Arquivo de novembro de 2007

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Antes tarde…

Desculpem o sumiço. Muito trabalho. Mas vocês logo terão notícias quentes _ segundo alguns colegas, jornais e revista semanais virão com informações interessantes sobre as teles no fim de semana.

Até que eles cheguem às bancas, porém, as novidades estão com a revista Panorama, da Itália. Ela traz uma grande entrevista com Fabio Ghioni, hacker contratado pela Telecom Italia e uma das várias pessoas presas por acusação de espionagem ilegal.

“Colocar um computador nas mãos dele é como dar um revólver a um serial killer”, dizem os procuradores milaneses sobre Ghioni, que adotava no ciberespaço o codinome “Sombra Divina”, segundo a Panorama.

Na entrevista, Ghioni admite ter roubado segredos de adversários da Telecom, inclusive da Kroll, mas garante que não adulterou os dados. De acordo com o hacker, tudo o que o grupo de especialistas em informática da Telecom Italia fazia era ordenado pelo “vértice” da empresa. Quem era esse vértice? Sombra Divina não disse.

Boa noite para vocês.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Adendo

Aliás, leitor, fique de olho também na imprensa italiana: Corriere della Sera, Dagospia, Il Sole 24 Ore, L’Espresso, Libero, Panorama, La Repubblica, La Stampa.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Briga na imprensa

Ontem me perguntaram o motivo pelo qual os jornalistas brasileiros correm do caso Telecom Italia. Além do pouco interesse do andar de cima na publicação e das dificuldades para juntar as informações, acredito que a maior parte dos companheiros passa ao largo do tema porque é grande a chance de ser rotulado como parcial.

Em sete anos de brigas, muitas reputações foram serrilhadas. A estratégia de desqualificação foi adotada por lobistas de todos os lados da disputa e, com o tempo, incorporada pela própria classe jornalística. Muitas pessoas que mal se conhecem falam barbaridades, inclusive de cunho pessoal, umas das outras.

Acho isso triste, mas é do jogo. O saldo da briga na imprensa, para o leitor, é muito positivo. Defesas ideológicas, engajamento político, objetivos financeiros e simpatias pessoais, antes ocultos, ficaram evidentes. Por isso o caso Telecom é tão importante. Ele é um instrumento para mapear os interesses de quem exerce poder: no governo, nos fundos de pensão, no setor privado, no Congresso e na imprensa.

Claro, existe um efeito perverso da disputa. Ela faz com que reportagens importantes sejam desqualificadas, inclusive (e principalmente) pelos próprios colegas. Pautas bacanas são assassinadas, fontes deixam de ser procuradas porque falam com beltrano ou sicrano, furos são contabilizados com muxoxos. Mas, como já disse, é do jogo. Ainda acho o saldo positivo.

Meu interlocutor me perguntou ontem como é possível, no meio desse cozido, saber em quem acreditar. Queria ter uma resposta melhor, menos óbvia, mas o único conselho que me ocorreu é o que dou agora: confie mais em você mesmo do que nos jornalistas. Não compre nenhuma versão sem antes compará-la. Pesquise o que já foi escrito. Só assim é possível entender qual é o fio que costura a coerência de quem está escrevendo. Faça isso comigo. Faça isso com todos.

A maioria dos leitores não quer. Prefere acreditar que a capacidade do jornalista para montar o quebra-cabeças é inquestionável. Paga o preço da desinformação, é manipulado sem dó.

Por isso, busque elementos para formar a sua opinião: Carta Capital, Folha de S.Paulo, IstoÉ, O Estado de S.Paulo, Veja. Blog do Mino Carta. Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim. Consultor Jurídico, de Márcio Chaer. Teletime, de Rubens Glasberg e Samuel Possebon. Os textos do Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro. E, por fim, o que escrevem Marcio Aith, Reinaldo Azevedo e o Diogo Mainardi, da Veja.

