sempre andaram na mão contrária do medo. Vida sem intensidade, sem honra e sem propósito está longe de ser vida.

Postado por Janaína Leite às |



Comments

Janaina,
obrigada pelo belo texto, que me fez tambem voltar ao ontem. Alias, ao anteontem, ao trasanteontem ate. Lembrei cartas, pessoas, personagens, amores e, sobretudo ideais.
Sou leitora recente de seu blog, mas tenho gostado muito de sua prosa.
Um braco de muito longe,
T.

Sobre o seu texto, penso que o maior problema é a dissimulação que nunca foi caracteristica dos fortes. Pelo contrário é a capa do pseudo herói sorrateiro que habita as sombras.

JANAÍNA: Verdade, Eric, tem razão. E desde fevereiro eu me bato, às claras, aqui no blog, contra um desses. Obrigada pela visita e até mais.

Quisera eu ser o seu inimigo,
para prostar-me diante de ti,
vencido,

Pudera eu ser o seu algoz, para libertar-te, então,
satisfeito e sem qualquer dor!

JANAÍNA: Uau! Não precisa ser um ou outro, caro. Se continuar meu leitor e escrevendo essas coisas, já me deixará muito feliz. Abraços!

Lindo seu texto.

Oi Janaina, OK! mas não se deixe azedar por causa daquelas coisas. Não perca o apetite, não mude de cor... Mantenha-se fria diante dessas coisas que tendem a levar para o lado passional o que não deve ser levado para lá. Mantenha por lá apenas o que for belo e lhe fizer bem. A frieza nesses assuntos amargos vai ajudar a ser mais precisa, menos impulsiva.

XXXXX já está pelado em praça pública. A criançada já lhe aponta o dedo e dá risada. Mas cuide para que as pessoas que passem por aqui saibam que vão encontrar uma boa prosa - e que venham atrás disso. Há uma triste tendência, uma sede de bílis rondando por aí, sede de sangue, de justiçamento, que vai uniformizando blogs ... e de repente o Arrastao é arrastado para brigar numa arena em um epicentro aonde impera o golpe baixo, a sacanagem e a desinformação.

Não fuja da briga, mas escolha o terreno - não deixe que escolham para você. Não deixe nenhum esculhambador pautar seu blog. Mande bala na justiça.

JANAÍNA: Você tem toda a razão, Horacio. É bom ouvir suas palavras.

Aquele xxxx vai em algum momento ter que prestar contas pelas baboseiras que escreve. Pelo menos o blog dele serviu para que pudessemos conhecê-lo, em sua leviandade extremada, seus elocubrações econômico - astrológicas, sua lógica não cartesiana xiita... sem falar no péssimo gosto por poesia e aquelas rimas horrorosas que pintam por lá...

JANAÍNA: Eu realmente não queria tudo isso. Pelo menos trouxe pessoas bacanas, como você e tantos outros leitores gentis, à minha vida. Sou grata. Abs. e até mais!

Muito legal a história do Galois.

Mas eu ainda penso que ele deveria ter dado no pé, sobretudo por que o oponente revelou-se, além de corno, um canalha. Ele o abandonou sem socorro médico quando sua honra já estava lavada. Isso contraria as regras aristocráticas de combate.

O que faltou ao jovem brilhante (astúcia e pontaria) sobra na jornalista que todos admiramos cada vez mais.

Boa idéia: um duelo. Que tal :de um lado o tal Demarco e do outro o Daniel Valente. Resolvida a confusão dos dois, sem intermediários.

JANAÍNA: A idéia é interessante. Mas pode ter certeza que haveria polêmica entre quem fosse cobrir o embate... hahahaha Obrigada pela visita, Kênio. Abs!

pena que demorei pra encontrar o seu Blog. Adorei.

Publicado no blog de Reinaldo Azevedo, mas originalmente enviado ao blog de Janaína Leite.

Não me leve a mal. Mas o trecho de seu post que transcrevo abaixo é para figurar em todos os manuais do bem escrever. Assim, você e Reinaldo Azevedo acabam por nos viciar. Já imaginou se passarmos a cobrar de outros jornalistas textos como os de vocês? Sem favor, é de reconhecer: pela escrita de ambos, o jornalismo eleva-se ao plano de gênero literário.

"(...) À luz do tempo, a opção pelo embate, tanto faz se movido pelo amor ou pelo ódio, parece um enorme desperdício. Fugir da briga, porém, é para os fracos. E as minhas paixões, pelo menos as verdadeiras e constantes, desde sempre andaram na mão contrária do medo. Vida sem intensidade, sem honra e sem propósito está longe de ser vida."

3:29 PM

JANAÍNA: Puxa, que lindo! Muito obrigada, HK. Trouxe lágrimas aos meus olhos. Um noite linda para você. Abraços e até mais.

Janaina Balboa!

Olha, que legal! Apreciei pelo ótimo texto e por me lembrar do meu bacharelado (Matemática), em que vemos a bela teoria de Galois, muito bela mesmo. Como o seu texto. Nessas horas é bom ser matemático: apreciar certos tipos de beleza que são, infelizmente, restritos... PS: Descobri seu blog hoje e já me tornei leitor! Graça e Paz!!

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