19 de dezembro de 2011

Fim e tal

Que coisa, a despedida. Meio que difícil batucar no teclado um “estou indo, até logo”. Mas eis que o Apostos está se desfazendo e o Arrastão, hospedado aqui há tempos, também. A pesca agora segue em outros mares.

Para você, amigo, só o melhor. Sempre.

Um grande e carinhoso abraço.

2 de outubro de 2011

Só…

… para deixar um beijo para quem ainda passa por aqui. Que a paz esteja em seu coração, bem como a coragem de seguir novos sonhos.

Etta James – The Very Thought of You

6 de agosto de 2011

Sangue de saúva

 

Costumo andar perdida em conversas dos outros, mania indelicada de quem se dedicou por anos a fio a descobrir verdades alheias. E foi numa dessas ocasiões que ouvi duas mulheres conversando, assim, como quem troca receitas, sobre os efeitos que um abuso sexual pode ter sobre a vítima.

Gostaria de ter jogado água fervendo nos ouvidos para que a surdez me protegesse da ignorância, ou ter despejado água em ebulição máxima naquelas bocas maledicentes, ou ainda ter feito chover água fervente sobre o mundo todo, na esperança de que corações frios pudessem ser esquentados antes que a morte do corpo sucedesse a das almas.

Pensando nelas, nas mulheres levianas que falam sobre violência como se discorressem sobre uma marca de requeijão, escrevi o conto abaixo – um amálgama que não retrata fato único, nem aponta personagens mais reais do que eu, você ou a vizinha. Texto que busca apenas alertar quem desconhece suas irmãs, suas amigas, suas sobrinhas, suas filhas. Suas próprias dores, enfim. Também pretende relembrar um comportamento repetido à exaustão pelo agressor e pelo agredido, simbiose maldita, obscura para a maioria.

Durante meses pensei se deveria publicar. O ar entrou e saiu do meu peito, a resposta não veio, o rio da injustiça continuou vermelho, correndo em afronta. É hora de partir, ir embora para bem longe, deixar que o sangue grosso saia das minhas artérias e invada as suas.

E se você não gosta de palavrões, saiba que eu também não. O pior, para mim, chama-se “omissão”. Talvez “cegueira”. Talvez “injustiça”. Talvez “silêncio”. Talvez “esquecimento”.

Se uma única reflexão for despertada por esse texto, agradecerei por ter cumprido um milésimo do meu papel como pessoa digna de ser chamada de mulher.

Estela é menina, oito para nove anos. Foi passar as férias de verão na casa do tio que mora no interior. A casa é muito alegre, em todos os cantos há alguém falando, cantando ou rindo. São muitas primas e primos para brincar. A casa é grande, pé direito alto, pintada em tons de branco.

Nos fundos há um galpão onde o tio guarda o trator e o moedor de cana, além de ferramentas. É lá que os homens trocam as roupas sujas de terra ou de graxa; tia é muito caprichosa e não deixa nada fora do lugar na casa. É tudo imaculado: panelas areadas, chão encerado, almofadas brancas impecáveis. Na cozinha, ampla, fogão de lenha e facas para todos os lados.

Estela está feliz, sente o vento no rosto, faz guerra de lama e aprende a tocar duas notas no violão do tio, cantor de mão cheia. Quando se empolga, ele canta em pé e não toca o violão, apenas solta o vozeirão de barítono. Naquela hora todo mundo faz silêncio, prende a respiração, vira estátua e admira. Menos um moço loiro forte. Ele levanta e pega o outro violão do tio, começa a tocar ainda mais bonito, improvisa perfeito no acompanhamento, valorizando a voz do cantor.

Estela olha fascinada, quase boquiaberta. Pergunta para si mesma se anjo pode não ter asa. O moço vê o olhar dela e dá uma piscadela ao mesmo tempo em que abre um sorriso largo, de dentes perfeitos. Estela sente a vermelhidão pintar as faces, um frio por dentro, como se todo o sangue tivesse subido e deixado o corpo sem vida. O moço olha pra ela a noite inteira. – Quem é aquela menina bonita? A prima mais velha responde que é Estela, a menina da tia, que mora na cidade. – Muito prazer, eu sou o Tiago, namorado da prima. O que você gosta de ouvir?

