"O que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro." Mia Couto, em "Terra Sonâmbula".
Que 2008 traga, na medida exta e na hora certa, tudo aquilo que você merece.
O ano está chegando ao fim, mas antes da virada ainda dá tempo de contar algumas novidades sobre as investigações que acontecem na Itália. Como vocês sabem, a Justiça de lá suspeita da existência de um esquema de corrupção e favorecimento envolvendo empresários europeus e políticos brasileiros.
A Procuradoria de Milão decidiu que as informações relativas ao Brasil serão mesmo investigadas em um inquérito separado do principal. A idéia é ganhar tempo para impedir os crimes de prescreverem.
Segundo duas fontes milanesas, os procuradores olham com atenção os gastos da Telecom Itália com advogados. Em especial, os efetuados no período da disputa pela Brasil Telecom, operadora na qual os italianos participavam até há pouco.
Nas mãos da Procura estão repasses, viagens e contatos da cúpula da Telecom Italia com a filial e com grandes escritórios de advocacia brasileiros. As dicas, conforme me disseram, estão chegando de executivos italianos que prestaram serviços à operadora italiana e hoje colaboram com o Ministério Público.
E os mexicanos? E os espanhóis? Apóiam as mudanças nas regras do setor de telecomunicações? Querem disputar a BrT? Estão contentes com a fatia de mercado brasileiro que já possuem? Vão ganhar algum prêmio de consolação?
Na avaliação dos promotores italianos, as instituições financeiras carregam parte da culpa pela falência fraudulenta da Parmalat. Os bancos sustentam inocência. Dizem que foram vítimas dos italianos e não estiveram envolvidos na roubalheira.
A Parmalat foi à lona em 2003, protagonista da maior falência da história européia. À época, a companhia representava o equivalente a 1,5% do PIB da Itália _ proporcionalmente mais que a Enron ou a WorldCom no PIB americano.
Oito bilhões de euros, de euros!, dos investidores foram calcinados num esquema de desvio gigantesco que abarcou vários países, inclusive o Brasil. Como de costume, as falcatruas dependeram de olhos fechados à base da corrupção.
Não adianta chorar pelo leite derramado, mas, se é para viver de bordões, não custa esperar que a justiça seja feita.
(Quem quiser saber mais e souber ler em inglês pode dar um pulo na EIR. A matéria é do começo de 2004 e dá uma idéia da complexidade dos problemas da Parmalat.)
"O acriticismo militante foi nefasto para a esquerda. Sem ser crítico, não se pode ir a nenhum lado, se reproduz o pior. Para mim, ser de esquerda não significa estar contra a direita, mas contra o poder, seja quem for que o exerça."
A afirmação é de Canek Sánchez Guevara, neto do Che. Li na coluna do Clóvis Rossi de ontem, mas configura argumento tão eficaz que vale menção a qualquer tempo.
Matéria d'O Estadão informa que deve acontecer logo a saída do GP da Telemar e a do Citi da Brasil Telecom.
Segundo a reportagem, o valor de mercado da BrT está em torno de R$ 15 bilhões. "A negociação, porém, esbarra em problemas complexos. O principal deles é a necessidade de se mudar a lei para que seja permitida a união das duas operadoras. Outra questão é como a Telemar levantaria R$ 15 bilhões para levar a Brasil Telecom", diz o texto.
Conforme a matéria, as coisas seriam mais simples no caso do afastamento do GP da Telemar. "Os demais sócios estariam acertando um resgate da participação na GP, que seria diluída e desapareceria."
Tenho algumas dúvidas sobre o que está sendo negociado. No primeiro caso, o da saída do Citi da BrT, pergunto: o modelo é fusão ou aquisição? E a put, contrato que prevê a venda conjunta do Citi e dos fundos, como fica? A transação seria fechada sob o escopo da lei atual ou o contrato faria menção à mudança na legislação?
No segundo caso, o do GP deixando a Telemar, questiono se haverá aumento de capital dos sócios que ficarem. Dependendo, alguns dos controladores da Telemar poderão cevar suas participações antes de comprar a BrT.
Em ambos os casos, gostaria de saber quem vai bancar a operação. O BNDES vai emprestar dinheiro? Os minoritários da Telemar aceitarão arcar com o endividamento da companhia?
Por fim, o pulo do gato: qual dos controladores ganhará mais com o modelo de negócio que sair do forno?