Ah, e antes que alguém me acuse de ficar em cima do muro, informo que gosto muito do trabalho do Diogo Mainardi. Ele desperta a ira de muita gente, principalmente no meio jornalístico. Mas acompanho o caso da Itália de perto e vejo que tem se provado mais investigativo que a maioria dos repórteres. E com uma coragem de lançar polêmica que não é para qualquer um. Exemplo é o programa que colocou no ar hoje.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Tavaroli

Conversei há pouco com Giuliano Tavaroli, o ex-chefe mundial da Segurança da Telecom Italia. Ele disse que o Ministério Público poderá conseguir todas as declarações que fez sobre a atuação da operadora européia no Brasil. Basta pedir à Justiça italiana.

Tavaroli também deixou claro que gosta muito do Brasil. Fala um português razoável, inclusive.

Agora eu tenho de correr. Depois volto com mais.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Futuro

Quatro dias. Foi esse o tempo necessário para esgotar o estoque do Kindle, o novo produto da Amazon. É um aparelho muito bacana mesmo. Segundo uma fonte que entende horrores de tecnologia e de negócios, a semente para uma revolução na mídia. Concordo.

O Kindle permite a leitura de livros eletrônicos, jornais e blogs. Tem acesso à internet sem fio e é, aparentemente, muito fácil de usar e carregar. A capacidade de armazenamento é fantástica _ até 200 livros _ e a bateria dura um tempão.

Com o Kindle, as pessoas podem comprar os livros da Amazon por US$ 9,99 (equivalentes a cerca de R$ 20). Também pagam mais barato pelo jornal The New York Times, um dos mais importantes do mundo. Os usuários, aliás, não desembolsam nada para acessar a internet. A Amazon cobre o custo.

Ok, o Kindle é caro (US$ 399, mais ou menos R$ 800). A tela não tem cores, a conectividade é limitada, não abriga arquivos de imagem ou áudio, e a tecnologia só é compatível com a dos Estados Unidos. Mas alguém aí duvida que os aperfeiçoamentos virão rapidinho?

A mídia tradicional é um negócio pouco rentável. O papel é caro, o maquinário de impressão também, a distribuição nem se fala. Em contrapartida, os número de assinantes só faz cair. Não é difícil entender os motivos pelos quais os veículos de comunicação tornaram-se reféns dos anunciantes e dos bancos.

A invenção de um aparelho como o Kindle subverte as regras do jogo. Os jornalistas ganharão a oportunidade de vender suas matérias diretamente ao leitor. Poderão aliar dois sonhos: ganhar mais e ter liberdade total para escrever. Cada um venderá sua própria credibilidade. Imaginaram?

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Medo do “Chuck”?

Vejo nos jornais que o Citigroup recebeu US$ 7,5 bilhões de um fundo de Abu Dhabi (Emirados Árabes). É uma montanha de dinheiro, mas não cobre o tombo que o banco levou ao investir no mercado imobiliário de alto risco. O prejuízo causou a renúncia do presidente mundial do banco, Charles “Chuck” Prince.

O Citi é o maior banco do mundo e cresceu uma barbaridade no Brasil ao longo dos últimos anos. Tem milhões de dólares investidos em infra-estrutura por aqui. Não vi, entretanto, na mídia tupiniquim uma matéria explicando qual a repercussão para o Brasil da saída de Prince.

Foi dele, por exemplo, o aval para o acordo fechado em 2005 pelos fundos de pensão e o Citigroup. O documento determina que os primeiros comprem a parte do Citi na Brasil Telecom. Na época em que foi fechado, as entidades de previdência se comprometeram a pagar três vezes o preço de mercado pelas ações do banco.

Esse acordo tem de ser exercido até o fim do ano. Ou seja, os próximos dias são decisivos. Sob nova direção, alguma coisa muda? Quanto vale o acordo atualmente?
Há algum tempo, os fundos mostraram-se dispostos a pagar integralmente o valor combinado _ apesar de um possível desgaste de imagem para eles próprios e para o governo. O Citigroup, por sua vez, nos bastidores, deu sinais de disposição para mudar as condições do pacto e, assim, facilitar a vida dos fundos _ apesar do prejuízo que daria a seus acionistas se abrisse mão de receber tudo a que tem direito.
O acordo entre Citi e os fundos é um dos assuntos que está sendo esmiuçado na Corte de Nova York, onde o banco move uma ação contra o ex-aliado Opportunity. Aliás, o presidente do banco no Brasil, Gustavo Marín, tem depoimento marcado por lá nos próximos dias. Há algumas semanas foi a vez do banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity, revelou hoje Sônia Racy, colunista d’O Estadão.
Em tempo: com a injeção de capital anunciada ontem, os árabes tornaram-se os maiores investidores individuais do Citi. O pessoal jura que, mesmo assim, não terá participação no Conselho ou na direção do banco. Formalmente, digo.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cadê? – 2