Estela fica sem graça, a voz dela sai baixinha, fala o nome de um hino da igreja, o moço diz que não sabe como é, pede para a pequena cantar, “um dia uma criança me parou, olhou bem nos meus olhos a sorrir”, – Não, não sei, canta mais, e ela canta, até mais alto, “caneta e papel na sua mão, tarefa escolar para cumprir”, – Que voz bonita, cante mais alto, ela fica faceira, a música ganha impulso, “e perguntou no meio de um sorriso, o que é preciso para ser feliz”, ele começa a acompanhar a no violão, igual fez com o tio, ela se sente importante, “amor como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, viver o que Jesus viveu”, – Muito lindo! É uma cantora!

Estela abre os pulmões como se fosse janela, a luz entra e mexe com o sangue parado no rosto, tudo volta a correr muito rápido, “sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria, e ao chegar o fim do dia eu sei que dormiria muito mais feliz”, – Jesus ficou orgulhoso de você!, diz o moço bonito, ela dorme feliz.

Nas férias, Tiago brinca com Estela. Ensina a correr atrás de galinha, a balançar no bambolê, a fazer palavra cruzada de palavra difícil e a pescar, – Essa menina é muito inteligente, presta atenção em tudo, aprende muito rápido, lembra tudo. Ela pega um peixe colorido, o mais bonito do mundo, mas fica com pena e bota a vara de novo na água, ela torce pro peixe se livrar, mas o bicho só se debate, ela fecha o olho e reza para Deus salvar o peixe, Tiago vê e dá risada, puxa o peixe pra cima, tira o anzol da boca. Só que não devolve o bicho para o rio, deixa o coitado se debatendo em cima do píer, – Depois que machucou não presta mais, não adianta devolver porque estragou, melhor a gente comer.

Estela não quis comer o peixe, era pecado, credo, foi ela que matou, então Tiago jogou o peixe em cima do formigueiro, as formigas saúvas cobrem tudo num segundo, ela só pode olhar de longe porque é alérgica, se a formiga morder incha tudo, fecha o olho de medo.

O moço diz para todo mundo que Estela é sua noiva, vai casar com ela e morar num castelo. A menina ri, faz cara marota. Quem dera ela, gorduchinha, casar com o moço mais bonito do mundo, ele é mais bonito que tudo, nenhum príncipe dos livros é bonito como Tiago. Mas quando eles casarem ele nunca mais vai pescar, porque ela não gosta de peixe morto de olho arregalado e comido por formiga.

 Tiago corta a cana e descasca, – Toma, chupa, é docinho, você vai gostar. Ela gosta, é melhor que qualquer bala. A prima ri, Tiago ri. – Eu sabia que era gulosa, por isso já tem formas. A prima concorda: verdade-a-Estela-tem-peitinho, de novo o sangue puxado para a cara, olha-tadinha-ficou-vermelha-rárárá, ai, ai, ai, o rosto queimando, ai, – Não fica vermelha, você é perfeita, perfeitinha. O sangue sobe para o olho de Estela e cai sem que ela consiga controlar, ainda bem que não é sangue vermelho, é sangue transparente, ninguém vê, porque ela é muito inteligente, presta atenção em tudo, aprende muito rápido, lembra tudo, e na casa dela sempre tem alguém apanhando, e para não deixar a pessoa mais triste ela abaixa a cabeça para chorar, finge que não viu a dor, nem ouviu os gritos, faz isso para respeitar a vergonha dos outros, pois ela ouviu da avó que não tem nada pior do que chorar de vergonha, ela não sabe se é assim, acredita na avó porque a avó é muito boa, nunca bate nela, só nos outros, de modo que a menina sabe chorar de tristeza, mas de vergonha é coisa que só ouviu falar, talvez porque vergonha seja coisa que só os outros têm, ela não, ela só tem tristeza e medo de gente que grita que ameaça que quebra que espanca, o que é muito estranho, porque naquela hora ela queria gritar ameaçar quebrar espancar a prima, aquela desavergonhada que falou do peitinho que Estela nem sabia que tinha.