Ela era chamada “o espírito e a vontade de Gaia”, uma vez que personificava voz ainda mais antiga e mais sábia que a dos Olímpicos. Seu nome deriva da palavra grega tithemi _ Têmis, a deusa “daquilo que é correto”. Guardiã de todos os limites, protetora da Ordem e de todas as leis não necessariamente escritas, mas divinamente sancionadas.
Têmis, a prudente, cuidava para que boa e má sorte fossem distribuídas corretamente. Cabia a ela iniciar as deliberações em qualquer assembléia divina. A Natureza, porém, era onde sua força podia ser observada de maneira mais clara.
Dike (lei e justiça) e Nêmesis (justa punição) acompanhavam Têmis. Quando alguém desrespeitava a última, uma das duas outras surgia para efetuar a cobrança.
Claro, havia também a Sombra de Têmis: Ate, das longas tranças e dos pés delicados, responsável por cegar momentaneamente a razão, insuflar os egos e espalhar a insensatez. Quem ela tocava, humano ou divino, perdia o poder de discernimento e desconsiderava os costumes, bem como as conseqüência das próprias ações.
Um dia, após seus ardis terem nublado a consciência de Zeus, Ate foi expulsa do Olimpo. Passou a vagar somente entre os homens, espalhando as sementes da ruína. Ela nunca pisa o solo; salta de cabeça em cabeça. “Ate esmaga o que é fraco”, diziam os gregos.
Ao longo dos últimos anos, creio, deve ter sentido especial prazer em servir como algoz do jornalismo.
Meu desejo de Ano Novo, para todos nós, é o de que Têmis seja devidamente respeitada. Que Dike e Nêmesis possam se dedicar a outros acertos. E que a Sombra seja banida mais uma vez.
A lista das contas ganhou novas repercussões na Carta Capital e na Veja. Como disse antes, vale ler e comparar com todos os demais que tratam do assunto.
Na coluna Radar, aliás, a mesma informação que publiquei aqui há uma semana: as negociações em torno da Brasil Telecom estão à toda.
Muito dinheiro, muita briga, muita coisa mal explicada. Esse parece ser o resumo do processo de construção da usina de Santo Antônio, no Rio Madeira, que terá capacidade de gerar 3150 MW, equivalentes a um aumento de 2% à potência energética instalada no país.
O consórcio ganhador do leilão é formado por Furnas, Odebrecht, Andrade Gutierrez, Santander e Banif. Mas os fundos de pensão da Petrobras (Petros) e Caixa Econômica Federal (Funcef) querem embarcar no empreendimento.
Aqui vai uma mostra do que terão de enfrentar. São trechos da entrevista concedida por José Josivaldo Alves de Oliveira, do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) de Rondônia ao Instituto Humanitas Unisinos. Está publicada no Adital.
“Nós, do MAB, temos pouca força, diante do capital que está aí: o capital violento... Então, nós estamos fortalecendo a Via Campesina em nível nacional...
... precisamos articular com outros movimentos que estão se tornando movimentos da Via Campesina nacional, como o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra). Estamos reorganizando esses movimentos aqui em Rondônia e pretendemos fortalecer a luta de resistência ao lado deles...
... para nós, é fundamental a aliança com os movimentos bolivianos. A luta pelo Rio Madeira é internacional."
Caso a afirmação do Fabio Ghioni seja verdadeira, a Angra Partners é mais um nome em uma extensa lista de pessoas monitoradas, que tiveram seus computadores invadidos ou telefones grampeados a mando da Telecom Italia. Outras testemunhas já afirmaram que isso aconteceu com dois ministros em exercício, um banqueiro, uma executiva, adversários nos negócios e jornalistas.
Mesmo assim, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal não parecem com vontade de saber detalhes da arapongagem, pelo menos desta vez. Com a Kroll foi tudo um grande carnaval.
Talvez o motivo para o desinteresse seja que os italianos, conforme depoimentos prestados aos procuradores de Milão, tinham relações muito esquisitas com gente da Abin e da própria PF. Será que alguém por lá andou dando uma mãozinha na grampolândia?
Espero que a menção da Angra Partners (unha e carne com os fundos de pensão, e formada por pessoas que saíram da Andrade Gutierrez e do Citi) torne a Justiça brasileira mais sensível ao caso.
É pouco importante de qual lado da disputa o sujeito está. A polícia está aí para proteger o interesse dos cidadão. Não para eleger fulano ou beltrano como inimigo. A Angra e os demais merecem que o episódio seja investigado.
A notícia da Folha sobre a recomendação da Polícia Federal ao Ministério Público de indiciar o banqueiro Daniel Dantas, veiculada no último sábado, continua rendendo. Ontem foi a vez do italiano Corriere della Sera reproduzir o texto.
