Mia Couto, em “Terra Sonâmbula”.
Que 2008 traga, na medida exta e na hora certa, tudo aquilo que você merece.
Que 2008 traga, na medida exta e na hora certa, tudo aquilo que você merece.
O ano está chegando ao fim, mas antes da virada ainda dá tempo de contar algumas novidades sobre as investigações que acontecem na Itália. Como vocês sabem, a Justiça de lá suspeita da existência de um esquema de corrupção e favorecimento envolvendo empresários europeus e políticos brasileiros.
A Procuradoria de Milão decidiu que as informações relativas ao Brasil serão mesmo investigadas em um inquérito separado do principal. A idéia é ganhar tempo para impedir os crimes de prescreverem.
Segundo duas fontes milanesas, os procuradores olham com atenção os gastos da Telecom Itália com advogados. Em especial, os efetuados no período da disputa pela Brasil Telecom, operadora na qual os italianos participavam até há pouco.
Nas mãos da Procura estão repasses, viagens e contatos da cúpula da Telecom Italia com a filial e com grandes escritórios de advocacia brasileiros. As dicas, conforme me disseram, estão chegando de executivos italianos que prestaram serviços à operadora italiana e hoje colaboram com o Ministério Público.
E os mexicanos? E os espanhóis? Apóiam as mudanças nas regras do setor de telecomunicações? Querem disputar a BrT? Estão contentes com a fatia de mercado brasileiro que já possuem? Vão ganhar algum prêmio de consolação?
Olhem que coisa bacana a linha do tempo do caso Parmalat. Parece que janeiro vai ser um mês animado para quem acompanha o assunto.
Segundo a linha, um juiz italiano requisitou que Bank of America, Citigroup, Morgan Stanley, Deutsche Bank e UBS AG compareçam a julgamento no mês que está chegando.
Na avaliação dos promotores italianos, as instituições financeiras carregam parte da culpa pela falência fraudulenta da Parmalat. Os bancos sustentam inocência. Dizem que foram vítimas dos italianos e não estiveram envolvidos na roubalheira.
A Parmalat foi à lona em 2003, protagonista da maior falência da história européia. À época, a companhia representava o equivalente a 1,5% do PIB da Itália _ proporcionalmente mais que a Enron ou a WorldCom no PIB americano.
Oito bilhões de euros, de euros!, dos investidores foram calcinados num esquema de desvio gigantesco que abarcou vários países, inclusive o Brasil. Como de costume, as falcatruas dependeram de olhos fechados à base da corrupção.
Não adianta chorar pelo leite derramado, mas, se é para viver de bordões, não custa esperar que a justiça seja feita.
(Quem quiser saber mais e souber ler em inglês pode dar um pulo na EIR. A matéria é do começo de 2004 e dá uma idéia da complexidade dos problemas da Parmalat.)
“O acriticismo militante foi nefasto para a esquerda. Sem ser crítico, não se pode ir a nenhum lado, se reproduz o pior. Para mim, ser de esquerda não significa estar contra a direita, mas contra o poder, seja quem for que o exerça.”
A afirmação é de Canek Sánchez Guevara, neto do Che. Li na coluna do Clóvis Rossi de ontem, mas configura argumento tão eficaz que vale menção a qualquer tempo.
Matéria d’O Estadão informa que deve acontecer logo a saída do GP da Telemar e a do Citi da Brasil Telecom.
Segundo a reportagem, o valor de mercado da BrT está em torno de R$ 15 bilhões. “A negociação, porém, esbarra em problemas complexos. O principal deles é a necessidade de se mudar a lei para que seja permitida a união das duas operadoras. Outra questão é como a Telemar levantaria R$ 15 bilhões para levar a Brasil Telecom”, diz o texto.
Conforme a matéria, as coisas seriam mais simples no caso do afastamento do GP da Telemar. “Os demais sócios estariam acertando um resgate da participação na GP, que seria diluída e desapareceria.”
Tenho algumas dúvidas sobre o que está sendo negociado. No primeiro caso, o da saída do Citi da BrT, pergunto: o modelo é fusão ou aquisição? E a put, contrato que prevê a venda conjunta do Citi e dos fundos, como fica? A transação seria fechada sob o escopo da lei atual ou o contrato faria menção à mudança na legislação?
No segundo caso, o do GP deixando a Telemar, questiono se haverá aumento de capital dos sócios que ficarem. Dependendo, alguns dos controladores da Telemar poderão cevar suas participações antes de comprar a BrT.
Em ambos os casos, gostaria de saber quem vai bancar a operação. O BNDES vai emprestar dinheiro? Os minoritários da Telemar aceitarão arcar com o endividamento da companhia?
Por fim, o pulo do gato: qual dos controladores ganhará mais com o modelo de negócio que sair do forno?
Fiquemos no aguardo.
Têmis, a prudente, cuidava para que boa e má sorte fossem distribuídas corretamente. Cabia a ela iniciar as deliberações em qualquer assembléia divina. A Natureza, porém, era onde sua força podia ser observada de maneira mais clara.
Dike (lei e justiça) e Nêmesis (justa punição) acompanhavam Têmis. Quando alguém desrespeitava a última, uma das duas outras surgia para efetuar a cobrança.
Claro, havia também a Sombra de Têmis: Ate, das longas tranças e dos pés delicados, responsável por cegar momentaneamente a razão, insuflar os egos e espalhar a insensatez. Quem ela tocava, humano ou divino, perdia o poder de discernimento e desconsiderava os costumes, bem como as conseqüência das próprias ações.
Um dia, após seus ardis terem nublado a consciência de Zeus, Ate foi expulsa do Olimpo. Passou a vagar somente entre os homens, espalhando as sementes da ruína. Ela nunca pisa o solo; salta de cabeça em cabeça. “Ate esmaga o que é fraco”, diziam os gregos.
Meu desejo de Ano Novo, para todos nós, é o de que Têmis seja devidamente respeitada. Que Dike e Nêmesis possam se dedicar a outros acertos. E que a Sombra seja banida mais uma vez.
A lista das contas ganhou novas repercussões na Carta Capital e na Veja. Como disse antes, vale ler e comparar com todos os demais que tratam do assunto.
Na coluna Radar, aliás, a mesma informação que publiquei aqui há uma semana: as negociações em torno da Brasil Telecom estão à toda.