Os dias de verão passam e a viajante sente saudade da mamãe, quando ela vem, chega nos próximos dias, vamos fazer um banquete, costelinha e bisteca, tua mãe adora, vamos matar um porco. Estela não quer ver ninguém morrer, nem peixe, nem porco, nem gente, mas quer a mãe feliz, será que dá para fazer costelinha e bisteca sem porco, não dá, então de manhãzinha o fogo arde no terreiro, água ferve na panela de ferro, o tio dá uma faca para um amigo, fica com outra, dá para Tiago a maior, porque o moço é forte e rápido, e o tio não está mais tão rápido, a idade guincha alto, igual o porco, o bicho pressente que vai morrer, a menina sente dor no coração, tomara que a mãe goste tanto assim de carne de porco, mesmo se ele for velho, de perna amarrada, de focinho amarrado, deitado no chão com olho esbugalhado, todo mundo que morre fica com o olho maior?

Estela fecha o olho de medo, a voz de Tiago consola, – Não precisa fechar o olho, que eu sei matar, nem vai doer nada, nada, nada, você é uma moça corajosa, não é, gente de coragem não fecha o olho, sacrifício é uma coisa importante, o porco vai dar a carne dele pra tua mãe comer, você não gosta da tua mãe, ela gosta, ela abre o olho, ela vê Tiago enfiar o punhal na veia do pescoço do porco, o sangue esguicha, o tio apara o rio vermelho na bacia, o olho dela enche do sangue do porco, o ouvido enche de gritos dos primos, o sangue de porco sai do olho da menina, porque o porco morreu pra deixar a mãe feliz, justo a mãe, que não gostava de ver ninguém sofrer, era tão boa mãe, talvez porque sofrimento tem cheiro, cheiro de suor de homem, de terra, de carne de porco, de olho de porco, de sangue de porco e de sal do olho de menina da cidade, menina-estrela que não acredita em faca sem dor, nem em porco sem mãe, nem em príncipe com sangue na mão. Estela corre pra dentro do galpão e se encolhe num canto. Dá para ouvir o maçarico torrando a pele do porco, dá para sentir de longe a faca rasgando o couro do bicho, dá para ouvir o barulho mole da barrigada caindo em outra bacia.

Fecha os olhos como se fosse a tampa de uma caixa de aço, tampa os ouvidos com a mão, quer de novo a sua casa lá longe, os livros, o colégio cheio de menino mole e branco que é matador só de tempo. Cadê a mãe que não chega e deixou a criança sozinha pra ver tanta morte? Estela sente que está sendo olhada, levanta os olhos, Tiago está com a faca na mão e sorri, o peito uma sangueira, era avental aquilo, não era?, ele tira, ele põe a mão na braguilha, ele abaixa a calça jeans, ele abaixa a cueca preta, tudo inchado dentro do olho de peixe-porco dela, tudo preto dentro da garganta dela, dentro do peito dela, – Menina da cidade, você precisa aprender tanta coisa… Eu vou te ensinar, porque nenhum outro vai saber abater, tão perfeitinha.

O olho arregalado, bicho, animal, esterco, Estela, faca, sangue, – Mostra o peitinho pra mim, mostra, que eu tô doido pra ver, esse peitinho tenro que ninguém nunca viu, a mão dele que sobe e desce na coisa inchada, avermelhada, arroxeada, ela não sabe o que é aquilo, nunca viu, parece linguiça, será que linguiça é aquilo do porco, do que é feita a linguiça, tem linguiça de outro bicho, linguiça de peixe ela nunca comeu e o pensamento vai sendo todo comido, vai pra longe, ela não está mais ali, não vê aquela porquice, – Pega aqui! Pega aqui! Pega aqui com essa mãozinha, você vai gostar, eu vou casar com a menininha, a menininha tem que saber fazer afago, menina que não faz carinho não casa, fica solteirona, porque homem não gosta, homem gosta de afago e beijinho, deixa mostrar como faz…

Estela longe não ouve o que ele fala, não vê nada, gente limpa não se toca, a avó disse pra ela uma vez, quando ela era pequena, Estela era limpa, não se tocava nunca, nunca iria se tocar, limpeza é coisa importante e ali saía xixi, saía cocô, sujeirada imunda, não podia botar a mão ali, credo, fecha o punho, fecha o olho, tampa o ouvido com o punho fechado, como ela inventa coisas, a Estela, porque ela é muito burra, não presta atenção em nada, não adianta instruir que não aprende, ela esquece, ela é burra, burra, burra, não é porca, porca não, é burra, não sabe pegar naquela coisa inchada, não sabe subir e descer a mão, aquela mão não é dela.