Outra novidade vinda da Bota é a entrevista concedida por Fabio Ghioni a uma rádio local. Ele é um dos hackers que invadiram computadores a mando da Telecom Italia. Segundo ele, a Telecom Italia ordenou a bisbilhotagem da Angra Partners, gestora dos recursos do Citigroup e dos fundos de pensão nos investimentos em telefonia.
“Existia o interesse da Telecom Italia em saber se essas pessoas eram de boa fé”, disse Ghioni, o “Sombra Divina”, conforme o site de notícias Dagospia.
Nem Marta, nem Alckmin. Os números da primeira pesquisa feita pelo Ibope sobre a intenção de votos para a próxima eleição da prefeitura de São Paulo chamaram minha atenção por outro ponto: a preferência do eleitorado por Paulo Maluf varia entre 11% e 17%.
“O ator Osmar Prado afirmou, antes de dom Luiz Cappio ser internado, que se colocaria à disposição para iniciar um jejum em apoio ao bispo.” Está na Folha.
Daqui a pouco dom Cappio vai abrir um spa.
Enquanto a anorexia-com-bandeira se espalha feito sarampo, ocupando o espaço dos jornais e o tempo do Legislativo, o povo ignora o que interessa: as manobras das empreiteiras para fazer adendos contratuais à obra.
O sertão pode virar água, mas antes disso certamente vai virar muito, muito dinheiro.
O Valor de hoje informa que a Gradiente pretende negociar suas dívidas. Quer um alongamento de cinco anos, mas tudo “depende da entrada de um investidor que capitalize a empresa em R$ 70 milhões e se torne dono de um terço da companhia”.
O responsável pelo plano de recuperação, diz o jornal, é o presidente da Gradiente, Nelson Bastos, o mesmo que cuidou da reestruturação da Parmalat. Antes passou pela Brasil Ferrovias e pelo conselho de administração da Varig. Tem ótimo trânsito entre os tucanos. O dono da Gradiente, Eugênio Staub, por sua vez, era muito bem visto no PT.
Devem encontrar um investidor mais rápido do que se imagina.
Depois da polêmica, a TV Brasil tirou a propaganda da Vale do ar.
Fará zero de diferença. Ao que me consta, não tem muito consumidor que, influenciado por um comercial, decide comprar paládio, ruteno ou irídio para presentear no Natal.
Leio no Consultor Jurídico que o gabinete do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, obteve o certificado ISO 9001 pela “implantação do sistema de gestão de qualidade e excelência de seus serviços“.
Lewandowski é aquele ministro flagrado pela repórter Vera Magalhães, da Folha, confidenciando ao telefone que a tendência do Supremo “era amaciar para Dirceu” no caso do mensalão.
Não é só para presidente da República que os brasileiros repudiam o terceiro mandato, pelo menos na cabeça dos dirigentes de fundos de pensão estatais. Petros e Funcef, segundo e terceiro no ranking nacional das entidades de previdência complementar, estão em pé de guerra com Fernando Pimentel, atual presidente da associação representativa do setor, a Abrapp.
Pimentel é ligado ao fundo de pensão da Telemar e quer o tri à frente da Abrapp. Desta vez, porém, ao contrário do que ocorreu nas duas eleições anteriores, não conta com o apoio do pessoal ligado ao PT.
Mais: os antigos aliados estão fulos da vida com a ousadia de Pimentel de chamar uma assembléia para mudar o estatuto da entidade. Hoje, a Petros disparou um e-mail para seus associados reclamando da iniciativa.
“A tentativa de se buscar um terceiro mandato e com isso a perpetuação no comando de nossa entidade não condiz com os princípios éticos e transparentes que são característicos do setor que representamos”, diz o texto, que classifica as alterações no estatuto de “impertinentes” e “sem propósito”.
Há algum tempo, durante a CPI dos Correios, se não me engano, Pimentel deu entrevistas dizendo que os tempos de ingerência política nos fundos estava circunscrito ao passado. Será que continua pensando o mesmo agora? E o pessoal que não quer o terceiro mandato na Abrapp, será que vai defender algo semelhante quando o beneficiado em questão for da patota e não um agregado, como Pimentel?
O tiroteio jornalístico descrito no post anterior decorre de uma série de matérias publicadas a partir de maio do ano passado. Naquele mês, a Veja noticiou que havia recebido, a mando de Daniel Dantas, um dossiê de supostas contas externas de gente importante do governo.