Os leitores também reclamaram da falta de imagens. Não seja por isso: mantendo o clima do post anterior, Carla Bruni.

“Nobody Knows You When You’re Down and Out”. Gelson, um foragido, que o diga…

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cadê?

O blog é muito bom, mas precisa de outros assuntos além do caso Telecom. Essa é a impressão geral dos leitores, levando-se em conta os e-mails que recebi. Está difícil conseguir tempo até para as teles, mas posso tentar. Vamos lá.

Há cerca de dez anos, o Brasil viveu um surto de empresas que ofereciam contratos de parceria na engorda de rebanhos, negócio conhecido como “boi no asfalto”. Duas dessas empresas se destacaram: Boi Gordo e Gallus Agropecuária. Prometiam um rendimento meteórico. O que acabou chegando rápido foi a falência e o calote nos aplicadores.

Pois bem. A Gallus foi à lona em 1998 e milhares de pessoas foram lesadas. Em 2004, a Justiça determinou que o dono da empresa, Gelson Camargo dos Santos, era um estelionatário e merecia 11 anos de prisão.

Difícil não prestar atenção em Gelson Camargo. Ele tinha mais de 200 quilos. As pernas cobertas por varizes. Os braços e mãos, por ouro. Seus deslocamentos consistiam em operações de guerra _ ele não cabia em qualquer carro, nem em qualquer cadeira, sentia muitas dores ao ficar de pé, suava e reclamava.

Não me pergunte como, mas Gelson Camargo, o “Gordo Milionário”, provou que tudo isso não o impedia de ser ninja. Fugiu da cadeia. Ninguém viu. Perguntei aos que estão mais familiarizados com o caso se ele tinha feito uma operação no estômago. Disseram-me que não. Agilidade, astúcia e rebolado, como vocês podem perceber, não têm nada a ver com peso.

Talvez o fato de ser boquirroto tenha ajudado Gelson a fazer amizades estratégicas dentro da cadeia. Fora dela, nem tanto. Em 2002, ele acusou em depoimento o marido da ex-prefeita Marta Suplicy, o franco-argentino Luís Favre, de envolvimento com a máfia do ônibus. Favre negou, os empresários também. Gelson ficou caladinho. Depois fugiu. Por onde será que ele anda?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Influenza

Tem gente surpresa com a indicação de Delfim Netto para o conselho curador da TV Pública. Não sei o motivo. Há tempos que o ex-ministro da Fazenda passeia com desenvoltura no governo e no mundo das telecomunicações.

Em meados de 2005, por exemplo, quando Delfim era deputado federal pelo PP de São Paulo, ele foi procurado pelo empreiteiro Sérgio Andrade, dono da Andrade Gutierrez e sócio da Oi (antiga Telemar), para intermediar uma negociação com a Telecom Italia.

Escrevi sobre o assunto na Folha. Foi um rolo danado. A Telemar comprou anúncio para desmentir a tentativa. A tele estrangeira, por sua vez, soltou nota oficial reiterando o contato.

Delfim Netto tinha força junto aos italianos, talvez por conta de sua amizade com o megainvestidor Naji Nahas, hoje na mira dos procuradores italianos.

O Ministério Público de Milão acha que ele é um dos caminhos para provar que a Telecom Italia fazia pagamentos ilegais a políticos brasileiros _ com as bençãos de Marco Tronchetti Provera, então presidente mundial da Telecom Italia.

Nahas andou por aí com uma mala de dinheiro _ R$ 3,25 milhões, para ser exata _ em maio de 2003. A revista Veja denunciou que esse dinheiro foi usado para subornar parlamentares. Mais tarde, a semanal italiana Panorama informou que eram da Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara.