Estela é um peixe de olho arregalado que quer voltar pra água, alguém já viu peixe com mão?, não viu, não viu, não tem, não tem nada, peixe com mão é igual menina com peito, não existe, só se a mão apertando o botãozinho for a mão de outro, menina-peixe não tem braço pra levantar e tirar a blusa, não tem peitinho pra boca de homem chupar até ficar durinho, muito menos mão pra empanar linguiça e ouvido pra ouvir coisa que faz o sangue sair correr da cabeça até o meio das pernas e depois correr de novo para a cabeça, como mercúrio no termômetro, que a gente põe debaixo do braço, a coisa inchada também, ele esfrega no peito dela, aninha no sovaquinho dela, manda ela fechar o braço e apertar pra espalhar a quentura, ela não liga porque não está lá, não tem braço, saiu nadando, está longe na água do rio, tudo limpinho e transparente, igual ao sangue dos olhinhos dela, sangue de vergonha é transparente, – Abre o olho, bonequinha, olha pra mim, você tem de ver direitinho pra aprender, ela fecha o olho forte, fecha as pernas forte, fecha o braço forte, ele geme de dor, ela espremeu a coisa inchada, ele bate no rostinho dela, ele dá croque na cabeça dela, dói tudo, ela nunca apanhou, ainda bem que é burra, burra empaca quando apanha.

Ele bate de novo, agora ela é peixe e morreu, não!, é burra e morreu, peixe fica de olho aberto, ele dá um soco no peitinho dela, ela está morta e está gelada, por isso cospem nela, por isso que está gelada, não porque está com medo de um peito crescer mais que o outro – ela tinha ouvido que quando a gente bate o peito ele fica grande. Ela não queria ter peito grande, nem peito ela queria, peixe não precisa de peitinho, só de boca para o anzol entrar, o anzol dele entrou na boca dela, uma coisa áspera, o que é aquilo?, língua, não volta!, vai nadar, é só anzol, é só o anzol, – Chupa, cadelinha, chupa, chupa minha boca, mama gostosinho que você nasceu pra isso, nasceu pra ser putinha, putinha perfeita porque começou cedo, eu vi você dançando, você sabe rebolar, toda putinha sabe rebolar e chupar, é bom você começar cedo pra ter experiência, eu vou ensinar tudinho, você tem que me agradecer porque vai ter todos os homens na palma da sua mão, que mão?, estrela não tem mão, peixe não tem mão, burra não tem mão, nem porco tem mão, mas será que eles têm mãe?, cadê minha mãe?, mãe salva eu, salva eu porque eu não tenho pai, só tenho tio, mas o tio só sabe cantar, cadê, cadê, cadê, o único pai que fala comigo é o pai-nosso que estais no céu santo-e-ficado seja o seu nome, pai fala comigo!, pai não vira o rosto pra mim, sai do céu e vem pra terra, salva eu, por favor, mata eu, leva eu porque, pai, não quero comer agora, pai não gosto de linguiça, pai tem gosto ruim, pai o anzol na minha língua, pai estão espremendo minha cabeça, pai eu vou sufocar, sujo, sujo, sujo, – Homem gosta de sujeirinha, a gente lambe, olha só, eu não tenho nojinho de você, eu quero você, tesãozinho, tão pequenininha e já chupa piroca mais gostoso que tua prima, abre a perninha, abre, abre os olhinhos, abre, abre o bracinho.

Estela não abre nada porque não está ali, está no pé da cruz, vendo o Menino grande de olhos abertos, de braços abertos, mas a perna ele não abre nunca, nunca, nunca, – Tão perfeitinha, não deixa, né? Menina inteligente, menina esperta, menina linda, não deixa ninguém entrar em você pra não estragar, tá certo. Mas eu vou pegar na xoxotinha, vou pegar, que não é bom passar vontade, deixa, é gostoso, você vai querer mais, deixa, deixa, é gostoso, não faz mal, abre os olhinhos pra você ver, tem mais gente aqui te olhando, não sou só eu, olha ali o filho do capataz, tá gostando, Juninho, vem aqui pegar, vem… a mão forçando caminho, de quem é a mão, quanta mão, o dedo mexendo, a boca mexendo, tem mais boca, não tem nada.