“A lista é fruto de um trabalho de investigação feito pelo americano Frank Holder, ex-diretor da agência internacional de espionagem Kroll. Ela apresenta uma série de números de contas, seus titulares, os nomes dos bancos e os saldos referentes ao primeiro trimestre de 2004”, dizia o texto.
Holder disse que “a lista fora obtida pela Kroll no curso da investigação de outro escândalo: o da quebra, no Brasil e na Itália, da companhia de laticínios Parmalat”. A revista falou com os procuradores italianos, mas ninguém avalizou a versão.
Será que a Kroll confirmaria? Acho que não. Iria contra seus interesses comerciais.
A Kroll ficou conhecida por aqui como a empresa contratada pela Brasil Telecom para fazer trabalhos de investigação _ alguns envolvendo a relação de governo com lobistas. Fora do Brasil, a verdade é que o maior cliente mundial da Kroll é o Citigroup, banco dos superlativos: maior instituição financeira do planeta, anunciante de respeito, com poder de fogo para financiamentos de vulto, responsável pela emissão de títulos governamentais e adviser de várias empresas brasileiras em negócios importantes.
No começo de 2004, período em que foram investigadas as tais contas, o Citi compartilhava com o Opportunity, de Daniel Dantas, o controle da Brasil Telecom. Supervisionou as atividades da Kroll também em parceria, de acordo com uma resma de documentos. Certamente o banco americano ficou sabendo antes da imprensa que o presidente da agência da Kroll, Jules Kroll, tinha contado a Dantas que sua empresa encontrara contas de políticos brasileiros abastecidas pelo esquema Parmalat.
Sempre me perguntei por que essa informação não foi usada de forma clara na época. Derrubar o governo com a ajuda da imprensa seria um ótimo negócio para Dantas e o Citi, que vinham sofrendo pressões cada vez maiores.
Uma hipótese é que ninguém conseguisse provar a existência das contas. Outra é que o Citi não estivesse com vontade de remexer no caso Parmalat, uma vez que foi acusado pela Justiça italiana de ajudar no desvio de dinheiro. Também passou pela minha cabeça que algumas dessas supostas contas fossem do Citi, ou que o dinheiro passasse por lá antes de chegar ao destino final.
A possibilidade aventada pela Veja foi outra: a de que Daniel Dantas, com ou sem certeza da veracidade do material, usaria a lista para fazer chantagem com o governo. Talvez por isso o nome dos bancos que abrigavam as contas tenha sido preservado pela revista. Um deles ficou público no livro do Diogo Mainardi: Delta Bank (o mesmo que apareceu na CPI do Banestado).
A Polícia Federal colocou por terra minhas hipóteses e também a da Veja. Enquadrou Dantas por calúnia. (Uma dúvida lógica e jurídica: se ninguém consegue provar que as contas são efetivamente falsas, como disse a Folha, é possível acusar o banqueiro do crime? Para mim, parece incoerente.) O Citi não aparece em nada, pelo menos no material que vazou.
O fato é que nessa briga das teles o Citi é, de longe, o menos fustigado pelas denúncias. Seu padrão ético está bem acima dos demais sócios. Ou tem uma zaga de primeira. Ou um caixa que mete medo em todo mundo.
Também é fato que, na Itália, procuradores e jornalistas consideram que a investigação da Parmalat conduzida pela Kroll ficou aquém do que poderia. E que as matérias da Itália, berço de toda essa bagunça, são tratadas sem o destaque merecido.
Quer saber? Muita complicação, ainda mais para uma repórter aposentada e integrante, como diriam alguns, da banda ingênua do jornalismo. Melhor deixar a briga por conta dos tubarões e das rêmoras. Eles, sim, sabem das coisas.
Como era de se esperar, a decisão da Polícia Federal de indiciar o dono do Opportunity, Daniel Dantas, como caluniador ateou fogo à mídia nacional. Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Reinaldo Azevedo discutem o assunto em seus blogs. Vale acompanhar.
A notícia do indiciamento também repercutiu na Itália. Hoje, o Il Sole 24 Ore e o Il Giornale reproduzem a matéria da Folha. Há três dias, eu disse que a decisão da PF poderia criar ressalvas quanto a Dantas bem na hora em que ele começa a ajudar o Ministério Público de Milão. Bingo.
Os procuradores milaneses buscam saber como atuou uma gigantesca rede de corrupção orquestrada por empresários italianos. Ao que tudo indica, os bambinos foram generosos com muita gente no Brasil, onde teriam operado durante os governos FHC e Lula.
