Prezados, hoje o dia está corrido. Deixo vocês com Luiz Guilherme Piva, convidado a colaborar com o Arrastão. Eu o conheci quando ele trabalhava na Trevisan. Piva é economista, doutor em Ciência Política e articulista da Gazeta Mercantil.
“Telecomunicações: memórias de um segmento sem malícia
Nossa história política recente terá de ser estudada com auxílio de especialistas em telecomunicações. A privatização e seus desdobramentos têm influenciado – lembra um romance em folhetim – campos em disputa, crises, traições, fugas e mistérios num grau talvez maior do que o que conhecemos ou suspeitamos.
São quase dez anos já, a serem comemorados em 2008, junto com os duzentos anos da chegada do Rei ao Brasil.
Em 1998, éramos uma República havia quase cem anos. Mas era o tempo do príncipe e do Real. A corte tinha interesses imensos no setor e praticamente todos os nobres se envolveram na disputa.
O processo começara, normativamente, em 1995, com o fim do monopólio. Em 1997 e no começo de 1998, a Lei Geral de Telecomunicações e o Plano Geral de Outorgas definiram o processo de privatizações. Que era necessário e importante.
Economicamente, haveria um enorme reforço ao caixa do Tesouro (foram R$ 22bilhões) – combalido com os déficits gerados pelo câmbio congelado por um grão-duque. O sistema precisava se expandir e modernizar: depois do crescimento dos anos setenta, a crise impedira o Estado de investir na década seguinte, produzindo um atraso ridículo e caro. E simbolicamente seria um marco de desregulamentação e modernidade. Quase uma abertura dos portos.
Na conformação dos consórcios, a mão do Estado – ou do trono – se fez sentir. Houve pressão para que os maiores fundos de pensão se aliassem a um dos grupos, feita por gente de sangue azul, ligada ao que viria ser o candidato a herdeiro nas eleições de 2002. O outro nobre pretendente, porém, tinha um irmão no consórcio que seria prejudicado. O imbróglio culminou coma crise dos grampos do BNDES e com demissões na alta cúpula.
Vida que segue, os consórcios se embolaram, se odiaram e se amaram como nos romances. Em 2002 o herdeiro perdeu o trono para um plebeu. Os fundos de pensão mudaram de rumo. O embaralhamento fizera de um gestor – o mesmo grupo que a fidalguia quisera ajudar – o sócio mais importante de uma das companhias em que os fundos e aquele irmão eram sócios.
A briga agora era de foice. Mas no escuro. O gestor se aliou a parte do governo plebeu. Os fundos a outra parte. Houve dinheiro grosso, em parcelas mensais – é o que se diz. Mas o caldo entornou, fez-se luz na camarilha, espirrou gente para todo lado e quase que o governo foi junto.
Hoje a telefonia é moderna, expandida, rápida. A privatização, nesse aspecto, é um sucesso. Mas é cara. Economicamente, foi boa para o Tesouro, embora não a panacéia que se apregoara. E simbolicamente acabou maculada gravemente pelo enredo político derivado: muita gente acha que tudo tinha beneficiários escolhidos. Assim como a abertura dos portos.
E não pensem que a briga acabou. Diferentemente dos romances, é difícil haver final feliz.”