Estela não tem nada, ela não está ali, ela está no teto olhando, sem fechar os olhos, a mão do Tiago mexendo pra cima e pra baixo, a mão do Juninho mexendo pra cima e pra baixo, ela jogada e morta, tudo mexendo, tudo esquentando, a língua no anzol, o dedo na sujeira, o corpo de Estela tremendo, eu sou peixe, peixe morrendo, tira o anzol da minha boca e me joga na água, aquele tremelique todo, aquele zum no ouvido, o sangue que espalhou pra todos os cantos do corpo, que corpo?, nenhum corpo, nenhum sangue, só uma gosma cobrindo a frente dele, do peitinho até embaixo, uma gosma meio esbranquiçada, meio transparente, era sangue dele, sangue de vergonha, ela acha que é, mas também não sabe se não é, porque ela é muito burra, não presta atenção em nada, não adianta instruir que não aprende, ela esquece, ela é burra, burra, burra, ela nunca mais vai ter certeza de nada, porque tinha certeza que ele era príncipe, mas ele era porco, e agora ele era nada, porque ele nem estava mais ali, ela estava sozinha na gosma, com medo de abrir o olho, com medo de fechar o olho, com medo de furarem a garganta e o sangue sair esbranquiçado ou transparente de vergonha.

– Se você contar para alguém eu vou furar a sua garganta e você vai morrer igual ao porco, né, Juninho? A leitoinha da cidade. Vamos embora, Juninho, acabou a festa.

Não sabe o tempo quanto demorou pra acudir, colocou a roupa e foi andando na direção do rio, menina-peixe, ela ia se lavar, a água ia levar ela pra casa, lá onde não tinha rio, nem galpão, nem música, nem primo, nem sangue, nem porco, tudo limpinho, a avó não deixava sujar, sequer andar sem sapato ela podia, nunca que na casa dela gosma branca podia, onde já se viu lambuzar as pessoas, falta de educação, e Estela era muito educada, nunca respondia, nunca revidava, nunca erguia a voz, menina-boneca, amiguinha, mimadinha, fofolete, mãezinha, desculpa, a menina não pode esperar, foi pra casa sozinha, menina-burra, tropeça, cai sentada no formigueiro, aquele batalhão avança pela bunda pela barriga pelo peito, come a gosma, ave-maria cheia de graça, menina-porca cheia de gosma, cobre a menina, a menina é peixe-boneca-porca, não se mexe, não tem dor, arregala bem os olhos, a formiga sobe na pálpebra, no cílio, na boca, menina-cega, menina-surda, menina-morta indo encontrar o pai-nosso que está no céu.

A mãe chega na casa do tio que mora no interior. A casa é muito alegre, em todos os cantos há alguém falando, cantando ou rindo. São muitas primas e primos para brincar. A casa é grande, de pé direito alto e cores brancas. A mãe grita por Estela por muitos minutos, vai na janela e grita, o barulho das facas balançando na cozinha, hum, tem bistequinha, que delícia, onde está minha filha, pergunta por ela, ninguém viu, a mãe é muito boa mãe, muito preocupada, grita de novo até ver Estela caminhando na direção dela com um véu preto na cabeça, é uma artista essa menina, nasceu pra brilhar, essa menina é muito inteligente, presta atenção em tudo, aprende muito rápido, lembra tudo, sabe a história do descobrimento do Brasil desde os três anos, gosta de livro desde bebê, incrível, o que é isso, minha filha, formiga!, entra no chuveiro, ai, minha nossa senhora, olha o rio de formiga descendo pra baixo dessa menina, ai, Jesus amado misericordioso, olha os roxos no corpinho dela, olha a carinha dela cheia de hematoma, ai, Senhor Deus de todas as coisas, salva minha filha, a garganta dela está fechando, ela está desfalecendo, ela é alérgica.