“Puxa, Janaína, lá vem você com essa história de Itália outra vez?” É, eu sou chatinha mesmo.
Caros, aí vai o texto semanal do Luiz Guilherme Piva, economista e cientista político. Boa leitura.
"La vendetta
Tenho para mim que muito do que andou fazendo a Polícia Federal nos últimos anos contou com as informações fornecidas pela CPMF. Em algum momento das investigações que levaram à prisão ou à denúncia de empreiteiros, membros do Judiciário e do Parlamento, empresários, assessores e quejandos, o rastreamento de dados fiscais e financeiros deve ter ajudado. Ou ajudou no processo posterior.
As autuações da Receita Federal em empresas também podem ter usado a plataforma de cifrões da CPMF. Algumas bem grandes ocorreram nos últimos anos. Escritórios de advocacia e de planejamento tributário também sofreram. Além do mais, a CPMF produziu efeito-demonstração relevante.
Seja por medo das autuações, seja pelo simples fato de saber que a Receita tinha a tomografia fiscal e financeira de pessoas físicas e jurídicas, muitas delas começaram a andar pianinho. O aumento da arrecadação tributária nos últimos anos tem a ver com tal efeito. Claro, aumentam-se contribuições, a economia cresce, formalizam-se parcialmente relações de trabalho, há o Simples e o Refis. São fatores que explicam o aumento da arrecadação.
Mas a CPMF produziu também o que antes não era sistematizado: informação para quem fiscaliza e receio no caso de quem é fiscalizado. Afinal, não se aceita a tese de que é a certeza da impunidade incentiva o crime? Pois então: no campo fiscal essa certeza caiu muito.
Vai daí que a derrubada da emenda da CPMF tem outro componente. Há a dimensão política: forças que, por algumas razões, quiseram impor a perda política e orçamentária ao governo lograram vitória. Há a dimensão econômica: o governo vai ter que rever as contas públicas e seus impactos na atividade, nos juros e na dívida. Há a dimensão lógica: arrazoados sofistas terão que explicar por que 1) a CPMF sempre foi tida por inflacionária, mas a inflação nunca foi tão baixa como nos anos de sua vigência; e 2) agora quea CPMF será extinta, a inflação - pode apostar - vai se manter onde está.
Há ainda a dimensão siciliota: o caixa dois, a sonegação, os negócios sujos, a lavagem de dinheiro, as doações, os fundos perdidos, os incentivos culturais, as beneficências e as saudosas relações menos arriscadas entre poderes. Setor privado e algumas famiglias se vingaram. Mas não a frio, como se prescreve, e sim a ferro e fogo."
Não posso falar das teles, mas xeretar nos limiares está liberado.
Observação muito pertinente de um expert quando conversávamos sobre a decisão do governo federal de zerar a alíquota de importação dos equipamentos destinados à televisão digital: "o leite continua taxado. Diga se faz sentido."
Claro que não, mas nossa lógica não é igual à dos poderosos de plantão, nem parecida com a das redes de TV aberta, que fizeram tudo e mais um pouco para o Brasil adotar esse padrão japonês, esquisitinho e caro.
Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Até o Planalto sabe disso. Plim-plim.
Mas nem só de trancos e barrancos vivem os sócios das teles. Quando a argumentação é razoável, eles conversam. Exemplo é a idéia de unir a Brasil Telecom e a Telemar, hipótese que voltou a ganhar força na última semana.
Daqui a pouco alguém, de algum jornal ou revista, vai nos contar direitinho. Pode até explicar se haveria pulverização ou compra entre os acionistas.
Infelizmente não tenho maiores detalhes. Mesmo se tivesse, não poderia contar. Motivo: uma das duas empresas acima contratou a consultoria para quem eu presto serviços. Não quero causar, nem ter, problemas por conta do meu hábito extravagante de dizer o que penso e sei.
Até que a palestra contratada aconteça, sou um túmulo. :)
É muito batutinha acompanhar, longe das redações, um setor difícil como o de telecomunicações. Dias atrás, por exemplo, houve a maior correria em torno de (mais) uns grampos, cujo potencial de estrago era, supostamente, grande o bastante para atear fogo na faixa de terra que separa o Ceará de Minas.
Vários amigos me ligaram para perguntar se eu tinha idéia do que o boato escondia. Não tinha. Mas, depois de atender dezenas de ligações e ouvir muitos cacos de informação, pareceu razoável supor que alguém tinha interesse em fazer com que as fitas do BNDES voltassem à baila.