Segundo Nahas, o dinheiro foi recebido porque ele costurava um acordo entre a Telecom Itália e o dono do Opportunity, Daniel Dantas. O presidente da operadora no Brasil, Giorgio Della Seta, endossou.

Até hoje eu não entendi isso. Nahas realmente fez a ponte entre ambos os lados e foi bem-sucedido, mas o contrato entre a Telecom Italia e o banqueiro foi assinado em 2005. O pagamento aconteceu dois anos antes. As datas não fecham.

Também tenho dúvidas se o Bradesco, o banco onde foi feito o saque, avisou ao Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) sobre movimentação tão esquisita. E, se avisou, será que o Coaf investigou? Qual o resultado do inquérito?

Alô, Brasília. Tem matéria aí.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Convidado

Prezados, hoje o dia está corrido. Deixo vocês com Luiz Guilherme Piva, convidado a colaborar com o Arrastão. Eu o conheci quando ele trabalhava na Trevisan. Piva é economista, doutor em Ciência Política e articulista da Gazeta Mercantil.

“Telecomunicações: memórias de um segmento sem malícia

Nossa história política recente terá de ser estudada com auxílio de especialistas em telecomunicações. A privatização e seus desdobramentos têm influenciado – lembra um romance em folhetim – campos em disputa, crises, traições, fugas e mistérios num grau talvez maior do que o que conhecemos ou suspeitamos.

São quase dez anos já, a serem comemorados em 2008, junto com os duzentos anos da chegada do Rei ao Brasil.

Em 1998, éramos uma República havia quase cem anos. Mas era o tempo do príncipe e do Real. A corte tinha interesses imensos no setor e praticamente todos os nobres se envolveram na disputa.

O processo começara, normativamente, em 1995, com o fim do monopólio. Em 1997 e no começo de 1998, a Lei Geral de Telecomunicações e o Plano Geral de Outorgas definiram o processo de privatizações. Que era necessário e importante.

Economicamente, haveria um enorme reforço ao caixa do Tesouro (foram R$ 22bilhões) – combalido com os déficits gerados pelo câmbio congelado por um grão-duque. O sistema precisava se expandir e modernizar: depois do crescimento dos anos setenta, a crise impedira o Estado de investir na década seguinte, produzindo um atraso ridículo e caro. E simbolicamente seria um marco de desregulamentação e modernidade. Quase uma abertura dos portos.

Na conformação dos consórcios, a mão do Estado – ou do trono – se fez sentir. Houve pressão para que os maiores fundos de pensão se aliassem a um dos grupos, feita por gente de sangue azul, ligada ao que viria ser o candidato a herdeiro nas eleições de 2002. O outro nobre pretendente, porém, tinha um irmão no consórcio que seria prejudicado. O imbróglio culminou coma crise dos grampos do BNDES e com demissões na alta cúpula.

Vida que segue, os consórcios se embolaram, se odiaram e se amaram como nos romances. Em 2002 o herdeiro perdeu o trono para um plebeu. Os fundos de pensão mudaram de rumo. O embaralhamento fizera de um gestor – o mesmo grupo que a fidalguia quisera ajudar – o sócio mais importante de uma das companhias em que os fundos e aquele irmão eram sócios.

A briga agora era de foice. Mas no escuro. O gestor se aliou a parte do governo plebeu. Os fundos a outra parte. Houve dinheiro grosso, em parcelas mensais – é o que se diz. Mas o caldo entornou, fez-se luz na camarilha, espirrou gente para todo lado e quase que o governo foi junto.

Hoje a telefonia é moderna, expandida, rápida. A privatização, nesse aspecto, é um sucesso. Mas é cara. Economicamente, foi boa para o Tesouro, embora não a panacéia que se apregoara. E simbolicamente acabou maculada gravemente pelo enredo político derivado: muita gente acha que tudo tinha beneficiários escolhidos. Assim como a abertura dos portos.

E não pensem que a briga acabou. Diferentemente dos romances, é difícil haver final feliz.”