Vamos correr pro médico, quem leva, o Tiago leva, tia, graças a Deus, meu filho, moço de bom coração, – Eu gosto muito dela, é uma princesinha, não vai acontecer nada, não vai acontecer nada!, injeção de adrenalina, soro, remédio amarelo, remédio rosa, pomada, compressa, ainda bem que você estava lá, meu filho, se demorasse ela morria, Tiago chora, a prima chora, o tio chora, a mãe chora.

Estela não chora, Estela está morta, foi comida pelas formigas.

Três dias depois, Estela acorda morta no hospital da cidade grande. O corpo está cheio de vergões, bolotas e roxos, mas ela não fala e não vê. Os olhos foram envenenados, nunca mais vão funcionar. A boca é uma ferida só. Os médicos disseram que a perda da visão é irreversível e que melhor ela não abrir os olhos, porque não tem mais o arco da íris. A água no corpo sim, vai sair, Estela não vai ficar gorda daquele jeito pra sempre, é tudo inchaço, tudo água. O meio das pernas, o lugar mais inchado, flor de carne desabrochada, vai demorar um pouco mais, afinal não é todo dia que uma menina senta numa casa de saúvas.

Afetou mais alguma coisa, doutor? A cabecinha dela? Não, mãe, não se preocupe, a cabecinha dela não foi nem um pouco afetada, continua uma mocinha inteligente. O problema foi só a vista. Então está tudo bem, tudo bem, graças ao Menino Jesus, que olhou e vai olhar sempre pela minha filhinha. Amém.

30 de junho de 2011

Cantata

Durante três anos roubaram minha voz. Andei assim, cabeça pendida, pé arrastado, no aguardo de uma verdade que custava a aparecer. Hoje, finalmente, tudo começa a ser desvelado. E eu não consigo imaginar música melhor para voltar a cantar. ;)

Cry me a river

13 de junho de 2011

Brucutus sem memória

Há tempos ando em silêncio, a fiar os dias com palavras alheias. Não é algo de todo ruim – fica mais fácil a ilusão de ter maturidade quando a verborragia se transforma em observação. Mas eis que o mundo é prova, testa a paciência, e eu nem sempre obtenho boas notas. Como hoje, por exemplo.

Leio n’O Estadão que a presidente da República pretende manter sigilo eterno para documentos oficiais. Segundo a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, “o governo vai se posicionar assim para atender a uma reivindicação dos ex-presidentes Fernando Collor (PTB-AL) e José Sarney (PMDB-AP), integrantes da base governista”.

Ou seja, escancararam para nós, os pés-frescos, como é feita a política pelas bandas de cá: sem idéias, sem argumentos, sem elegância, sem princípios, sem limites, sem retoques. É o Brasil brucutu, eterna colônia de si mesmo, vazio de ordem e engabelado pelas migalhas de progresso.

Por aqui uma elite agreste substitui a anterior. Nada oferece além da própria ignorância.

Eu não pintei a cara e saí às ruas, defendendo o impeachment, para ver Collor, aquele que foi acusado em público pelo irmão e que seqüestrou a poupança da classe média, ser reverenciado à custa da história do povo.

Eu não escrevi tantos anos sobre economia, lembrando inclusive os planos mequetrefes patrocinados pelos anos Sarney, para ver um senhor que vive de fardões a se arvorar como guardião dos segredos de Estado.

Nem vou entrar no mérito de Ideli Salvatti ser tão talhada para o cargo de articuladora política quanto o analista de Bagé para a função de professor de etiqueta. Parece óbvio que nenhuma desenvoltura é necessária quando a moeda de barganha é o apoio a leis que beneficiam meia dúzia em detrimento da maioria.

O problema é outro.

Roubar a possibilidade de historiadores pesquisarem o caminho trilhado por seus governantes é um dos piores crimes que podem ser cometidos contra um país. Ocultar os fatos equivale a estilhaçar a memória de uma sociedade – como, sem conhecimento de si, ela poderá avançar de maneira sólida, na direção correta?

É preciso, portanto, deixar o mutismo de lado e protestar, sob pena de coadunar com esse ultraje às gerações futuras.