Para quem não se lembra do episódio, 48 fitas foram gravadas ilegalmente mostrando os bastidores da privatização das Telebrás, ocorrida em 1998. Só duas dessas fitas chegaram às páginas dos jornais e revistas, quantidade suficiente para causar a amputação de parte importante do governo FHC. Imaginem, crianças, o furacão que pode estar contido nas outras 46!
Eu iria adorar ler uma coisa dessas. Boa sorte para o rapazio candidato a receber o material.
Reportagem de hoje da Folha de S.Paulo informa que a Polícia Federal recomendou ao Ministério Público acusar o banqueiro Daniel Dantas como caluniador.
Segundo o jornal, os policiais consideram o dono do Opportunity responsável pela produção de falsas provas da existência de contas no exterior de um punhado de graúdos do PT, inclusive o presidente da República. Dantas teria sido ajudado na empreitada pelo executivo Frank Holder, ex-diretor da agência de investigações Kroll, também indiciado.
Os policiais não quebraram o sigilo das tais contas, sob a justificativa de que havia muitas dificuldades para tanto e que a quebra era irrelevante, diz a reportagem.
Dantas, por meio de seu advogado, voltou a negar seu envolvimento. Holder não foi encontrado.
Dois apartes. O primeiro: a Folha merece vivas. Por incrível que pareça, conseguiu furar a Veja, responsável pela divulgação das contas e pela acusação de que Daniel Dantas era o mentor da divulgação de informações falsas.
O segundo é que a decisão da PF vem a público no exato momento em que Dantas começou a colaborar com o Ministério Público de Milão. Os procuradores italianos investigam o pagamento de propinas, por conta da briga das teles, para políticos, lobistas, jornalistas, detetives e agentes da própria polícia federal.
O indiciamento também chega quando o banqueiro tenta apresentar evidências da venda de sentenças nas altas cortes do Judiciário brasileiro. O assunto tem lugar em Nova York, onde ele briga com o Citigroup. O juiz que cuida do processo, porém, disse que, por enquanto, não quer saber do assunto.
Capaz de não querer saber nunca, se me permitem meter o bedelho. O juiz em questão está acostumado a apreciar casos grandes, como o da Parmalat, e já mostrou, nas decisões anteriores, que futucar mazelas de latinos não é com ele. O Citi, por exemplo, ganhou o processo da Parmalat.
(A pouca importância atribuída pelo juiz aos esquemas tupiniquins pode ser apenas impressão minha, admito. Ele não piscou ao determinar às partes a apresentação de outros documentos. Uma vez o Diogo Mainardi, da Veja, disse haver papéis que descrevem conversas entre o presidente da República e os manda-chuvas do Citi. Vai saber...)
Mas não é Nova York de onde virão as próximas emoções na barafunda das teles. É da Itália. A Folha mandou um repórter para Milão. Podem esperar novidades para os próximos dias. Pule de dez como Dantas vai ter novas chateações pela frente.
De qualquer forma, é interessante notar como as histórias envolvendo o banqueiro, talvez o empresário mais polêmico do país, aparecem em ondas que, de uma hora pra outra, ganham ou diminuem de proporção.
Tudo indica que a atual é grande. Esse negócio de caluniador vai dificultar que as pessoas acreditem em qualquer coisa que Daniel Dantas fale _ mesmo as verdadeiras.
Aí vai o texto semanal de Luiz Guilherme Piva, economista e cientista político.
"Igrejas e empresas
Cabeça vazia é a morada dos pastores. E dos mestres da gestão empresarial. Não é por acaso que cada vez mais igrejas e empresas se assemelham. As igrejas modernas têm organograma, clientes, produtos, marketing profissional, finanças sofisticadas e conselhos de gestão. Ninguém estranhará se fizerem IPO em breve.
Já as empresas adotam a fé e a disciplina. Definem sua missão, sua visão, suas fraquezas e forças, suas ameaças e oportunidades como em um texto sagrado. Escolhem seus líderes carismáticos com metas e séquitos - cordeiros a dar seu dízimo sob a forma de remuneração baixa e variável. Ninguém estranhará se fizerem canonizações em breve.
Os dois processos, no Brasil, são tributários e resultam dos quase trinta anos sem crescimento econômico. No caso da religião, a estagnação ajudou a amealhar fiéis. Muitos pobres, subempregados e desempregados (mas não só), sem esperança de obter mobilidade social, foram tangidos nas periferias (mas não só) pela promessa de, em troca de vida ascética e do dízimo, poderem melhorar e, quem sabe, chegar à riqueza sem culpa. Para isso, merecem templos bonitos, bispos de gravata e gel, remissões por teleconferências.