Há inúmeros avisos sobre a ingenuidade excessiva sobre o passado. Exemplos são Orwell e seu “1984″, ou Voltaire no conto “A aventura da memória”.  No texto, o francês descreve como as Musas castigaram um país retirando dos homens a habilidade de recordar. O lugar, claro, virou uma total mixórdia. Ninguém se entendia. De modo que todos iriam morrer de miséria e fome, por falta de entendimento mútuo. Após alguns dias, porém, as Musas tiveram pena e rogaram que sua mãe, Mnemósine, a senhora das lembranças, tivesse piedade. Ao restituir a inteireza das faculdades mentais aos homens, a deusa advertiu: “Perdôo-vos, imbecis, mas lembrai-vos de que sem sentido não há memória e sem memória não há senso”.

Pois é.

13 de maio de 2011

Eros e Tânatos

Foi há dois meses ou pouco mais, num domingo perdido de sol e chuva. Ao meu lado a amiga caminhava entre as pedras do cemitério como se não tivesse pés, só abraços. Ela, exemplo de força e inteireza, falava sobre a angústia de perder a irmã para um câncer lancinante. Eu, avesso do usual, contava as palavras e guardava comigo o padecimento de ser incapaz de serenar aquela dor.

A inabilidade do meu quase silêncio perdia-se a meio de anjos triunfantes, seres mitológicos e heróis da cavalaria, mulheres rogando aos céus por explicação, um homem sentado à mesa com olhar vazio diante da cadeira desocupada. Todos pétreos, mas simbólicos e expressivos. Sentinelas da ausência.

Várias estátuas passaram diante de nós até uma capturar os olhos. Eram dois amantes, emersos do mármore negro. Deitados, a cabeça dela repousava nas mãos espalmadas dele, seios premidos pelo braço forte. A musculatura de ambos, bem delineada, gritava vigor. Entregavam-se a um último e amoroso beijo.

O inusitado da obra – um casal em flagrante ato de entrega no meio do cemitério – fez com que eu me aproximasse. Detalhes do que vi esvaneceram na memória. Ficou, no entanto, a lembrança de duas lápides. Na primeira, as datas de nascimento e morte indicavam a vida curta do homem. A segunda mostrava o falecimento da mulher décadas após a passagem do marido. Continha uma frase reveladora: mais de 40 anos depois, ela seguia para encontrá-lo.

O amor e a morte. Juntos, talvez sejam os dois maiores mistérios legados pelo Eterno. Talvez. Mas qual é o significado de Eros e Tânatos para nós, os estranhos mandatários do século XXI? Como a maioria contemporânea, sei muito pouco a respeito de um monte de coisas, praticamente nada de maneira densa. Nenhuma ideia, portanto, de como responder a tais perguntas. Além disso, nascida nos anos 70, ou numa dessas por gênio ruim, minha realidade fez-se mais de separações do que de encontros.

Arrisco somente o fácil: continua arrebatadora a ideia de um amor que sobrevive às intempéries da falta e do tempo, a despeito de classificada por muitos como tolice.

Na concepção desses muitos, relacionamento sério é sinônimo de um clique nas páginas eletrônicas das redes sociais e a morte não passa de um incômodo diário na retina, que chega por meio da TV ou de um site de vídeos amadores. Terroristas caçados, atiradores em escolas, massacres étnicos, desastres naturais, casamentos de reis, separação de artistas… Qual a diferença, afinal? Se algo der errado é só mudar o status, apagar depoimentos, sair do comunicador instantâneo, trocar o canal. Nos casos mais agudos, desliga-se tudo e pronto. Reboot.

Palavras do poeta Miguel Torga: gastamos as horas e os dias a endurecer a forma da emoção.

Às vezes, porém, a realidade traz o lirismo que teimamos em rejeitar, mesmo quando o sofrimento é manto da situação. Pude comprovar isso ontem, na segunda visita ao cemitério em menos de uma semana. Os pais de outra amiga, tão querida quanto a primeira, faleceram com dias de intervalo entre si. Deixaram quatro filhos de valor, entre eles a minha amiga, personificação de tenacidade, lealdade e coragem para todos que a rodeiam.