No caso da vida empresarial, o problema não é a carência, nem a falta de perspectiva, muito menos a angústia culpada dos donos. Muito longe disso. O que a estagnação fez foi causar a genuflexão nas empresas, obrigando-as a olhar para dentro, a se estruturar, se ajustar, planejar. O crescimento tem o efeito anestésico. Na corrida para frente e para o alto, o olhar e o esforço de todos na empresa voltam-se ao mercado, aos fornecedores, aos competidores, aos consumidores.
Ninguém se atreve a propor reuniões de planejamento estratégico, balanced scorecard, janelas de oportunidade, ameaças e desafios sem o risco de ser posto para correr. A estagnação abriu campo à primazia do administrador, do MBA em gestão, da consultoria estratégica, do desempenho por metas, dos discursos e crenças solenes, das reuniões com diretrizes esquadrinhadas em tarjetas coloridas, dos gurus do power point, das sessões de relaxamento e meditação, do psicologismo da supply chain, do zen budismo do almoxarifado, do tao da pessoa jurídica.
Como nas igrejas, às vezes todos cantam juntos nas reuniões de avaliação, correm descalços para abraçar uns pufes coloridos. Não é raro o gerente de marketing entoar mantras de olhos fechados. Ou o supervisor de qualidade devida ter um frenesi.
Você acha que educação e crescimento econômico acabariam com as cabeçasvazias, a estagnação e toda essa picaretagem, não é? Você é um otimista."
Deu na Folha de ontem: as operadoras brasileiras, serelepes, cobram centenas de vezes mais caro que as teles de outros países pelo serviço de internet rápida.
"Na Itália, a Tiscali cobra o equivalente a R$ 4,32 ao mês pelo serviço de 1 Mbps. Na França, a Orange cobra R$ 5,02.Nos Estados Unidos, o preço da Time Warner é R$ 12,75. Já os usuários japoneses podem adquirir a banda larga de 1 Mbps do Yahoo! por R$ 1,81".
Por aqui, lógico, a história é outra. "Segundo a associação, a Net cobrava em São Paulo, em julho, R$ 39,95 por pacote de 1 Mbps e a Telefônica, até R$ 159,80. A Brasil Telecom cobrava até R$ 239,90. Manaus registrou o valor mais alto, pela Oi: R$ 716,50 -a conexão é feita por satélite e, por isso, mais cara -o que é equivalente a 395 vezes o valor cobrado no Japão, segundo calcula a TelComp."
Entendeu agora por que, entre outros motivos, o setor é palco das maiores disputas do raquítico capitalismo brasileiro?
Custou caro para a Telecom Italia toda a lambança feita no Brasil.
Em julho deste ano, os italianos anunciaram a saída da Brasil Telecom. Venderam 19,4% do capital votante da operadora, por US$ 515 milhões, para os fundos de pensão.
Significa que a Telecom Italia cobrou R$ 36 pelo lote de mil ações ordinárias, que têm direito a voto. O preço de mercado é R$ 46. Quem diz não sou eu, mas o Morgan Stanley, em relatório divulgado hoje para os investidores.
Os italianos brigaram por anos a fio, usando todas as armas possíveis, pela participação na Brasil Telecom. A venda súbita não combina com o histórico.
Eu tenho dois palpites para explicar a mudança de postura. O primeiro é que a Telecom Italia quis deixar a BrT por medo que novos estilhaços, resultantes da guerra com os sócios, atingissem ainda mais sua imagem.
O segundo é que a rendição italiana caiu bem junto ao governo, alter ego dos fundos de pensão. Não me surpreenderia se ela tivesse influenciado a posterior decisão da Anatel de permitir que a espanhola Telefónica comprasse a Telecom Italia.
Os fundos, por sua vez, assinaram um excelente negócio. Estão de parabéns.
Leio nos jornais que a TV Brasil divulga o anúncio em que Companhia Vale do Rio Doce, privatizada em 1997, comunica a alteração de sua marca para “Vale”.
A veiculação é proibida, pois a televisão é uma empresa pública e, de acordo com a medida provisória que a criou, não pode servir como veículo de publicidade para empresas privadas.
Segundo os jornais, a presidente da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Tereza Cruvinel, o anúncio pode ser tratado como de "utilidade pública" ou mesmo de "responsabilidade social". A Vale afirmou que a nova publicidade é um projeto de "sustentabilidade socioambiental".
Pode até ser, mas eu acredito que ninguém pagaria tão caro _ R$ 50 milhões em quatro anos _ para transformar “Vale do Rio Doce” em “Vale”. Nem mesmo a Previ, fundo de pensão do Banco do Brasil e maior acionista da mineradora.
A dinheirama é para irrigar o caixa dos veículos de comunicação, claro. E deve ter gente fula da vida ao ver que até a TV Pública, que não pode, está dividindo a bolada.
Dê um pulo no UOL Educação. A redação informa que “estudo divulgado nesta terça-feira (4) pelo Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) deixa o Brasil na pior colocação entre os países sul-americanos e numa das últimas posições do mundo em conhecimentos de matemática”.
Siga até o fim do texto e leia as outras chamadas:
O jornal La Reppubblica trouxe, no domingo, reportagem sobre os consultores de ouro da Telecom Italia. Esses homens eram pagos a partir de um fundo chamado “fundo do presidente” _ um centro de custos sob a responsabilidade direta do vértice da companhia.
Um desses consultores era o megainvestidor Naji Nahas, que atuava como negociador da Telecom Italia no Brasil. Foi investido de poderes _ inclusive por escrito _ pelo então presidente mundial da operadora, Marco Tronchetti Provera.
Nahas, segundo o La Repubblica, teria recebido 25,4 milhões de euros para tentar a aproximação da Telecom Itália com políticos brasileiros e com o dono do Opportunity, Daniel Dantas.
O que o La Reppubblica não contou, nem qualquer outro jornal, é que Nahas também negociava em nome de Provera com o Citigroup e com os fundos de pensão. Podem perguntar.
Pessoal, deixo vocês com mais um texto de Luiz Guilherme Piva. Boa leitura.
"O mercado lucrativo de 'ar'
O finado Sérgio Motta disse que a privatização das teles era um excelente negócio para o governo porque se tratava de "vender o ar". Por R$ 22bilhões! Quase 64% acima do preço mínimo estabelecido para o leilão!
Talvez ironizasse tanto os que combatiam a privatização quanto os compradores. Mas hoje imagino que dificilmente deve haver algo tão lucrativo quanto o "ar", a julgar pela intensidade dos conflitos e pelo montante de dinheiro usado em investimentos, lobbies, campanhas, anúncios, viagens, advogados, espionagens, patrocínios, shows, consultorias, matérias pagas (às vezes com a devida advertência) e notas de desmentido e de esclarecimento. É muita cobiça, muita despesa. A coisa deve dar um bom lucro.
Normalmente esse tipo de disputa por território e clientela dura pouco nos mercados legais; vai até o ponto em que fica inviável para alguma das partes continuar a bancar o jogo. Nos ilegais, ao contrário, a guerra vai longe, e só pára quando da destruição da inimigo, porque vale a pena dominar oterritório. Por isso usam-se todos os meios para se atingir o objetivo. Pensem nas drogas, cassinos, bingos, jogo do bicho: a margem de lucro, a escala da demanda e a fidelidade do cliente (trata-se de vício, afinal) justificam a luta pelo mercado. Mas, e o "ar", ou melhor, a telefonia?
Pensando bem, talvez seja o mesmo caso. Os equipamentos e tecnologias atuais barateiam muito o custo de produção das teles. É possível gerar e transmitirdados com custos pequenos e decrescentes, dadas a rede instalada, as formas de emissão e captação e o desprezo pelas áreas cujo valor do investimento precisa ser maior _ embora a universalização devesse ser um compromisso das companhias.
A escala domercado brasileira é imensa e crescente em termos de elevação de renda média e ingresso de pessoas no mercado de consumo. O cliente é quase um dependente - não deve ser possível viver sem ringtones, SMS e Tetris. As tarifas e os planos de fidelidade são caros e a execução do inadimplente é sumária. Por fim, o mercado é legal! Difícil imaginar negócio melhor."
A arapongagem deve ser um negócio muito rentável, especialmente para policiais federais que se aposentam e querem ganhar um dinheirinho extra. Há uma turminha da pesada em Brasília e Goiânia trabalhando nessas condições.
A Veja toca no assunto, ao relatar que a Polícia do Senado contratou detetives para investigar Marconi Perillo, senador adversário do então presidente da Casa, Renan Calheiros.
Impressionante a sucessão de erros de Renan, aliás. Não surpreende se estiver esperando com "um certo torpor", como diria a jornalista Mônica Veloso, a votação de terça-feira.