A mãe, italiana exuberante e temperamental, foi primeiro. Passados cinco dias era a vez do pai, um senhor inteligente, compassivo e generoso. Seguiu a mulher no dia do aniversário de casamento – ao todo, 62 anos de união. “Tenho certeza que ela pediu a presença dele. Conhecendo os dois é fácil saber que ele jamais diria não”, disse um dos netos.

O que haverá de comum a amores com tal envergadura? A fibra ou a flexibilidade? O empenho ou a fortuna? Mais uma vez quedo sem resposta.

Limito-me a desejar que você, leitor, dê as costas ao cinismo dos nossos dias e viva algo semelhante, se assim o quiser. E que meu desejo coincida com a chegada ou a confirmação do Amor com letra maiúscula, liame de ouro na alma e no espírito, desses que nem a morte consegue separar.

15 de fevereiro de 2011

D’algum lugar que não sei onde

30 de dezembro de 2010

Que venha 2011…

… e traga alegrias, muitas.

24 de dezembro de 2010

Feliz Natal!

10 de novembro de 2010

Ritmo de festa

Aí o amigo diz: “não deixe o samba morrer”. Mesmo que eu quisesse, como? Sílvio Santos veio aí. O homem é mesmo um colosso. Entretenimento garantido.

Seu Sílvio foi ao Planalto em setembro, pouco antes das eleições, pedir R$ 12 mil do bolso do presidente da República. Levou R$ 2,5 bilhões do dinheiro público, vindos do Fundo Garantidor de Crédito. O montante seria destinado a cobrir o rombo no balanço do banco Panamericano.

Todo mundo sabe que Sílvio Santos vendeu uma gorda fatia do mesmo Panamericano para a Caixa Econômica Federal por R$ 739 milhões há menos de um ano. Bastante dinheiro, dirá você. Não o suficiente para que a CEF ganhasse o controle, responderei eu.

Jornais de hoje foram às bancas com a seguinte pérola: Sílvio Santos cobrirá o rombo do Panamericano e deu parte do patrimônio pessoal em garantia do empréstimo.

Ma…aaa..ôôô…oi! Todo mundo que consegue financiamento bancário precisa apresentar garantias! E quem vai avaliar os ativos do seu Sílvio? O mesmo grupo que deveria ter esquadrinhado as contas do Panamericano para garantir que a Caixa fizesse um negócio decente? Rarraí!

Garantia só há uma:a de que a visita do showman ao Planalto permitiu bonitas fotos ao lado do presidente Lula. Tais imagens, difundidas para todo lado, certamente angariaram votos para “a companheira Dilma”.

Também é certo que o SBT de Sílvio Santos foi o primeiro (não o único) a sustentar que José Serra foi atingido na cabeça por uma bolinha de papel lançada pelos manifestantes favoráveis ao PT. Leviano supor que a reportagem tenha algo a ver com a festa do patrão. Mas não é leviano, creio, considerar que outra baciada de votos de indecisos foi parar no colo da situação depois que o tucano ganhou a pecha de catimbeiro.

Por essas e outras passei por aqui só para dizer que estava errada sobre escrevi em 3 de outubro – “não dá para atrasar a prestação do carnê do Baú, sob pena de perder tudo o que foi pago antes”. Claro que dá. Basta que você seja o dono do Baú.

O governo gasta mal o dinheiro público. Viu-se obrigado a despejar R$ 2,5 bilhões no bolso de Sílvio Santos depois de a Caixa Econômica Federal ter destinado R$ 739 milhões para se tornar acionista, não controladora, de um banco “micado”. Aquisição possível, diga-se de passagem, graças ao surrealismo da medida provisória 443, uma maçada que, a princípio, está de pé até meados do ano que vem.

Recursos do povo de terceiros são usados para neutralizar os efeitos da lambança da Caixa. Enquanto isso, o governo batalha para aumentar os impostos e investe no ensino superior um percentual ridículo. É de amargar.

O que mais me surpreende é não terem achado problemas nas cifras do Panamericano. A Caixa está nas mãos da mesma equipe de um governo que infla o superávit primário. Portanto, o pessoal ali tem, ou deveria ter, know how de sobra quando o assunto é conta mascarada.

Talvez seja o caso de perguntar “ma-mas a caravana vem de onde-m?”